Origem: Revista Palavras de Edificação 37

Um vigia, um santo

Daniel 4:13

“Estava vendo isto nas visões da minha cabeça, na minha cama; e eis que um vigia, um santo, descia do céu” (Dn 4:13)

O presente é um momento de grande significado na história do mundo. Frequentemente nos referimos a outras épocas como tendo sido fortemente caracterizadas, e de grande importância no progresso do caminho do homem, e no desdobramento dos propósitos de Deus. Se estivéssemos na devida posição, de modo a vê-los corretamente, os acontecimentos presentes seriam vistos por nós igual a qualquer daqueles acontecimentos em sua importância e significado.

O homem está preparando a grande exibição de si mesmo, por meio da qual o mundo todo está para ser enredado e enganado para sua própria e completa ruína. Muitos acontecimentos semelhantes no passado corresponderam, como em miniatura, a um tal estado de coisas, e nada escapou ao engano a não ser os que têm “a mente de Cristo” (1 Co 2:16), ou seja, “o homem de Deus” (2 Tm 3:17), guiado pelo Espírito em meio às ilusões e ao engano generalizado.

Havia, no passado, uma árvore cuja “folhagem era formosa, e o seu fruto abundante;a sua altura chegava até ao céu; e foi vista até aos confins da Terra;havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e toda a carne se mantinha dela” (Dn 4:11-12). Foi, desta forma, a admiração e a jactância de todos: o desejo de todos era em direção a isso; e o coração do homem que a plantou clamava acerca dela como sendo seu gozo e glória – “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei?” (Dn 4:30), disse o rei Nabucodonosor.

Assim foi, esta árvore formosa e luxuriante. Toda carne estava satisfeita, e o coração do homem se deleitava nela; os confins da Terra a contemplavam, e assim teve a aprovação de tudo aquilo que havia no homem ou que provinha do homem.

Em pouco tempo, porém, o céu a visitou; o céu tinha um julgamento completamente diferente a respeito dela. Um Vigia, Um Santo desceu, como o próprio Senhor havia feito nos dias antigos de Babel e de Sodoma, e este Visitante vindo do céu inspecionou a árvore cujo crescimento era tão belo e maravilhoso. Mas para Ele não havia nada a ser admirado ou adorado. Ele não foi levado a cobiçar sua beleza. Em Seus pensamentos aquela não era uma árvore boa para alimento, ou agradável à vista, ou desejável para qualquer finalidade, como era vista nos pensamentos de toda a carne. Ele olhou para ela como algo maduro para o justo juízo, e disse a respeito: “Derrubai a árvore, e cortai-lhe os ramos, sacudi as suas folhas, espalhai o seu fruto” (Dn 4:14).

Isso era algo solene, em um momento de exaltação unida e universal, quando as bestas do campo, os pássaros do ar, e toda carne estavam se gloriando naquilo que o céu assim condenava à destruição. Mas Daniel era o único dentre os homens daquela época que tinha a mente do céu, a mente do Vigia e do Santo, a respeito desta árvore – mas somente Ele. O santo sobre a Terra tem em si a mente do céu. É este o nosso lugar. Toda a carne pode se alimentar disso, da qual a fé, ou a mente de Cristo em nós, vê o fim sob o firme julgamento de Deus.

O perigo moral e a tentação assediam o nosso coração. “O que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação” (Lc 16:15). O santo está, hoje em dia, em grande perigo de ter mais da mente do homem em si do que da mente de Deus. Veja o exemplo de Samuel. Quando Eliabe colocou-se diante dele, Samuel disse: “Certamente está perante o Senhor o Seu ungido” (1 Sm 16:6). Mas ele olhava onde o Senhor não olhava. Ele via o aspecto exterior do homem, o porte de sua estatura, enquanto o Senhor via o coração. E nós também, nestes dias de atrativos, tanto seculares como religiosos, corremos o perigo de confundir Eliabe com o ungido do Senhor (veja 2 Co 10:7).

Paulo foi desprezado em Corinto devido à “presença do corpo”, a qual era “fraca” (2 Co 10:10). Ele não era Eliabe; faltava-lhe a “aparência” (2 Co 10:7), e até mesmo os discípulos em Corinto foram iludidos e levados a se afastar de Paulo. Tudo isso é um aviso para nós nesta época solene e significativa, quando a exaltação do homem por si mesmo cresce rapidamente, e as coisas são julgadas segundo a mente humana, e em sua importância no desenvolvimento do mundo.

Enquanto os discípulos nutrem a admiração, a admiração religiosa, pelos edifícios do templo, temos ocasião semelhante para repreensão do pensamento do homem encontrar o pensamento de Deus. “E, saindo Ele do templo, disse-Lhe um dos Seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada” (Mc 13:1-2).

Isso contém o mesmo caráter moral. É o julgamento errôneo do homem, desperdiçando sua admiração e deleitando-se naquilo a que o justo juízo de Deus já renunciou. O Senhor (posso dizer?) era o Vigia e o Santo referido pelo profeta, proferindo do céu a sentença sobre o orgulho e a jactância do coração do homem, encontrado também no meio religioso. Será que isto não chega aos ouvidos da geração atual?

No entanto, o ponto que acima de tudo devemos nos fixar no momento, é aquele em Lucas 19, onde a multidão estava seguindo o Senhor em Seu caminho de Jericó a Jerusalém. Ali nos é dito, acerca deles, “que o reino de Deus se havia de manifestar-se imediatamente” (Lc 19:11 – ARA).

Isto nos fala, novamente, da expectativa do coração do homem. O povo julgou que aquela situação, o mundo sob o controle do homem, poderia receber a aprovação de Deus. Eles pensavam que o reino seria estabelecido imediatamente. Mas isso nunca pode acontecer. Cristo não pode adotar o mundo humano. Através do arrependimento e fé, o homem deve se unir com o mundo de Cristo, e não pensar que Cristo una-Se com o mundo do homem. O reino não pode vir até que o juízo tenha limpado a esfera das iniquidades e contaminações do homem. Mas isso não é exatamente o que o homem planeja. Ele julga que o reino possa aparecer imediatamente – aparecer ou ser estabelecido – sem qualquer purificação, sem mudança: tudo o que está faltando são mais alguns passos de avanço, como de Jericó a Jerusalém; um pouco mais de progresso no cenário que se desenvolve, e tudo se tornará no reino pronto para que Deus venha adotá-lo.

Este é o pensamento da geração presente – como aqueles que, no capítulo de Lucas 19, pensaram, “que o reino de Deus se havia de manifestar-se imediatamente” (Lc 19:11 – ARA). As coisas estão tão avançadas, tão refinadas, tão cultivadas por uma multitude de energias renovadas – moral, religiosa e científica – que sob o sucesso e progresso de tais energias, o mundo estará pronto para Cristo em pouco tempo. Mas não, continua sendo o mundo do homem, e nunca estará pronto para Cristo. Você pode varrer e enfeitar a casa, mas ainda é a casa de seu velho proprietário, e apesar de todo o esforço dispendido com ela, apenas a tornou mais adequada aos propósitos do velho dono, e de maneira alguma ficou mais adequada aos grandes e gloriosos propósitos de Deus.

Jesus sobe a Jerusalém, mas encontra ali um campo cheio de espinhos e sarças; havia cambistas e vendedores de pombas no templo de Deus. A casa de oração era um covil de salteadores. Os governantes, os principais sacerdotes e os escribas buscavam destruir o Justo. A religião do lugar era a principal das ofensas. Jesus chorou sobre Jerusalém. Em vez de todos estarem prontos para a manifestação imediata do reino, tudo estava pronto para o juízo, para o imediato clamor das pedras. E assim, a cidade, como a ela Se referiu Jesus, seria em breve sitiada e cercada de trincheiras, e derribada completamente, em vez de ser a habitação da glória, e testemunho do reino de Deus.

Mais uma vez vem a pergunta: Não é esta a voz dirigida aos ouvidos nesta geração? “O que entre os homens é elevado, perante Deus é abominação” (Lc 16:15). Jesus, como o Santo e o Vigia, uma vez mais, como em Mateus 24:1-2, inspecionou a árvore de adoração e gozo plantada pelo homem, e em espírito Ele disse: “Derrubai a árvore, e cortai-lhe os ramos, sacudi as suas folhas, espalhai o seu fruto” (Dn 4:14). Assim, minha alma está profundamente segura do que Ele está fazendo neste momento, no tocante a todo o progresso, avanço, obras de jactância e sucessos da época atual. Aquele que está sentado nos céus tem outro pensamento de tudo que é produzido pela vã imaginação do homem. Ele não está pronto a dar Sua aprovação, mas a julgar, o mundo neste seu dia, um dia muito próximo, em que o mundo considera como sendo de grande progresso e exaltação.

“O mundo inteiro se espantou depois da besta”.
Não devo pensar no mal;
Devo confiar em Deus para frustrar Satanás.

J. G. Bellett

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