Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 1

Vigília da Manhã e Vigília Noturna

“Pilatos, querendo contentar a multidão,… e, depois de mandar açoitar a Jesus, entregou-O para ser crucificado. Os soldados levaram-No ao pátio, que é o Pretório, e reuniram toda a corte” (Mc 15:15-16 – TB).

O evangelista, falando de Pilatos, diz que ele “depois de mandar açoitar a Jesus” e, como Pilatos não foi, ele próprio, o executor dessa infame sentença, coube aos soldados romanos executá-la. O açoite era um costume quase peculiar aos romanos, e mesmo eles raramente açoitavam alguém, exceto quando crucificavam. A zombaria de uma túnica real, da coroa e do cetro, com uma atitude de falsa homenagem, seguia-se ao açoitamento, e certamente isso não fazia parte da sentença de Pilatos. Das profundezas cruéis e satânicas do coração de cada um deles, os soldados inventaram esses insultos, seguidos de provocações, cuspidas e espancamentos. No entanto, por causa da natureza humana miserável, desprezível e brutal, o Filho de Deus suportou “tais contradições dos pecadores”.

Talvez recuássemos horrorizados diante de tal insulto sem sentido para um Ser tão inofensivo e inocente, como aqueles soldados sabiam ser o “Rei dos Judeus”. Talvez! No entanto, a Palavra de Deus nos diz: “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?” (Jr 17:9). Há muitos que recuariam diante da crueldade aberta contra uma vítima, e, contudo, em seu coração há inimizade contra Deus, e o santo nome de Jesus está frequentemente em seus lábios misturado com maldições. Ora, o que é isso senão uma repetição, em menor escala (e talvez mais de acordo com as circunstâncias e os costumes modernos) da cena de zombaria que acabamos de considerar no Pretório de Pilatos? O coração natural do homem hoje é, na melhor das hipóteses, apenas um reflexo da natureza sombria dos soldados daquele terrível período.

O Calvário 

Vamos passar do Pretório para o Calvário e contemplar aquele espetáculo que aconteceu, quando na cruz Jesus fez expiação por nós perante um Deus santo, e tomou o lugar do pecador, para suportar em nosso lugar a justa ira de um Deus ofendido. Vejam os soldados! Alguns cravaram os pregos em Suas mãos e pés santos. Em seguida, ávidos por qualquer vantagem pessoal que pudessem obter neste horrível homicídio, agarram-se às Suas vestes e as dividem. Finalmente, impressionados com a delicadeza do tecido de Sua túnica sem costura, eles lançam sortes sobre ela como um prêmio; tocar somente a orla daquela túnica que trouxe cura a uma sofredora crente. Então, “assentados, O guardavam ali” (Mt 27:36).

Mas acima do espírito diabólico que permeava aquela hora, quando o poder do príncipe das trevas reinava supremo, a voz de Cristo crucificado se eleva em tons de súplica divina: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23:34).

Mais tarde, Seu sangue foi derramado, e aquilo que Ele pagou a Deus pelo nosso resgate, Ele nunca tomou de volta. O sangue daquele lado ferido pela lança de um soldado, ainda é plenamente eficaz para apagar nossos pecados para sempre e nos dar um fundamento divino de aceitação diante de Deus. Jesus agora entrou no lugar santíssimo, “havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz” (Cl 1:20 – ARA). Ele não está morto; Ele está ressuscitado! Ele não está mais no túmulo guardado por guardas romanos, pois, para manifestar plena prova de Sua ressurreição, o anjo do Senhor desceu e removeu a pedra, diante do qual os guardas tremeram e ficaram como mortos (Mt 28:4).

A vigília da manhã 

Na manhã anterior, eles O tinham açoitado e crucificado, e à noite sentaram-se para vigiar Seu túmulo! Às vezes me pergunto: Seriam esses homens, que tremiam e desmaiavam em agonia mortal, alguns daqueles que, dois dias antes, desprezaram e zombaram do Senhor Jesus? Como romanos supersticiosos – e os romanos eram muito supersticiosos – que terror deve ter enchido a alma deles quando aquele anjo radiante do exército celestial removeu a pedra e se assentou sobre ela!

Mas, apesar desse milagre divino, encontramos os soldados, quando seus temores passaram, aceitando um suborno dos príncipes dos sacerdotes para dizer que, enquanto eles dormiam, Seus discípulos haviam roubado o corpo. Dormir em seu posto era morte para um romano; mesmo entre os Judeus, isso implicava uma punição severa, pois lemos sobre Herodes ordenando que os guardas fossem mortos quando o anjo do Senhor libertou Pedro da prisão (At 12:19). Supondo que tivessem sido vencidos pela sonolência, esse sono deve ter sido profundo, o que tornaria a vigília noturna tão insensível a ponto de não perceber o rompimento do selo e o rolamento da pedra, pois nos é dito que era uma “grande pedra”.

Infelizmente! Há muitos nos dias atuais que, como esses guardas, receberam solenes advertências sobre o caminho maligno e ilusório que estão seguindo, mas ainda assim endurecem o coração, até que, talvez quando estiverem realmente dormindo na letargia sonolenta do pecado, sejam confrontados cara a cara com o terrível anjo da morte, e para eles não haverá escapatória. A cruz e o túmulo de Jesus podem ter sido motivo de zombaria por toda a vida, e em um momento em que não estiverem conscientes, cairão sob o poder do príncipe das trevas.

Uma breve mensagem 

Mais uma palavra antes de me despedir; diz respeito a um jovem oficial do exército, muitos anos atrás. Um homem no auge da vida jaz pálido e debilitado pela dor em um leito. Uma doença muito sutil e crítica que os médicos não conseguem especificar sua origem ou duração, tem minado há três anos uma constituição naturalmente robusta e cheia de energia. Mas o sofredor lançou seu fardo de pecado e dor aos pés da cruz, e quando o anjo da morte vier libertá-lo, a paz, e não a vergonha, será sua porção. Certa noite fiquei ao lado de sua cama – como uma criança que eu era, para receber seu beijo de boa noite. Ele estava dando corda em seu relógio, e eu tive que esperar até que ele terminasse e o colocasse debaixo de seu travesseiro. Como eu me lembro bem da situação! Mas o tempo tinha acabado para ele, e ele nunca mais precisou consultar aquele relógio para saber as horas. Saí do quarto dele e, pela manhã, acordei sem pai.

Duas horas após aquele último “boa noite”, sua alma foi chamada. Ele ficou inconsciente, e em menos de meia hora sua vida se esvaiu. Graças a Deus! Eu acredito que somente sua vida humana se esvaiu!

“Uma vida breve é a nossa porção,
Breve a dor, a preocupação, passageira;
A vida que não conhece fim,
A vida sem lágrimas está lá!”

Que nossa última vigília noturna nos encontre reconciliados com Deus e lavados no sangue de Jesus, descansando n’Aquele divino Substituto!

K. B. K. – God’s Glad Tidings, Vol. 7 (adaptado)

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