Origem: Livro: Os Evangelistas

João 2:23 – 3:21

Assim, a alegria do reino foi exibida, o poder do reino exercido, e o título do Senhor para o reino estabelecido e pleiteado. Agora, no devido tempo, o título de outros para entrar no mesmo reino com Ele se torna a questão, e esta questão consequentemente é aqui discutida. Este assunto é santo e solene e afeta profundamente a todos nós.

O homem é uma criatura em quem o Senhor, o Criador, não pode confiar. A quebra de fidelidade de Adão no jardim o tornou assim. O homem fez tudo o que pôde para transferir a glória de Deus para as mãos de outro. A dispensação da lei provou que ele ainda era indigno da confiança de Deus, e esse caráter é aqui estampado no homem pelo próprio Senhor. “O mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia”.

Ele sabia o que havia no homem, e não conseguia encontrar nada em que pudesse confiar. Que sentença! Não, mais do que isso. O homem, como ele é, nunca pode ser melhorado a tal ponto de Deus confiar novamente nele. As afeições do homem podem ser despertadas, a inteligência do homem instruída, a consciência do homem convencida; mas ainda assim Deus não pode confiar nos homens. Assim, lemos que “muitos, vendo os sinais que fazia, creram no Seu nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles”. O homem nisso estava dando o melhor de si; ele foi movido pelas coisas que Jesus fez; mas ainda assim o Senhor não podia confiar nele. Portanto, “necessário vos é nascer de novo”.

A necessidade de nascer de novo ou, como é comumente expressada, de regeneração, é bem entendida e certamente reconhecida entre os santos. Mas não há um caráter mais simples e distinto no novo nascimento do que é geralmente apreendido? Eu julgo que há. Pois a doutrina comumente levanta na mente uma noção de algo estranho e indefinido. Mas isso não precisa ser assim.

Nicodemos tinha vindo como um aluno a Jesus. “bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus”, ele diz; ao que imediatamente o Senhor lhe responde que ele precisa nascer de novo. Mas Ele não encerra Suas palavras com ele até que Ele o direcione para a serpente de bronze, ensinando-lhe que é lá que ele deve ir para, por assim dizer, colher a semente dessa nova vida necessária.

Em que caráter, então, ele deve tomar seu lugar ali, e olhar para o Filho do Homem levantado na cruz? Simplesmente como um pecador, um pecador consciente, carregando, como o israelita mordido, a sentença de morte em si mesmo. Nicodemos ainda tinha que se reconhecer como tal, pois ele não tinha vindo assim a Jesus; e, portanto, ele deve começar sua jornada novamente, ele precisa “nascer de novo”, ele deve chegar a Jesus por um novo caminho, e em um novo caráter. Ele se julgou um aluno, e Jesus um Mestre vindo de Deus; mas ele ainda não entendia que ele mesmo era como um pecador morto, ou como um homem mordido pela antiga serpente, e o Filho de Deus como um Espírito vivificador, um Redentor justificador; e assim o solo de seu coração nunca havia recebido a semente da vida.

O caráter desta vida, esta vida eterna, esta natureza divina em nós, é assim tão simplesmente definido quanto sua necessidade: O segredo dela está em conhecer Jesus, o Filho de Deus, como um Salvador, em vir a Ele como um pecador convicto, olhando para Ele naquela virtude que a serpente de bronze carregava para o israelita mordido. E, como sugerido por outras partes deste Evangelho, é muito doce traçar o caminho de Nicodemos a partir deste estágio. Ele tinha, como vimos, até então se enganado quanto ao seu caminho; mas, embora possa lhe dar uma jornada mais longa, isso prova, a partir da direção que Jesus aqui lhe dá, no final, uma jornada correta e segura. Pois, no próximo estágio, o vemos defendendo Jesus na presença do conselho, e encontrando algo da reprovação do Galileu rejeitado (João 7). E, no final, ele está onde o Senhor o dirigiu neste início, no lugar desta serpente de bronze. Ele olha para o Filho do Homem levantado sobre a cruz. Ele vai até Jesus, não como um aluno vai até um mestre; mas ele vai até Ele, e O reconhece, e O honra, não mais à noite, nem meramente na presença do conselho, mas em plena luz do dia, e na presença do mundo, como o Cordeiro de Deus ferido, moído e traspassado (João 19).

Assim, discernimos o caráter, tão simplesmente quanto aprendemos a necessidade, desta nova vida. Descobrimos a semente que a produz. O poder divino, o Espírito Santo, que preside tudo isso em Sua própria energia, trabalha de uma maneira além de nossos pensamentos. Seja o vento ou o Espírito, não conhecemos o caminho dele. Mas a natureza da semente que Ele usa, e do solo em que Ele a lança, são assim tornados conhecidos para nós. Uma é a palavra da salvação, o outro é a alma de um pecador convicto.

E esta vida que flui por toda a família de Deus é espírito – porque Jesus, o Segundo Homem, o Cabeça dela, é “Espírito vivificante” – e “o que é nascido do Espírito é espírito”, como nosso Senhor ensina aqui. Esta é a nossa nova vida. É vida eterna, infalível, permanecendo, seja na Cabeça ou nos membros do corpo onde ela se move, em vitória sobre todo o poder da morte. E nosso divino Mestre diz ainda: “aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus”. Não há entrada lá para ninguém, a não ser para aqueles nascidos de novo, e tais nascidos de novo, como vimos, são os pecadores justificados ou vivificados pela palavra da salvação. Não há justos, sábios ou ricos, naquele reino, ninguém que permaneça ali com tal confiança na carne. Esta verdade está assim estabelecida. De forma bendita é assim, para nossa alegria e estabilidade de coração. Pois, embora isso seja muito decisivo, também é muito reconfortante. É muito reconfortante ver que a palavra que diz: “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino”, por meio disso nos faz saber claramente que, se nascermos de novo, o veremos – nenhum engano ou força de homens ou demônios prevalecerá para nos manter fora dele. Se tomarmos (atraídos sem dúvida pela atração do Pai, no poder secreto do Espírito Santo) o lugar de pecadores convictos e recebermos a palavra da salvação do Filho de Deus – se apenas olharmos, como israelitas mordidos, para a serpente levantada – então já entramos no reino, a vida está sendo desfrutada agora e a glória virá depois. O cântico que então entoamos é ecoado pela eternidade do céu. A visão que então obtemos de Jesus e Sua salvação é apenas ampliada na esfera da glória vindoura. Temos a vida eterna e os princípios do céu em nós.

Mas voltando por um momento a Nicodemos. Posso dizer que, quando o Senhor assim lhe revelou a semente desta nova vida, Ele busca semeá-la nele, semeá-la (onde sempre deva ser semeada, se for para dar fruto) na consciência: pois Nicodemos havia vindo ao Senhor à noite, como se suas ações não pudessem suportar a luz; e, ao se separarem, o Senhor visando, como parece, alcançar sua consciência, diz: “todo aquele que faz o mal odeia a luz, e não vem para a luz, para que as suas obras não sejam reprovadas”.

Assim, nosso Senhor ensina a necessidade do novo nascimento por meio da palavra da salvação. Sem ele, Deus não pode confiar no homem; e sem ele o reino de Deus não poderia, como nosso Senhor nos ensina aqui, ser visto ou entrado. Que associação, por exemplo, o irmão mais velho tinha com aquela que era a alegria característica da casa do pai? Nenhuma! Ele nunca teve nem mesmo um cabrito para se alegrar com seus amigos: ninguém, a não ser um filho pródigo retornado, poderia receber o anel, a melhor roupa e o bezerro cevado. E assim o reino é um reino tal que ninguém, a não ser pecadores redimidos, pode apreender suas alegrias ou ter qualquer lugar nele. Todos lá são “novas criaturas”, pessoas de uma ordem não encontrada na primeira criação. Adão foi feito reto; mas todos no reino são pecadores comprados por sangue. Tudo nele é reconciliado pelo sangue – como está escrito – “E que, havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz, por meio d’Ele reconciliasse Consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na Terra, como as que estão nos céus”.

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