Origem: Livro: Os Evangelistas

João 18 – 21

Tenho seguido este Evangelho em sua ordem, até o final de João 17, tendo-o distribuído até agora em três seções principais: a primeira, apresentando nosso Senhor Jesus Cristo como o Filho de Deus, o Estrangeiro vindo do céu, e nos dando Sua ação e recepção no mundo; a segunda, exibindo-O em Suas relações e controvérsias com Israel; a terceira, dando-O a nós no seio de Seus eleitos, instruindo-os nos mistérios do sacerdócio celestial e em sua posição como filhos do Pai. E agora, temos que considerar a quarta e última seção, que nos dá o que acompanhou Sua morte e ressurreição. Que a entrada das palavras do Senhor ainda dê luz e leve consigo um cheiro para nossa alma d’Aquele Bendito de Quem elas falam!

Mas enquanto, em trabalhos como estes, amados, buscamos descobrir a ordem da Palavra divina, e somos levados a nos maravilhar com suas profundezas, ou admirar sua beleza, devemos lembrar que é sua verdade que devemos considerar principalmente. É quando a Palavra vem com “muita certeza”, que ela opera eficazmente em nós. Não será proveitosa se não for misturada com fé. Seu poder de alegrar e purificar dependerá de ser recebida como verdade; e enquanto traçamos, e apresentamos uns aos outros, as belezas, as profundezas, e as maravilhas da Palavra, devemos frequentemente parar e dizer à nossa alma como o anjo disse ao apóstolo sobrecarregado que tinha visto as visões adoráveis e ouvido as revelações maravilhosas, “Estas são as verdadeiras Palavras de Deus”.

O lugar em nosso Evangelho ao qual cheguei agora apresenta nosso Senhor Jesus Cristo em Seus sofrimentos. Mas posso notar que não são Seus sofrimentos que O ocupam neste Evangelho. Ao longo dele, Ele parece estar acima dos insultos do povo e da rejeição do mundo. De modo que, quando a última páscoa estava se aproximando, embora nos outros Evangelhos O vejamos com Sua mente cheia de ser o Cordeiro que foi escolhido para ela, e O ouvimos dizer a Seus discípulos: “Bem sabeis que, daqui a dois dias, é a páscoa, e o Filho do Homem será entregue para ser crucificado”, ainda assim em nosso Evangelho não é assim. Ele sobe a Jerusalém na época; mas é para assentar-se no meio de uma casa eleita (João 12:1). E assim depois. Quando Ele está a sós com Seus discípulos, Ele permanece acima de Suas tristezas e do mundo – Ele não lhes conta sobre os Judeus O traindo aos gentios, e sobre os gentios O crucificando – Ele não fala sobre Ele ser zombado, açoitado e cuspido, como nos outros Evangelhos. Tudo isso é deixado de lado. As muitas coisas que o Filho do Homem deveria sofrer nas mãos de homens pecadores não são contadas aqui. Mas, por outro lado, Ele assume já haver passado a hora do poder das trevas; e assim que O encontramos a sós com Seus eleitos, Ele Se coloca além dessa hora (capítulo 13:1). O Getsêmani e o Calvário estão atrás d’Ele, e Ele Se vê como tendo alcançado a hora, não a do jardim, ou a da cruz, mas a do Monte das Oliveiras, a hora de Sua ascensão; nosso evangelista diz: “Ora, antes da festa da páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a Sua hora de passar deste mundo para o Pai”, estas palavras nos mostram claramente que Sua mente não estava em Seu sofrimento, mas no céu do Pai que estava além dele. Ele apresenta diante deles, não os memoriais de Sua morte aqui, mas de Sua vida no céu, como vimos; pois Ele lava os pés deles depois da ceia. E todo o Seu discurso com Seus amados depois (João 14-16) tinha esse cheiro. Tudo presumia que Sua tristeza havia passado – que Ele havia terminado Sua carreira – que Ele havia Se levantado contra o príncipe deste mundo e havia vencido – que Ele continuava no amor do Pai e que tudo estava pronto para Sua glorificação. Suas palavras para eles presumiam isso; e, com base nisso, Ele os fortaleceu para vencer, como Ele havia vencido. Em vez de contar-lhes sobre Suas tristezas, Seu objetivo é confortá-los nas deles. Ele lhes deu paz, a promessa do Consolador e da glória que havia de seguir. E quando, por um momento, como que pressionado pelo estado de espírito deles, Ele fala de todos eles O deixando só na hora vindoura, não foi sem esta garantia: “mas não estou só, porque o Pai está Comigo”. E, da mesma forma, quando Ele estava separando Judas dos demais, lemos que Ele “turbou-Se em espírito”; mas, assim que o traidor se foi, Ele se eleva à Sua própria elevação adequada e diz: “Agora, é glorificado o Filho do Homem, e Deus é glorificado n’Ele” Assim, se Sua alma passa por um gemido ou problema, é apenas por um momento, e apenas para conduzi-Lo a uma visão mais completa da glória que estava além de tudo isso.

É exatamente o mesmo à medida que Ele desce às sombras mais profundas de Seu caminho solitário. Mesmo aqui, ainda é a força que O acompanha por todo o percurso, e a glória que aparece diante d’Ele por todo caminho. E assim, seja no labor, no testemunho ou no sofrimento, Ele ainda está, neste Evangelho, em Sua elevação como Filho de Deus. Ele caminha na consciência de Sua dignidade; Ele toma o cálice como vindo da mão do Pai, e entrega Sua vida por Si mesmo.

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