Origem: Livro: Pequenas Exposições e Meditações Espirituais

Deus Manifestado em Carne

Ao longo do Evangelho de João, podemos perceber que um senso da glória de Sua Pessoa está sempre presente na mente de Cristo. Isso é assim, quer O acompanhemos de cena em cena em Seu ministério público (João 1-12), quer por Suas palavras de despedida com Seus eleitos (João 13-17), quer no caminho de Suas dores finais (João 18-19), ou na ressurreição (João 20-21).

Esta plena glória pessoal que Lhe pertence é declarada logo no início deste Evangelho (João 1:1), e ali reconhecida pela Igreja, consciente, como ela é, de que ela discerniu essa glória (João 1:14). Mas, como acabei de dizer, essa glória está sempre presente em Sua própria mente. Ele está no lugar onde os arranjos da aliança O colocam, e está realizando aqueles serviços que zelam pela manifestação da glória do Pai depositada sobre Ele; mas ainda assim, Ele toma conhecimento de Si mesmo na plenitude da glória da Divindade que Lhe pertencia, essencial e intrinsecamente Sua. (Veja João 2:21; 3:13; 4:14; 5:23; 6:46, 62; 7:37; 8:58; 9:38; 10:30, 38; 11:11, 25; 12:45; 14:15; 16:15; 18:6; 19:30; 20:22).

O Espírito no santo, dessa maneira, ainda O glorifica. O santo pode reconhecê-Lo no lugar da sujeição à aliança, ou pensar n’Ele em Suas tristezas e sofrimentos, mas (como Ele mesmo nos dias de Sua carne) nunca perde o senso daquela glória pessoal que é essencial e intrinsecamente Sua. O próprio caminho de Cristo quando esteve aqui, e a experiência presente do santo, estão, portanto, em perfeita concordância. E quando olhamos um pouco para as epístolas, encontramos algo ainda em harmonia – quero dizer, neste particular. O Espírito nos apóstolos não enfrenta um tratamento injurioso dirigido a Pessoa de Cristo com o mesmo tom com que trata um erro, concernente à verdade do evangelho. E essa diferença de tom é muito significativa. Por exemplo, na epístola aos Gálatas, onde a simplicidade do evangelho é defendida, há uma súplica e um anseio em meio a raciocínios sinceros e urgentes. Portanto, há medidas e métodos recomendados (como admoestar, acusar, repreender, calar a boca, 1 Timóteo 1 e Tito 1), e não um processo sumário e de exclusão imediata, quando se trata de corrupções Judaizantes. Mas quando é a Pessoa do Filho de Deus que está em questão, quando Sua glória deve ser afirmada, não há nada disso. O tom é outro. Tudo é absoluto. “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco”; “não o recebais em casa”; “Todo aquele que ultrapassa a doutrina de Cristo e nela não permanece não tem Deus” (ARA)[7].
[7] Comer apenas legumes e observar dias santos, se interpretados integralmente, são costumes que depreciam o evangelho ou afetam a plena beleza da verdade. Mas tais coisas devem ser suportadas (Rm 14). E nossa alma tem plena consciência disso: a depreciação da Pessoa do Filho não receberia um decreto em seu favor dessa maneira.

O Espírito, como posso dizer, considera o decreto como o mais sagrado e o guarda com zelo instintivo, “Para que todos honrem o Filho, como honram o Pai” (João 5:23).

Tudo isso a respeito de Sua plena glória divina é precioso aos pensamentos de Seu povo. Somos, no entanto, levados também a contemplar o Homem n’Ele, e por meio de uma sucessão de condições, vemos n’Ele o Homem apresentado a Deus com uma satisfação e deleite infinitos, ainda que variados. Há muito tempo, O tenho seguido da seguinte maneira, como Homem em toda a perfeição:

Nascido – O material, por assim dizer, moral e físico, é apresentado em Jesus como Aquele que nasceu. Ele era um feixe imaculado da colheita humana. O homem n’Ele era perfeito como criatura (Lucas 1:35).

Circuncidado – Jesus, nesse sentido, estava sob a lei, e a guardou, como seria de se esperar, com toda a perfeição. O homem n’Ele era, portanto, perfeito como se estivesse sob a lei (Lucas 2:27).

Batizado – Nesse caráter Jesus é visto Se curvando à autoridade de Deus, reconhecendo-O em Suas dispensações, e o homem n’Ele é perfeito em toda a justiça, bem como sob a lei (Lucas 3:21).

Ungido – Como ungido, Jesus foi enviado para o serviço e o testemunho. Nesse sentido, o homem é visto n’Ele como um Servo perfeito (Lucas 3:22).

Devotado – Jesus entregou-Se a Deus, deixou-Se em Suas mãos para cumprir toda a Sua vontade e beneplácito. N’Ele, o homem era, portanto, perfeito como um sacrifício (Lucas 22:19-20).

Ressuscitado – Este inicia uma série de novas condições nas quais o homem se encontra. Este é o primeiro estágio do novo estado. João 12:31-32 indica um novo curso no homem, como aqui mencionado. O grão de trigo, tendo caído na terra e morrido, agora está capacitado para ser frutífero. O homem em Jesus ressuscitado está em vida indestrutível.

Glorificado – O Homem ressuscitado, ou Homem em vida indestrutível, veste uma imagem celestial. O novo homem tem um novo ou glorioso corpo.

Reinando – O Homem ressuscitado e glorificado recebe, no devido tempo, autoridade para executar o julgamento. O domínio é d’Ele. A soberania perdida do homem é recuperada. A Escritura nos conduz por esta série de contemplações sobre o Filho do Homem. E embora eu fale aqui do Homem, como antes falei da glória divina, não divido a Pessoa. Em tudo isso, é “Deus manifestado em carne” que temos diante de nós.

Precisamos caminhar suavemente sobre esse terreno, e não multiplicar palavras. Sobre um tema tão elevado, precioso para o coração amoroso e adorador, podemos nos lembrar do que está escrito: “Na multidão de palavras não falta transgressão” (ARC).

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