Origem: Revista O Cristão – Indo ao Lar
O Pecado Não Terá Domínio Sobre Vós
Desde a obra de Cristo na cruz, somos purificados da pena do pecado por meio do Seu sangue e salvos do poder do pecado por meio da Sua morte. Assim, Paulo faz a afirmação de que “o pecado não terá domínio sobre vós” (Rm 6:14). Contudo, mesmo como crentes, o pecado pode ter e acaba tendo domínio sobre nós, se permitirmos que o velho “eu” pecador aja. Davi poderia orar: “guarda o teu servo, para que se não assenhorie de mim“ (Sl 19:13). Na medida em que permitimos que o “eu” pecador aja, estaremos em escravidão a ele. Quando somos jovens (e isso se aplica a crentes e incrédulos), podemos manter a natureza pecaminosa sob controle, pelo menos até certo ponto, pela energia humana. Um homem com um temperamento violento pode evitar perder o controle de si mesmo, enquanto outro com tendências imorais pode refrear esse desejo, pelo menos em grande parte, desde que suas faculdades naturais sejam fortes. No entanto, essa não é uma solução para o problema, pois um conjunto particularmente grave de circunstâncias adversas pode fazer com que ele perca o controle. Mais importante, à medida que envelhece e suas habilidades naturais são enfraquecidas, ele perde esse controle. Ele descobrirá que os pecados que ele poderia conter em sua juventude agora têm domínio sobre ele. Quantas vezes vimos idosos em um lar para idosos, com faculdades naturais enfraquecidas e com personalidades difíceis e comportamento pecaminoso, que causam pesar a todos com quem eles entram em contato! Por outro lado, que alegria encontrar aqueles que, tendo andado com o Senhor durante a vida, podem aceitar graciosamente as limitações impostas pela velhice!
Exemplos
Temos exemplos disso na Escritura. É evidente que Isaque tinha uma fraqueza não julgada por “um guisado saboroso, como eu gosto” (Gn 27:4), e isso o levou a amar Esaú mais do que Jacó. E, como um homem na sua velhice, essa inclinação o levou a tentar dar a Esaú a maior bênção, indo diretamente contra aquilo que Deus havia profetizado. Da mesma forma, registra-se Eli que ele era “um homem velho e pesado” (1 Sam. 4:18), e podemos concluir que, embora ele certamente reprovasse seus filhos por seu comportamento, ele evidentemente gostava de comer o que eles exigiram das pessoas de maneira errada. Em uma exibição diferente da carne, está registrado: “no tempo da velhice de Salomão, suas mulheres lhe perverteram o coração para seguir outros deuses” (1 Rs 11:4), por causa de seu desejo, não apenas por muitas esposas, mas também por mulheres de outras nações; ambos estavam em violação direta da lei. Em um sentido mais positivo, que gozo é ler as palavras de Paulo como um homem mais velho. Ele andou com o Senhor a vida inteira e, no final, pôde dizer: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé” (2 Tm 4:7).
Julgamento sem clemência do “eu”
Portanto, vemos que a energia humana pode manter a carne sob controle, pelo menos exteriormente, enquanto a energia humana permanece forte. No entanto, Deus nos deu uma resposta para o problema – uma resposta que não apenas limita ou controla esses desejos naturais, mas trata com a raiz. Eu diria que a resposta é dupla.
Antes de tudo, Deus reconhece que a energia humana nunca pode, de maneira definitiva, ser eficaz no controle do velho “eu” pecador. O homem em Romanos 7 tenta isso e descobre com tristeza que o pecado é forte demais para ele. Mesmo no pleno vigor da juventude, o homem não pode manter o pecado sob controle; ele descobre que “Porque o que faço, não o aprovo, pois o que quero, isso não faço; mas o que aborreço, isso faço” (Rm 7:15). À medida que envelhecemos, descobriremos que o fracasso é mais flagrante e se torna mais óbvio, não apenas para nós mesmos, mas também para os outros. Deus viu o fim do primeiro homem na cruz. Agora, na morte de Cristo, podemos ser libertados do pecado e, em vez de estarmos escravos do pecado, podemos nos tornar servos de Deus. No entanto, isso pode acontecer apenas com um julgamento imparcial da carne na presença de Deus e uma confissão completa do pecado diante de Deus. Como alguém disse: “Todos nós queremos nos tornar mais semelhantes a Cristo, mas muitas vezes gostamos demais de nós mesmos para nos tornarmos outro homem.” Nós não percebemos a verdade daquilo que Paulo diz: “eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Rm 7:18). Se percebêssemos a total ruína do primeiro homem, nós o abandonaríamos de bom grado e aceitaríamos a libertação por meio de Cristo.
O coração cheio
Em segundo lugar, Deus nos deu aquilo que é muito melhor do que todas as coisas que “a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” perseguem. Essas coisas, sejam elas próprias ou o exercício do “eu” pecador em relação a elas, são todas temporárias. Deus nos deu um Objeto em Seu Filho que encherá nosso coração; e quando o coração está cheio de Cristo, não há espaço para a manifestação da carne. Ao desfrutá-Lo, seremos guardados de manifestar nossos pecados que facilmente nos enredam, porque Seu amor transcende todos eles. “Mas nós todos, contemplando a glória do Senhor com rosto descoberto, somos transformados conforme a mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito” (2 Co 3:18 – JND).
É uma advertência solene para os mais jovens, pois percebemos que os apetites, hábitos e traços de caráter que são permitidos e estimulados quando somos jovens irão conosco durante toda a vida e nos influenciarão fortemente na velhice, se o Senhor nos deixar aqui. Os pecados que não julgamos nos anos em que éramos mais jovens terão domínio sobre nós quando envelhecermos e, nesse momento, o curso de nossos caminhos será tão fixado em nossa mente que será muito difícil, senão impossível, mudar. No entanto, ao dizer isso, não limitamos a graça de Deus, pois certamente sempre há espaço para arrependimento e restauração, mesmo depois de uma vida inteira permitindo algo que Deus deseja que julguemos em Sua presença. Quão bom é andar com o Senhor e ser encontrado como Moisés, em um sentido espiritual, de quem se poderia dizer, aos 120 anos de idade, que “os seus olhos nunca se escureceram, nem perdeu o seu vigor” (Dt 34:7).
