Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo

Romanos

Logo no início desta epístola, nos é dito que o que Deus busca do pecador é “a obediência da fé”. Poderíamos julgar, religiosamente, que o amor e seus serviços seriam mais aceitáveis para Ele. Mas não é a conformidade com a lei nem a demonstração de amor que Deus espera de nós, pecadores perdidos, mas sim “a obediência da fé”. E, ao refletirmos sobre isso, percebemos que esta é a única forma de obediência que um pecador pode prestar e que Deus aceita. Ele é honrado como Salvador pela nossa fé, e isso Lhe confere uma glória mais rica do que qualquer honra que pudéssemos ter prestado pela conformidade aos Seus estatutos como Legislador, pois ela O reconhece e O honra tal como Ele Se revela na graça do evangelho, e, ao obedecê-Lo, assim O honramos a Ele próprio. Os primeiros capítulos da nossa epístola abordam este tema grandioso, tratando da fé que desperta pela primeira vez em um pecador. E como o capítulo 1:5 continua a narrar, essa obediência da fé que o pecador que recebe o evangelho presta a Deus é “pelo Seu Nome”, o que certamente indica como a Sua glória está envolvida nisso, e que é a mais bem-vinda honra que o Seu Nome pode receber de um pecador arruinado que está sendo conduzido, por meio da reconciliação que é proclamada no evangelho, de volta a Si mesmo. E aprendemos ainda com essas palavras iniciais de nossa epístola (v, 17) que essa fé assim exercida possui a mais alta dignidade de que uma criatura é capaz, isto é, “a justiça de Deus”. A criatura não pode estar revestida de dignidade mais maravilhosa do que esta.

É nessa conexão que aprendemos, no capítulo 3:22-26, que o Objeto ao qual a fé se apega para obter essa justiça divina é “Jesus” e o Seu “sangue”. Um Salvador crucificado é sempre o Objeto que a fé apreende e a Quem ela se apega. Aprendemos ainda que “a justiça de Deus”, na qual este pecador crente se encontra, é encontrada “pela fé em Jesus Cristo” e é “para todos e sobre todos os que creem”. É uma grande bênção saber disso. Se Deus recebe a Sua mais alta glória vinda da fé de um pecador, esse pecador recebe vinda de Deus a mais alta dignidade que é possível um homem possuir. Isso o torna o que ele é. Isso o coloca em sua devida forma e personalidade diante de Deus. E a fé no sangue de Cristo apreende isso. Sob o olhar da fé, Deus estabeleceu uma propiciação – um propiciatório. A fé, permanecendo ali, aprende que Deus é Justo e, ao mesmo tempo, Justificador. Seu trono é mantido em justiça pelo sangue que ali é aspergido. A morte do Filho de Deus deu àquele trono tudo o que ele exigia, consumando a reconciliação ao manter a justiça e, ao mesmo tempo, respondendo pelo pecado. E assim, o Deus bendito, no evangelho da Sua graça, proclama que foi encontrada plena satisfação para atender a todas as Suas justas exigências sobre o pecador. A justiça clamava por juízo sobre o pecado, mas a graça provê ao pecador um abrigo no propiciatório manchado de sangue. E a fé faz uso dele. Ela aceita o dom de Deus. O pecador que crê invoca a Sua resposta e é salvo. E assim é que a fé se torna o primeiro elo entre Deus e a alma.

Esta doutrina nos expõe e nos humilha, pois revela quão incuravelmente e irremediavelmente maus somos em nós mesmos e sob a lei. Ela “exclui a jactância (vanglória)”, pois, embora nos assegure que somos feitos “justiça de Deus”, que temos o lugar de “filhos”, com paz, graça e gozo presentes, com a possessão do amor de Deus em sua plenitude imensurável, não deixa espaço para o pecador se vangloriar, pois tudo vem da graça. Assim, ao mesmo tempo que nos concede, também nos nega. Estes são alguns dos grandes fatos que nos são ensinados nos capítulos 1 a 5 desta epístola. Tudo isso manifesta e glorifica a Deus, e ao mesmo tempo revela as glórias morais desta preciosa doutrina da fé. O evangelho apresenta Deus na plenitude de Sua graça e justiça combinadas a toda a Sua criação nas mais elevadas formas de glória moral. Revela-O como o Autor de toda a obra e o Herdeiro de toda a glória. E O apresenta assim tanto a Judeus quanto a gentios. Pois, em resposta à pergunta: “É porventura Deus somente dos Judeus?” A palavra é: “Também dos gentios, certamente”. Essa verdade da justificação pela fé nunca é tratada como uma mera proposição escolástica. É a religião da confiança pessoal e imediata em Deus, de um pecador convicto, desfrutada por um título que o próprio Deus escreveu para ele.

Em Romanos 3-4, a morte de Cristo é apresentada como consumando a reconciliação e mantendo a justiça ao responder pelo pecado, e o pecador que se apega a isso é justificado. O capítulo 5 o coloca em paz diante de Deus, dando-lhe acesso a um estado presente de graça e proporcionando uma esperança segura de glória. Apresenta uma razão pela qual ele pode se gloriar nas tribulações do caminho; o introduz ao amor perfeito de Deus, fala sobre seu interesse na vida presente de Cristo após a morte e revela o próprio Deus como a fonte de seu regozijo.

Romanos 6-8 narra a libertação do pecador crente do pecado como senhor, da lei como marido e da carne como lei do seu ser. Em nosso estado não regenerado, o pecado era nosso senhor e nós seus servos voluntários. Mas a morte dissolveu o vínculo e libertou o cativo, “porque aquele que está morto está justificado do pecado”. O antigo senhor não tem mais poder sobre nós. Não somos mais seus servos. Este é o maravilhoso ensinamento do capítulo 6. E no capítulo 7, o crente, como alguém que morreu e ressuscitou com Cristo, é liberto da lei como marido. Pois a lei se dirige àqueles que estão vivos na carne, mas o crente, tendo morrido com Cristo, está livre de suas exigências e agora age sob as virtudes d’Aquele a Quem, na ressurreição, está unido. No capítulo 8, ele é visto “em Cristo”, onde não há condenação; liberto da lei do pecado e da morte, não mais “na carne”, mas em Cristo, com o Espírito de Deus habitando nele, vivendo em triunfo, “mais que vencedor” por meio d’Aquele em Quem agora está diante de Deus. Assim, nesta epístola, temos a glória moral do evangelho de Deus exposta e comprovada, com seus benditos resultados para a fé evidenciados na condição presente de todos os pecadores que creem.

O propósito desta grande epístola, ao menos em suas partes doutrinárias, é expor as excelências da graça de Deus e daquela no pecador que apreende e desfruta das bênçãos que a graça traz.

Em Romanos 1-8, vemos o conselho divino e o caminho de Deus expostos, nos quais pecadores perdidos são trazidos de volta a Deus e colocados em paz diante d’Ele, em íntima comunhão Consigo mesmo, tudo pela graça. E a linguagem ao final desta seção da epístola é um triunfo da consciência em virtude das riquezas da graça de Deus e da obra de Cristo.

Em Romanos 9-11, onde somos instruídos nos conselhos e na sabedoria de Deus em Seus atos dispensacionais, o entendimento alegre e instruído dos santos triunfa sobre as riquezas da sabedoria e do conhecimento de Deus. Assim, quer seja o segredo da paz que o sangue de Cristo comprou e o relacionamento que a graça concede, seja a glória que a graça coloca diante dele, tudo é de Deus e tudo é da graça sem limites.

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