Origem: Revista O Cristão – Moisés

Moisés, o Servo do Senhor

Um grande princípio em todo verdadeiro serviço é a consciência de ser sustentado nele por Deus. Foi assim com o Servo perfeito, o Senhor Jesus Cristo. “Eis aqui o Meu Servo, a Quem sustenho, o Meu Eleito, em Quem se compraz a Minha alma” (Is 42:1). A grande característica em Seu serviço era que Ele nunca agiu por Si Mesmo. “Eu não posso de Mim mesmo fazer coisa alguma. Como ouço, assim julgo; e o Meu juízo é justo, porque não busco a Minha vontade, mas a vontade do Pai que Me enviou” (Jo 5:30). No momento em que um servo age de forma independente, ele age por si mesmo e fora de caráter.

Sempre que estivermos vivendo diante dos homens, e não diante de Deus, haverá inquietação e perturbação. Pode haver o desejo de fazer muitas coisas que estão escritas na Palavra, mas elas não serão feitas com gozo tranquilo e pacífico. Nunca somos realmente preservados da hipocrisia, a menos que estejamos vivendo diante de Deus. É a melhor cura possível para o orgulho presunçoso que está presente por natureza em todos nós.

Vamos dar uma olhada na experiência de Moisés. A vida de Moisés é dividida em três períodos distintos de quarenta anos cada. A maioria dos seus primeiros quarenta anos foram vividos no Egito como o “filho da filha de Faraó”.

Os quarenta anos seguintes foram passados no deserto, apascentando o rebanho de seu sogro. Lá, no monte de Deus, ele teve uma visão da glória como nunca poderia ter sido revelada a ele no Egito.

Nos últimos quarenta anos, temos o relato do árduo e penoso curso que ele teve que percorrer, como servo de Deus e de seu povo Israel, levando sobre si o fardo desse povo.

Moisés no Egito 

A primeira parte de sua vida foi passada no Egito. Estevão fala dele como sendo “instruído em toda a ciência dos egípcios; e era poderoso em suas palavras e obras” (At 7:22). Mas essa sabedoria do Egito era insuficiente para libertar Israel. Sem dúvida, Moisés sabia que Deus estava prestes a usá-lo como o “libertador” do Seu povo, mas aquilo que havia sido adquirido no Egito não poderia libertar do Egito o povo do Senhor.

“E, quando completou a idade de quarenta anos, veio-lhe ao coração ir visitar seus irmãos, os filhos de Israel” (At 7:23). Qualquer que seja a tranquilidade e o conforto que Moisés possa ter desfrutado na casa de Faraó, seu coração ansiava por seus irmãos. Ele foi até seus irmãos e olhou para o fardo deles. “E, vendo maltratado um deles, o defendeu, e vingou o ofendido, matando o egípcio” (At 7:24). Moisés era “poderoso emações”, também em favor do povo de Deus, mas agindo na energia da carne, não como enviado por Deus; Moisés estava pensando em como ele haveria libertar o povo. Como resultado, “ele cuidava que seus irmãos entenderiam que Deus lhes havia de dar a liberdade pela sua mão; mas eles não entenderam” (At 7:25). Moisés teve que aprender que Deus seria servido apenas pelo poder e força que vêm de Si mesmo, e não pela força ou sabedoria do Egito.

A terra de Midiã 

Quando Moisés havia passado quarenta anos no deserto, fazendo, por assim dizer, nada, nós o encontramos respondendo à mensagem de Deus: “Vem agora, pois, e Eu te enviarei”, com as palavras: “Quem sou eu, que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?” (Êx 3:10-11). E é sempre assim. Quando um santo sente que ele é enviado por Deus em qualquer missão, há sempre a mais profunda prostração de espírito. O fim do treinamento de Deus é quebrar a confiança própria, de modo que, quando finalmente a pessoa sai em serviço, é com o sentimento: “Quem sou eu?” Uma grande característica da carne que adquirimos por termos estado tanto tempo no “Egito” é a relutância em dizer: “Quem sou eu?” Mas Deus deve produzir esse estado de espírito antes de nos usar. O entendimento mais cultivado, a sabedoria humana e a investigação intelectual não se sustentam no serviço de Deus.

Muitos santos seguem em frente por um tempo (talvez logo após sua conversão) movidos pelo entusiasmo e zelo da carne, fazendo coisas certas, mas não no espírito de dependência de Deus; pouco a pouco, suas energias se vão e eles se sentem totalmente inúteis, como se Deus nunca mais pudesse empregá-los em Seu serviço. Agora, essa é uma lição proveitosa, embora profundamente humilhante. O Senhor frequentemente treina um indivíduo assim para que seja muito útil na Igreja depois. O mesmo aconteceu com Moisés.

A sós com Deus 

Durante os próximos quarenta anos, Moisés está perdido para o Egito e para Israel, mas então ele está a sós com Deus. É principalmente em solitude que Deus ensina o Seu povo. O bendito Senhor buscou refrigério nesta Terra estando a sós com Deus. E este é o lugar onde o santo aprende sua própria fraqueza e a força de Deus. Ele entra nas profundezas do seu próprio mal, mas também nas profundezas da graça de Deus. Ele aprende a negar o “eu”, a subjugar a imaginação e a tudo aquilo que se exalta contra o conhecimento de Deus. Ele prova a necessidade da cruz.

Quarenta anos havia passado numa preparação em solitude, em treinamento secreto com Deus no deserto, mas havia outra coisa necessária – a manifestação da glória de Deus.

A glória de Deus 

“E, completados quarenta anos, apareceu-lhe o anjo do Senhor no deserto do monte Sinai, numa chama de fogo no meio de uma sarça” (At 7:30). “E eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia” (Êx 3:2). Nunca houve algo assim no Egito. Mas, a menos que tenhamos sabedoria para entender por que a sarça não foi consumida, não temos a verdadeira sabedoria de Deus. É impossível no Egito ver a glória do Deus vivo. Que coisa maravilhosa era que haveria uma pequena e fraca sarça, como ela era, nesta Terra, com tudo contra ela, e ainda assim nada capaz de prevalecer contra ela.

Quais terão sido os pensamentos de Moisés a respeito de toda a glória do Egito quando se voltou para ver esta “grande visão”? E quais seriam os nossos, amados, quanto ao mundo, se nossos olhos estivessem sempre e firmemente fixos na glória? Quando Moisés estava empenhado em alimentar solitariamente o rebanho no deserto, poderia haver alguns anseios sobre a glória do Egito, mas estes devem ter cessado quando ele teve essa manifestação da glória de Deus feita a ele, “o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó”.

O mesmo acontece conosco. Quando pensamos na verdadeira glória da Igreja, somos capazes de olhar para a glória do “Egito” e nos sentirmos desapegados dela, assim como desapegados da sabedoria e poder do “Egito”. Mas se nossa alma está apenas olhando para sua própria fraqueza, muito provavelmente seremos tentados a desejar o “Egito” e as coisas do “Egito”. Muitas vezes, pode haver atividade intensa no serviço, mas não o tranquilo assentar aos pés de Jesus, absorvendo de Seus lábios o conhecimento da verdade e da graça.

Note o seguinte: “Agora, pois, vem, e enviar-te-ei ao Egito. A este Moisés, ao qual haviam negado, dizendo: Quem te constituiu príncipe e juiz? a este enviou Deus como príncipe e libertador, pela mão do anjo que lhe aparecera na sarça” (At 7:34-35). Mas Deus deve tirar Moisés do Egito primeiro; Ele não poderia fazer essa comunicação com ele lá. Quando nós estamos no mundo, acontece a mesma coisa; a comunhão é interrompida.

“Moisés disse a Deus: Quem sou eu”? (Êx 3) Depois de ter adorado a Deus como um adorador descalçado, houve um recuo diante daquilo que Deus havia depositado sobre ele, embora, quarenta anos antes, ele estivesse mais ansioso para entrar no mesmo tipo de serviço. É uma coisa muito solene a ver com o povo de Deus. A responsabilidade envolvida é tal que, se deixados por nossa própria conta, devemos sucumbir sob ela.

Lidando com a vergonha e desonra 

Moisés agora sabia que aquele que quisesse servir a Israel deveria enfrentar muita vergonha e desonra. Daí a necessidade do treinamento pelo qual ele havia sido submetido. O mesmo acontece com o serviço na Igreja. Se Paulo é um “vaso escolhido”, o Senhor, ao fazer isso conhecido por Ananias, diz: “E Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo Meu nome” (At 9:15-16). E qual foi a experiência posterior de Paulo? “Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias”; mais uma vez, “Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas, ainda que, amando-vos cada vez mais, seja menos amado” (2 Co 12:10, 15).

Paulo teve a carne esmagada desde o início, esmagada novamente depois de ter sido arrebatado ao terceiro céu, esmagada por todo o caminho. Ele nunca prosseguiu no serviço na energia da carne, mas como alguém que sabia que era necessário resistir até o fim.

Quantas vezes um jovem Cristão pensa: “vou contar aos outros do amor do Senhor, e eles devem acreditar em mim”, ou “vou dizer aos Cristãos a segurança da Igreja, da vinda do Senhor, do chamado celestial dos santos e coisas semelhantes, e eles devem recebê-las”. Mas não! Precisamos aprender que não podemos carregar tudo diante de nós. Onde há a missão mais claramente confirmada por Deus, há sempre a mais profunda humildade. Paulo, ao falar de seu árduo serviço, diz: “trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo” (1 Co 15:10).

Comunhão com Deus 

A preparação para o serviço ativo se dá em secreto com Deus, aprendendo a conhecer nós mesmos em comunhão com Ele. É aí que a batalha é realmente travada. O poder para o serviço ativo não é adquirido no serviço ativo, mas em comunhão com Deus em secreto. Tudo o que fazemos no serviço, devemos fazer como adoradores. Nosso serviço será realizado em responsabilidade sentida diante de Deus, e trará bênção para os outros e para nossa própria alma.

Haveria muito mais serviço proveitoso, feliz e útil se apenas víssemos mais da ordem de Deus. Alguém pode se deleitar em ver atividade em serviço, mas então ela deve estar ligada ao estar em secreto com Deus e ao discernir o Seu propósito com relação à Igreja. Assim, serviríamos feliz e de maneira santa, não como se Deus precisasse de nosso serviço, mas como desejando glorificá-Lo em nosso corpo, que é d’Ele.

Christian Truth (adaptado)

Compartilhar
Rolar para cima