Origem: Livro: Os Evangelistas
Marcos 16
Este capítulo nos dá a quarta e última parte do nosso Evangelho.
Ela nos mostra Jesus em ressurreição. É como Mateus 28, como Lucas 24 e como João 20-21; tendo, no entanto, como todo o resto, suas próprias características.
A descida do anjo para remover a pedra, impondo a sentença de morte aos que a guardavam, é peculiar a Mateus, e na meditação anterior sobre esse Evangelho considerei o porquê disso.
Temos, no entanto, as palavras do mesmo anjo para as mulheres que tinham ido ao sepulcro; pois isso era uma expressão de graça, e era assunto adequado para nosso evangelista. E essa mesma companhia de mulheres recebe do mesmo anjo a mesma mensagem que receberam conforme registrado em Mateus, mas com esta adição, que Pedro é mencionado pelo nome. “Ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro que Ele vai adiante de vós para a Galileia; ali O vereis”. As palavras, “e a Pedro” são adicionadas em Marcos – e isso estava em total consonância com a atenciosa e compassiva graça deste Evangelho; pois Pedro bem poderia ter precisado dessa bondosa e especial consideração naquele momento. Ele havia se evidenciado tristemente no meio de seus irmãos; e seu Senhor agora o evidencia graciosamente no meio dos mesmos irmãos. Isso é cheio de caráter.
A corrupção dos guardas do sepulcro pelos principais sacerdotes e anciãos do povo é deixada de lado aqui. E isso de maneira apropriada. Esse era assunto para ser notado em Mateus, assim como a remoção da pedra; pois isso deu causa ao dito que é divulgado “entre os Judeus, até ao dia de hoje”, e, portanto, estava dentro do escopo do Espírito naquele evangelista, e não em Marcos.
Temos aqui alguns relatos gerais dos encontros que o Senhor ressuscitado fez a Seus discípulos e, da mesma forma, da lentidão de coração deles para crerem na ressurreição. E aqui deixe-me perguntar: Essa lentidão nos surpreende? Eu diria que não surpreende. É verdade, de fato, que podemos nos perguntar a nós mesmos e dizer: “Pois quê? Julga-se coisa incrível entre vós que Deus ressuscite os mortos?” Mas, por natureza, não temos o conhecimento de Deus, como o apóstolo fala, sobre este assunto (1 Co 15:34). “Haveria coisa alguma difícil ao SENHOR?” Não; mas nosso coração está endurecido. Em dias anteriores, os apóstolos não haviam considerado o milagre dos pães e dos pedaços recolhidos, justamente porque o coração deles estava endurecido (Marcos 6:52); e aqui é a dureza de coração que tem que explicar essa incredulidade. E assim como, por natureza, não pensamos dignamente sobre Seu poder, também não pensamos dignamente sobre Sua graça. Estamos todos perdidos. Não estamos dispostos a receber nenhuma boa notícia de Deus. A ressurreição de Jesus, o fruto pleno da graça divina, é anunciada e propagada; mas não é crida, apenas porque nosso coração é duro. A carne pode ser impura, como de fato é, viciosa e violenta também. Mas, além disso, para dar a ela seu lugar e caráter totalmente revoltados, devemos dizer ainda que ela recusa a mensagem da graça e da salvação de Deus. E um dos frutos seguros e doces de uma mente renovada é sua faculdade de pensar bem e com alegria a respeito do Bendito, vendo Sua glória na face de Jesus. A homenagem de uma alma que se afastou dos caminhos tenebrosos, endurecidos e errantes da natureza é então prestada a Deus. E isso é vida eterna em nós.
O Senhor ressuscitado tem aqui, em Marcos, como em todos os Evangelhos, que repreender essa incredulidade dos apóstolos. Mas Ele a remove, assim como a repreende – perdoando-a. Aliás, não somente isso, mas selando esse perdão pela mão de um testemunho de grande dignidade – pois Ele os coloca no ministério, confiando a honra e o poder de Seu nome a eles diante de toda criatura.
Mas, além disso, é somente neste Evangelho que as mulheres que foram ao sepulcro se perguntam como elas vão remover a pedra da porta; pois elas não sabiam ainda que, bastava chegar o terceiro dia, e o Senhor não poderia ser retido pela morte. Assim como é somente neste mesmo Evangelho que Pilatos se maravilhou de que Ele tivesse morrido tão rapidamente, quando José veio pedir-lhe Seu corpo; pois ele não sabia que, cumprindo-se toda a Escritura, o Senhor entregaria Seu espírito (veja João 19:28-30; Atos 2:24).
Os pensamentos naturais dos santos os colocam em estreita companhia com os pensamentos e raciocínios dos filhos dos homens, como nessas ocasiões. Pilatos e as mulheres piedosas estão em ignorância semelhante. Mas a graça sempre abunda. As mulheres no sepulcro são instruídas e confortadas; e os discípulos são comissionados a levar o nome de seu Senhor para toda criatura.
A comissão aqui, no entanto, tem seu próprio caráter, com todo o resto. Ela simplesmente dá aos apóstolos trabalho a fazer. “Ide por todo o mundo”, diz seu Senhor a eles, “pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado”.
Não é o discipulado de todas as nações que é aqui contemplado, como em Mateus, para a glória d’Aquele que agora cumpriu todas as coisas e está exaltado; é o testemunho universal com aceitação parcial – o resultado comum do serviço no evangelho. Como é dito do ministério de Paulo no final dos Atos dos Apóstolos – “alguns criam no que se dizia, mas outros não criam”. Portanto, a forma que a comissão aos apóstolos por seu Senhor ressuscitado assume aqui simplesmente contempla o serviço e seus resultados, e está, portanto, em plena consonância com todo o Evangelho.
E, ainda mais impressionante, o próprio Senhor, embora prestes a ser glorificado nas alturas, será encontrado, como as palavras finais nos dizem, em serviço também. Pois é aqui, e aqui somente, que lemos isto: “o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-Se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando [trabalhando – JND] com eles o Senhor e confirmando a Palavra com os sinais que se seguiram”.
Assim, nosso Evangelho se encerra no caráter com o qual havia se iniciado, e que havia preservado por toda parte. Ele se iniciou com o Senhor em serviço – “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” – e se encerra revelando-O a nós, embora oculto e glorificado no céu, como ainda “trabalhando”. Jesus está em ministério, seja Ele como o Rejeitado entre os homens na Terra, ou como o Aceito à direita de Deus no céu, onde todos os principados, autoridades e potestades Lhes estão sujeitos. Ele “andou fazendo o bem”. Comprovou, de fato, ter vindo entre nós, não para ser servido, mas para servir. Como tal, o Espírito Santo em Marcos primeiro O contemplou, e como tal Ele O mantém em vista até o fim.
Muito apropriadamente seu Evangelho ocupa seu lugar após o de Mateus, e antes dos de Lucas e João; embora, como observei no início, pudesse ser considerado como o último. Ele vem depois de Mateus; porque ali Jesus, como Messias, está testando Israel – e essa foi a primeira coisa que o Senhor teve que fazer, em Sua vinda ao mundo, e entrando em Seu curso santo e maravilhoso. Vimos isso no artigo anterior sobre Mateus. Ele vem antes de Lucas e João; pois aqui em Marcos, o Senhor Jesus é o Servo da graça e deleite do Pai em Israel; em Lucas, Ele assume uma cena de ação maior e mais elevada, como um Mestre e um Homem ungido, tratando moralmente com os homens; e finalmente em João, Ele sobe ao mais alto, como na graça divina, na solitude e na soberania, tratando com pecadores.
Deixaremos, portanto, cada um dos Evangelhos exatamente onde os encontramos colocados pela mão de Deus; e os aceitamos exatamente como os encontramos sob o Espírito de Deus. A lâmpada foi acesa e colocada no castiçal. Cabe-nos apenas, pela fé, reconhecer que é a lâmpada do Senhor, para andar nessa luz através das trevas deste mundo presente, esperando por aquele mundo vindouro, do qual ela é a testemunha brilhante e infalível.
