Origem: Livro: Meditações sobre o Apocalipse
Apocalipse 2-3
E é exatamente de acordo com uma introdução como esta que encontramos nosso Senhor na cena seguinte (Ap 2:1). Aqui, o Senhor está na “casa de Deus”, desafiando as igrejas a prestarem contas de si mesmas. Ele antes as havia colocado na bênção e agora busca fruto. É como se Ele tivesse ouvido falar de sua infidelidade e agora estivesse dizendo a elas: “Que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta da tua administração; pois já não podes mais ser Meu administrador” (TB). Ele já havia Se comunicado com elas por meio dos apóstolos, mas agora o faz por meio dos anjos. Paulo se dirigiu a elas com a graça pastoral de Cristo; João agora se dirige a elas com a autoridade judicial de Cristo. Os apóstolos as alimentaram e disciplinaram como estando no lugar de dependência, mas agora estas epístolas as desafiam como estando no lugar de responsabilidade, e no momento em que são assim interpeladas, elas são achadas em falta como castiçais obrigados a brilhar para o louvor d’Aquele que as havia colocado em Seu santuário. Elas agora são visitadas, e o resultado comum de todas essas visitações aos administradores de Deus pode nos indicar também o fim dos castiçais.
Pois a crise ou o julgamento sempre encontrara o homem despreparado. Quer plantado na inocência, quer na esfera da providência ou sob a ministração da graça, o homem tem sido achado incapaz até mesmo de manter uma bênção. “Adão… onde estás?” recebeu esta resposta: “Ouvi a Tua voz soar no jardim, e temi, porque estava nu, e escondi-me”. A vinha de Israel deveria, então, ter dado seus frutos Àquele que a plantou e a cultivou, mas quando Ele veio, encontrou apenas uvas bravas. E assim é agora com os castiçais na casa de Deus. Eles haviam sido devidamente preparados pelo cuidado de Deus. Eram nada menos que castiçais de ouro, igrejas alimentadas pelo Espírito, abençoadas com as bênçãos de Deus Pai e do Senhor Jesus Cristo, tornadas luzes plenamente equipadas e bem ordenadas no santuário. Mas agora que a visitação é feita, também em tempo devido, o Filho do Homem encontra algo inadequado ao lugar santo. Estas sete igrejas (a expressão sétupla ou perfeita da Igreja) são aqui desafiadas pelo Filho do Homem com estas palavras: “Conheço as tuas obras”, mas a luz sétupla é apenas tênue e incerta. Esta administradora da glória de Deus também é infiel. E assim, em breve, a mesma inquisição será feita aos “deuses da Terra”, os poderes gentios aos quais o Senhor confiou a espada, e eles serão então, assim como Adão, Israel ou os castiçais, achados em falta e terão de cair como homens e morrer como qualquer um dos príncipes (Salmo 82). Todos os administradores são assim achados em falta, quando pesados na balança, e o Senhor é justo no Seu falar e puro no Seu julgamento.
Estas sete igrejas estão aqui como o local deste julgamento. É verdade que havia outras congregações do Senhor na época, mas estas sete são suficientes para demonstrar o julgamento, pois sete representa a completude. Assim, algumas delas podem ser encontradas, por este julgamento ou visitação, em melhor condição do que outras; mas ainda assim o Filho do Homem (Filho do Homem é o título do Senhor aqui em Apocalipse 1:13, e isso pertence a Ele em juízo, como em João 5:27) vê a coisa toda muito diferente do que deveria ser. Uma não foi julgada na outra, mas cada uma foi responsável por si mesma, e assim algumas mantiveram sua pureza por mais tempo do que outras. Mas ainda assim, o tom geral desta visitação traz consigo um aviso de como o fim seria em breve. Tal como vemos em nossos dias, pois Filadélfia e Esmirna são agora castiçais tão completamente removidos quanto são Sardes ou Pérgamo.
Esses desafios feitos às igrejas pelo Filho do Homem nos levam a perceber que tudo estava quase no fim, que havia apenas um passo entre tais repreensões e sua remoção. E, certamente, não precisamos, em nossos dias, que nos seja dito da perturbação que ocorreu na casa de Deus. Aprendemos que Adão perdeu o Éden, e os atuais gemidos da criação nos dizem isso. Aprendemos que Israel perdeu Canaã, e suas atuais peregrinações pela Terra nos dizem isso. E como vemos o santuário? Acaso nós mesmos não somos testemunhas de que não fomos mais capazes de reter a bênção que nos pertencia, do que Adão foi capaz de reter o Éden, ou Israel de reter Canaã? O castiçal que foi erguido para repreender tudo o que estava de fora como trevas, e para ser ele próprio a luz materializada e bem ordenada do mundo, não está mais em Éfeso, nem mesmo em Sardes. Mas onde está algo semelhante a ele? Pode alguma coisa, em algum lugar, reivindicar a honra de ser a candeia do Senhor ali, e mostrar que o Senhor a alimenta, julga e a apara como tal? Nos dias de João, o Senhor ainda reconhecia os castiçais, reconhecendo-os ao visitá-los e julgá-los. Mas existe tal reconhecimento hoje? Podemos certamente examinar nossos caminhos com tudo o que é dito aqui às igrejas, mas isso não equivale ao Filho do Homem nos reconhecer por meio do julgamento. E nosso primeiro dever, portanto, tanto em graça quanto em sabedoria, é estarmos humilhados por causa disso; pois, embora possamos ter muito, em fragmentos, daquilo que pertence aos castiçais, ainda assim tudo isso não nos dá a posição e o privilégio do castiçal, habilitando-nos a pôr de lado como trevas, e como não sendo do santuário, tudo aquilo que não pertence a nós mesmos.
Quando nossa fidelidade ao Senhor se tornou a questão, fomos achados em falta, como qualquer outro administrador. Este livro nos mostrará, ao final, que a questão da fidelidade do Senhor para conosco será respondida de outra maneira; pois, como esposa do Cordeiro, a Igreja será então achada como sobrevivendo a todos os julgamentos, embora aqui, ela não pudesse, como castiçal, suportar o justo desafio do Senhor. E este é o homem; e este é Deus sempre; vergonha e ruína marcam o nosso fim; honra e paz, e verdade e amor eternos marcam o fim do Senhor. E nesta vergonha e ruína, creio eu, estes três capítulos se encerram; a ordem perfeita das sete luzes da casa de Deus se foi, para não ser restaurada; e, segundo isso, o profeta é imediatamente chamado a ver outras coisas e outros lugares, a testemunhar outra cena, mas ainda assim uma cena de julgamento, como veremos; não a do Filho do Homem sacerdotal em Seu templo, mas a de Deus e do Cordeiro na Terra.
