Origem: Revista O Cristão – O Propósito de Deus para a Igreja

O que é a Igreja?

Podemos considerar a Igreja em dois pontos de vista. Primeiro, é a formação dos filhos de Deus em um corpo unido a Cristo Jesus ascendido ao céu, o Homem glorificado, e isso pelo poder do Espírito Santo. Em segundo lugar, é a casa ou habitação de Deus pelo Espírito.

O Salvador Se entregou, não apenas para salvar perfeitamente todos os que n’Ele creem, mas também para reunir em um os filhos de Deus que foram espalhados pelo mundo. Uma coisa é existir indivíduos salvos, filhos de Deus, herdeiros da glória no céu; outra é a união deles com Cristo, de modo a serem membros de Seu corpo, de Sua carne e de Seus ossos; ainda outra é a habitação de Deus por meio do Espírito. Vamos falar desses últimos pontos.

Não há nada mais claro na Escritura Sagrada da verdade de que a Igreja é o corpo de Cristo. Essa doutrina é amplamente revelada em Efésios 1‑3. O que é mais claro do que esta palavra: Deus “O constituiu como Cabeça da Igreja, que é o Seu corpo” (Ef 1:20‑23)? Esse fato maravilhoso começou assim que Cristo foi glorificado nos céus, mesmo que tudo o que está contido nesses versículos ainda não esteja cumprido. Deus nos ressuscitou com Ele e nos assentou n’Ele nos lugares celestiais – ainda não com Ele, mas “n’Ele”. E no capítulo 3, “O qual (mistério) noutros séculos não foi manifestado aos filhos dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos Seus santos apóstolos e profetas; a saber, que os gentios são coerdeiros, e de um mesmo corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho Para que agora, pela Igreja, a multiforme sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus” (Ef 3:5‑6, 10).

A Igreja formada pelo Espírito Santo 

Temos aqui, então, a Igreja é formada na Terra pelo Espírito Santo que desceu do céu, após a glorificação de Cristo. Ela está unida a Cristo, seu Cabeça celestial, e todos os verdadeiros crentes são Seus membros por meio do mesmo Espírito.

Em 1 Coríntios 12, o apóstolo fala da Igreja na Terra, não de uma Igreja futura que será aperfeiçoada no céu, nem mesmo de igrejas espalhadas pelo mundo, mas da Igreja como um todo, representada, no entanto, pela Igreja em Corinto. A totalidade da Igreja é claramente vista nas palavras: “E a uns pôs Deus na Igreja, primeiramente apóstolos, em segundo lugar profetas, em terceiro doutores, depois milagres, depois dons de curar”. É evidente que os apóstolos não estavam em uma Igreja específica e que os dons da cura não podiam ser exercitados no céu. Trata-se da Igreja universal na Terra. Esta Igreja é o corpo de Cristo, e os verdadeiros crentes são seus membros. São um pelo batismo do Espírito Santo. “Assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também” (v. 12). Então, depois de dizer que todos esses membros trabalham, cada um em sua própria função no corpo, ele acrescenta (v. 27): “Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular”. Tenha em mente que isso aconteceu pelo batismo do Espírito Santo que desceu do céu. Consequentemente, esse corpo existe na Terra e abrange todos os Cristãos onde quer que estejam; eles receberam o Espírito Santo pelo Qual são membros de Cristo e membros um do outro. Oh, quão bonita é a unidade! Assim, “se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele” (1 Co 12:26).

A habitação de Deus 

Há, como dissemos, outro caráter da Igreja na Terra; é a habitação de Deus na Terra. A presença do Espírito Santo é o que caracteriza os verdadeiros crentes em Cristo individualmente. O nosso “corpo é o templo do Espírito Santo” (1 Co 6:19). Mas os Cristãos tomados juntamente também são o templo de Deus, e o Espírito de Deus habita neles coletivamente (1 Co 3:16). A Igreja, então, é a habitação de Deus na Terra pelo Espírito. Que privilégio mais precioso! A presença do próprio Deus, a fonte de regozijo, força e sabedoria para o Seu povo! “Jesus Cristo no Qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor. No Qual também vós juntamente sois edificados para morada de Deus em Espírito” (Ef 2:20-22). A intenção de Deus é ter um templo formado, composto de todos os que creem, depois que Deus derrubou a parede de separação que excluía os gentios; este edifício cresce até que todos os Cristãos estejam unidos em glória. Entretanto, enquanto isso, os crentes na Terra formam um tabernáculo de Deus – Sua habitação por meio do Espírito, que habita no meio da Igreja.

Mais do que isso, em 1 Timóteo 3, o apóstolo se refere à “casa de Deus, que é a Igreja do Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”. Vemos aqui que o Cristão é responsável por manter a verdade no mundo. A Igreja não ensina; os mestres instruem, mas o Cristão mantém a verdade sendo fiel a ela. É o testemunho da verdade no mundo.

Uma única Igreja 

Qual era o estado da Igreja quando começou em Jerusalém? Achamos que o poder do Espírito de Deus foi maravilhosamente manifestado. É verdade que o mal do coração do homem logo apareceu, mas ao mesmo tempo o Espírito Santo estava na Igreja e agia lá e era suficiente para remover o mal e transformá-lo em bem. A Igreja, no entanto, era uma, conhecida pelo mundo. Uma única Igreja, cheia do Espírito Santo, prestou testemunho da salvação de Deus e de Sua presença na Terra. E a esta Igreja Deus acrescentava todos aqueles que haviam de ser salvos.

Todos os Cristãos eram conhecidos, todos admitidos publicamente na Igreja, tanto gentios quanto Judeus. A unidade era manifestada. Todos os santos eram membros de um corpo, do corpo de Cristo. A unidade do corpo era confessada e era uma verdade fundamental do Cristianismo. Em cada localidade havia a manifestação dessa unidade da Igreja de Deus na Terra, de modo que uma epístola de Paulo, dirigida à Igreja de Deus em Corinto, chegava a uma única assembleia. Se um membro do corpo de Cristo fosse de Éfeso a Corinto, ele seria igualmente e necessariamente também um membro do corpo de Cristo nesta última assembleia. Na Palavra, não encontramos a ideia de membros de uma Igreja, mas de membros de Cristo.

Os dons para o ministério 

O ministério, como é apresentado na Palavra, é igualmente uma prova dessa mesma verdade. Os dons, fonte de ministério, dados pelo Espírito Santo, estavam na Igreja (1 Co 12:28, 8-12). Aqueles que os possuíam eram membros do corpo. Apolo era mestre em Corinto; ele também era mestre em Éfeso. Essa unidade e a livre atividade dos membros são encontradas sendo realizadas no tempo dos apóstolos. Cada dom era totalmente reconhecido como eficaz para realizar a obra do Senhor e era exercido livremente. Quanto mais se lê os Atos dos apóstolos, quanto mais se lê as epístolas, mais se vê esta unidade e esta verdade. Quando o Espírito Santo governa, necessariamente une irmãos e age em cada um de acordo com o objetivo que Ele propôs a Si mesmo em uni-los, isto é, de acordo com Seu próprio objetivo. Assim, a presença do Espírito Santo reúne todos os santos em um corpo e trabalha em cada um de acordo com Sua vontade, guiando-os no serviço do Senhor para a glória de Deus e a edificação do corpo.

Essa era a Igreja. Como é agora e onde é encontrada hoje na Terra? Os membros do corpo de Cristo estão agora dispersos – muitos escondidos no mundo, outros no meio da corrupção religiosa; alguns em uma seita, alguns em outra, rivalizando uns com os outros para conquistar os salvos. Muitos, graças a Deus, buscam a unidade, mas quantos a têm encontrado? “Para que todos sejam um”, diz o Senhor, “para que o mundo creia que Tu Me enviaste”. Mas a unidade do corpo não é manifestada. O testemunho que a Igreja presta agora é este: que o Espírito Santo, com Seu poder e graça, é incapaz de superar as causas das divisões. A Igreja – outrora bela, unida, celestial – perdeu seu caráter; está escondida no mundo; os próprios Cristãos são mundanos, cobiçosos, ansiosos por riquezas, honra, poder – como os filhos deste século. A maior parte do que leva o nome de Cristão é a sede do inimigo ou do infiel, e os verdadeiros Cristãos estão perdidos no meio da multidão.

A glória visível 

No Velho Testamento, a glória de Deus, Sua real presença visível, já esteve em Jerusalém, e Seu trono estava sobre os querubins, mas desde o cativeiro babilônico Sua presença abandonou Jerusalém, e Sua glória, assim como Sua presença, já não mais existiam no templo no meio do povo. Esse será o desfecho do sistema Cristão, se ele não continuar na bondade de Deus. Mas ele não continuou na bondade de Deus.

Certamente todos os verdadeiros Cristãos serão preservados e arrebatados para o céu, mas, no que concerne ao testemunho da Igreja na Terra, a casa de Deus por meio do Espírito, acabará por não existir mais. Pedro já havia dito: “Porque já é tempo que comece o julgamento pela casa de Deus” (1 Pe 4:17). E no tempo de Paulo o mistério da iniquidade já estava operando e devia ser continuado até que o homem do pecado aparecesse; já no tempo do apóstolo todos procuravam aquilo que era seu, e não as coisas que eram de Jesus Cristo. Paulo nos diz ainda que, depois de sua partida, deveriam entrar entre os Cristãos, na Igreja, lobos ferozes, não poupando o rebanho, e que nos últimos dias viriam tempos trabalhosos, homens tendo uma forma de piedade, mas negando o poder dela, que homens maus e sedutores iriam de mal a pior, enganando e sendo enganados, e que finalmente a apostasia deveria acontecer.

É verdade que seremos arrebatados para o céu, mas, junto com isso, acaso não devemos lamentar a ruína da casa de Deus? Sim, devemos lamentar o que antes era um, um belo testemunho da glória de seu Cabeça pelo poder do Espírito Santo, unido, celestial, para que o mundo pudesse reconhecer o efeito do poder do Espírito Santo que colocava o bem-estar dos homens, acima de todos os motivos humanos, e, fazendo desaparecer as distinções e diversidades entre eles, fez com que os crentes de todos os países e de todas as classes fossem uma família, um corpo, uma Igreja, um poderoso testemunho da presença de Deus na Terra no meio dos homens.

Se a casa de Deus ainda está na Terra e o Espírito Santo habita nela, será que Ele não Se entristece com o estado da Igreja? E se Ele habita em nós, nosso coração não deve ser afligido e humilhado pela desonra feita a Cristo e pela destruição do testemunho que o Espírito Santo desceu do céu para sustentar, na unidade da Igreja de Deus? Aquele que compara a Igreja como é descrita no Novo Testamento com seu estado atual, sentirá seu coração profundamente entristecido ao ver a glória da Igreja arrastada para o pó e o inimigo triunfando na confusão do povo de Deus.

A glória de Cristo 

Finalmente, Cristo confiou Sua glória na Terra à Igreja. Ela foi a depositária dessa glória. Acaso a Igreja preservou esse depósito e manteve a glória de Cristo na Terra? O Senhor derramou lágrimas de tristeza sobre Jerusalém; será que não deveríamos derramar nada sobre o que ainda é mais querido ao Seu coração? Posso estar separado de toda a iniquidade que corrompe a casa de Deus, mas, no entanto, como servo de Cristo, devo me identificar com a glória de Cristo e com suas manifestações ao mundo. Em breve Deus estabelecerá Sua própria glória de acordo com Seus conselhos, mas antes de tudo, o homem é responsável onde Deus o colocou. Fomos colocados na Igreja de Deus, em Sua casa, na habitação de Sua glória na Terra.

J. N. Darby (adaptado)

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