Origem: Revista O Cristão – As Sete Declarações do Senhor na Cruz Parte 2
Os Sofrimentos Expiatórios de Cristo
Como foram aquelas horas de trevas na cruz? Havia algum anjo ministrando ou fortalecendo? Havia alguma voz da excelente glória expressando indizível deleite em Sua bendita Pessoa? Havia algum raio de luz daquela glória para aliviar a terrível escuridão? Não, Deus havia abandonado o Homem Cristo Jesus. Essa é uma hora única. Não há nada igual a ela nos anais da eternidade.
Mas por quê? A Palavra de Deus responde: “Aquele que não conheceu pecado, O fez pecado por nós”; “levando Ele mesmo em Seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro”. Ele “por nossos pecados foi entregue”. “Ele foi ferido por causa das nossas transgressões, e moído por causa das nossas iniquidades”. “O SENHOR fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos”. Esse, então, é o motivo. Cristo foi feito pecado por nós – uma oferta pelo pecado. “Nossos pecados”, “nossas iniquidades”, foram colocados sobre Ele, e Ele os carregou sobre o madeiro. Quando estávamos sob condenação, Ele Se fez “maldição por nós”, para nos redimir da condenação.
Mas Quem “O fez pecado por nós”? Quem O fez “maldição por nós”? Quem colocou sobre Ele as nossas iniquidades? Quem O feriu? Quem O moeu? Foi o homem ou foi Deus? É claro que a Escritura deve responder. Vejamos, então, se a Escritura fornece uma resposta para essas perguntas.
Quem poderia lidar com a questão do pecado?
Veremos que tudo está conectado com a questão do pecado. Eu poderia perguntar, então, em primeiro lugar: Quem poderia lidar com a questão do pecado? É claro que somente Deus poderia fazer isso. O homem não poderia nem o faria. Bendito seja Deus, Ele mesmo lidou com a questão na Pessoa de Cristo, quando O fez oferta pelo pecado na cruz.
Foi Jeová Quem colocou nossos pecados sobre Jesus. Ele O moeu, Ele O feriu.
“Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho; mas o SENHOR [Jeová] fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos” (Is 53:6).
“Ao SENHOR [Jeová] agradou moê-Lo, fazendo-O enfermar; quando a Sua alma se puser por expiação do pecado” (v. 10).
“Ó espada, desperta-te contra o Meu Pastor, e contra o Homem que é o Meu Companheiro, diz o SENHOR [Jeová] dos Exércitos. Fere ao Pastor, e espalhar-se-ão as ovelhas” (Zc 13:7). Compare também Mateus 26:31 e Marcos 14:27. “Então Jesus lhes disse: Todos vós esta noite vos escandalizareis em Mim; porque está escrito: Ferirei o Pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão”.
O ferir, o moer, o castigo, os açoites, os golpes, o abandono e, posso acrescentar, a ira e a indignação (Sl 102:10), vieram todos de Jeová – de Deus, que estava lidando com o pecado que havia sido colocado sobre Cristo na cruz.
Você diz: “Pense em um pai que se agradou em ferir seu único filho.” Mas, querido irmão, não devemos deixar de lado a Escritura por nossos sentimentos e raciocínios. É dessa forma que um infiel ou universalista argumenta contra a doutrina da punição eterna.
Mas não creio que essa expressão ilustre verdadeiramente Deus ferindo Cristo. Não diz: “O Pai Se agradou em ferir Seu Filho.” E Jesus não disse: “Meu Pai, Meu Pai, por que Me desamparaste?” Ele disse: “Deus Meu”. E não é notável que essa seja a única vez mencionada nos evangelhos em que Ele Se dirige ao Pai como “Deus”? Antes, era sempre “Pai”. Isso não é sem instrução. Quando você diz: “Pai”, há o pensamento e o sentimento de relacionamento. Quando Jesus proferiu o clamor na cruz, não foi isso. Na cruz, Ele tomou o lugar de uma vítima – um sacrifício pelo pecado – para atender às reivindicações de Deus. E em João 3:14, Jesus diz: “Assim importa que o Filho do Homem seja levantado”; ao passo que, quando se trata do amor de Deus pelo mundo, é dito que Ele “deu o Seu Filho unigênito” (v. 16). Nas três horas de trevas na cruz, Jesus foi abandonado por Deus, e isso por causa de pecados, não os pecados d’Ele, mas os nossos, que foram colocados sobre Ele para que, ao mesmo tempo, a majestade e a santidade de Deus ao lidar com o pecado, e o Seu grande amor pelo mundo, pudessem ser demonstrados em conformidade com o Seu caráter.
O deleite de Deus em Seu Filho
Creio que nem preciso dizer que acredito que Deus Se deleitou infinitamente com Seu Filho quando, como Homem, Ele foi pendurado na cruz, porque foi ali mais do que em qualquer outro lugar que o cheiro suave de Sua perfeita obediência foi manifestado. Mas a cruz era a terrível expressão do juízo de Deus contra o pecado, e essa foi a razão das súbitas “trevas” e de Ele abandonar Cristo. O pecado era tão horrível aos olhos de Deus que, mesmo quando foi colocado sacrificialmente sobre Cristo, Ele teve que retirar a luz de Sua face e ordenar que a espada despertasse. Assim como no dilúvio, nos dias de Noé, “se romperam todas as fontes do grande abismo, e as janelas (comportas) do céu se abriram”, assim pode-se dizer também que na cruz havia ondas vindas de baixo e ondas vindas de cima, encontrando-se e rolando sobre a alma santa de nosso bendito Salvador. As torrentes dos ímpios estavam ali, e todas as ondas e as vagas de Deus, em juízo contra o pecado, também ali estavam.
Mas foi justamente ali que a perfeição de Jesus foi manifestada, bem como o valor moral de Seu sacrifício. Em Seu sacrifício, o cheiro suave do que Ele era em Sua própria perfeição pessoal subiu como uma nuvem de incenso para Deus. Vemos isso, em figura, em Levítico 16:12-13. Aqui, primeiro havia o sacrifício do novilho; depois a queima do incenso; e então a aspersão do sangue. Ora, a queima do incenso e o sangue aspergido expressam o que foi apresentado a Deus na morte de Jesus. O incenso expressa a glória pessoal e as perfeições morais demonstradas em Sua morte, e o sangue, o valor de Sua morte para a remoção do pecado. Ambos, na figura, estão ligados à morte.
O sangue e o incenso
Como já disse, a primeira coisa era o sacrifício do novilho. Era preciso haver morte. Sem ela não poderia haver expiação. Mas a queima do incenso e o sangue aspergido sobre o propiciatório falam do que foi apresentado a Deus naquela morte. Era preciso haver algo que correspondesse à Sua glória e que pudesse satisfazer as reivindicações de Sua gloriosa majestade. Na figura, o incenso era queimado no incensário do sumo sacerdote com fogo do altar diante do Senhor. Dessa queima, uma nuvem se elevava e cobria o propiciatório. Era uma nuvem de glória que subia e se encontrava com a nuvem de glória entre os querubins – glória respondendo à glória. E então o sangue era aspergido sobre e perante o propiciatório pelo sumo sacerdote sob a cobertura dessa nuvem de glória que se levantava do fogo.
Acaso essa queima do incenso, então, não é figura do cheiro suave e da glória pessoal de Jesus subindo a Deus em conexão com Sua morte na cruz? O fogo santo – o fogo do juízo de Deus – caiu sobre Ele ali. O efeito da prova desse fogo foi a manifestação da glória intrínseca e do valor moral da Pessoa de Jesus – o irromper, por assim dizer, de uma nuvem de incenso de glória, correspondendo à glória e majestade d’Aquele que ali estava lidando com o pecado de acordo com a necessidade de Sua própria natureza e santidade.
