Origem: Livro: O Apostolado e as Epístolas de Paulo
As Epístolas Pastorais
As Epístolas a Timóteo e Tito, embora escritas para servos individuais de Cristo, têm um valor especial para nós nestes tempos, ao apresentarem o caráter e os princípios do verdadeiro serviço na Igreja de Deus. Pois, quaisquer que sejam as mudanças trazidas pelo tempo, o conselho do Senhor permanece para sempre, e os pensamentos do Seu coração por todas as gerações. O Espírito Santo aqui dá Seus conselhos para fortalecer aqueles que servem na casa de Deus, na qual desordens e perigos já se alastravam, mesmo naquela época remota. Aqui estão verdades para preservar aqueles cujos pés estão no caminho e para corrigir e recuperar aqueles que se desviaram dele. Há erros e males, mas o Espírito Santo, por meio do apóstolo, aqui admoesta e repreende para que Ele possa restaurar, enquanto vigia com paciência. Mas se Suas instruções e admoestações forem ignoradas, o Senhor poderá tratar com castigo, bem como com repreensão (Apocalipse 3:19), aqueles que ainda são objetos do Seu amor.
1 Timóteo. No capítulo 1, o apóstolo demonstra grande empenho em exaltar a graça de Deus. A salvação é descrita como sendo tudo isso. Ele escreve sobre Deus como Salvador e Cristo Jesus como nossa esperança. Ele sabia bem como manter as honras de cada uma das Pessoas da Trindade em seu devido lugar. Aqui, Deus Se revela como Salvador, e essa revelação de Deus está associada à bênção da criatura. A alma que recebe a Sua salvação, conforme revelada no evangelho, é bem-aventurada, mas a que a rejeita não é bem-aventurada: está “sem Deus” (Efésios 2:12) e será julgada como alguém que não O conhece (2 Tessalonicenses 1:9).
Nos versículos 8 a 10, o apóstolo se volta para a lei e seu uso. Ela não serve para a salvação; seu lugar não é na Igreja, mas fora dela, no mundo, cumprindo ali sua função designada. E o santo que está dentro, olha de seu lugar de segurança para o mal e vê a lei em ação entre aqueles que são nomeados como agindo em contradição ao evangelho do Deus bendito. O apóstolo, portanto, declara que a lei é “boa” e realiza uma obra necessária em sua própria esfera, mas quando se volta para o evangelho, seu coração arde e seu espírito se enche de regozijo ao reconhecê-lo como “o evangelho da glória de Deus bem-aventurado” – ou, como está no original – “o Deus feliz”. É como Doador que Deus é apresentado no evangelho, e alegra o Seu coração dar, pois foi da mente e do coração de Deus que o Senhor Jesus falou quando disse: “Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber”.
Nos versículos 12 a 16, ele magnifica a misericórdia que o encontrou em sua culpa como um pecador ignorante e insolente – assim como em Filipenses 3, quando renunciou a toda confiança em sua própria justiça e nas vantagens carnais que havia adquirido, sendo sua salvação inteiramente pela graça e por sua justiça somente em Cristo. No versículo 17, ele vislumbra o futuro distante e parece contemplar a entrada de sua própria nação – cuja conversão a sua própria era o modelo – e, ao vê-los sendo introduzidos, seu espírito irrompe em uma bela doxologia: “Ora, ao Rei dos séculos” – não apenas “Deus nosso Salvador”, mas como Rei reinando em Seu trono legítimo. É bom para a alma seguir por um caminho tão bendito, começando com a graça e terminando na glória.
1 Timóteo 2. Tendo o caminho para dentro da casa sido tornado claro no capítulo 1, a ordem dessa casa e as ocupações daqueles que nela habitam são descritas aqui, pois é depois de entrarmos que respiramos sua atmosfera e aprendemos nossas responsabilidades para com os outros que ali estão. Primeiramente, é aceitável e condizente com “Deus nosso Salvador” orar por “todos os homens”, pois é da vontade de Deus que todos sejam salvos. E há um só Mediador – não apenas para os Judeus, mas para todos – “entre Deus e o homem”, cujo resgate é válido para todos. Em seguida, a mulher é apresentada como uma figura da Igreja em sua submissão a Cristo como Senhor, aprendendo em toda submissão e se comportando de maneira adequada nessa posição.
1 Timóteo 3 descreve a natureza e a ordem de todo o serviço nesta casa de Deus, pois onde Deus habita, tudo deve ser segundo a Sua vontade, visto que nem mesmo o homem redimido é deixado livre para determinar seus próprios caminhos como adorador ou servo. Tudo é providenciado pelo Dono da casa. A boa vontade na adoração é sempre correta e aceitável a Deus, mas a obstinação Ele não tolerará (Levítico 10:1-2; 1 Coríntios 11:28-32). O último versículo deste capítulo apresenta o “mistério da piedade” – Deus manifestado em carne – em Sua missão na Terra para formar um elo com um povo redimido e chamado, a quem Ele pudesse conduzir após Si para a Sua glória. “Justificados em espírito” refere-se àquilo que pertencia somente a Cristo. Ele era pessoalmente puro e imaculado, mas nós só podemos ser justificados pelo Seu sangue (Romanos 5:9). “Vistos pelos anjos”. Que visão para eles contemplarem e aprenderem (1 Pedro 1:12), mas eles só podiam observar. Somos os sujeitos de Sua obra redentora, e nossos interesses estão ligados a ela e a Ele, como agora “recebido acima na glória”.
1 Timóteo 4-6. Aqui, são previstos graves desvios da fé em sua pureza, bem como da piedade em sua integridade e simplicidade e são feitas provisões para isso. Em alguns, isso ocorre por darem ouvidos a “espíritos enganadores” (cap. 4:1) que procuram corromper a verdade, e em outros, pelos ensinamentos perversos de homens de mentes corruptas, totalmente privados da verdade (cap. 6:5). Em meio a essas depravações, o santo é chamado a andar em pureza, guardando o que recebeu de Deus (a doutrina que é segundo a piedade), vivendo sem mácula e irrepreensível, tendo em vista a aparição do Senhor (cap. 6:14), que avaliará plenamente o valor de tal serviço e o recompensará de acordo.
2 Timóteo. No tempo do trabalho ativo do apóstolo, “o mistério da injustiça [iniquidade – ARA]” (2 Ts 2:7) e o fermento da doutrina maligna, introduzido secretamente em um período inicial (Gálatas 5:9), já se manifestavam aos seus olhos ungidos, revelando as diversas formas de corrupção que se espalhariam amplamente. É para instruir e proteger Timóteo em meio a isso que sua segunda epístola foi escrita. Ele trata especialmente das características dos “últimos dias” (cap. 3:1) e adverte Timóteo como se ele já estivesse vivendo neles. Isso tem um valor especial para todos que caminham em meio à corrupção agora plenamente desenvolvida e espalhada por toda a Cristandade. As palavras iniciais são muito comoventes, cheias de afeição pessoal. Timóteo era seu verdadeiro filho no evangelho. Ele também havia sido seu fiel companheiro, como um filho para um pai (Filipenses 2:19-22), e agora permanecia em pé como testemunha de Deus e da verdade em meio à corrupção abundante. O coração do apóstolo transborda de grande afeição por seu “amado filho”. Ele não permitiu que sua dor pessoal, nem as decepções que tinham vindo das igrejas cujo bem-estar ele trazia diariamente como cuidado em seu coração, o fizessem fechar-se em si mesmo. De modo algum. Sua afeição era tão grande e sincera como antes, e se ele não podia dedicá-la àqueles que em anos anteriores a haviam reivindicado, ele a deixaria fluir para este fiel obreiro de Deus.
Timóteo pode ter sentido a tentação de desanimar, de considerar tudo como perdido. É uma tentação comum em tempos de afrouxamento. Mas Timóteo não deve ceder a isso. Ele tem um dom de Deus e deve usá-lo, prestando todo o serviço que puder em meio às circunstâncias existentes. Ele tinha o exemplo do apóstolo e a plena expressão de sua confiança naquela fé da qual ele era despenseiro, e ele não deveria se envergonhar do testemunho do Senhor, acontecesse o que acontecesse.
Em 2 Timóteo 2 Paulo prossegue em encorajá-lo e prepará-lo para o serviço e o conflito. No capítulo 1, já lhe havia revelado o seu título à confiança no poder que o preservaria e levaria tudo à vitória final no dia do Seu poder e glória, assim como na Sua ressurreição Ele aboliu a morte e trouxe à luz a vida e a incorrupção. Aqui, em 2 Timóteo 2:1, ele deve ser “forte na graça” (JND) e, ao mesmo tempo, acostumar-se a “suportar as dificuldades” como um soldado em serviço, e continuar trabalhando com paciência e esperança, sem esperar ver os frutos completos até o dia da colheita, lembrando-se de que o Senhor, como a Semente de Davi, recebeu Sua recompensa na ressurreição, uma verdade que os ensinamentos de Himeneu e Fileto negavam. Pois, se “a ressurreição era já feita”, então a “aparência de piedade” poderia muito bem ser a religião de uma igreja corrupta que tivesse abraçado o mundo. Era uma época de corrupção religiosa, infidelidade e independência do homem, que abandonava todo o temor a Deus e a reverência à Sua Palavra para fazer a sua própria vontade e trilhar o seu próprio caminho. Em meio a essas condições, cabia a Timóteo “procurar” apresentar-se a Deus aprovado, como alguém “que maneja bem a palavra da verdade”. Ele deveria se apegar à doutrina que aprendera e fazer pleno uso das Escrituras Sagradas, que conhecia desde a infância e que foram comprovadas em sua salvação, e que eram suficientes para sustentá-lo em todo o seu serviço. Restava apenas ao apóstolo, agora no fim de sua jornada, com a coroa em vista, aguardando o martírio, proferir seus últimos conselhos com a devida solenidade e fixar sua esperança no dia vindouro da recompensa perante o servo e administrador de Deus, com um belo testemunho final da fidelidade do Senhor que o amparou até o fim.
Tito. Nesta breve Epístola, a ordem e os ministérios da casa de Deus, com as características morais próprias que convêm a todos os que a ela pertencem, são devidamente estabelecidos. Essa forma exterior procedia do Espírito Santo, cuja presença era também o seu poder. É algo feliz quando forma e poder se encontram unidos, e quando a operação interior do Espírito na Igreja lhe confere a sua forma exterior ordenada pela “verdade que é segundo a piedade”, como o apóstolo aqui fala. Quando essas coisas se separam, a forma exterior será, aos olhos de alguns, tida em honra, mas com pouco do poder que deveria acompanhá-la. O “espírito… de força, de amor e de prudência” (2 Tm 1:7 – TB) preservará disso. Contudo, as portas desta casa de Deus devem ser zelosamente guardadas, suas avenidas mantidas limpas, e sua ordem e ministérios regulados segundo a vontade d’Aquele que nela habita. Se algum dos hóspedes desta casa do Senhor agir contrariamente à lei ou à santidade da casa, eles devem ser tratados, pois tudo deve estar de acordo com a mente do Senhor da casa. Cada servo deve conhecer o seu devido serviço, de acordo com a distribuição ou dom que recebeu, e usar tudo para a edificação e auxílio dos demais membros da casa.
