Origem: Livro: Meditações sobre o Apocalipse

Apocalipse 5

Essa se torna a questão agora, e, consequentemente, ela é levantada em Apocalipse 5, imediatamente após a manifestação do trono supremo em Apocalipse 4, e a resposta dada a ela, vinda de todos os lados, é esta: o “Cordeiro, como havendo sido morto o Leão da tribo de Judá”. Aquele que estava assentado no trono Se une para dar essa resposta, permitindo que o livro passe de Sua mão para a do Cordeiro. Os seres viventes e os anciãos se unem para dar a resposta, entoando seu cântico de gozo na perspectiva de a Terra em breve ser o cenário de sua glória; as hostes de anjos se unem para dar a resposta, atribuindo agora todo o poder, e glória e capacidade de domínio ao Cordeiro. Toda criatura no céu, na Terra, debaixo da terra e no mar, em sua ordem e medida, une-se a ela, juntando o nome do Cordeiro ao de seu Criador e Senhor, e todas sentem imediatamente como se seus gemidos já tivessem sido transformados em louvores, pois assim que Adão caiu, a criação percebeu a causa e se tornou “prisioneira da esperança” (Romanos 8:20-22); mas agora que o Cordeiro toma o livro, a criação se torna igualmente consciente da libertação e se gloria na liberdade dos filhos de Deus. Assim, a questão é resolvida no céu.

O título do Cordeiro para tomar o domínio na Terra é reconhecido e confirmado no próprio lugar onde todo poder, domínio ou ofício poderia ser obtido com justiça: na presença do trono no céu, pois “o poder pertence a Deus”. O Messias reconhece isso no Salmo 62, e aqui Ele o reconhece novamente ao tomar o livro de Sua mão, pois essa é uma ação que confessa, da parte do Cordeiro, que os poderes são ordenados por Deus, que o Senhor no céu é o fundamento do ofício. Assim, é no céu e é da parte do Ancião de Dias que o Filho do Homem toma o domínio e o homem nobre recebe o seu reino (veja Daniel 7; Lucas 19). Jesus não tomaria poder do deus deste mundo (Mateus 4:9-10), nem o aceitou do desejo ardente do povo (João 6:15). Ele espera recebê-lo (pois somente então poderia ser recebido de maneira justa) da mão do Deus do céu e da Terra, de Quem Adão, na antiguidade, o recebeu. E assim como o Cordeiro reconhece Deus no trono como sendo a fonte de poder, então Deus no trono reconhece o Cordeiro como Sua ordenação de poder.

Este ato de tomar o livro contém uma harmonia de sons doces, pois o Cordeiro Se levanta para tomá-lo, e o Senhor permite que ele seja tomado de Sua mão. A glória de Deus como supremo e único Soberano é assim reivindicada, e Ele novamente confia o poder na Terra às mãos do Homem, sancionando-o plenamente, assim como todo o seu exercício, como outrora fizera com Adão, deleitando-Se novamente nesta outra Imagem e Semelhança de Si mesmo. E isso governa toda a ação subsequente deste livro maravilhoso, pois o título do reino, estando assim aprovado no devido lugar, resta apenas revestir esse título com a possessão. A herança pertence ao Cordeiro por compra de sangue; esse sangue O selou como o totalmente Obediente, e por isso Deus pôde exaltá-Lo tão soberanamente (Filipenses 2), e esse sangue também reconciliou todas as coisas nos céus e na Terra (Colossenses 1). E, tendo a herança sido assim comprada, Ele agora só precisa redimi-la. Seu sangue, como o Cordeiro imolado, deu-Lhe o título a ela; Sua força como o Leão da tribo de Judá precisa Lhe dar agora a possessão dela.

Em Israel, havia a ordenança de resgatar a herança, bem como o herdeiro ou a pessoa (Levítico 25). Se um israelita ou seus bens tivessem sido vendidos, era tanto dever como direito de seu parente remidor resgatá-lo juntamente com seus bens; Ora, Jesus provou ser nosso Parente em ambos os sentidos. O Filho de Deus Se tornou Filho do Homem e, assim, demonstrou Sua natureza de Parente. Ele morreu para nos comprar e à nossa herança com Seu sangue, demonstrando assim Seu amor de Parente, e neste livro do Apocalipse, a meu ver, O vemos aperfeiçoando Seus atos como tal Parente e resgatando nossa herança das mãos de seus corruptores. O parente remidor em Israel tinha o título para resgatar a herança, mas precisava fazê-lo sob a condição de quitar a dívida que pesava sobre ela. Jesus pagou com Seu sangue um valor pleno e mais do que suficiente, como aqui é reconhecido; pois o livro, ou título da possessão resgatada, passa para Suas mãos, e daí a ação se desenrola. Mas o usurpador da herança ainda precisa ser removido, o inimigo precisa ser feito escabelo dos pés do Parente, e quer a ação seja propriamente de Deus, quer seja do próprio Cordeiro, o caráter da ação, a meu ver, é igualmente claro e certo. A ação é a redenção da herança que flui do título reconhecido do Senhor. O livro tomado pelo Cordeiro é a escritura de propriedade; e que seja assim, e não um livro de instrução para Ele como Profeta da Igreja, ou qualquer outra coisa que não seja esta escritura de propriedade que diz respeito à herança da Igreja na Terra, parece-me evidente, a partir de diversas considerações.

Primeiro. Porque ela estava nas mãos de Deus Todo-Poderoso, o Criador de todas as coisas, antes de Ele a receber.

Segundo. Porque ela é tomada pelo Senhor como o Cordeiro imolado e como o Leão de Judá, características de poder e força.

Terceiro. Porque, ao conquistá-la, a Igreja canta em perspectiva de seu domínio sobre a Terra. Os anjos, que antes eram ministros do poder na Terra, transferem tudo isso para o Cordeiro, e a criação cessa seus gemidos em louvor.

Essas testemunhas confirmam, no meu pensamento, a natureza do livro que o Cordeiro toma, e o livro do Apocalipse está em consonância com isso.

É a história da redenção da herança; refiro-me, é claro, à segunda parte dele, depois do capítulo 3. É o Josué do Novo Testamento. Ela ocupa o mesmo lugar na história dos atos do Senhor no Novo Testamento assim como o livro de Josué ocupa na história dos atos do Senhor no Velho Testamento. Registra a maneira de redimir a herança, como aquele livro o fez, e sem os seus atos como registrados em Josué, os caminhos do Senhor nos tempos antigos teriam sido imperfeitos.

Do Egito, Ele havia resgatado o herdeiro por intermédio de Moisés; havia educado-o e instruído-o no deserto, preparando-o assim para o descanso em Canaã, mas ainda precisava resgatar Canaã das mãos dos amorreus, e esse Seu ato está registrado em Josué. Então, e somente então, o Senhor percorreu todo o curso de Sua misericórdia e poder; e assim, sem o livro do Apocalipse, o registro dos atos do Senhor teria sido igualmente incompleto. Os evangelhos e as epístolas nos contam, assim como o livro de Moisés, sobre o resgate do herdeiro e sua educação no deserto deste presente século (mundo) mau, mas agora é este livro final do Apocalipse que nos fala da redenção da herança, e então, concluindo e completando, de forma adequada, os atos perfeitos do Senhor em favor da Igreja de Deus.

Se nenhum parente fosse encontrado capaz ou disposto a resgatar a herança, ela retornava ao herdeiro no jubileu. O Senhor de Israel, assim, mantinha em Suas próprias mãos os meios de restaurar todas as coisas. Ele agiu como Senhor do solo e disse que a Terra era Sua (Levítico 25:23). Ele criou, por assim dizer, um arrendamento por quarenta e nove anos, retomando a terra no quinquagésimo ano e, então, a restituindo à Sua família segundo a Sua própria vontade. E assim com esta Terra, da qual a terra de Israel foi o exemplo; o homem pode tomá-la em suas próprias mãos por um tempo e, por sua cobiça, por um lado, ou por hábitos ociosos, por outro, perturbar a ordem de Deus nela. Mas um dia está chegando, o jubileu prometido e esperado, o tempo da restituição de todas as coisas, e então a Terra será trazida de volta a Deus, e Ele a restituirá à Sua família segundo os Seus próprios princípios santos e justos. Gostaria de observar aqui que os sacrifícios podem ser permitidos entre os Judeus no reino, para manter viva a memória do sangue do Cordeiro, que foi o preço e a compra do reino.

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