O que é a Ceia do Senhor

Capa

Publicada originalmente pela
Bible Truth Publishers

Comprar Impresso
Baixar EPUB
Ler Online

O QUE É A CEIA DO SENHOR

1 CORÍNTIOS 11:20

O assunto sobre o qual desejo falar com vocês esta noite é algo que diz respeito não apenas a vocês, mas principalmente ao Senhor. Devo tratar, em outra ocasião, se Deus quiser, de outro tema que também diz respeito ao Senhor, e não apenas aos Cristãos. Na verdade, é notável que essas sejam as únicas duas aplicações de uma palavra especial que o Espírito de Deus usou no Novo Testamento. Nem todo estudioso percebeu ou deu a devida importância ao fato de que as expressões “partir o pão” e “primeiro dia da semana” são chamados de κυριακός (kuriakós – pertencente ao Senhor) e somente essas duas. Mesmo a expressão “mesa do Senhor” ainda não tem a mesma forma de enunciação; e não tenho dúvidas de que há sabedoria divina em fazer assim uma diferença, por mais insignificante que possa parecer. A ceia do Senhor tem como verdade central a Sua morte, enquanto o dia do Senhor está relacionado à Sua ressurreição. Em ambos os casos, o ponto principal é que cada um é santo para o Senhor, pertencendo a Ele de maneira especial – não apenas de forma geral, mas de maneira tão estrita que o Espírito de Deus usa para eles um termo que não é usado em nenhum outro lugar. Pode-se encontrar uma razão para essa mudança de palavra. Observar isso não é sem importância, pois nossa sabedoria está em aprender d’Ele por meio de Sua Palavra. Muitos podem considerar isso trivial, mas há um poder nas exatas palavras usadas pelo Espírito de Deus que permanecerá quando todos os sentimentos meramente humanos, bem como os raciocínios, desaparecerem, de modo que apenas o que é divino governe o coração e a mente do crente.

A ceia do Senhor difere de outra instituição permanente do Cristianismo porque, enquanto o batismo é essencialmente individual, o partimento do pão é distintamente congregacional. A individualidade do desfrute do momento não é de forma alguma o pensamento da ceia, mas sim a comunhão. No Cristianismo é dada a maior importância e abrangência àquilo que é individual; e precisamos disso, pois é a primeira coisa tanto para Deus quanto para o homem, e deveria ter precedência sobre tudo o mais. Nunca está certo uma alma que se dispersa na multidão. A primeira coisa necessária é que a alma esteja ajustada corretamente com o Senhor por meio de Sua graça.

Sendo o batismo uma questão individual, nele cada alma é chamada a se revestir de Cristo como sinal de Sua morte; pois “todos quantos fomos batizados em Jesus Cristo fomos batizados na Sua morte. De sorte que fomos sepultados com Ele pelo batismo na morte” (Rm 6:3-4). Sepultamento na Sua morte – esse é o pensamento; mas é individual, mesmo que muitas pessoas tenham sido batizadas ao mesmo tempo. Não existe comunhão uns com os outros no batismo. O batismo por procuração1 é um absurdo, se não for algo pior. O batismo Cristão é a confissão da morte de Cristo. Lá a alma é colocada sob solene responsabilidade, embora seja também um imenso privilégio, porque aquele que é assim batizado está obrigado a andar como alguém vivo dentre os mortos; mas isto não tem nada a ver com os outros – é responsabilidade própria, e é totalmente independente da associação com eles.

Na ceia do Senhor é outra coisa completamente diferente. Não foi uma mera circunstância que os discípulos estivessem reunidos quando o Senhor a instituiu; a reunião deles para participarem juntos não é apenas um fato, mas um princípio.

Portanto, é continuamente enfatizado como uma doutrina. Não há na Escritura, ou no sentido da instituição, algo como alguém privadamente partindo o pão e tomando o vinho em memória de Cristo sozinho; fazer isso seria um erro a ser perdoado. Toda a força e bem-aventurança da ceia do Senhor consiste nisso, não apenas no fato de ser essencialmente um ato em comum, mas no fato de ser baseada na verdade do um só corpo de Cristo. Sendo a expressão coletiva da nossa adoração a Cristo, qualquer coisa que não deixe espaço completo para cada membro do Seu corpo, caminhando como tal, destrói (até onde alcança) o propósito e o caráter da ceia do Senhor. Claro que não é que em cada cidade todos pudessem comer juntos no mesmo lugar; mas, mesmo que comam em muitos lugares diferentes, deve ser no mesmo terreno e em verdadeira intercomunhão. O próprio princípio abrange os santos que andam como tal em todo o mundo: qualquer que não faça isso não é a ceia do Senhor que está celebrando.

Há outra observação que devo fazer. Não apenas o batismo Cristão estava sujeito a ser pervertido (e todo Cristão concordará que isso tem sido o caso em toda a Cristandade), mas a ceia do Senhor estava ainda mais sujeita a ser usada incorretamente. Se o batismo Cristão foi ou não pervertido nos tempos apostólicos, não abordarei agora. No entanto, é certo que a ceia do Senhor foi quase imediatamente. Ela estava mais exposta a ter seu caráter esquecido e distorcido, porque é uma questão de comunhão espiritual. A Primeira Epístola aos Coríntios testemunha isso. Mesmo nos tempos apostólicos, o Espírito de Deus a registrou claramente, embora cheia de vergonha e tristeza. Quão grande a humilhação e quão profunda a tristeza para o apóstolo expô-la! Pois qual foi a culpa deles senão a vergonha e tristeza comuns a todos “Se um membro padece, todos os membros padecem com ele” (1 Co 12:26). Não é apenas que eles deveriam sofrer, mas supõe-se que o façam. Embora escrever o capítulo onze de 1 Coríntios fosse espalhar e até perpetuar as más notícias, o Espírito de Deus sentiu que era necessário para o bem deles e para o bem-estar de toda a assembleia. Esta triste falha deve ser apresentada de forma justa a eles e agora deixado nas páginas de inspiração divina para nossa advertência e instrução de todos que valorizam a mente e a vontade de Deus.

A maneira pela qual o uso incorreto da ceia do Senhor ocorreu em Corinto é altamente instrutivo. Os coríntios valorizavam o caráter social do Cristianismo mais do que os modernos, e isso é uma característica muito valiosa. Naqueles primeiros dias, os Cristãos gostavam de ver seus irmãos juntos e depois participavam juntos de uma festa de amor. Sem dúvida não faltavam razões plausíveis para unir isso à ceia do Senhor. Como todos estavam reunidos, seria uma economia de tempo; por que não fazer as duas coisas juntas na mesma ocasião? Não foi assim na última páscoa?

Se me permitem, muitos Cristãos hoje estão dispostos a participar da ceia do Senhor juntos, mas hesitariam em compartilhar uma simples refeição. No entanto, os coríntios ainda não haviam perdido de vista os laços que unem a santa irmandade. Eles tinham um senso muito mais elevado disso do que muitos que gostam de falar de suas falhas. No entanto, seu baixo estado espiritual os expôs ao mal e ao erro; e esse mesmo efeito, não sendo corrigido no Espírito, revelou seu estado carnal. Havia leviandade entre eles, uma condição moral baixa . Nessas festas de amor, cada um trazia sua própria comida, como na festa de convívio (ou ἔρανοςs) dos gregos. Isso era, na verdade, uma refeição de contribuição. Que decadência do Cristianismo para a prática pagã, quando cada um trazia o seu; e assim os ricos vinham com abundância, e os pobres tinham pouco ou nada para trazer! Assim, o efeito de se reunirem para essas festas era que o egoísmo, não o amor, os caracterizava. Aqueles que tinham muito logo provaram como é fácil ter demais; aqueles que eram pobres sentiram isso nessas ocasiões. Assim, toda a cena se tornou um reflexo, não de Deus e Sua graça, mas do mundo, para a confusão de todos os que amavam o Senhor e Sua Igreja; e a festa mais santa na Terra – a ceia do Senhor para a Igreja de Deus – foi arrastada para a desgraça que cobriu a todos. Na verdade, o estado deles naquele momento era tal que trouxe a mão de Deus em julgamento sobre Seu povo. Isso e muito mais é o que temos diante de nós aqui.

Muitos se perguntam como isso poderia acontecer na “Igreja de Deus”, e alguns chegam ao ponto de fazer comparações e tirar conclusões favoráveis a si mesmos e à sua época. O Espírito de Deus nunca levaria a tal pensamento. Sempre que você lê a Palavra de Deus de forma a pensar muito bem de si mesmo e depreciativamente daqueles que viveram antes, é uma prova evidente de que você não a lê corretamente ou não entende o objetivo do Espírito Santo no que Ele registra. “A Palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes” (Hb 4:12) e somente aqueles que a leem para proveito são os que se julgam por ela e não por seus irmãos, e ainda menos por aqueles dos tempos primitivos. Deixe-me perguntar a cada um: com quem vocês estão se comparando? Vocês comparam seus caminhos com os dos coríntios quando foram enganados pelo inimigo? Quão mais sábio é julgar a si mesmos, não pelo que os coríntios caíram, mas pelo que o apóstolo escreveu, pelo que o Senhor instituiu! E que ninguém pense que isso é muito áspero; pois é justo perguntar: quem tem o direito de alterar as instituições de Cristo? A Igreja tem tal licença? Pelo contrário, ela não é chamada a submeter-se ao Senhor como uma virgem desposada com Ele? Quem pensaria bem do caráter de alguém que se colocasse contra o marido? Mas isso é apenas uma pequena parte do que a Cristandade fez – aproveitando-se do nome d’Ele para falar com orgulho e agir de forma independente, para não dizer maliciosamente, e especialmente aquela Igreja que afirma não ter alterado nada, considerando que pouco resta a ela de Cristo em verdade, amor e santidade.

Mas olhemos para a Escritura, não para condenar Roma, mas para julgar a nós mesmos. Vamos buscar e ver até que ponto estamos fazendo a vontade do Senhor. Como saberemos que estamos agradando a Cristo? A Palavra do Senhor é nosso único guia seguro.

Temos a descrição da instituição da ceia do Senhor dada a nós em três dos Evangelhos, em Mateus, Marcos e Lucas. A vida eterna e o dom do Espírito Santo são os grandes temas de João. Nem o batismo nem a ceia do Senhor entram em seu Evangelho ou em suas Epístolas; mas nos Evangelhos históricos temos um relato completo.

O apóstolo Paulo também teve uma nova revelação sobre a ceia do Senhor, não sobre o batismo. Ele nos diz expressamente que o Senhor não o enviou para batizar, mas para pregar o evangelho: duvido que os outros apóstolos pudessem ter dito isso. Eles receberam por Ele mesmo a comissão de batizar. “Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” (Mt 28:19 – ACF) Mas o apóstolo Paulo não foi encarregado da mesma forma, sendo chamado desde o céu. Desde a sua conversão, ele aprendeu a respeito da união da assembleia com Cristo. Disso, a ceia do Senhor, e não o batismo, era o sinal adequado, e isso lhe foi revelado, embora, é claro, ele tenha sido batizado e tenha batizado como qualquer outro.

O batismo é a confissão de Cristo, destacadamente da morte e ressurreição de Cristo. A ceia do Senhor é a expressão da união com Cristo, fundada na Sua morte, que agora está no alto. Aqueles que participam do único pão são o único corpo de Cristo, é o importante conceito da ceia do Senhor, bem como o anúncio de Sua morte. Portanto, o apóstolo Paulo, que acima de tudo deu a conhecer o mistério de Cristo e a Igreja, tem uma revelação especial sobre isso, dada a Ele do céu. Então ele diz: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão” (1 Co 11:23). Agora, nada chama mais a atenção do que a extrema simplicidade dos materiais que o Senhor teve o prazer de usar em Sua ceia. Ele tomou o pão. Não há nada mais comum do que pão. Ele abençoou, partiu e lhes deu, enquanto todos permaneceram na mesma posição. Ele abençoou; mas não há aqui o pensamento de consagração, muito menos de consubstanciação, ou de transubstanciação. Ele deu graças; mas Ele fez exatamente o mesmo ao distribuir os cinco pães de cevada e dois peixes, quando ninguém, suponho, diria que eles foram consagrados ou mudados. É uma mera ilusão conceber que houve qualquer mudança nos elementos. A Escritura não sugere nada disso, mas sim, de fato, e muito expressamente, o contrário. Os discípulos comeram pão e beberam vinho; e o ponto principal da bênção é o poder da fé entrando e aplicando o que tinha antes, embora fossem os mais simples materiais, com as associações mais profundas da graça de Deus na morte de Seu Filho amado.

Qualquer esquema que exalte os elementos ou engrandeça aqueles que “administram” aos comungantes está se afastando de Cristo. Todos os acessórios visuais ou auditivos que o acompanham são acréscimos puramente humanos e contrários à Sua Palavra. A Escritura os repudiam como não sendo do Espírito, mas do primeiro homem, não do Segundo. A ceia do Senhor pertence a Ele, e a Ele de forma tão especial, que introduzir qualquer outra coisa é menosprezá-Lo, sendo uma violação à Sua glória celestial, bem como à cruz, pela qual o mundo está crucificado para o Senhor, e o santo para o mundo. Pois aquele que tem a Sua Palavra e a guarda, esse é o que O ama (Jo 14:21). É em vão pensar que nos importamos com Sua glória se desprezamos a Escritura que a revela.

Ele diz a todos os Seus: “Tomai, comei” (vós). Não é dito “Tome (tu), coma” (você), porque o “você” traria individualidade; e isso nunca é o pensamento da ceia do Senhor, mas o corpo. Todo o ponto da ceia do Senhor é a comunhão na lembrança de Cristo, mas de Cristo na Sua morte. Cristo é tudo, e a bênção comum de todos está em e com Cristo.

A festa de amor foi o que podemos chamar de ceia dos Cristãos; esse era o seu objetivo principal. Era a festa deles; mas a ceia do Senhor é muito mais do que a ceia deles. Nela, portanto, longe de uma pessoa comer ou beber apenas para si, tem em mente abranger todo o corpo de Cristo, exceto aqueles que podem estar fora de comunhão por disciplina. Qualquer coisa que estreite esse círculo santo, seja em princípio ou na prática, infringe a intenção do Senhor em Sua ceia. Portanto, no momento em que você acrescenta qualquer doutrina peculiar, admitindo à ceia apenas aqueles que virtual ou expressamente concordam com esse acréscimo, você faz dela a sua ceia e não a do Senhor. Se formos guiados por Ele, nos reunimos lá como membros de Seu corpo, e tudo o mais, exceto Ele próprio, é deixado de lado como secundário.

Nada pode ser mais valioso em seu lugar, e para os fins de Deus, do que o ministério Cristão. Ele abrange tanto o governo quanto ao ensino, ao pastoreio e à pregação. Existem aqueles que podem ensinar, mas que não têm o poder de governar, assim como outros que podem governar bem, tendo grande peso moral, que não sabem ensinar. Alguns, igualmente, têm o dom de pregar aos não convertidos que precisam de ensino e não estão, de forma alguma, preparados para liderar, esclarecer e estabelecer a Igreja de Deus. Nem o dom para o ministério por si só supõe peso moral para governar; e assim vemos nos fatos de cada dia.

O ministério Cristão foi estabelecido pelo Senhor que morreu por nós, mas a fonte dele foi quando Ele subiu ao céu. Ele deu dons aos homens, mas os deu depois que subiu ao alto (Ef 4:8-11).

Isto é muito importante; pois se o ministério Cristão tivesse começado enquanto Cristo estava na Terra, poderia ser dito que as coisas mudaram completamente desde então. Mas não houve nenhuma mudança para Cristo, mas apenas, infelizmente, entre os Cristãos desde que Ele subiu ao céu. Ele é a Cabeça ressuscitada tanto agora como antes.

Quando o Senhor Jesus estava aqui embaixo, enviou doze apóstolos em relação às doze tribos de Israel; assim como enviou os setenta depois com uma mensagem final; mas ainda em testemunho a Israel. Isso foi um testemunho Cristão? Não. Foi depois da Sua ascensão que Ele deu dons aos homens – apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e mestres. Não que estes sejam todos os dons, mas os mencionados em Efésios 4, são suficientes para o meu propósito agora.

Quando o Senhor Jesus morreu, ressuscitou e foi para o céu, Ele então, da glória de Sua ascensão, deu dons aos homens. Era uma nova fonte de abastecimento vinda de cima. O que Ele fez publicamente quando esteve na Terra foi dar testemunho a Israel. Os discípulos foram até proibidos de pregar aos samaritanos ou aos gentios. Portanto, isso não poderia ser um ministério Cristão. Sem dúvida aqueles anteriormente usados foram agora enviados novamente, mas tinham uma nova missão quando Cristo subiu ao céu. Cristo, então, eu pergunto, deixou de dar dons aos homens? Ou Ele ainda é reconhecido por nós como o Cabeça da Igreja, não apenas em palavras, mas em ação e em verdade? E aqueles que, na prática e nos princípios, negam isso e tomam o Seu lugar, não estão realmente conspirando contra Ele e Seus direitos como a fonte de todos os dons para a Igreja? Roma é a principal conspiradora contra a Cabeça de Cristo. Babilônia – a falsa senhora, a pretensa rainha – não estava satisfeita em ser submissa e é sempre vista como uma prostituta que será julgada por Deus. Tome cuidado para não cair no mesmo erro de negar a Cabeça de Cristo de outra forma, para não falar de nenhuma outra corrupção.

Longe de questionar o ministério Cristão, considero-o uma instituição divina e permanente. Se outros pleiteiam mudanças, considero que, se for divino, é o mesmo agora que quando Cristo primeiro subiu. Cristo, e somente Cristo, por meio do Espírito Santo, tem autoridade em Suas mãos. Ele dá dons e elege ministros. Sinto que faz parte do meu trabalho em Seu nome lembrar aos santos do que eles esqueceram, ao fazer com que a Igreja estabeleça os ministros, em vez de se curvar a Cristo nessa questão. Somente Cristo tem o título de Cabeça de Sua Igreja; e o Espírito Santo desceu como o Único competente para realizar Sua mente na Terra de acordo com a Palavra escrita de Deus.

Mas quero que você veja que, embora defendamos o lugar do ministério Cristão e não desprezemos nenhum dos ministros de Cristo – reconhecendo todos os que são realmente Seus e desconsiderando todos os que não o são – enquanto mantemos isso plenamente, ainda assim há uma ocasião em que todas as distinções desaparecem, onde somente Um é, ou deveria ser proeminente, o próprio Cristo e Sua graça para conosco; onde, não importa qual seja a nossa posição e a posição na Igreja, tudo naquele momento dá lugar a Cristo e à Sua morte; e esta ocasião é a ceia do Senhor. É precioso deixar que todo o resto se perca de vista e nada ter diante da alma senão Ele próprio, que morreu por nós em amor infinito. Isso é o que o Senhor (na noite em que foi traído) recomendou aos santos. É isso que Ele quer que façamos em Sua memória até que Ele venha. É bom até mesmo para os mais ricamente dotados que não estejam sempre na posição de dar; e é bom que os santos mais pobres não estejam sempre recebendo. Caso contrário, um evangelista poderia ficar tão ocupado ganhando almas que esqueceria que tem uma alma própria para louvar e lembrar do Senhor; e assim é com todos os outros dons. “Me puseram por guarda de vinhas; a vinha que me pertence não guardei” (Ct 1:6). É bom para o coração de qualquer homem que, não importa qual seja o seu dom, tenha um pouco de tempo tranquilo para Cristo, o Senhor, e que esses momentos de silêncio não sejam muito raros.

Tudo isso é amplamente proporcionado na ceia do Senhor. É abençoado e saudável para a alma ter momentos em que não está ocupada nem em pregar nem em ouvir um sermão. É abençoado quando até mesmo o apóstolo se mistura com os santos, quando nós, como um todo, somos chamados a estar ocupado apenas com a lembrança de Cristo. Há uma festa proporcionada pelo Seu amor, na qual todos podemos desfrutar d’Ele juntos e desfrutá-Lo plenamente; pois Ele não quer que tratemos Seu amor como algo duvidoso ou um som incerto. Pelo contrário, Ele deseja que a nossa alegria seja completa; mas se você não valoriza esta festa, pelo que ela é em sua própria natureza e pelo amor d’Ele que te convida, não é de admirar que você não a desfrute. Se você participa de um rito que leva Seu nome, mas que esteja alterado em seu caráter, como pode esperar que seja a festa para a qual Ele o convida e que tenha a garantia de Sua presença? Alguns fazem da “eucaristia” um ídolo e adoram os seus elementos; outros, fugindo da idolatria de Roma, parecem ter esquecido a Sua Palavra e ter colocado Sua ceia em lugar nenhum, a não ser como um sombrio apêndice do sermão, e isso uma ou duas vezes por ano.

Os primeiros discípulos não se reuniam uma vez por mês, nem uma vez por trimestre, nem uma vez por ano, mas todo primeiro dia da semana para partir o pão. E garanto-lhe que não fui eu ou outros que colocaram isso na Palavra de Deus. Não é uma Bíblia estranha, mas a sua, que estou lendo para você. Não se trata de uma nova teoria ou noção dos modernos ou dos antepassados, mas sim do que Deus escreveu. Acaso isso não lhe diz respeito tanto quanto a mim? Falo da festa de Cristo para os Seus discípulos, para o que de modo especial diz respeito a vocês, filhos de Deus, ainda mais a Cristo e à Sua glória.

Lembro-me do tempo em que a ceia do Senhor era motivo de temor e pavor, pelo medo de que alguém caísse na condenação que está escrita aqui – come e bebe “condenação”, se tornando culpado do corpo e do sangue do Senhor. Não é de admirar que uma pessoa diante de um perigo tão terrível não pudesse desfrutar da ceia do Senhor; e sendo um crente, sem ninguém para me mostrar algo melhor, ela era um fardo tremendo para mim. Não era uma festa, mas um jejum da mais solene descrição. Não era uma perversão da ceia do Senhor produzir tal resultado? Claro que era. Nem o meu caso foi singular. Não me considere desviando do que é importante para as almas ao lhes contar dessa experiência pessoal. Infelizmente, a condição de muitas almas agora é algo semelhante.

Mas o Senhor Jesus morreu na cruz para sofrer pelos pecados dos crentes e apagá-los. Sim, Ele glorificou a Deus com respeito ao pecado, em vez de deixá-lo permanecer como um insulto perpétuo a Deus. Ele, o Filho de Deus, tendo descido sob o pecado em amor, e ressuscitado sem o pecado em justiça, a partir da glória da Sua ascensão deu estas palavras a Paulo para nós. Elas procedem, na infinita graça de Deus, do Senhor e Salvador que dá testemunho do juízo suportado por nós, da ressurreição consumada, da ascensão que nos foi revelada em toda a sua glória: daí o Senhor nos recomenda esta instituição de Sua graça. Não trate isso como um mero mandamento e, portanto, um meio de graça para aqueles que não têm fé. É um chamado de amor, abraçando todos os que são d’Ele, e apenas para Ele, pela fé: “Fazei isto em memória de Mim”! Não é para aqueles que, desprezando Seu amor, não O amam.

Preciso eu argumentar mais sobre para quem é isso? As únicas pessoas que têm um mínimo direito à ceia do Senhor são aquelas que descansam n’Ele e em Sua redenção. Você pode até ser convertido e não estar em condições de participar desta festa. Pois o estado Cristão é mais do que ser convertido (isto é, pela graça desviar-se dos maus caminhos para Deus). Além disso, o Cristão crê no evangelho da sua salvação; ele tem paz com Deus, sendo justificado pela fé. Ele não está esperando pela justiça, mas foi feito justiça de Deus em Cristo. Ele está, portanto, aguardando pela esperança da justiça, ou seja, pela glória. Não obtemos a justiça quando vamos para o céu. É aqui que a temos pela graça, sendo o objetivo glorificar a Cristo quando estamos na presença de Seus inimigos e agora somos chamados a servi-Lo. É aqui que estamos para confessar, pela fé em Sua cruz e glória, quão verdadeiramente todo o mal já está julgado e como todo o bem já foi dado em Cristo por nosso Deus e Pai.

Por que uma pessoa vem à mesa do Senhor? É para despejar suas dúvidas? Se ela as tiver, ela fará isso; mas aí seria um jejum e não um banquete. Você dificilmente gostaria disso, mesmo em suas próprias festividades. Certamente você não gostaria de ter num banquete de casamento alguém com coração e rosto sombrios: isso desmereceria o noivo e a noiva, e poderia estragar tudo para todos os outros. Você diria que é melhor que tal pessoa se afastar; e quanto mais você amasse, menos desejaria sua presença assim, porque sua tristeza seria um fardo maior para todos os envolvidos. Seria uma fraca prova de amor ser indiferente aos seus problemas e ficar igualmente alegre diante de tal quebra de comunhão, para não falar de decoro.

A alma perturbada com dúvidas e medos teria melhor proveito em olhar para Cristo e ouvir o evangelho de Deus. A ceia do Senhor é a melhor e mais santa festa da Terra; mas, qualquer coisa que não seja consistente com Sua presença em paz, liberdade e amor não é adequado para ela.

O ministério não se destina a fornecer, adornar ou guardar a mesa; até mesmo um apóstolo vem a ela meramente como um santo. O ministério tem que lidar com as almas, pregar o evangelho, dar alimento no devido tempo, guiar, instruir, corrigir e repreender. Mas na ceia do Senhor, participamos adequadamente apenas como membros do corpo de Cristo – como uma vez pecadores, mas agora santos, justificados, felizes por causa do amor de Cristo, cheios de paz e gozo na fé. Estamos andando na luz: este é o lugar do Cristão; mas o próximo ponto é que devemos andar de acordo com a luz em que estamos. Este é o objetivo do ministério, ao lidar com os santos, para prepará-los e mantê-los em seu lugar à mesa do Senhor. Assim, a ceia do Senhor é o fim prático, podemos dizer, do ministério; e o fim é maior que os meios.

Eu hesitaria em chamá-la de ceia do Senhor quando não é tomada de acordo com a própria instituição do Senhor. No entanto, podemos notar que há uma diferença na maneira como o apóstolo fala em 1 Coríntios 10 em comparação com a linguagem do capítulo 11: “Porventura, o cálice de bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é, porventura, a comunhão do corpo de Cristo?” (1 Co 10:16). Nesta passagem, não se trata da ceia do Senhor vista de dentro, ou seja, não é o estado daqueles que dela participam. Nem o estado certo nem o estado incorreto deles são o ponto aqui discutido, mas sim a comunhão com Cristo em comparação com o que estava fora. É uma visão externa. O apóstolo está comparando isso com o que o Judeu ou o gentio tinha. Não se trata da visão interna de comer dignamente ou não; mas, contrastando o Judeu e o gentio em sua adoração, ele prossegue para mostrar qual é a natureza da comunhão da Igreja. “Porque nós, sendo muitos, somos um só pão e um só corpo; porque todos participamos do mesmo pão” (1 Co 10:17).

A expressão “mesa dos demônios” tem sido aplicada, de uma forma insensata, ao que não é celebrado de acordo com a própria instituição do Senhor. Este certamente não é o significado das palavras do apóstolo, mas, na minha opinião, um erro grave por parte daqueles que as aplicaram. O apóstolo está contrastando o que o Cristão tem com o que o Judeu tinha, por um lado, e o que o gentio tinha, por outro. O que os gentios sacrificavam era aos demônios. O ídolo pode não ser nada; mas o perigo deles estava em esquecer o demônio que estava por trás disso; e é uma coisa perigosa e também ímpia ter a ver com demônios. Mas se você vai a essas festas idólatras, você está se corrompendo, você está tendo comunhão com demônios.

Israel, por outro lado, teve as suas ofertas de paz. Elas eram o símbolo de comunhão com o altar de Jeová; enquanto a Igreja de Deus, como ele mostra, é tão distinta dos Judeus quanto dos gentios.

Assim, o apóstolo está contrastando ambos com a mesa do Senhor que os Cristãos têm.

Mas no capítulo 11 ele está tratando com o estado de alma daqueles que regularmente participam da ceia do Senhor. É uma questão de os Cristãos estarem participando correta ou incorretamente. Se você conhece a alegria de recordar a morte do Senhor, não se satisfaça apenas com o fato de ser Cristão. Você é considerado digno pelo sangue do Cordeiro de participar dessa ceia; mas examine-se para ver se você está participando de maneira digna.

Como pode um Cristão participar disso de maneira indigna? Se chegar o dia e você simplesmente for a ela como um hábito religioso, isso é muito semelhante a uma participação indigna. A familiaridade gera desprezo onde a alma não é exercitada; onde o julgamento próprio é mantido, o espírito de adoração é fortalecido e ampliado. Você vai à ceia do Senhor pela manhã com praticamente o mesmo espírito que vai ao seu jantar à noite? Certamente esta não é uma maneira digna. Não que você deva ir a qualquer reunião ou mesmo a uma refeição levianamente, mas com seriedade. Ainda assim, a ceia do Senhor faz um específico apelo à consciência, pois tem um lugar especial para o coração. Esta não é uma teoria, mas a doutrina de Deus em 1 Coríntios 11.

Quanto à noção de que você pode ter a ceia do Senhor sem a mesa do Senhor, é uma coisa indigna para Cristãos sóbrios. Podemos distinguir aquilo que não devemos separar. Todas essas especulações são apenas fruto da negligência com uma reduzida atividade mental, mas mesmo assim prejudiciais à fé e à prática.

Agora, falo com vocês que não têm dúvidas. Seu perigo é vir para a ceia do Senhor sem pesar adequadamente seus caminhos e o estado do coração. “Examine-se o homem a si mesmo”, não para ver se é Cristão, como alguns dizem. Mas, se estamos assegurados da salvação como deveríamos estar, o Senhor deseja que haja um exame solene do coração e um desafio à alma todas as vezes, com o objetivo de vermos em que espírito e estado estamos nos aproximando da ceia do Senhor. Aquele que come e bebe indignamente é culpado em relação ao corpo e ao sangue do Senhor; pois ele não cai em pequena ofensa quanto a Cristo, quando trata Sua ceia com irreverência. Consequentemente, o Senhor não deixa de intervir e reivindicar a honra de Seu nome assim desprezado, e de julgar, como vemos que Ele fez em Corinto.

Ele não supõe que, quando um homem se examina, ele deva se afastar. “Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma”. É bom inquirir, julgar e censurar a si mesmo. Pois sempre se presume que um Cristão é alguém que está aqui para obedecer ao Senhor e agradar a Deus. Assim, participar indignamente não significa que o comungante não seja Cristão, mas que o Cristão participa sem o devido exame e julgamento de si próprio.

Mas, novamente, a palavra “condenação” (1 Co 11:29 – ARC) aqui está completamente errada. A palavra κρίμα (krima – pena) deveria ser traduzida como “juízo” (ARA). O único significado possível da palavra aqui é simplesmente juízo neste mundo. O contexto é decisivo e claro para dar este sentido, mesmo para aqueles que não têm conhecimento da língua em que o Espírito Santo escreveu. Os santos têm que julgar a si mesmos para que não sejam condenados (ou julgados) com o mundo.

Assim, a solene guarda do Senhor entra para manter a seriedade e a santidade entre aqueles que participam, sob pena de Seu julgamento agora.

Quando uma pessoa começa a ser descuidada, a primeira ação do Senhor é fazê-la sentir-se miserável e angustiada com relação aos seus caminhos, aplicando a Palavra à sua dor. Se ela se curvar à Palavra, está tudo bem; será humilhada e caminhará mais suavemente no futuro. Se está endurecida por não dar ouvidos à Palavra, então entra o trabalho daqueles que estão sobre ela no Senhor para admoestar, suplicar ou repreender, buscando restaurá-la. Um pouco de mal não julgado sempre leva a muito mais mal. Se aqueles que se reúnem em assembleia estão em mau estado e falham, o Senhor nunca deixa de intervir e julgá-los aqui por meio de doença ou até mesmo pela morte. Esse é o significado de “pecado para morte”. É a morte neste mundo. Assim, Ananias e Safira pecaram para a morte. O tempo e as circunstâncias tornaram o pecado deles mais horrível e trouxeram sobre eles o julgamento implacável do Senhor de uma forma peculiarmente solene; mas o princípio é o mesmo.

W. Kelly

Compartilhar
Rolar para cima