Origem: Revista Palavras de Edificação 19

O Leitor Pergunta

(continuação do número 17)

Um de nossos leitores nos escreveu expondo algumas dúvidas acerca do artigo “Que Denominação É Esta?” publicado no número 18 de “Palavras de Edificação, Exortação e Consolação”:

“Li no último exemplar que os irmãos não concordam com denominação. Para onde iria, então, a pessoa que aceita a Cristo Jesus como Salvador, se não houver uma denominação onde ela possa aprender melhor da Palavra de Deus, por meio de homens que Deus colocou para esta finalidade?”

Para esclarecer esta dúvida, transcrevemos aqui alguns trechos do livreto “És Membro de Quê? (Are you a Member? and of What?)” (G. Cutting), o qual pretendemos publicar oportunamente: “Uma das primeiras coisas que o coração regenerado mais anseia é a comunhão com o povo de Deus. Já não se sente bem no mundo, e muito naturalmente, busca a companhia dos seus irmãos em Cristo. Porém, de entre todos os nomes e divisões da cristandade desordenada, a alma nascida de novo pode muito bem perguntar: Onde devo ir?

A nossa resposta é: “A Deus e à palavra da Sua graça” (At 20:32). Seja quem for que esteja errado, Deus e a Sua palavra não erram. Tomai bem nota deste fato e deixai de confiar no homem, “cujo fôlego está no seu nariz” (Is 2:22).

Há alguns anos, dois crentes, até então desconhecidos um do outro, viajavam de trem, no mesmo vagão, quando, depois de haver falado de Cristo por algum tempo, um deles disse:

  • Posso perguntar-lhe a que denominação pertence?
  • Bem, essa pergunta é bastante comum respondeu o outro – mas diga-me primeiro o que, no seu pensar, deve guiar-me na minha vida de Cristão?

O seu interlocutor concordou, imediatamente, que só a Palavra de Deus podia guiá-lo com confiança.

  • Neste caso, se me permite, responderei à sua pergunta com outra. qual é a denominação que me é indicada na Palavra de Deus?

Depois de um breve silêncio veio a resposta:

  • Nenhuma, absolutamente.
  • Então não devo pertencer a nenhuma, porque se o fizesse (segundo a sua própria afirmação) estaria claramente numa posição onde a Palavra de Deus não me tinha colocado.
  • Mas – argumentou o outro – não é verdade que a Palavra de Deus nos exorta a “não deixando (deixarmos) a nossa congregação”, tanto mais quanto vemos “que se vai aproximando aquele dia”? (Hb 10:25).
  • Na realidade, assim é. Porém, um Cristão não precisa pertencer a uma denominação para poder cumprir essa passagem, porque o Senhor Jesus disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí, estou Eu no meio deles” (Mt 18:20).

Em 2 João 1:6, lemos que João exorta a senhora eleita, e os que com ela estavam, dizendo-lhes: “E a caridade é esta: que andemos segundo os Seus mandamentos. Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes: que andeis nele”.

Ora João tinha visto o Senhor durante a Sua vida; tinha-O visto morrer na cruz; foi testemunha da Sua ressurreição; viu-O subir ao céu; e estava presente quando, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo enviado por Cristo veio para batizar os crentes num só corpo, e assim formar a Igreja.

João, tinha vivido o bastante para ver o mal entrar no círculo da Igreja professa. Mas qual foi o remédio dado por eles? Porventura disse: “começai de novo com um seita baseada em melhores estatutos?” Qual é a resposta que ele dá guiado pelo Espírito de Deus? “Este é o mandamento, como já desde o princípio ouvistes: que andeis nele”.

De modo que, o Espírito Santo, deixa bem claro o fato que, não admite inovações humanas, que possam interferir com os sagrados princípios da Palavra de Deus para orientação do Seu povo, seja qual for a experiência ou a história dos seus autores.

Se levarmos em consideração este mesmo princípio na época atual, vemos que nos encontramos numa de duas posições: Estamos sobre o fundamento de Deus, para reunião dos discípulos como no princípio; ou, sobre qualquer outro fundamento que o homem, na sua fantasia ou zelo errôneo, tenha levantado desde o princípio.

No livro de Atos 2:42, está escrito dos primeiros discípulos que “perseveravam na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, e no partir do pão, e nas orações”.

Depois da conversão de Saulo de Tarso, foi feita uma revelação inteiramente nova à Igreja, por intermédio deste antigo perseguidor dos santos; a saber: Que todo o crente na Terra é ligado a Cristo pelo Espírito Santo (At 9:4, 1 Co 6:17; 12:12-27); e que “assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo assim é Cristo também. Pois todos fomos batizados em um Espírito formando um corpo, quer judeus, quer gregos, quer servos, quer livres, e todos temos bebido de um Espírito” (1 Co 12:12-13). Em Efésios 4:3-4, não só encontramos o mesmo fato claramente mencionado – “Há um só corpo” – como somos exortados a “guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz”; quer dizer, devemos manter na prática o que o Espírito Santo tem formado espiritualmente.

Há duas classes de Cristãos no mundo. Para todos os efeitos, cada membro da primeira diz: “Os homens têm criado muitos corpos, e eu, sendo membro de um deles, ou melhor, segundo a minha maneira de pensar, desejo fazer tudo que for possível para servir os seus interesses”. Enquanto que cada membro da outra pode dizer: “Deus formou um corpo e fez de mim um membro dele, e agora desejo, pela Sua graça, servir os interesses da cabeça, segundo os princípios expostos na Palavra de Deus. A qual destas duas classes de pessoas pertence o leitor?

Enfim! Quantos amados filhos de Deus são representados pela primeira? Não é verdade, que ouvimos, frequentemente, crentes falando de se “unirem” a este ou àquele corpo denominacional? Sem dúvida, eles esquecem-se (se é que alguma vez o souberam) que o único corpo reconhecido por Deus, na Sua Palavra, é “o corpo” do qual “Cristo é a Cabeça” (Ef 5:23), e, do qual todo o verdadeiro crente é membro. Estando salvos, já somos, (como se costuma dizer), “membros unidos” ao corpo. “O que se ajunta com o Senhor é um mesmo Espírito” (1 Co 6:17). Em 1 Coríntios 12:18, o apóstolo diz, empregando a figura do corpo humano, que “Deus colocou os membros no corpo, cada um deles como quis”.

Logo, que confusão triste quando alguém fala de se ligar a qualquer outro corpo! Porque não havemos de estar contentes com o lugar que Deus nos tem dado no “corpo de Cristo”? E procurar pela Sua graça cumprir os deveres desse lugar?

Certamente que o Espírito Santo nunca batizou crentes para uma “seita” ou denominação. Basta lermos em 1 Coríntios 1:12-13 e 3:3-4, para vermos como Ele enfrentou, por meio de Paulo, logo no princípio, por assim dizer, o espírito sectário em Corinto com um gesto eficaz de condenação: “Não sois porventura carnais, e não andais segundo os homens? Porque, dizendo um: Eu sou de Paulo; e outro: Eu de Apolo, porventura não sois carnais?”.

Mas dirá alguém, “Se é mau estar numa posição sectária e manter tal posição, existe na Palavra de Deus alguma indicação definida quanto à verdade de um corpo?”

Suponhamos que Pedro, Tiago e João, com mais alguns dos primeiros discípulos tivessem vivido até os nossos dias, digamos numa das nossas cidades, e continuassem a estar reunidos com a simplicidade da ordem divina do princípio ao nome do Senhor Jesus (Mt 18:20; Jo 20:9), lembrando-se d’Ele no “partir do pão”, “no primeiro dia da semana”, e aguardando a Sua segunda vinda (At 20:7; 1 Co 11:23-26); mantendo a disciplina bíblica (1 Co 5:9-13; 1 Tm 5:20; 2 Ts 3:6, 14-15; 1 Ts 5:14; 2 Tm 4:2; Tt 2:15; Gl 6:1); procurando guardar, na prática, a verdade de que “há um só corpo” (Ef 4:3-4); e reconhecendo a presença e a autoridade do Senhor Jesus Cristo no meio deles, para guiar por intermédio do Espírito Santo quem e como Ele queira, quer fosse no culto de adoração ou ministério, não reconhecendo desta maneira, evidentemente, os métodos humanos ou simples vestígios do que era pura e simplesmente usurpação de autoridade.

Pergunto, pois, a que denominação pertenceriam eles? Não será preciso muito discernimento espiritual, para que alguém possa responder, prontamente, dizendo que não pertenciam a nenhuma.

Mas, para podermos compreender melhor esta verdade, dizei-me, se vivêsseis na mesma cidade, não gostaríeis de ter a companhia dos apóstolos? Quer-nos parecer que sim. Pois bem, para poderdes ter essa companhia deveis, em primeiro lugar, deixar todo o terreno sectário, levantado pelo homem desde o princípio da história da Igreja na Terra, e aceitar com todas as suas consequências “a doutrina dos apóstolos”. Colocados desta maneira sobre o fundamento da “comunhão dos apóstolos”, tereis então o privilégio de a manifestar “no partir do pão”. “Porventura o cálice de bênção, que abençoamos, não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é porventura a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Co 10:16).

Talvez alguém diga que os apóstolos já não estão neste mundo. É certo, mas, graças a Deus, a sua doutrina está – “A palavra viva que permanece para sempre”. E, por isso, podemos hoje ocupar o mesmo terreno de comunhão que eles ocuparam nos seus dias, se tão somente nos deixarmos guiar por ela.

Pensamento: 

Quando os crentes se reúnem para celebrar a Ceia do Senhor (1 Co 11:23-26), estão recordando aquilo que é mais caro aos olhos de Deus; “a morte do Senhor” (v.26), representada ali no pão e no vinho, símbolos de Seu corpo e sangue. Estão cumprindo o mandamento do Senhor, “fazei isto, …em memória de Mim” (v.25), além de lembrarem da Sua vinda (v.26). Além disso, os Cristãos expressam que “nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo” (1 Co 10:17). Poderá um Cristão expressar perfeitamente essa unidade, fazendo-se membro de um corpo do qual não façam parte todos os membros do corpo de Cristo, ou adotando um nome que não possa ser levado por todos os verdadeiros filhos de Deus?

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