Origem: Livro: Os Evangelistas
João 6
Uma nova cena se abre aqui. Era a páscoa: mas a misericórdia de Deus, que aquele momento celebrava, Israel havia menosprezado. Eles ainda tinham que aprender a lição do Egito e do deserto; e em amor paciente, depois de tantas provocações, o Senhor queria, mesmo agora, ensiná-los.
Assim, Ele alimenta a multidão em um lugar deserto; mostrando assim a graça e o poder d’Aquele que, por quarenta anos, havia alimentado seus pais em outro deserto. Os discípulos, como Moisés, se admiram em incredulidade, e falam, por assim dizer: “Degolar-se-ão para eles ovelhas e vacas que lhes bastem?” Mas Sua mão não está encurtada. Ele os alimenta; e isso desperta zelo na multidão, e eles viriam de bom grado, e pela força O fariam um rei. Mas o Senhor não tomaria o reino por meio de um zelo assim. Esta não poderia ser a fonte do reino do Filho do Homem. Os animais podem tomar seus reinos dos ventos combatendo no mar grande, mas Jesus não fará assim (Dn 7). Esta não era Sua mãe coroando-O no dia de Seu desposório (Cantares de Salomão 3). Este não era, em Seus ouvidos, o alarido do povo trazendo a pedra da esquina; nem o indício de Seu povo voluntariamente exercitado no dia de Seu poder. Esta teria sido uma nomeação para o trono de Israel com base em princípios dificilmente melhores do que aqueles pelos quais Saul havia sido nomeado antigamente. Seu reino teria sido o fruto de um desejo acalorado do povo, assim como o de Saul havia sido o fruto de seu coração revoltado. Mas isso não poderia ser. E além disso, antes que o Senhor pudesse tomar Seu assento no Monte Sião, Ele deveria subir o monte solitário; e antes que o povo pudesse entrar no reino, eles deveriam descer para o mar tempestuoso. E essas coisas vemos refletidas aqui, como em um espelho. O Senhor é visto no alto por um tempo, e eles estão suportando os golpes dos ventos e das ondas; mas no devido tempo Ele desce de Sua elevação, faz a tempestade se acalmar e os leva ao seu porto desejado. E assim será em breve. Ele descerá no poder do céu ao qual Ele agora ascendeu, para a libertação de Seus aflitos; então eles verão as Suas maravilhas, como no profundo, e louvá-Lo-ão pela Sua bondade, pelas obras que faz pelos filhos dos homens (Sl 107:23-32). [Nos lugares correspondentes em Mateus e Marcos, lemos que o Senhor vai ao monte para orar. Mas isso não é notado aqui. De fato, o Senhor não é mostrado por João em oração (a não ser em João 17; e isso é, na verdade, intercessão); e tudo isso ainda está no caráter completo do nosso Evangelho.]
O Senhor, portanto, apenas Se retira de todo esse despertar popular em Seu favor. Como a mente do Estrangeiro celestial deve ter sentido total dissociação de tudo isso! Ele Se retira disso; e, no dia seguinte, entra em outra obra completamente diferente. Ele revela o mistério da verdadeira páscoa, e o maná do deserto, que eles ainda tinham que aprender. Eles ainda tinham que aprender a virtude da cruz, a verdadeira páscoa que liberta do Egito, da escravidão da carne, do julgamento da lei; capacitando o pecador a dizer: “estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu”. O salário do pecado é a morte; e o pecado, na cruz, recebeu seu salário. A morte exerceu seu domínio; e a lei pode retornar ao trono de Deus com sua própria vindicação; pois ela executou sua comissão: Cristo morreu, e morreu por nós. Esta é a verdadeira páscoa – o poder da redenção; na graça da qual deixamos o Egito, ou o lugar da escravidão, e saímos com o Filho de Deus para o deserto, para ali nos alimentarmos do maná, para ali vivermos de toda Palavra que procede da boca de Deus.
E embora, nesse sentido, sejam distintos, o Senhor neste discurso parece combinar os mistérios da páscoa e do maná. Foi no tempo da páscoa que Ele pregou a eles sobre o maná. Pois ambos pertenciam ao mesmo Israel, à mesma vida. O sangue do cordeiro pascal estava sobre a verga da porta para redenção, enquanto se alimentavam do cordeiro dentro da casa. O israelita estava em comunhão viva com aquilo que lhe dava segurança. E este foi o começo da vida para ele; na força da qual ele saiu para se alimentar do maná no deserto.
Mas Israel, como aqui encontramos, ainda não havia saído da escravidão do Egito para as pastagens de Deus no deserto. Eles provam que ainda não conheciam esta vida; que ainda não tinham realmente guardado a páscoa, nem se alimentado do maná. Eles murmuravam contra Ele. Seus pensamentos estavam muito cheios de Moisés. “Deu-lhes a comer o pão do céu”, disseram eles. Mas, antes que pudessem de fato comer do maná, eles deveriam cair nos caminhos do amor, nos pensamentos do Pai, e não nos de Moisés. Pois é o amor que nos leva à cruz. Moisés nunca deu aquele pão. A lei nunca preparou a festa. É o amor que faz isso; e o amor deve ser apreendido, enquanto nos assentamos nela. E esta é a razão pela qual tão poucos convidados estão lá; pois o homem tem pensamentos duros sobre Deus e pensamentos orgulhosos sobre si mesmo. Mas, para guardar a festa, devemos ter pensamentos felizes sobre Deus e pensamentos humildes e abnegados sobre nós mesmos. A comunhão com o Pai e com o Filho, no terreno da salvação, a comunhão com Deus no amor, é vida.
Mas Israel não estava nessa comunhão. Eles recuam, eles O afastam deles, e eles, em seu coração, voltam novamente para o Egito: seus cadáveres caem no deserto, e somente um remanescente se alimenta das “palavras da vida eterna” e vive – um remanescente que olha para todo o redor como sendo um deserto estéril que não produz pão sem Ele, como “uma terra seca e sedenta” (KJV) de uma ponta à outra, a não ser pela Rocha que os segue; e eles dizem: “Para Quem iremos nós?”
E de onde vem esse remanescente? “Segundo a eleição da graça”, como o Senhor aqui ensina ainda mais, mostrando-nos os atos do Pai no mistério de nossa vida, que é Ele Quem dá ao Filho, e atrai ao Filho todos os que vêm a Ele; que Seus ensinamentos e atrações são os canais ocultos pelos quais esta vida está nos alcançando. “Senhor, para Quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Esta é a fé e a declaração daquele remanescente eleito, que, saindo do Egito, vive pela fé no Filho de Deus; mas somente no Filho de Deus como crucificado. Pois nossa vida está em Sua morte, e na fé que se alimenta dessa morte. Nenhuma aceitação de Cristo, a não ser como crucificado, é eficaz para a vida. Não são Suas virtudes, Seus ensinamentos, Seu exemplo, ou coisas semelhantes, mas a Sua morte (Sua carne e sangue), da qual devemos nos alimentar. Sua morte realizou, de forma única e exclusiva, o que todos os outros juntos nunca fizeram e nunca poderiam. O bendito Senhor morreu; entregou o espírito, ou rendeu a vida que Ele tinha, e que ninguém tinha título para tirá-la d’Ele. Mas, no momento em que isso foi feito, irromperam resultados que toda a Sua vida anterior nunca havia produzido. Foi então, mas não antes disso, que o véu do templo foi rasgado, as rochas se fenderam, os sepulcros se abriram. Céu, Terra e inferno sentiram um poder que nunca haviam conhecido antes. A vida de Jesus, Suas caridades ao homem, Sua sujeição a Deus, o cheiro de Sua natureza Humana imaculada, a santidade d’Aquele que havia nascido da virgem, nada disso, nem todos eles juntos, nem tudo n’Ele e sobre Ele, por Ele ou através d’Ele, a não ser a entrega da vida, jamais teria rasgado o véu ou aberto os sepulcros. Deus ainda estaria à distância, o inferno ainda não teria sido conquistado, e aquele que tem o poder da morte ainda não teria sido destruído. O sangue de Cristo fez o que todos os outros nunca fizeram, e nunca poderiam fazer. E sobre Ele que assim foi pregado e estabelecido ainda deve ser dito: “Quem tem o Filho tem a vida”.
Isso me leva a fazer uma pequena pausa sobre um assunto conectado com a nossa vida da qual este capítulo fala. Sob a lei, todos os animais mortos deveriam ser trazidos à porta do tabernáculo, e seu sangue oferecido sobre o altar, e de forma alguma deveria ser comido (Lv 17). Esta era uma confissão de que a vida havia retornado a Deus, e não estava em poder do homem. Comer sangue sob a lei teria sido uma tentativa de recuperar a vida por nossa própria força – uma tentativa do homem de alcançar aquilo que ele havia perdido. Mas agora, sob o Evangelho, a ordenança é alterada. O sangue deve ser bebido – “se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o Seu sangue, não tereis vida em vós mesmos”. Pois a vida que havia retornado a Deus, Deus a deu para fazer expiação. O sangue do Novo Testamento foi derramado para a remissão dos pecados, e a vida, por meio desse sangue, agora é dada aos pecadores na Pessoa do Filho de Deus. “N’Ele estava a vida”. Ele veio de Deus com a vida para nós. “Quem tem o Filho tem a vida”. E nos é ordenado, assim como exortado, a tomarmos vida d’Ele. E, verdadeiramente podemos dizer, nosso Deus assim aperfeiçoou nosso conforto e nossa segurança diante d’Ele, fazendo com que seja como simples desobediência em nós não tomar vida d’Ele como Seu dom, como seria simples orgulho e arrogância de coração assumir tomá-la por nossas próprias obras. Que súplica de amor é essa para com nossa alma! Somos desobedientes se não formos salvos! A morte é inimiga de Deus assim como é nossa, e se não tomamos vida do Filho, nos juntamos ao inimigo de Deus. “Não quereis vir a Mim para terdes vida”, diz o Filho de Deus ofendido. E quando perguntado por certas pessoas neste mesmo capítulo: “Que faremos para executarmos as obras de Deus?” Ele apenas responde: “A obra de Deus é esta: Que creiais n’Aquele que Ele enviou”. Crer e tomar a vida como um dom de Deus por meio de Seu Filho é o único ato de obediência que o Deus bendito exige de um pecador – a única coisa que um pecador, até que seja reconciliado, pode fazer para agradá-Lo.
Esta é a graça revelada de maneira maravilhosa e bendita. Esta ordenança, que proibia comer sangue, era como a espada flamejante do Querubim (JND) no jardim. Tanto aquela espada quanto essa ordenança diziam ao pecador que não haveria recuperação da vida perdida por qualquer esforço seu. E a fé de Adão se mostra mais docemente aqui. Ele não procurou retirar aquela espada, como se pudesse recuperar a árvore da vida por si mesmo. Mas o que ele fez? Ele tomou a vida de Deus, pela graça, e o dom pela graça. Ele creu na promessa sobre a Semente da mulher; e naquela fé, chamou a mulher de “a mãe de todos os viventes”. Ele tomou a vida como o dom de Deus por meio de Cristo, e não a buscou por obras da lei, ou diante da espada flamejante.
Todo esse mistério na vida do pecador foi assim ilustrado desde o início, até mesmo na fé de Adão; e é abençoadamente revelado no discurso de nosso Senhor ao povo neste capítulo. Essa vida começa no poder da redenção pelo cordeiro pascal morto no Egito, e pelo maná do deserto. Mas nosso capítulo nos mostra que Israel ainda era um estranho a ela; que eles não tinham aprendido a lição do Egito e do deserto, no conhecimento da redenção e da vida que estão em Cristo Jesus.
