Origem: Revista Palavras de Edificação 16
Sobre o Evangelho de Mateus
(continuação do número anterior)
Capítulos 9:36 a 10:20
“E, vendo a multidão, teve grande compaixão deles, porque andavam desgarrados e errantes, como ovelhas que não têm pastor. Então disse aos Seus discípulos: A seara é realmente grande, mas poucos os ceifeiros. Rogai pois ao Senhor da seara que mande ceifeiros para a Sua seara” (Mt 9:36-38).
Não existe animal mais indefeso do que a ovelha, pois necessita de muito cuidado: sem pastor será uma presa das feras, ou morrerá por falta de alimentos e água. O Senhor, cheio de compaixão, olhando a multidão, viu-a como ovelhas que não têm pastor, e, ao mesmo tempo, qual a extensa seara para a Sua colheita; por isso, disse aos Seus discípulos que rogassem ao Senhor da seara que enviasse ceifeiros para a sua seara.
“E…“ – assim começa o capítulo 10. Está ligado com o fim do capítulo 9, pois lemos seguidamente que Jesus “…deu-lhes poder sobre os espíritos imundos, para os expulsarem, e para curarem toda a enfermidade e todo o mal” (v.1). Eles oraram; logo o Senhor os enviou para a seara. Assim acontece de vez em quando; aquele que ora pelas almas perdidas dá-se conta, com o tempo, que é chamado pelo Senhor para lhes anunciar o evangelho da graça perdoadora de Deus.
Porém, a comissão dada aos discípulos àquela altura tinha a finalidade, primeiramente, de livrar as pessoas dos demônios e de curar as suas enfermidades físicas, testemunho irrefutável de que o Senhor tinha visitado o Seu povo doente dos resultados do pecado (Sl 103:3 e Is 61:1).
“Ora os nomes dos doze apóstolos são estes: O primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o publicano; Tiago, filho de Alfeu, e Lebeu, apelidado Tadeu; Simão Cananita, e Judas Iscariotes, aquele que O traiu” (vs.2-4).
Só Mateus (nem Marcos, nem Lucas) designou Pedro “o primeiro”. O Senhor levou a cabo uma certa obra, fazendo uso de doze instrumentos, os doze apóstolos. Levou a cabo outra, usando somente Pedro. Deu-lhe, a Pedro, “as chaves do reino dos céus” (não as chaves da igreja que Cristo comprou com o Seu sangue precioso). Pedro usou essas chaves, uma no dia de Pentecostes, quando abriu a porta aos judeus culpados da morte do seu Messias, e eles se batizaram, saindo da nação maligna e entrando na nova esfera da profissão de Cristo como seu Senhor, no reino dos céus que está aqui na Terra; o Cristianismo. Mais tarde, inspirado pelo Senhor, Pedro abriu a porta aos gentios na casa de Cornélio, o centurião romano, e “mandou que fossem batizados em nome do Senhor” (At 10:48). Pedro tinha cumprido a sua missão: não usou mais as chaves, pois não havia mais portas de entrada para a profissão Cristã. Além disso, quando o Senhor comissionou Paulo (o qual não era dos doze enviados aos judeus inicialmente) como apóstolo e ministro da igreja (1 Co 1:1; Cl 1:25); Pedro, na história escrita dos Atos, desapareceu. O versículo chave é Atos 12:17: “E, saindo, partiu para outro lugar”.
Não se faz mais menção de Pedro, nem sequer uma só palavra. E em Atos 13 lemos de “Saulo” (Paulo) enviado aos gentios com o evangelho. Compare-se também Gálatas 2:7-8 para ver as diferentes comissões de Pedro e Paulo. Pedro não foi enviado a nós, os gentios por natureza, mas sim, aos judeus. Por que dizem então alguns, que Pedro foi o primeiro papa da Igreja? É uma falsidade. A Igreja verdadeira de Deus não tem nenhum papa: Cristo, o Senhor, “é a Cabeça do corpo da Igreja” (Cl 1:18) exaltado à destra de Deus, o único dirigente da Sua Igreja, “que é o Seu Corpo” (Ef 1:22-23).
Na lista dos doze apóstolos escolhidos pelo Senhor, o único cujo ofício é mencionado é “Mateus o publicano”. O próprio Mateus escreveu este evangelho sob a inspiração do Espírito Santo, o qual lhe deu liberdade de dar expressão ao sentimento humilde que ele guardava no seu coração: Cristo tinha escolhido um publicano, um homem desprezado, para apóstolo. “Judas Iscariotes, aquele que O traiu”, é mencionado em último lugar. Jesus o escolheu com conhecimento, mesmo sendo o “diabo” (Jo 6:70), para que se cumprisse a Escritura que profetizou acerca d’Ele: “Até o Meu próprio amigo íntimo, em quem Eu tanto confiava, que comia do Meu pão, levantou contra Mim o seu calcanhar” (Sl 41:9). Sabemos que este versículo falou de Judas, porque o próprio Jesus se referiu a ele: “…O que come o pão Comigo, levantou contra Mim o seu calcanhar” (Jo 13:18).
“Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa d’Israel; e, indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demônios: de graça recebestes, de graça dai” (vs.5-8).
Que condição tão lastimosa e triste a do povo do Senhor! Ovelhas perdidas, gente enferma, leprosa, morta e endemoninhada. A eles mandou o Senhor os Seus apóstolos, outorgando-lhes, como o Deus de Israel, poder de os curar, até de ressuscitar os mortos, a fim de os convencer que o seu Rei tinha chegado: “É chegado o reino dos céus”.
“Não possuais ouro, nem prata, nem cobre, em vossos cintos; nem alforjes para o caminho, nem duas túnicas, nem alparcas, nem bordão; porque digno é o operário do seu alimento. E, em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai saber quem nela seja digno, e hospedai-vos aí até que vos retireis. E, quando entrardes nalguma casa, saudai-a; e, se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz” (vs.9-13).
Os apóstolos deviam depender inteiramente do seu Senhor, O qual operaria nos corações das pessoas, para que as suas necessidades fossem supridas.
“E, se ninguém vos receber, nem escutar as vossas palavras, saindo daquela casa ou cidade, sacudi o pó dos vossos pés. Em verdade vos digo que, no dia do juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra do que para aquela cidade” (vs.14-15).
Estando o próprio Jeová, na pessoa de Jesus (“o Senhor e Salvador”), no meio do Seu povo, a rejeição do Seu testemunho seria um pecado mais grave do que o de Sodoma e o de Gomorra. Notemos também que, embora os homens de Sodoma e de Gomorra tivessem sido mortos com “enxofre e fogo” (Gn 19:24-25), serão, mesmo assim, ressuscitados para o juízo vindouro. A morte física não acaba com o espírito.
“Eis que vos envio como ovelhas ao meio de lobos; portanto sede prudentes como as serpentes e símplices como as pombas. Acautelai-vos, porém, dos homens; porque eles vos entregarão aos sinédrios, e vos açoitarão nas suas sinagogas; E sereis até conduzidos à presença dos governadores e dos reis por causa de Mim, para lhes servir de testemunho a eles e aos gentios. Mas, quando vos entregarem, não vos dê cuidado como, ou o que haveis de falar, porque naquela mesma hora vos será ministrado o que haveis de dizer. Porque não sois vós quem falará, mas o Espírito de vosso Pai é Que fala em vós” (vs.16-20).
Que caloroso acolhimento dado aos embaixadores do Senhor: “ovelhas ao meio de lobos”, entregues e açoitados pelo seu próprio povo judeu! O teor de todas as instruções do Senhor Jesus dadas aos apóstolos, indicou, desde o princípio, que Ele sabia que seria terminantemente rejeitado pelos judeus.
