Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo
1 Coríntios
Os santos de Corinto, embora ricamente dotados de conhecimento e com os dons do Espírito abundantemente exercidos entre eles, haviam se tornado “carnais”. Estavam dando vazão à sua mente e aos seus gostos humanos. Um apreciava a ousadia natural de uma certa classe de mestres, outro admirava a eloquência mais suave de outros; haviam permitido que a mente natural deles guiassem seus pensamentos e usassem sua língua. Um dizia: “Eu sou de Paulo”; outro, “Eu sou de Apolo”. Tudo isso era andar “segundo os homens” e se gloriar na carne. O apóstolo, portanto, expõe a inutilidade da carne e sua incapacidade por meio de vários testemunhos. Primeiro, pela Escritura, que diz de toda a sua sabedoria: “Onde está o sábio? Onde está o escriba?”. Segundo, pela Cruz de Cristo, que, quando apreendida corretamente, mostra o fim da carne. Terceiro, pelo evangelho, que ele havia pregado entre eles, que demonstrava que a sabedoria da carne havia se provado “loucura diante de Deus”. Em quarto lugar, pelos materiais com os quais Deus formou a Igreja em Corinto – “que não são muitos os sábios… nem muitos os nobres” da Terra que foram chamados. Tudo isso os gregos, com seu amor natural pelo aprendizado, haviam esquecido. O apóstolo, como pregador, não havia vindo entre eles dessa maneira. Ele não havia satisfeito seus gostos carnais, nem no conteúdo nem na forma de seu ministério entre eles. Sua mensagem era “Cristo crucificado”, que é o fim da carne. Seu ministério não se baseava na sabedoria carnal, mas no poder do Espírito de Deus. Por essa razão, os homens – os príncipes do mundo – homens em seu mais alto nível de refinamento e civilização, não haviam recebido a mensagem.
Toda a sua “glorificação na carne” era, portanto, inconsistente com tudo o que haviam ouvido dele como seu “pai em Cristo”. Eles estavam se entregando ao espírito de reis na Terra, enquanto aquele que os havia gerado por meio do evangelho era um estrangeiro e enfrentava a oposição daqueles que tinham a mentalidade com a qual eles se gloriavam. Em tudo isso, eles provaram que estavam se entregando aos seus gostos naturais e andando “segundo os homens”. Eles precisavam ser repreendidos e restaurados a uma energia renovada de vida espiritual da qual haviam se afastado. Também haviam se tornado moralmente negligentes. Se a parte intelectual de sua natureza havia sido satisfeita, assim o seu senso moral havia se tornado frouxo, como nos informa o capítulo 5. Estavam descansando tranquilos enquanto o pecado reinava em seu arraial. Acã estava lá, mas nenhum Josué havia chorado. Permitiam o mal sem que houvesse um Fineias para agir em nome de Deus para purificar a congregação. Tudo isso era maldade: revelava um baixo estado espiritual e falta de zelo pela honra de Deus entre eles.
No capítulo 6, eles demonstram o quão pouco exerciam suas funções no Senhor e suas faculdades no Espírito, no julgamento de seus irmãos, embora, em perspectiva, fossem chamados a julgar homens e anjos.
No capítulo 7, eles fizeram perguntas que demonstravam a curiosidade e o intelecto de um povo, em vez de uma espiritualidade. O apóstolo responde a essas perguntas de uma maneira que revela o quão pouco eles se comportavam como um povo celestial, vivendo acima do nível do mundo. Ele lembra a eles que “o tempo se abrevia” e que “a aparência deste mundo passa”.
Nos capítulos 8 a 10, o apóstolo os acusa de falta de consideração uns pelos outros, agindo por conta própria, como pessoas que falam, e não segundo os princípios da graça. Eles se entregavam aos prazeres que seu conhecimento lhes permitia, sem se preocuparem suficientemente com as exigências do amor. Isso era mais uma prova de uma condição de alma relaxada. O conhecimento, e não o amor, guiava seus caminhos, e isso sempre testemunha uma acomodação egoísta e uma indulgência carnal, tão contrária à energia de uma vida no Espírito. E assim, em meio a uma solene exortação sobre esse assunto (caps. 9 e 10), ele usa as palavras: “Aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (ARA). Ele os chama a uma vigilância e energia renovadas na corrida, lembrando-os de que, embora todos corram, “um só leva o prêmio”, e os exorta a correrem “de tal maneira que o alcanceis”, e não serem “reprovados” por falta de disciplina própria.
No capítulo 11, o apóstolo trata da maneira como eles observavam a ceia do Senhor. Aqui, novamente, eles haviam se tornado relaxados e indulgentes consigo mesmos, vivendo segundo a natureza, sem esperar uns pelos outros, mas cada um comendo a sua própria ceia, um com fome, outro embriagado; deixando de considerar o que era devido ao Senhor.
Os capítulos 12 a 14 mostram como, sendo um povo grego e intelectual, outra questão se tornou uma armadilha na qual caíram. Os dons espirituais passaram a ser valorizados de acordo com sua atratividade, em vez de seu valor para a edificação. Eles os usavam para uma mera demonstração de poder e como ocasião para rivalidade, permitindo assim que o inimigo pervertesse seu uso. O dom de “línguas” era exercitado sem levar em conta seu verdadeiro valor para a edificação piedosa. Tudo isso era mal, tinha o cheiro da carne, não do Espírito.
No capítulo 15, eles são acusados de transformar o mistério da ressurreição em assunto de filosofia especulativa. O relaxamento da alma e a indulgência na liberdade da mente carnal se manifestam em tudo isso e suscitam a repreensão do apóstolo e sua exortação revigorante para “Vigiai justamente [Acordai para a justiça – AIBB]” e retornar ao conhecimento superior de Deus, abandonando as más conversações que os corrompiam.
No capítulo 16, ele os exorta, dizendo: “portai-vos varonilmente”, e a agirem com a energia e a graça de uma mente superior, segundo a lei do amor. E se a arrogância grega os tentasse a desprezar Timóteo por causa de sua juventude e falta de ensinamentos clássicos, como eles naturalmente valorizavam, eles são advertidos a não o desprezarem, pois ele tinha credenciais superiores como alguém que havia sido diligente na “obra do Senhor”, seguindo o próprio exemplo do apóstolo. Com notável aprovação, ele menciona a “casa de Estéfanas”, cujos membros haviam se dedicado “ao ministério dos santos” com verdadeira energia – uma exceção notável à condição geralmente relaxada dos santos em Corinto.
A epístola como um todo é valiosíssima, não apenas por nos orientar em situações que ainda podem surgir entre os santos, mas também por mostrar, de modo geral, o quanto o Espírito zela para que caminhemos com diligência espiritual, não segundo a carne ou conforme os costumes do mundo, mas como os santificados em Cristo, na confissão do Seu Nome como Salvador e Senhor.
