Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo
Os Atos dos Apóstolos
O livro dos “Atos dos Apóstolos” é, na verdade, o livro dos atos de Pedro e Paulo, o apóstolo da circuncisão e o apóstolo dos gentios. Nos eventos registrados na parte que nos apresenta o ministério de Pedro (isto é, os capítulos 1 a 12), creio que podemos discernir uma ordem e um significado que nos preparam para os propósitos futuros do Senhor entre os gentios, por meio do ministério subsequente de Paulo. Assim, irei mencionar e interpretar brevemente esses eventos.
Atos 1
Enquanto aguardavam, conforme o mandamento, pelo poder prometido vindo do alto, os discípulos, sob a liderança de Pedro (constituído chefe no ministério Judaico, Lucas 22:32; João 21:16), confiaram ao Senhor a tarefa de preencher o bispado vago de Judas. Isso era necessário, como observarei mais detalhadamente adiante, para que a ordem Judaica dos doze apóstolos se mantivesse plena e completa; e que isso foi feito com o pleno entendimento da mente de Deus fica evidente pelo fato de o Senhor parecer assumir imediatamente aquilo que Seus servos Lhe confiam, pois Ele honra as sortes que foram lançadas (a forma Judaica de revelar a vontade divina em tais assuntos, 1 Crônicas 24:5; Números 26:55; Josué 19:10), e Matias é contado entre os onze apóstolos; e o Espírito Santo, no capítulo seguinte, parece confirmar Matias em seu novo ofício, vindo sobre ele igualmente, sem qualquer repreensão.
Atos 2-7
Estando assim completado o número, o Espírito Santo é concedido conforme a promessa; e Pedro, mais uma vez, assume a liderança e prega Jesus ressuscitado aos Judeus. A inimizade dos Judeus, porém, se instala e se intensifica ao longo destes capítulos, aumentando gradualmente, assim como havia acontecido antes contra o Senhor. Os apóstolos, contudo, como seu Senhor, prosseguem com seu destemido testemunho; grande graça está sobre todos – a santa disciplina os mantém puros – e com grande poder os apóstolos dão testemunho da ressurreição. Mas, assim como a inimizade agiu contra o Senhor até que o crucificaram, agora age contra os apóstolos, até que atacam Estêvão e o apedrejam. E assim como os céus receberam o Crucificado, também se abrem para o Seu companheiro de sofrimento e testemunha. E nele a Igreja recebe uma garantia viva de que a glória celestial era para ela, assim como para o seu Senhor, pois o mundo agora rejeitava ambos.
Atos 8
Sendo assim, Jerusalém já não podia mais receber a aprovação de Deus, pois havia declarado plenamente o seu pecado e, por um tempo, deveria ser lançada fora de Sua vista. Os discípulos, portanto, são agora dispersos de Jerusalém, e a ordem Judaica é perturbada: dando-nos este capítulo os atos de alguém que não havia sido enviado, nem como procedente de Jerusalém, nem tampouco pelos apóstolos. Filipe sai – e primeiro prega Cristo em Samaria, e depois é enviado pelo Espírito “para Gaza, que está deserta”, para trazer de volta ao aprisco uma ovelha perdida que ainda estava desgarrada ali, mas que era conhecida por Deus antes da fundação do mundo. Mas logo em seguida, ele é levado pelo Espírito a Azoto (o lugar próximo ao deserto onde homens e mulheres podiam ser encontrados), para que pudesse proclamar ali, e em todos os outros lugares, a graça que diz: “e quem quiser, tome de graça da água da vida”. Assim, por sua missão a Gaza e, em seguida, por seu arrebatamento a Azoto, o ministério de Filipe simboliza a soberania e a universalidade daquela graça que o Senhor iria proclamar.
Atos 9
Os canais para que a vida e o poder que emanam do Filho de Deus fluíssem entre os gentios estavam agora plenamente abertos; pois os Judeus, os samaritanos e os prosélitos haviam sido chamados. Tudo estava pronto para a colheita das primícias dos gentios. Mas antes que isso acontecesse, e o juízo presente sobre Israel fosse assim selado publicamente, o Senhor concede, na conversão de Saulo de Tarso, um sinal da futura conversão de Israel (veja 1 Timóteo 1:16) – um exemplo, sem dúvida, daquela longanimidade que salva todo pecador. Mas Israel é destinado a se tornar a grande testemunha final dessa longanimidade, e é principalmente para Israel que este sinal se dirige; e, portanto, tudo o que acompanha este grande evento é uma prefiguração das coisas que, mais tarde, marcarão e acompanharão o arrependimento de Israel. O fato de Saulo olhar para Aquele a Quem ele traspassara – o fato de ter ficado confinado por três dias sem ver, sem ter comido nem bebido – a remoção desse juízo e o seu batismo, tudo isso nos mostra a casa de Davi e os habitantes de Jerusalém olhando para Aquele a Quem eles traspassaram e lamentando, cada família à parte, e suas esposas à parte, e então experimentando as virtudes da fonte purificadora aberta para o seu pecado e para a sua impureza. Jerusalém será então a testemunha emblemática da graça soberana, como Saulo o é agora (Zacarias 12 e 13). E, como prova adicional desse caráter místico da conversão de Saulo, podemos observar que ele mesmo nos diz que obteve misericórdia porque agiu por ignorância e incredulidade; e este é o próprio fundamento da misericórdia final para Israel; como o Senhor orou por eles: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (veja também Atos 3:17).
Atos 10-11
Tendo-lhes sido assim deixada a promessa da futura conversão de Israel, a proclamação do juízo presente sobre eles é feita pelo chamado, dentre os gentios, de um povo para Deus. Isso se dá pelo ministério do apóstolo da circuncisão; e de forma muito apropriada. Pois ele havia recebido as chaves do reino dos céus e era também o representante de Jerusalém, “a qual é mãe de todos nós” (embora infiel e, como tal, afastada por um tempo). Mas, sendo assim reconhecido o título de Pedro para isso, como representante de Jerusalém, encontramos uma igreja de gentios reunida em Antioquia por outras mãos, e Barnabé e Saulo, em vez de Pedro, chamados para ajudá-la e confortá-la.
Atos 12
E agora o Senhor só precisava, publicamente, rejeitar Jerusalém por um tempo. Mas, assim como Ele havia prometido a futura conversão de Israel, Ele agora, a meu ver, promete a eles a sua futura restauração. Confesso que este capítulo tem grande beleza e significado, apresentando tanto as tristezas quanto a libertação do remanescente no último dia, e a completa e devastadora derrota de seus inimigos. Tiago é morto à espada, pois, dali em diante, em Jerusalém, a queixa será esta: “Derramaram o sangue deles como a água ao redor de Jerusalém” (Salmo 79:2-3). Pedro também, a esperança da circuncisão, é lançado na prisão, e o inimigo, assim, praticamente prevalece contra o Israel de Deus.
Atos 12 – Promessas da restauração de Israel
Mas o caso dele não deveria ir mais adiante, pois Pedro deveria aparecer como prisioneiro do Senhor, e não de Herodes. Ele dorme entre os que o guardavam. Ele jaz ali como “prisioneiro da esperança”. O inimigo é forte e poderoso, e o remanescente não tem alívio senão em Deus. Mas isso basta. Eles oram incessantemente por ele, até que, finalmente, este prisioneiro do Senhor é libertado da cova, assim como Israel será no último dia (Zacarias caps. 9, 11 e 12). No início, ele era como alguém que sonhava, pensando estar tendo uma visão; e assim também os seus companheiros, dizendo: “É o seu anjo”. Mas assim será Israel depois. Eles cantarão: “Quando o SENHOR trouxe do cativeiro os que voltaram a Sião, estávamos como os que sonham”. Mas, no gozo repentino do coração, eles terão que acrescentar: “Então a nossa boca se encheu de riso e a nossa língua de cântico”; como Pedro, voltando a si, diz: “Agora sei verdadeiramente que o Senhor enviou o Seu anjo, e me livrou da mão de Herodes, e de tudo o que o povo dos Judeus esperava”.
Tudo isso me parece doce e surpreendentemente significativo. Mas o sinal não termina aqui. Em trajes reais, Herodes senta-se em seu trono, tendo julgado conveniente estar profundamente descontente, como se a vingança lhe pertencesse. Ele faz um discurso ao povo, e eles o aclamam, dizendo: “É voz de um deus e não de um homem” (TB). Assim, ele toma para si mesmo a glória que era de Deus, e imediatamente o anjo do Senhor o feriu, “e, comido de vermes, expirou” (ARA). Assim também o iníquo se exaltará acima de todos e se assentará no monte da congregação, nos lados do norte, dizendo: “serei semelhante ao Altíssimo”. Ele fará “conforme a sua vontade”; mas chegará ao seu fim, e ninguém o ajudará. “Assim, ó SENHOR, pereçam todos os teus inimigos! Porém os que te amam sejam como o Sol quando sai na sua força”.
Assim, a misericórdia final é prometida a Israel. Sob esses sinais de sua conversão e restauração, e da derrota de seus inimigos, eles agora se encontram prisioneiros da esperança. O próprio Senhor lhes dá um sinal e, em seguida, esconde deles o Seu rosto; segue o Seu caminho por um tempo e deixa o Seu santuário. Tudo isso nos prepara para um ministério além das fronteiras de Israel; e, consequentemente, na abertura do próximo capítulo, encontramos a Palavra enviada aos gentios, Jerusalém como fonte de graça e ministério é esquecida, e os nomes de Judeu e gentio são deixados sem distinção.
Julgo ser assim o curso e o significado dos eventos que ocorreram durante o ministério da circuncisão, sob a liderança de Pedro, conforme registrados nestes capítulos.[1] Qual era a natureza do próprio ministério? Quais eram as esperanças que ele transmitia a Israel? E qual era o chamado que ele fazia a Israel? Descobriremos, em resposta a essas perguntas, que os apóstolos falaram das próprias esperanças nacionais de Israel, chamando-os ao arrependimento para que pudessem alcançá-las e serem abençoados na Terra. Eles declaram o pecado de Israel ao crucificar o Príncipe da Vida; a aceitação de Deus desse Crucificado e, mediante o arrependimento, a remissão dos pecados de Israel e o cumprimento de suas esperanças.
[1] Como prova disso, o nome judaico de nosso apóstolo, “Saulo”, foi transformado na forma gentia, “Paulo”. Isso foi obra do Espírito Santo, que queria que se soubesse, mesmo que parecesse insignificante, que a distinção entre Judeus e gentios seria perdida durante aquela dispensação, cujo testemunho agora estava sendo divulgado. Assim como antes em Antioquia (veja capítulo 11:26), quando a Igreja se tornou gentia, ou mista, tendo sido retirada de seu caráter Judaico estrito, os discípulos foram chamados pela primeira vez de “Cristãos”; o Espírito Santo, ao tornar isso conhecido, indicava que um corpo estava agora se preparando para Cristo, que seria ungido n’Ele, com Ele e por meio d’Ele. ↑
Atos 2-3 – Um testemunho para Israel
Assim, no sermão de Pedro no segundo capítulo, seu testemunho a Israel foi este: que a ressurreição assegurou as promessas feitas ao trono de Davi; que a ascensão era a fonte do Espírito Santo concedido; que Jesus permaneceria no lugar ascendido até que Seus inimigos fossem feitos escabelo dos Seus pés; e sobre tudo isso ele chama Israel ao arrependimento. Mas ele nada diz sobre a Igreja ascender após a sua Cabeça e a consequente glória celestial dela. Portanto, no terceiro capítulo (depois que ele e João reconheceram a casa de Deus em Jerusalém), em sua pregação, Pedro chama Israel ao arrependimento para que viessem “os tempos do refrigério pela presença do Senhor”, quando Jesus retornaria a eles e todas as coisas prometidas por Moisés e pelos profetas se cumpririam. Mas tudo isso, da mesma forma, era um testemunho das esperanças de Israel e da Terra, e não um testemunho da glória celestial. Era uma publicação dos atos e promessas do Deus de Abraão, Isaque e Jacó aos filhos dos profetas e aos filhos da aliança. Assim, no capítulo 5, encontramos isto: “a este elevou Deus com a Sua destra a Príncipe e Salvador, para dar arrependimento a Israel e remissão de pecados” (TB) – palavras que demonstram, de modo muito claro, o valor que o Espírito Santo, em Pedro, atribuiu à ressurreição do Senhor, aplicando-a exclusivamente a Israel como nação de Deus.
E como fruto próprio desta pregação e destas esperanças, encontramos na conduta e prática dos santos o seguinte: demonstram uma bela ordem e graça na administração de suas possessões terrenais; alcançavam favor de todo o povo, como Jesus o teve em Sua infância em Nazaré; eles perseveram diariamente no templo, como se não soubessem quão breve o Senhor poderia retornar ao templo; e curam todas as doenças entre o povo, como o Senhor fizera quando caminhava pelas cidades e aldeias da Judeia. Mas além de tudo isso, por mais perfeito que tudo isso fosse a seu tempo, ainda havia algo a mais. A Igreja ainda precisava assumir com Jesus seu caráter de rejeitada pela Terra e daquela que rejeita a Terra. A cidadania celestial, a morte quanto à Terra e a vida escondida com Cristo em Deus; o olhar voltado para as coisas que estão dentro do véu, seguindo após o glorioso Precursor, eram ainda coisas grandes e novas a serem tiradas do tesouro. Nem o testemunho de Pedro, nem a conduta da Igreja, eram tais que as manifestassem. A glória dentro do véu começa a transparecer quando o rosto de Estêvão resplandece como o de um anjo. E isso também foi belo a seu tempo, pois Estêvão logo se tornaria a primeira testemunha do chamado celestial. O martírio era o fundamento necessário para a plena manifestação desse chamado. Os apóstolos podem ter sofrido afronta, açoites e prisões, mas ainda havia espaço para o arrependimento de Israel, assim como houve durante o ministério do Senhor (embora Ele, da mesma forma, tenha sofrido afronta e rejeição), até Sua última visita a Jerusalém. A cruz, porém, havia fechado a Terra para o Senhor; e o martírio de Estêvão agora fecha a Terra para a Igreja; e uma terrível separação, por um tempo, se estabeleceu entre todos os que pertencem ao Senhor e este presente mundo (século) mau.
Assim, até essa morte deste santo após a ressurreição, não havia chegado o tempo para a revelação disso (a vocação celestial da Igreja) do tesouro dos conselhos divinos. Figuras e outras indicações a respeito disso já existiam desde o princípio. Nosso Senhor havia dado a visão disso no monte santo, mas era obscura aos olhos até mesmo dos apóstolos. Ele aludiu às “coisas celestiais” das quais somente o Filho do Homem poderia falar (João 3:12), mas elas não foram percebidas. O “um pouco de tempo” até Sua ida para habitar com o Pai era tão estranho aos discípulos quanto era aos Judeus. Seu ministério acerca dessas coisas era para eles parábolas (João 16:25). E assim, nem mesmo a ascensão do Senhor, por si só, era fundamento suficiente para a manifestação dessa glória. Pois ela era necessária para que o Senhor formasse a Igreja Judaica, para uma cidadania piedosa na Terra, sendo o Espírito Santo recebido por meio da ascensão, “para os rebeldes”, isto é, para Israel, “para que o SENHOR Deus habitasse entre eles” – habitasse entre eles aqui. Mas, com o martírio de um crente no Senhor assim ressuscitado e ascendido, chegara plenamente o tempo da manifestação do chamado celestial, da revelação deste mistério: que Cristo teria um corpo que compartilharia com Ele em glória nas alturas para a qual Ele próprio ascendeu, cuja cidadania não seria em Jerusalém, mas no céu.
Na “regeneração”, como diz o Senhor, isto é, no vindouro reino do Filho do Homem, haverá novamente um povo que encontrará o seu devido lugar na Terra – o Israel de Deus. E então os doze apóstolos se manifestarão em conexão com as doze tribos, e os santos com o mundo (veja Mt 19:28; 1 Co 6:2-3). Tudo isso será a glória e o gozo daquele tempo feliz, e o mais belo e perfeito em sua estação. O Filho do Homem assentado em Seu trono de glória – os apóstolos julgando as doze tribos – e os santos julgando o mundo. Os servos então participarão do reino do seu Senhor, tendo autoridade com Ele e sob Ele sobre as cidades do Seu domínio. Mas esse tempo está agora adiado, pois a Terra o rejeitou. Israel expulsou o herdeiro da vinha e matou os que lhe foram enviados (1 Ts 2:16). Outro testemunho agora estava prestes a ser proferido, um testemunho da perda das esperanças de Israel e da Terra no presente, e do chamado de um povo eleito da Terra para o céu. E Saulo, o perseguidor, isto é, Paulo, o apóstolo, foi designado como seu portador especial.
Atos 9 – A conversão de Paulo
E quão rica foi a graça demonstrada pelo Senhor ao escolher Saulo para ser o vaso desse tesouro celestial! Naquele exato momento, ele estava em plena inimizade contra Deus e Seu Ungido. Aos seus pés, as testemunhas, cujas mãos haviam sido as primeiras contra Estêvão, depuseram suas capas. Mas este é o homem que seria feito o vaso escolhido de Deus; e tal é o caminho do Senhor em abundante misericórdia. Antes disso, a mais completa inimizade do homem havia sido enfrentada pelo mais completo amor de Deus; pois a cruz era, naquele mesmo instante, o testemunho de ambos, assim como a pessoa de Saulo é agora. “A lança do soldado”, como alguém já observou, “fez sair o sangue e a água – o pecado fez sair a graça”. E agora, como podemos dizer, a jornada de Saulo para Damasco foi a lança perfurando pela segunda vez o lado de Cristo; pois ele agora caminhava com a missão de matar o rebanho de Deus. Mas foi nessa jornada que a luz vinda do céu o deteve. Assim, o sangue de Jesus encontrou novamente a lança cruel do soldado, e Saulo é um exemplo de toda a Sua longanimidade.
A graça soberana que salva a Igreja foi assim manifestada em Saulo. Mas a glória celestial que está reservada à Igreja também lhe foi revelada, pois ele vê Jesus nela. E por meio dessas coisas, seu futuro ministério é formado.
Marcos 16:15 – Novos ministérios são chamados à luz
E aqui posso observar, em relação a isso, que nos momentos de convocação de novos ministérios, geralmente houve manifestações características de Cristo. Assim, quando Moisés foi chamado em Horebe, ele viu uma sarça ardente, mas que não se consumia, do meio da qual Jeová lhe falou. E o ministério que ele então recebeu foi, de acordo com essa visão, ir e libertar Israel da aflição do Egito, em meio à qual Deus estivera com eles, preservando-os apesar de tudo. Quando ele e o povo estavam depois sob o Sinai, o monte estava completamente envolto em fumaça, de modo que até mesmo Moisés ficou todo assombrado, e tremendo. Mas tudo isso aconteceu porque estava prestes a surgir dali aquela lei que o pobre homem caído jamais poderá cumprir e que, portanto, é apenas o ministério da morte e da condenação para ele, ainda que fosse alguém como o próprio Moisés. Quando Moisés se aproximou de Deus, interpondo-se entre Ele e o povo, ele recebeu (de acordo com a posição de mediador que ocupava) sua comissão de entregar, como mediador nacional, as leis e os decretos do Rei. Mas quando, finalmente, ele sobe ao topo do monte, muito além da região do fogo terrível e do lugar intermediário que ocupava como mediador da nação, onde tudo era calmo e a presença do Senhor o envolvia, ele recebe os sinais da graça, as figuras de Cristo, o Salvador e Sacerdote, e dali é designado para ministrar a Israel, “as sombras dos bens vindouros”. Em tudo isso, vemos muito do que era expressivo do ministério que estava prestes a ser designado.
Então, posteriormente, embora de forma mais limitada, quando Josué estava prestes a receber a missão de cercar Jericó com homens de guerra, o Senhor lhe aparece como um Guerreiro com uma espada desembainhada na mão.
Quando Isaías foi chamado para ir como profeta de julgamento contra Israel, o Senhor foi visto em Seu templo com tamanha majestade terrível, que até os batentes da porta se moveram à Sua voz, e a casa se encheu de fumaça (Isaías 6).
Quando nosso Senhor estava na terra de Israel como Ministro da circuncisão, de acordo com esse lugar e caráter, Ele designou doze para irem às ovelhas perdidas da casa de Israel. Mas, após a ressurreição, quando Ele Se estabeleceu na Terra com um caráter maior, sendo então Seu todo o poder no céu e na Terra, Ele comissionou Seus apóstolos da seguinte forma: “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. E assim agora, ascendido ao céu, e tendo recebido a Igreja para Si, Ele aparece a Saulo desde essa glória; e nele designa um ministério formado segundo o princípio dessa manifestação. O céu foi o berço do apostolado de Paulo; e, de acordo com isso, ele foi enviado para chamar para fora e elevar acima um povo da Terra para o céu.
Assim, a partir do lugar de onde partiu seu chamado para o ofício, nós, desde o princípio, poderíamos estar preparados para algo novo e celestial. Mas seu apostolado veio fora de tempo, bem como fora de lugar (1 Coríntios 15:8). Não só não veio de Jerusalém, como surgiu depois que o apostolado ali já havia sido aperfeiçoado. O bispado perdido por Judas foi preenchido por Matias, e assim o corpo dos doze, conforme ordenado pelo Senhor no princípio, estava novamente completo; e o apostolado de Paulo é, portanto, algo que nasceu “fora de tempo” (ARA).
Mas, embora neste aspecto fosse “fora de tempo”, não o era em todos os outros aspectos. Os tempos e as estações que o Senhor escolheu para a revelação dos Seus desígnios são, sem dúvida, todos apropriados e corretamente ordenados; e tendo “a mente de Cristo” (a herança presente, pela graça, de todo homem espiritual), podemos procurar conhecer isso, lembrando-nos, antes de tudo, de a Quem pertencem os conselhos que estamos perscrutando e de como nos convém andar diante d’Ele com os pés descalços. Que Ele nos guarde, irmãos, trilhando assim o Seu caminho, e que a pressa dos inquisidores jamais nos afaste do lugar e da atitude de adoradores. Lembremo-nos de que é no Seu templo que devemos inquirir (Salmo 27:4).
Estágios sucessivos no Apocalipse
Assim como naquela época, para estes tempos e estações, observo que nosso Senhor marca estágios sucessivos no procedimento divino com Israel, quando Ele diz: “A lei e os profetas duraram até João”. Aqui Ele destaca três ministérios: a lei, os profetas e João. Mas estes se estenderam apenas até o próprio ministério de nosso Senhor e, portanto, agora, no avanço subsequente dos conselhos divinos, podemos acrescentar outros a estes.
A lei – Esta dispensação colocou Israel sob uma aliança que exigia obediência como condição para que permanecessem na terra e nas bênçãos que Jeová lhes havia concedido. Mas sabemos que eles a quebraram.
Os profetas – Após surgirem ofensas e transgressões, profetas foram levantados; entre outros serviços, para advertir e encorajar Israel a retornar Àquele de Quem eles e seus pais haviam se revoltado, para que pudessem recuperar seu lugar e bênção sob a aliança. Mas Israel, como sabemos, rejeitou suas palavras, apedrejando alguns e matando outros.
João Batista é então levantado, não apenas como um dos profetas, para chamar Israel de volta à antiga aliança e à obediência que ela exigia, mas para ser o arauto de um reino que estava às portas, o precursor d’Aquele que viria com a bênção segura de Sua própria presença. Ele convocou o povo a estar preparado para o Messias. Mas eles decapitaram João.
O Senhor – Assim apresentado por João a Israel, o Senhor vem a público e, em consequência disso, oferece o reino em Sua própria Pessoa, e Israel é convocado a reconhecê-Lo e adorá-Lo. Mas sabemos que o Herdeiro da vinha foi rejeitado pelos lavradores. “Os seus não O receberam”. Os construtores rejeitaram a Pedra. Crucificaram o Príncipe da Vida; mas Deus O ressuscitou dos mortos e O fez assentar à Sua destra nos lugares celestiais.
Os doze apóstolos – Eles acompanharam nosso Senhor durante todo o tempo em que Ele esteve entre eles, desde o batismo de João até o dia em que foi elevado ao céu, e agora foram chamados (sendo revestidos do Espírito Santo) para serem testemunhas da ressurreição a Israel. E essas testemunhas dizem a Israel que os tempos de refrigério, os tempos de cumprimento de todas as boas promessas feitas a eles, aguardavam apenas o seu arrependimento; pois Jesus agora fora exaltado como Príncipe e Salvador para eles. E agora chegara a provação final de Israel. O que mais poderia ser feito além do que já havia sido feito? A transgressão contra o Filho do Homem havia sido perdoada, pelo menos, e o caminho de escape do julgamento que ela acarretara havia agora sido aberto a Israel pelo testemunho do Espírito Santo nos apóstolos; mas o que poderia trazer alívio, se esse testemunho fosse agora desprezado? (veja Mateus 12:32.) Mas o Espírito Santo é resistido, o testemunho dos doze é desprezado pelo martírio de Estêvão, e os tratamentos do Senhor com Israel e a Terra são, portanto, necessariamente interrompidos por um tempo.
O apostolado de Paulo
O apóstolo dos gentios então surge, repleto de mais tesouros da sabedoria divina, revelando propósitos que até então (enquanto Deus tratava com Israel e a Terra) estavam ocultos em Deus. Ele apresenta este testemunho: que Cristo e a Igreja são um; que o céu era a herança comum de ambos, e o evangelho que lhe foi confiado era o evangelho, como ele mesmo expressa, de “Cristo em vós (nós), esperança da glória”. Este evangelho ele agora tinha que pregar entre os gentios (Gálatas 1:16; Colossenses 1:28).
Assim, somos capacitados a ver a plenitude dos tempos em que os mistérios de Deus foram revelados. Sabemos que assim deve ser, pois Deus é Deus. Mas, por meio de Sua abundante sabedoria e prudência para conosco, Ele nos dá a graça de vislumbrar algo disso, para que possamos adorá-Lo, amá-Lo e ansiar pelo dia em que O veremos face a face e O conheceremos como somos conhecidos. Pois todos os Seus caminhos são formosos a seu tempo. Israel era o povo terrenal favorecido, e cabia a eles provar se a fonte seria aberta em Jerusalém, de onde regaria a Terra. Mas essa dívida de Israel já havia sido paga pelo ministério do Senhor, selada pelo ministério dos doze; e o discurso de Estêvão no capítulo 7 de Atos é a convicção de Deus quanto à rejeição de Israel, de todos os caminhos que o Seu amor havia trilhado com eles. Eles silenciaram a voz já falada por Deus por meio de José, como Ele os acusa ali; rejeitaram Moisés, o libertador; perseguiram os profetas; mataram João e outros, que haviam anunciado anteriormente a vinda do Justo; foram os traidores e homicidas do próprio Justo; e, finalmente, resistiram até o fim ao Espírito Santo em Sua Pessoa, como sempre haviam feito. O Senhor, portanto, só precisou abandonar Seu santuário, e com ele a Terra, e o mártir vê o Senhor no céu sob uma forma que deixa claro que os santos agora teriam sua cidadania celestial e sua morada na glória lá, e não na Terra.
O martírio de Estêvão foi, portanto, uma crise ou um tempo de julgamento, o último para Israel; e, por isso, uma nova testemunha de Deus foi chamada. Já haviam existido tempos semelhantes na história de Israel. Siló havia sido o cenário da primeira crise. A arca que ali se encontrava foi levada para a terra do inimigo – o sacerdote e seus filhos morreram ingloriamente; Icabô era caráter central do sistema de então, e Samuel foi chamado como a nova testemunha de Jeová – o auxílio de Israel, aquele que ergueu a pedra Ebenézer. Jerusalém foi, posteriormente, o cenário de outra crise. A casa de Davi havia enchido a medida de seu pecado; o rei e o povo, com todos os seus tesouros, foram levados para a Babilônia, e a cidade foi reduzida a escombros, e Jesus (pois o intervalo até esse propósito não precisa ser estimado) foi chamado, a nova Testemunha de Deus – a misericórdia e a esperança seguras de Israel. Mas Ele foi rejeitado e, em julgamento, Ele voltou Suas costas para Jerusalém, dizendo: “Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta”. Essa foi também uma época de julgamento – o julgamento de Israel pela rejeição do Filho do Homem; e então surge outra testemunha – os doze apóstolos, que testificam, como tenho observado, no Espírito Santo, a respeito da ressurreição do Senhor rejeitado, e que o arrependimento e a remissão dos pecados foram providenciados n’Ele para Israel. Mas eles também são rejeitados e expulsos. Então vem a crise final – Estêvão é o representante deles, e ele convence Israel da plena resistência ao Espírito Santo; e então surge uma nova testemunha celestial. Tal testemunha é a Igreja, e da Igreja, e do chamado e glória especiais da Igreja, Paulo é tornado o ministro, em um sentido eminente.
O Filho Revelado nos Santos
“aprouve a Deus… revelar Seu Filho em mim”, diz ele. Este é o fundamento da dignidade especial da Igreja e do evangelho que Paulo pregou. Não era o evangelho do Messias, a Esperança de Israel, nem o evangelho d’Aquele que havia sido crucificado, agora exaltado a “Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados”; mas era o evangelho do Filho de Deus revelado nele.
O Filho já havia sido revelado aos discípulos pelo Pai (Mateus 16:17); mas agora Ele Se revela em Paulo. Ele tinha o Espírito de adoção. O Espírito Santo nele era o Espírito do Filho. E ungido com este óleo de alegria, ele tinha que sair e espalhar o cheiro dele por toda parte. E sobre o Filho assim revelado interiormente, depende tudo o que é peculiar, como observei, à vocação e à glória da Igreja. Assim lemos: “O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e coerdeiros de Cristo: se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados” (Romanos 8:16-17). E novamente, lemos: “E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo”, isto é, como Paulo aqui fala de si mesmo, para termos o Filho revelado em nós. E sendo esta a condição predestinada da Igreja, surgem, como consequência disso, todas as santas prerrogativas da Igreja: a aceitação no Amado, com o perdão dos pecados por meio do Seu sangue; a entrada nos tesouros da sabedoria e do conhecimento, para que nos seja revelado o mistério da vontade de Deus; a herança futura n’Ele e com Ele, em Quem todas as coisas nos céus e na Terra serão reunidas; e o selo e penhor presente desta herança no Espírito Santo. Esta brilhante lista de privilégios é descrita pelo apóstolo assim: “as bênçãos espirituais nos lugares celestiais”; e de fato o são, bênçãos que, por meio do Espírito, fluem de Cristo e nos unem a Ele, que é o Senhor nos céus (Ef 1:4-12).
Tudo isso decorre da revelação do Filho em nós, pela qual a Igreja se reveste de Cristo, de modo a ser uma com Ele em cada estágio de Seu caminho maravilhoso: mortos, vivificados, ressuscitados e assentados no céu n’Ele (Ef 2:6).
A mordomia de Paulo
Desse mistério, Paulo era especialmente o mordomo. O Senhor havia insinuado isso na parábola da videira e das varas. Ele falou sobre isso como aquilo que a presença do Consolador realizaria, dizendo: “Naquele dia conhecereis que estou em Meu Pai, e vós em Mim, e Eu em vós”. Ele também falou disso aos Seus discípulos por meio de Maria Madalena após a ressurreição, dizendo: “Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus”; dizendo-lhes, assim, que seriam um com Ele em amor e gozo diante do trono, durante toda esta dispensação. Mas esse mistério não se revelou plenamente até que Paulo fosse enviado para declará-lo. É um chamado de abundantes riquezas de graça, mas nada menos do que isso poderia satisfazer a vontade de Deus para com os Seus eleitos; pois Aquele que santifica e aqueles que são santificados seriam “todos de um” (Hebreus 2:11). Assim se estabeleceu a aliança de amor antes da criação do mundo. Um mediador como Moisés, cujo maior serviço foi manter Jeová e o povo separados (veja Deuteronômio 5:5), não poderia cumprir o propósito deste maravilhoso amor de nosso Deus. Mas no Filho, os eleitos são aceitos; e embora Sua obra e Seu mérito sejam todo o título que eles têm a qualquer coisa, eles possuem tudo por sua unidade com o próprio Mediador (João 17:26). Nada menos que isso poderia satisfazer o desejo do coração de nosso Pai celestial para conosco.
O muro de separação, seja entre Deus e os pecadores, seja entre Judeus e gentios, é derrubado; e nós, pecadores, permanecemos juntos sobre suas ruínas, triunfando sobre elas em Cristo, com nosso Pai celestial Se regozijando também sobre nós. Esta é a maravilhosa obra do amor de Deus, e a formação e consumação desta união entre Cristo e a Igreja é a lavoura que Deus agora está cultivando. Ele não está, como antes estava, cuidando de uma terra de trigo, azeite e romãs, para que o Seu povo pudesse se alimentar do fruto do campo sem escassez (Deuteronômio 11:12); mas Ele é o Lavrador da Videira e dos ramos. Ele está treinando a Igreja na união com o Filho do Seu amor até que todos cheguem ao conhecimento d’Ele e a um homem perfeito. É essa união que nos torna da mesma família do Senhor Jesus e nos dá o direito de ouvir a respeito d’Ele “o Primogênito” (Romanos 8:29). É essa união que nos dá a mesma glória com o Senhor Jesus e nos dá o direito de olhar para Ele como “o Precursor” (Hebreus 6:20). É isso que dá caráter à vida que temos agora e à glória na qual seremos manifestados quando Aquele que é a nossa vida aparecer.
Vida, amor e glória
Nossa vida e glória, portanto, são ambas de um novo caráter. A vida é uma nova vida. O homem em Cristo é uma nova criatura; ele é um homem morto e ressuscitado. Suas capacidades e afeições adquiriram um novo caráter. Sua inteligência é entendimento espiritual, ou “a mente de Cristo”. Seu amor é “amor no Espírito”. O poder nele é “o poder da Sua glória” (TB), o poder da ressurreição de Cristo. E assim ele não conhece homem algum segundo a carne, mas todas as coisas se fizeram novas para ele. Não basta que as afeições humanas ou os gostos naturais aprovem algo; pois, sendo segundo o Espírito, ele se inclina “para as coisas do Espírito”. Ele serve em “novidade de espírito”, e o nome do Senhor Jesus é a aprovação do que ele faz, seja “por palavras ou por obras”. Ele foi transportado para o reino do Filho do amor de Deus, e lá caminha, saindo com segurança e liberdade para servir desde a manhã até à noite, vivendo pela fé n’Aquele que o amou e Se entregou por ele.
A glória é também uma nova glória. É algo que transcende tudo o que se viu nas eras anteriores. Coisas excelentes foram ditas sobre Adão e Israel; mas nada comparável ao que nos é dito sobre a Igreja. Cristo apresentará a Igreja a Si mesmo, assim como Deus apresentou Eva a Adão, para ser a companheira de seu domínio e de sua glória. Os santos serão conformados à imagem do Filho. É “a alegria do Senhor” que está preparada para os santos, uma participação com Cristo na autoridade do reino, naquilo que Ele recebeu do Pai. Eles não são apenas introduzidos na glória, mas eles mesmos são feitos gloriosos; como lemos: “A glória que em nós há de ser revelada”; e ainda, “para que também com Ele sejamos glorificados”, isto é “juntamente com Cristo”, “para ser conforme o Seu corpo glorioso”. O lugar do Filho é o cenário da glória deles. Eles não devem se apoiar no estrado para os pés, mas se assentar no trono. Israel pode ter as bênçãos da Terra, mas a Igreja conhecerá a glória superior ou celestial. E é a vida e a glória que nos fazem ser o que somos. A vida nos faz filhos, a glória nos faz herdeiros, e nossa filiação e herança são tudo.
O evangelho de Paulo
Foi o evangelho dessa vida e glória que Paulo foi especialmente chamado a ministrar. Sabemos que Pedro e os outros o transmitiram; mas Paulo foi aquele que o administrava de forma distinta. E Pedro e os outros não transmitiram este evangelho como sendo os doze em Jerusalém. Como os doze, eles haviam prestado testemunho a Israel e sido rejeitados como seu Senhor, e agora se tornaram testemunhas do chamado celestial da Igreja. A visão que instruiu Pedro sobre o fato de Deus haver santificado os gentios também pode ter lhe dito que Deus havia feito do céu, e não da Terra, o lugar do seu chamado e o cenário de suas esperanças. O lençol com seu conteúdo foi descido do céu e depois levado de volta ao céu. Isso foi, simbolicamente, uma revelação do mistério oculto desde os séculos. Ele indicava que a Igreja fora desde a antiguidade inscrita no céu e lá oculta com Deus, mas agora, por um breve período, se manifestava aqui e, no fim, seria ocultada novamente no céu, tendo lá sua glória e herança. Isso foi simbolizado pelo lençol que descia e subia, e tal, creio eu, é a natureza do mistério oculto por eras e gerações. E, de acordo com isso, Pedro, sob o Espírito Santo, fala aos santos sobre a sua herança “guardada [reservada – ARA] nos céus”; e os exorta a esperarem com os lombos cingidos, como estrangeiros e peregrinos na Terra. Ele apresenta a Igreja como tendo chegado conscientemente ao fim de todas as coisas aqui, e olhando, como Israel na noite da páscoa, para Canaã, tendo dado fim a este Egito – este mundo.[2]
[2] Em Pedro, encontramos muitas alusões a circunstâncias Judaicas. E o Espírito naquele que era o apóstolo da circuncisão naturalmente teria sugerido isso. Mas mencionarei apenas um exemplo (veja 1 Pe 2:9-10). O último versículo tem em mente Oséias 2:23. Mas a diferente conexão em que a verdade ali declarada se apresenta na mente do profeta e na mente do apóstolo é muito notável.
Mas Paulo foi tomado de maneira especial para este ministério. Uma dispensação do evangelho lhe foi confiada, e ai dele se não o pregasse (1 Coríntios 9:16-17). Ainda que, como ele mesmo diz, fosse até contra a sua vontade, mesmo assim ele devia pregá-lo. O Filho foi revelado nele com esse propósito específico, para que ele O anunciasse entre os gentios (Gálatas 1:16). Pois, quando o Senhor converteu a alma de Saulo, enviou-o com este evangelho: “Mas levanta-te e põe-te sobre teus pés, porque te apareci por isto, para te pôr por ministro e testemunha tanto das coisas que tens visto como daquelas pelas quais te aparecerei ainda”.
O ministério de Paulo
Considero, de fato, muito proveitoso para os santos discernirem corretamente que o ministério de Paulo foi, portanto, uma etapa no processo divino de revelar os propósitos de Deus. Que ele ocupa um lugar de destaque na Igreja, o sentimento de cada santo testemunhará de imediato e sem esforço; pois não há nome mais presente na memória dos santos do que o de nosso apóstolo, senão o nome d’Aquele que, no coração do Seu povo, não tem igual.
E, sendo assim o seu ofício procedente do céu, ele se recusa a consultar carne e sangue – recusa-se a subir a Jerusalém para encontrar-se com aqueles que foram apóstolos antes dele. Ele não deveria buscar ser aprovado ali ou por eles. Antes disso, os doze em Jerusalém detinham toda a autoridade. Mas os apóstolos em Jerusalém não representam nada para Paulo ou para seu ministério. Eles não haviam lançado sortes sobre ele, nem agora devem enviá-lo; mas é o Espírito Santo Quem diz: “Apartai-Me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado”. E tendo recebido assim a graça e o apostolado do Senhor, na glória, e sendo agora enviados pelo Espírito Santo, em plena consonância com tudo isso, ele e Barnabé recebem recomendação à graça de Deus das mãos não consagradas de alguns irmãos anônimos em Antioquia. Tudo isso foi uma grave transgressão daquela ordem que deveria estabelecer a Terra em justiça, começando por Jerusalém.
Não apenas o apostolado e a missão de Paulo eram, assim, independentes de Jerusalém e dos doze apóstolos, mas o evangelho que ele pregava (cuja natureza já consideramos) ele também não aprendeu nem lá nem com eles. Ele não o recebeu de homem algum, nem lhe foi ensinado, mas sim pela revelação de Jesus Cristo. Ele sobe, de fato, de Antioquia a Jerusalém, com Barnabé, para tratar com os apóstolos acerca da circuncisão; mas, antes disso, resiste a alguns, ainda que tivessem sido enviados por parte de Tiago, e repreende Pedro na presença de todos. E essas coisas foram ordenadas pela providência e sabedoria do Espírito, assim como as repreensões de nosso Senhor à sua mãe; o Espírito de Deus, prevendo as arrogâncias na carne que surgiriam de ambas as fontes, de Maria e de Pedro, deu assim ao peregrino esses sinais de sua jornada rumo ao céu. Ele divulga o decreto sobre a questão da circuncisão, para a paz presente. Mas, ao aconselhar as igrejas gentias posteriormente sobre um dos assuntos determinados por este decreto, a saber, comer carnes oferecidas a ídolos, ele o faz simplesmente por amor fraternal. Ele nunca se refere a este decreto (1 Coríntios 8). Ele foi ensinado inteiramente sobre o evangelho por revelação (Gálatas 1:12), pois em sua conversão isso lhe fora prometido (Atos 26:16).
E, consequentemente, foi do próprio Senhor que ele recebeu o conhecimento da morte, sepultamento e ressurreição (1 Coríntios 15:3), e também o conhecimento da última ceia e seu significado (1 Coríntios 11:23); embora essas coisas fossem de conhecimento comum daqueles que haviam convivido com o Senhor, e ele pudesse tê-las recebido deles. Mas não, ele precisava ser ensinado sobre tudo por revelação. O Senhor lhe apareceu nas coisas das quais ele deveria ser ministro e testemunha. O Senhor zelou para que Paulo não consultasse carne e sangue – para que não fosse devedor a ninguém, mas ao Senhor mesmo, por seu evangelho. Pois, assim como a dispensação não permitia nenhuma confiança na carne, o mesmo se aplicava ao apostolado de Paulo. Tudo o que poderia ter sido ganho na carne devia ser considerado perda. A confiança daqueles que tinham visto e ouvido, comido e bebido com Jesus, poderia ter sido ganho; mas tudo isso foi deixado de lado. Paulo seria agradecido e revigorado em espírito pela fé mútua entre ele e o discípulo mais humilde. Aliás, ele queria que tais discípulos fossem reconhecidos; todos aqueles em cujo interior o Espírito Santo havia aberto o rio de Deus para o refrigério dos santos (Romanos 1:12; 1 Coríntios 16:18). Mas ele não podia aceitar a pessoa de ninguém.
Os pilares anteriores da Igreja não podiam ser usados para sustentar seu ministério. A ordem Judaica havia desaparecido. Sabemos que, desde a antiguidade, Jeová respeitava essa ordem. Foi segundo o número dos filhos de Israel que, no princípio, Ele dividiu as nações (Deuteronômio 32:8). Depois, Ele distribuiu a terra de Canaã segundo esse número também, isto é, entre as doze tribos (Josué 13-19). Assim também Davi, em seus dias, sob a orientação de Jeová, levou em consideração o mesmo número quando estabeleceu os ministérios do templo e os oficiais da casa do rei em Jerusalém (1 Crônicas 23-27). E, de maneira semelhante, o Senhor providenciou a cura e o ensino de Israel, designando doze apóstolos, ainda levando em consideração a ordem Judaica. E essa ordem dos doze apóstolos foi preservada, como vimos, sob a liderança de Pedro posteriormente; pois ele era o guardião da ordem Judaica e pastor da Igreja Judaica. Mas o apostolado de Paulo é, ao mesmo tempo, uma violação contra tudo isso. Não tem qualquer respeito pela ordem Judaica, terrenal ou carnal e interfere nela. É um escrito sob a mão do Espírito de Deus para a revogação dessa ordem. E isso foi, como era natural, uma grande provação para os Judeus Cristãos. Eles não conseguiam entender facilmente esse apostolado, não conforme à ordem estabelecida, e vemos que Paulo foi compreensivo com eles durante essa provação. E, de fato, aqueles que o apoiam na afirmação da soberania do Espírito e na rejeição de toda autoridade carnal também deveriam ser compreensivos com as dificuldades que muitos agora enfrentam devido aos sentimentos e regras de julgamento Judaicos nos quais foram educados. Mas, ainda assim, Paulo era um apóstolo; ouçam-no, ou deixem de ouvi-lo.
E não apenas era uma provação para os crentes Judeus, mas também foram achados homens maus, movidos por Satanás, que se aproveitaram desse estado de coisas. Vemos que assim foi em Corinto. Na Galácia, porém, não foi desse modo. Em sua epístola às igrejas de lá, ele não fala de seu apostolado porque este havia sido caluniado entre eles, mas sim porque ele era a sanção divina do evangelho que Paulo havia pregado e do qual eles haviam se afastado. Mas em Corinto, seu apostolado havia sido questionado, e por quais testemunhas haveria Paulo de tornar seu apostolado aprovado? Ora, por sua pureza, por seu conhecimento, por suas armas da justiça (2 Coríntios 6). Como ele busca ser recebido? Ora, porque não fez injustiça a ninguém, não corrompeu ninguém (2 Coríntios 7). Como ele defende e estabelece seu ministério? Leiam suas provas em palavras como estas: “Não sou eu apóstolo? Não sou livre? Não vi eu a Jesus Cristo Senhor nosso? Não sois vós a minha obra no Senhor? Se eu não sou apóstolo para os outros, ao menos o sou para vós; porque vós sois o selo do meu apostolado no Senhor”. E ainda: “Porque ainda que tivésseis dez mil aios em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; porque eu pelo evangelho vos gerei em Jesus Cristo”. Com tudo isso, ele não atribui a prova de seu apostolado à presença manifesta do Espírito com ele? Seus filhos na fé eram o selo de seu ofício (1 Coríntios 9:2); a epístola que deveria recomendá-lo à aceitação de todos. Os sinais de um apóstolo foram realizados por ele (2 Coríntios 12:12). E não deveria ter sido assim? Que ofício ou ministério poderia agora ser garantido sem a presença e o exercício dos dons recebidos para os homens? Poderia o propósito da ascensão ser evitado ou anulado? Poderiam ser admitidas autoridade e ordem carnais, em desprezo da revelação agora dada, de que o Cabeça exaltado é o Dispensador e Senhor de todos aqueles ministérios que são para “o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo”?
Cristo, o Cabeça da Igreja
Quando o Senhor ascendeu, em Seu caminho às alturas, Ele era um Conquistador em triunfo, levando cativo o cativeiro. Mas, ao alcançar Seu trono celestial, tornou-Se um Sacerdote coroado[3] e enviou dons da coroação à Sua Igreja, por meio do qual Ele está formando ou fortalecendo a união entre Si mesmo e os membros aqui na Terra, e a união entre eles. Esses ministérios, portanto, agem como as juntas e as ligaduras do corpo humano; e o apóstolo deixa de lado todos os outros ministérios como sendo “rudimentos do mundo”, adequados àqueles que estão vivos no mundo, mas totalmente inadequados àqueles que estão – como a Igreja – mortos e ressuscitados com Cristo (veja Efésios 4:16; Colossenses 2:19-23).
[3] A “glória” e “honra” que constituem a coroa atual de nosso Senhor foram simbolizadas pelas vestes de Arão, que lhe foram destinadas para “glória e ornamento” (Êxodo 28:2). E as mesmas palavras são usadas na Septuaginta para “glória e beleza”, como nossos tradutores traduziram como “glória e honra” em Hebreus 2:7; de modo que a coroa atual do Senhor é uma coroa ou uma mitra de sacerdote, e não a de rei. Ele ainda não colocou Sua coroa real. ↑
Dons para a Igreja
Portanto, não somos fiéis à ascensão de nosso Cabeça se não buscarmos os dons de Sua ascensão naqueles que ministram em Seu nome. Eles constituem a escrita da mão do Senhor nas genealogias da Igreja. Os Judeus tiveram o cuidado de excluir do sacerdócio aqueles cuja genealogia não podia ser comprovada. Recusaram-se a registrá-los (Esdras 2:62; Neemias 7:63-64). E isso em uma época em que tudo era fraqueza em Israel. Nenhuma coluna de nuvem os havia guiado de volta para casa, quando vieram da Babilônia; nenhum braço do Senhor havia gloriosamente aberto caminho para eles através dos desertos; nenhuma chuva de alimento angelical do céu, nem a arca da aliança estava com eles. Tudo isso, e muito mais, havia desaparecido. Mas alegaram sua fraqueza e nada fizeram? Zorobabel, Esdras e Neemias fizeram o que puderam. Eles não puderam recuperar tudo, mas fizeram o que puderam e, entre outros serviços, leram as genealogias e não permitiram que as coisas santas fossem consumidas por pretendentes sem provas ao sacerdócio. E o nosso, queridos irmãos, é um dia de fraqueza como o deles. Grande parte da antiga força e beleza se perdeu, e não podemos recuperar tudo. Mas não deve ser, portanto, um dia de permissividade em relação ao mal; nem devemos, em espírito de inércia, cruzar os braços e dizer: “Não há esperança”. Devemos fazer o que pudermos e, entre outros serviços, podemos estudar as genealogias, quando alguém busca seu registro, e assim está escrito: “Convém, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma mulher, vigilante, sóbrio, honesto, hospitaleiro, apto para ensinar; Não dado ao vinho, não espancador, não cobiçoso de torpe ganância” (1 Timóteo 3).
Assim se desenrolam as genealogias dos bispos do rebanho de Deus; assim escreveu o Espírito do ascendido Cabeça da Igreja em Sua Palavra.
A presença do Espírito Santo
O tempo de gloriar-se somente no Senhor, e naquela autoridade – e somente naquela – que havia sido formada pelo Espírito Santo, havia agora plenamente chegado; e, portanto, o fato de o Senhor ter dado autoridade a Paulo na Igreja foi demonstrado por testemunhos da presença do Espírito com ele. Os sinais de um apóstolo foram realizados por ele. Sua autoridade foi aprovada pelo fato de que ele não podia fazer nada “contra a verdade, senão pela verdade”; e porque o poder usado por ele era usado “para edificação, e não para destruição” (2 Coríntios 13:5-10). Ele não reivindica nenhuma autoridade, a não ser aquela que foi assim confirmada pela presença do Espírito com ele, e usada por ele para o avanço da verdade e o proveito da Igreja. Pois o Espírito Santo havia sido publicamente reconhecido como Soberano na Igreja, assim como o Filho havia sido proclamado Cabeça para a Igreja. Os dons do Espírito podem estar entre nós em diferentes graus de intensidade; mas o Espírito Santo em nós é o título de toda adoração e serviço presentes. Qualquer adoração que haja agora nos templos de Deus deve ser em Espírito; pois nós “somos a circuncisão, nós que adoramos a Deus no Espírito” (ARA).
E o apóstolo, falando sobre adoração, diz: “Ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor, (isto é, ninguém pode chamar Jesus de Senhor, ou dizer: Senhor Jesus), senão pelo Espírito Santo” (1 Coríntios 12:2). Portanto, qualquer serviço que deva ser prestado na Igreja agora está sujeito a esta limitação: “segundo o poder que Deus dá”; é por esta regra: “a manifestação do Espírito”. Paulo podia impor as mãos sobre Timóteo, e Tito podia nomear presbíteros; mas a presença do Espírito era proporcional à autoridade e ao serviço. Timóteo foi deixado em Éfeso; mas a responsabilidade que lhe foi confiada ali estava de acordo com os dons que lhe foram concedidos (1 Timóteo 1:18; 4:14; 2 Timóteo 1:6). Assumir qualquer ministério além dessa medida é pensar de nós mesmos “além do que convém” (Romanos 12:3). E assim como cada santo individual tem o direito, por meio do Espírito que nele habita, de examinar “todas as coisas” (sem dúvida, com a condição de que retenha “o que é bom” – ARA); assim as congregações dos santos, ou os templos de Deus, como espirituais, devem também julgar (1 Coríntios 14:29); e se os recursos da carne, o nome, as vantagens humanas ou as distinções terrenais dos homens forem glorificados e confiados, o templo é contaminado. E o templo de Deus em Corinto foi assim contaminado (1 Coríntios 3:16-23). Alguns haviam se apoiado em Paulo, outros em Cefas, outros em Apolo. Mas isso era carnal. Isso era andar como homens, e não na presença e suficiência do Espírito, de Quem eles eram o templo. Tornaram-se infiéis ao Espírito que habitava neles.
Responsabilidade no ministério
E aqui permita-me dizer que não é tanto de direito de ministrar que o Novo Testamento fala, mas de obrigação. Se alguém tem o dom, ele tem a obrigação de exercitá-lo e de se dedicar ao seu ministério. O hábito de encarar o ministério como um direito, em vez de uma obrigação, deu à Igreja seu aspecto mundano. A “grande casa” esqueceu que o serviço na Terra é glória. Mas o nosso apóstolo não se esqueceu disso e jamais se envolveu em nada que pudesse influenciar o mundo, segundo os princípios do mundo. Ele era alguém por quem o mundo passava batido. Trabalhava com as próprias mãos, exercia seu ofício e fazia tendas, justamente quando, na autoridade do Espírito, sacudiu suas vestes sobre os Judeus incrédulos. Ele estava entre os mais humildes de sua companhia (humildes aos olhos do mundo), apanhando gravetos para o fogo, quando, no poder de Cristo, sacudiu a víbora de sua mão. Amados, isso é bem diferente de tudo o que a Cristandade corrompida sancionou em seus ministros, como se fossem suas devidas e apropriadas dignidades! Mas Paulo, em sua própria estima (e desejava que os outros o estimassem também por essa regra), considerava-se exatamente como o Senhor o havia feito. Ele não ousaria falar de nada que Cristo não tivesse realizado por meio dele (Romanos 15:18). Ele se media apenas pela linha que o Senhor lhe havia designado (2 Coríntios 10). Que loucura ele considera toda a vanglória da carne! Ele foi compelido, por um breve momento, a parecer tolo diante da Igreja em Corinto; mas com que zelo, com que vingança, com que justificativa ele abandona essa “loucura”, como a chama? (2 Coríntios 11). Que todos nós tivéssemos a mesma mentalidade, o mesmo zelo pelo Senhor, a mesma vingança contra a carne, que, como as vísceras de um sacrifício, só servem para serem queimadas fora do arraial.
Quanto a mim, irmãos, confesso que esses princípios me são muito claros no Novo Testamento. O Senhor sabe que, naturalmente, eu preferiria que tudo permanecesse e se estabelecesse na carne, para que pudéssemos nos apegar com mais segurança ao nosso caminho tranquilo e estável. Mas oro por mais fé, por uma apreensão mais viva e poderosa desta verdade: que a Terra e seus habitantes serão dissolvidos, e que somente Cristo sustentará seus pilares. Precisamos da fé que nos desarraigará dessa Terra na qual a cruz do Filho de Deus foi uma vez cravada, e na qual o curso deste mundo, permanecendo o mesmo desde então, apenas fixou essa cruz com mais firmeza. Queremos a fé que nos chamará a nos levantarmos e partirmos dela, e a irmos ao encontro do Noivo.
Paulo, um homem representativo
Mas agora gostaria de concluir, tendo estendido meu texto mais do que pretendia, e fazer algumas breves observações sobre nosso apóstolo em sua pessoa, seu ministério e sua conduta; pois neles se encontram exemplos de muitas características da dispensação, visto que seu apostolado foi o sinal geral dela.
Em sua pessoa, vemos refletido muito da dispensação. Ele podia chamar a si mesmo de o principal dos pecadores, quando desejava magnificar a graça da dispensação e mostrar que ela podia alcançar todas as abundâncias do pecado. Mas também podia chamar a si mesmo de irrepreensível quanto à justiça que há na lei, quando queria tornar conhecido o caráter da justiça da dispensação e mostrar como ela colocava de lado todas as outras como sendo perda e escória (1 Timóteo 1:15; Filipenses 3:8). Essas coisas são maravilhosas e, ainda assim, perfeitas. Saulo de Tarso é tomado pelo Espírito, a fim de apresentar nele a graça e a justiça que agora nos são trazidas. É estranho que encontremos o primeiro lugar na primeira fila dos pecadores ocupado por aquele que, quanto à lei, era irrepreensível. Mas assim foi. Um exemplo belo, brilhante e completo da obra da dispensação nos é dado naquele que foi feito seu ministro representante. A graça de Deus e a justiça de Deus são manifestadas em sua pessoa.
Assim, em sua pessoa vemos o “espinho na carne”. E seja lá o que isso tenha sido, era uma mancha aos olhos do mundo. A formosura que o mundo podia avaliar estava maculada por isso. No Espírito, ele tinha maravilhosas revelações, e o segredo de Deus estava com ele de uma maneira bendita; mas diante dos homens havia uma mácula sobre ele. Mas tudo isso está em consonância com a dispensação. Os santos, exaltados em Cristo, devem ser humilhados diante dos homens. O mundo não os conhecerá. A dispensação não admite confiança na carne. Nela, Deus deixou a carne de lado como inútil. O olho direito e a mão direita foram arrancados; não se deve atentar para as coisas segundo a aparência externa; não se deve medir ou comparar as coisas por qualquer regra desse tipo. E, de acordo com isso, Paulo teve uma tentação na carne. Algo foi imposto a ele que provocava o desprezo dos homens. Assim como Jacó, quando se tornou Israel, ele manquejava ao longo da planície de Peniel. A carne estava danificada, quando diante de Deus ele recebeu um nome novo e honrado. Mas o encolhimento de sua coxa estava no mesmo amor que sua vitória sobre o divino Desconhecido. E assim, o espinho na carne de Paulo estava no mesmo amor que seu arrebatamento para o paraíso. Ezequias, no dia em que foi exaltado, fora deixado sozinho para que Deus o pusesse à prova (2 Crônicas 32:31). Mas o Senhor foi misericordioso com Paulo e não o deixou sozinho, mas colocou um espinho em sua carne. E se ele tivesse permanecido na plena inteligência do Espírito, não teria orado para que o espinho fosse removido; pois logo teve que retirar sua oração e se gloriar, antes, em suas fraquezas. Assim, não há ninguém perfeito, queridos irmãos, senão o próprio Mestre. Por mais favorecidos e honrados que Paulo e outros possam ter sido, não há ninguém perfeito senão o Senhor. Isso é consolo para nossa alma. Deus repousa eternamente satisfeito n’Ele, mas somente n’Ele. Ele jamais teve um desejo que precisasse ser revogado, jamais uma oração a ser chamada de volta do ouvido do Pai. “Ele foi ouvido”. Mas Paulo teve que aprender que havia interpretado mal a regra da bênção e da glória; teve que aprender, como todo santo, que quando estava fraco, então era forte. E assim, com o espinho na carne, mas com o poder de Cristo repousando sobre ele, ele representa os santos nesta dispensação.
Em seu ministério, vemos também algo da dispensação. “A loucura de Deus” e “a fraqueza de Deus” (isto é, o testemunho de Cristo crucificado, que o mundo julga “vil e desprezível”) estavam agora sendo dispensadas, e o ministério de Paulo foi de acordo com isso – ele era fraco e insensato aos olhos dos gregos deste mundo. Paulo não se apresentou com eloquência ou sabedoria. Sua pregação não foi feita com palavras persuasivas, mas ele estava entre os santos em fraqueza, temor e grande tremor (1 Coríntios 2).
Mas, além disso, por mais que sua pregação se estendesse pelo mundo, ela demonstrava a abrangência da graça de Deus nesta dispensação. Em princípio, o som dessa graça deveria alcançar os confins da Terra; e assim Paulo fala de seu ministério como se estendendo para a direita e para a esquerda, desde Jerusalém até o Ilírico. Ele havia recebido o “apostolado, para a obediência da fé entre todas as gentes” e se sentia “devedor, tanto a gregos como a bárbaros, tanto a sábios como a ignorantes”. Ele falava aos Judeus, aos devotos, ao povo comum, a todos que encontrava, e também aos filósofos (Atos 17). Seu propósito era alcançar toda a Terra. E assim ele fala continuamente às igrejas sobre sua passagem de um lugar para outro, por Corinto até a Macedônia, retornando de lá para Corinto novamente e, assim, sendo levado à Judeia. E novamente, ele fala de ir a Roma, ao fazer sua viagem à Espanha. Deus estava em Cristo reconciliando o mundo Consigo mesmo, e o Espírito que estava neste apóstolo de Deus, portanto, alcançou os confins da Terra. Ele chamava os homens em todos os lugares ao arrependimento, assim como a dispensação fazia. E quando não podia mais andar por aí pregando o evangelho, estando preso por causa dos gentios e sendo prisioneiro de Jesus Cristo, “recebia todos quantos vinham vê-lo; Pregando o reino de Deus, e ensinando com toda a liberdade as coisas pertencentes ao Senhor Jesus Cristo” (At 28:30-31). Tudo isso expressava a abrangência da graça que agora chamava “tanto maus como bons; e a festa nupcial foi cheia de convidados”. Nos tempos Judaicos, as ordenanças de Deus estavam todas em Jerusalém. Era lá que os homens deviam adorar. O sacerdote permanecia no templo, pois a dispensação vigente era aquela que recusava o convívio com os homens, mas em justiça, mantinha o rebanho de Deus recolhido na terra da Judeia. Mas agora a dispensação é a da graça, saindo nas atividades do amor para reunir as ovelhas perdidas que se extraviaram nos montes; e a pregação é, portanto, a grande ordenança de Deus hoje. A pregação é a nova designação de Deus, algo que transcende os meros serviços de um templo isolado; e desta nova ordenança Paulo foi constituído o ministro mais distinto.
Então, em Sua conduta, posso dizer que, de maneira geral, ela serviu para demonstrar a dispensação. Em Sua conduta, como Ele mesmo diz, houve uma “manifestação da verdade”. E é isso que a fé sempre faz, em medida. A fé, em sua forma viva, reflete a verdade dispensada. A conduta da fé, como alguém já observou, está sempre de acordo com o princípio dos tratamentos presentes de Deus. Como João diz: “se Deus assim nos amou, também nós devemos amar uns aos outros”. E como Pedro diz: “Não tornando mal por mal, ou injúria por injúria; antes, pelo contrário, bendizendo; sabendo que para isto fostes chamados, para que por herança alcanceis a bênção” (1 Pedro 3:9). Isto é, sendo a bênção concedida a nós, a bênção é exigida de nós. E assim, na conduta de Paulo, encontramos os grandes princípios do tratamento atual de Deus com a Igreja. O Filho de Deus esvaziou-Se da glória que possuía antes da criação do mundo; e enquanto esteve na Terra, sempre Se recusou a Si mesmo. Com o direito de invocar legiões de anjos, permaneceu mudo como uma ovelha diante de seus tosquiadores; sendo livre como o Filho, submeteu-Se às exigências de outros (Mateus 17:27). Assim, Paulo, embora livre de tudo, fez-se servo de todos, tornando-se tudo para todos, para o bem deles (1 Coríntios 11:1; 2 Coríntios 11:29). E observem suas palavras aos anciãos de Éfeso, quando se despede não apenas deles, mas também de seu ministério, pronto para ir para a prisão ou para a morte, por seu Mestre – Jesus (Atos 20:17-35). Observem o que ele declara ter sido sua conduta em seu ministério e como ele testifica de si mesmo, dizendo: “Tenho-vos mostrado todas as coisas” (At 20:35 – JND); assim, mostrando-lhes que fora escolhido para ocupar o lugar de honra de refletir as ações de Deus no evangelho, permitindo que as igrejas vissem nele a bem-aventurança de agir em graça, que é (como sabemos para nossa salvação) o caminho do Filho de Deus no evangelho. “Em tudo vos dei o exemplo de que, assim trabalhando, é necessário socorrer os fracos e vos lembrar das palavras do Senhor Jesus, porquanto Ele mesmo disse: Coisa mais bem-aventurada é dar do que receber”. Este foi um santo testemunho que o Espírito o capacitou a dar. E, em certo sentido, eu diria que ele até mesmo ultrapassou o evangelho; não o espírito dele (isso era impossível), mas as meras condições dele. O Senhor havia ordenado que aqueles que anunciam o evangelho vivam do evangelho; mas Paulo não havia usado esse poder no evangelho (1 Coríntios 9:12). Ele poderia ter sido um fardo para os discípulos como apóstolo de Cristo, mas desejava transmitir-lhes não apenas o evangelho de Deus, mas também a sua própria alma, porque eles lhe eram queridos (1 Tessalonicenses 2:8-9). Mas o que isso reflete senão o amor imensurável e incansável de Deus, que nos visitou no evangelho? Tão eficazmente ele havia aprendido sobre Cristo – de forma tão abençoada ele foi capacitado, pela graça, a manifestar a dispensação – e, além disso, tão plenamente ele era um modelo da conduta para a qual a dispensação nos chama, que ele pôde dizer: “Sede também meus imitadores, irmãos, e tende cuidado, segundo o exemplo que tendes em nós, pelos que assim andam. Porque… a nossa cidade [comunidade – JND] está nos céus”. Ele viveu na Terra como cidadão da cidade celestial e era para Deus (como o Espírito lhe permitiu expressar de forma marcante), “o bom cheiro de Cristo” (ARC).
Mas, por mais honrado que pudesse ter sido como apóstolo dos gentios e, em seu apostolado, pessoa, ministério e conduta, uma testemunha da dispensação, contudo ele não foi enviado, como ele nos diz, para batizar, mas para pregar o evangelho. Pois não deveria haver nenhum ponto de reunião na Terra. Se houvesse tal ponto, este apóstolo o teria conhecido. Cristo era o centro de todas as almas renovadas e Ele estava no céu. O Senhor não estava agora estabelecendo um ponto visível, como fizera outrora em Jerusalém. A dispensação era celestial: sua fonte de poder e seu lugar de encontro era o santuário superior. Era uma “cidadania celestial” que estava sendo registrada; pois ainda não se podia dizer de Sião: “Este e aquele homem nasceram ali”. Todos os que, em todo lugar, invocavam o Nome do Senhor Jesus Cristo eram agora registrados no alto, como no livro do Cordeiro.
O arrebatamento para o céu
Tal era o nosso apóstolo; e muito mais poderia ser acrescentado do mesmo caráter; mas não falarei mais sobre isso. Gostaria de mencionar agora apenas mais uma coisa que também era peculiar a ele: o seu arrebatamento para o paraíso. Nisso, ele também se apresenta como representante da dispensação, visto que foi como “um homem em Cristo” que ele foi agraciado com esse arrebatamento. Nele, ele se reconhece apenas como tal, e, portanto, esse paraíso é a porção de todos os que são assim. Considero seguramente que esse tem sido o lugar do espírito do santo enquanto ausente do corpo, e para onde o ladrão perdoado foi no dia de sua crucificação. Paulo era, de fato, um homem em Cristo.[4] Ele foi arrebatado por um tempo, mas nenhum outro homem jamais teve o mesmo gozo. Ele o chama de “paraíso” – “o terceiro céu”, o lugar de abundantes visões e revelações. Se estava no corpo ou fora do corpo, ele não sabia, mas ele esteve lá. Não lhe foi permitido falar muito sobre isso, e a Escritura, no geral, é silenciosa sobre a sua natureza. Mas lá estava ele, e neste arrebatamento do nosso apóstolo, como nos é testemunhado pelo ensino da Escritura, é melhor partir e estar com Cristo, e que o lugar do espírito liberto é um lugar de abundante revelação e um paraíso de visões de Cristo.
[4] Ezequiel tinha sido arrebatado para Jerusalém e outros lugares, como profeta de Israel, para que, em visões de Deus, pudesse entender e declarar os conselhos divinos. Da mesma forma, João foi levado a diversos lugares, como profeta da Igreja, para que pudesse testemunhar, da mesma maneira, os propósitos divinos. Mas esses foram apenas arrebatamentos no Espírito. Filipe havia sido de fato, e não meramente em espírito, arrebatado para Azoto, vindo do deserto de Gaza, para que, como evangelista, pudesse exercer seu ministério entre os homens. Assim também Paulo foi arrebatado para o paraíso, mas não como profeta, nem como evangelista, nem como apóstolo, mas como “um homem em Cristo”, para que todos “em Cristo” pudessem conhecer a sua porção na bênção e honra que os aguarda após esta vida, e que era tão grande que o nosso apóstolo, ao retornar à carne e à Terra, corria o risco de ser exaltado por ela acima de qualquer medida. ↑
A própria existência de tal lugar foi plenamente revelada à fé da Igreja (embora pudesse ter sido apreendida antes), quando o Cabeça da Igreja disse: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito”. E novamente foi confirmada à nossa fé quando Estêvão, “um homem em Cristo”, disse: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. Mas ainda assim, esta não é a perfeição da Igreja. O Espírito que Deus nos deu é apenas a garantia da casa “eterna, nos céus” (2 Coríntios 5). O trono do Filho do Homem é a herança dos santos e a glória pela qual a Igreja espera. Mas esse lugar de glória ainda não está preparado, como está o lugar do espírito daqueles que partem no Senhor. Pode ter havido visões dele, como no monte santo, mas ainda se baseia apenas em visões; mas ainda é a esperança há muito adiada. Cristo espera por ele à Sua destra, e o Espírito e a Noiva dizem: Vem. Toda a criação geme por ele. Mas ele ainda é aguardado. Contudo, amados, a palavra é: esperem por ele – certamente virá e não tardará.
Muitos a quem amo profundamente no Senhor podem não concordar comigo nessas coisas. E certamente sei que conhecemos apenas em parte e, portanto, apenas em parte podemos profetizar. Mas podemos ser cooperadores para a alegria uns dos outros, e assim o Senhor tem determinado. Não obstante, irmãos, tenhamos cuidado para que o temor de Deus não nos seja ensinado por mandamentos de homens. Tenhamos cuidado com a obediência na carne; antes, vigiemos para que façamos o que fazemos no poder da comunhão com o Senhor. E em todo o conhecimento ampliado que nos for transmitido por outros, tenhamos a graça de provar tudo por uma consciência exercitada diante de nosso Deus e inquirir a verdade como em Sua presença. Que assim seja com os Teus santos, Senhor bendito, cada vez mais! Amém.
