Origem: Revista O Cristão – Jesus Cristo Nosso Senhor
Jesus Cristo Nosso Senhor
Assim que conhecemos Jesus Cristo como nosso Salvador e Redentor, também nos é ensinado que Ele é nosso Senhor. Seu senhorio é universal e diz respeito a todos os homens, embora Ele sustente esse relacionamento principalmente com os crentes. O apóstolo Pedro declarou essa verdade no dia de pentecostes. “Saiba,” ele disse, “pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a Quem vós crucificastes, Deus O fez Senhor e Cristo” (At 2:36). O próprio Senhor Jesus, depois de Sua ressurreição, diz: “É-Me dado todo o poder no céu e na Terra” (Mt 28:18). Por outro lado, Pedro, tratando com outro aspecto dessa verdade, nos fala de falsos mestres “os quais introduzirão heresias destruidoras, negando até ao Senhor que os comprou” (2 Pe 2:1 – TB).
Temos, então, duas coisas: primeiro, que Deus fez de Cristo o Senhor no terreno da redenção, dando-Lhe essa posição de supremacia universal em resposta à Sua apreciação da obra que Cristo realizou por Sua morte, e, segundo, que Cristo adquiriu senhorio sobre tudo por meio da compra. Este pensamento encontramos em uma das parábolas: “o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo” (Mt 13:44). A consequência é que Ele é o Senhor de tudo, tendo “poder [autoridade – ARA] sobre toda a carne” pela determinação de Deus (Jo 17:2; At 10:36; Rm 14:9).
No entanto, quando nós, como crentes, falamos de Cristo como “nosso” Senhor, expressamos outro pensamento, porque então trazemos a ideia de relacionamento – o relacionamento de servos. É o mesmo senhorio, mas nós, pela graça de Deus, fomos levados a reconhecê-lo, para nos curvarmos diante d’Ele nesse caráter, para aceitar Sua autoridade e governo e tomar o lugar de sujeição. Este foi um dos objetivos de Sua morte, como Paulo nos diz: “Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para Aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5:15). Veja também Romanos 14:7‑9. Portanto, reconhecemos, pela graça de nosso Deus, não apenas que Cristo é o Senhor de todos, mas também que Ele é, de uma maneira mais íntima, o nosso Senhor; e isso não apenas em virtude de Sua designação como tal, como Cristo rejeitado e agora como Homem glorificado, mas também porque Ele adquiriu essa posição sobre nós por meio da redenção. Portanto, é nossa alegria confessá-Lo como Senhor, e quão solene é lembrar que todos, mesmo aqueles que O rejeitam neste dia de graça, um dia serão constrangidos pelo poder – poder capaz de sua destruição – de confessá-Lo também como Senhor (Fp 2:10-11). O que mais incumbe a nós, que somos crentes, é reconhecer, declarar e estar sujeito à Sua autoridade, para que em alguma medida possamos ser testemunhas d’Ele neste dia de Sua rejeição.
Visto que Cristo ocupa esta posição, quais são nossos privilégios e responsabilidades com referência a Ele nesse caráter?
Adoração
A primeira coisa a ser mencionada é a adoração, pois é diante d’Ele como Senhor que frequentemente nos prostramos em adoração. Isso é ensinado, em princípio, em um dos salmos: “Ele é teu Senhor; adora-O” (Sl 45:11). Assim também na passagem já citada dos filipenses – todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Ele é “o Senhor, para glória de Deus Pai”. Os teólogos se esforçam para argumentar que Cristo deve ser adorado igualmente com o Pai é adorado, na medida em que Ele é Deus, assim como Homem. Isso é verdade, mas, ao mesmo tempo, perde o ensino da Escritura sobre Sua posição atual e a adoração que é devida a Ele nessa posição. Ele é Deus, mas a maravilha e a característica de Sua posição atual é que Ele a ocupa como Homem. Foi o mesmo Jesus que os Judeus crucificaram que agora é feito Senhor e Cristo; Ele, como Homem, tomou a glória que possuía com o Pai antes que o mundo existisse. É um grande erro supor que Ele era Homem aqui abaixo e Deus no céu, como se as duas naturezas pudessem ser divididas. A verdade é que, se podemos fazer a distinção, Ele era verdadeiramente Homem enquanto esteve aqui embaixo, e foi a apresentação de Deus para nós, enquanto agora, embora nunca perca Sua divindade essencial, Ele Se assenta à destra de Deus como Homem. Assim, embora seja perfeitamente verdade que nós O adoramos como Deus, pois toda a adoração que sobe a Deus é necessariamente oferecida a Ele – na medida em que o termo Deus inclui todas as Pessoas da Deidade – é antes como Homem que Ele está na glória de Deus, Cristo Jesus, nosso Senhor, que nos inclinamos diante d’Ele em louvor e adoração.
Oração
Assim como nós O adoramos, também oramos a Ele como Senhor. Existem dois exemplos impressionantes desse princípio registrados nas Escrituras. Quando Estêvão foi martirizado pelos Judeus enfurecidos, é dito: “Apedrejavam, pois, a Estêvão que orando, dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7:59). Paulo também, falando do espinho na carne, diz: “Acerca do qual três vezes orei ao Senhor para que se desviasse de mim. E disse-me: A Minha graça te basta, porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2 Co 12:8-9). Agora, é evidente que foi a Cristo a Quem ele se dirigiu como Senhor, pois acrescenta: “De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo”. Esses exemplos fornecem instruções mais importantes sobre o caráter em que Cristo deve ser tratado em oração. É como Senhor – não como “Jesus” ou “Cristo”, como infelizmente às vezes se ouve. Um momento de consideração nos mostrará a adequação disso. Dirigirmo-nos a Ele em nossas orações simplesmente pelo nome “Jesus” ou pelo termo “Cristo”, ao nos prostrarmos diante d’Ele, é certamente esquecer tanto o nosso lugar como suplicantes quanto o Seu lugar como Senhor. Isso tem cheiro de uma indevida familiaridade e irreverência, embora se admita livremente que isso possa ser feito sem o menor sentimento desse tipo. Seja como for, nunca devemos esquecer Sua exaltação e dignidade ao nos aproximarmos d’Ele em oração ou súplica. Os instintos espirituais de um filho de Deus serão suficientes para ensinar a cada um que Ele sempre deve ser tratado com o título de Senhor. É apropriado que Ele receba este título e que nós o rendamos a Ele. O anjo usou esse título quando acalmou o temor das mulheres no sepulcro na manhã da ressurreição e da maneira mais significativa. Ele disse: “Não tenhais medo; pois eu sei que buscais a Jesus, que foi crucificado. Ele não está aqui, porque já ressuscitou, como havia dito. Vinde, vede o lugar onde o Senhor jazia” (Mt 28:5‑6). Assim, ele lembrou-lhes que Jesus, a Quem elas buscavam, era o Senhor. Portanto, tenhamos sempre o cuidado de lembrar o que é devido Àquele diante de Quem nos inclinamos e de Quem buscamos graça e bênção.
Somos Seus servos
O termo relacionado a “Senhor” é “servo”. Portanto, somos especialmente lembrados pelo termo “nosso Senhor” de que somos Seus servos. Nós somos Seus servos porque Ele nos comprou com Seu próprio sangue, e, portanto, somos absolutamente Sua propriedade. Assim, Paulo se deleita em se chamar um servo (escravo – JND) de Jesus Cristo (Rm 1:1; Fp 1:1).
Nesse caso, será imediatamente observado que a vontade do Senhor é nossa única lei. É de fato a característica do Cristão que ele não tem vontade; no momento em que sua vontade está ativa, a carne aparece. Assim, ele tem (ou seja, deveria ter) absolutamente nenhuma vontade. Ele pode dizer com o apóstolo: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gl 2:20). O Senhor também nos mostrou esse caminho. “Porque Eu desci do céu, não para fazer a Minha vontade, mas a vontade d’Aquele que Me enviou” (Jo 6:38). Por isso, é dito que Ele, de fato, “esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo [escravo – JND]” (Fp 2:7). Assim como Ele não tinha vontade, mas todo pensamento, palavra e ação eram governados pela vontade do Pai, também nós, em todas as coisas, devemos respeitar a Sua vontade.
Nossa responsabilidade, então, como servos é a de obediência. Como o Senhor disse a certos mestres: “E por que Me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que Eu digo?” (Lc 6:46), ou, como disse aos discípulos: “Vós Me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque Eu o sou. Ora, se Eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros” (Jo 13:13-14 – ARA). Então, assim que Cristo nos for revelado como nosso Salvador e o reconhecermos como nosso Senhor, devemos tomar a atitude de Saulo quando ele disse: “Senhor, que queres que eu faça?” (At 9:6; 22:10). A partir desse momento, devemos aceitar o lugar de obediência à Sua vontade, e não apenas aceitá-lo, mas encontrar nossa alegria nele, assim como Ele mesmo disse que a Sua comida era fazer a vontade de Seu Pai e realizar a Sua obra (João 4:34).
Seu senhorio universal
Temos uma responsabilidade adicional relacionada ao senhorio de Cristo. Como já mencionamos, Ele é o Senhor de todas as coisas (Atos 10:36 – JND). Portanto, não apenas temos que, como crentes, assumir a posição de obediência, mas também devemos reconhecer Sua autoridade sobre todos os que estão conectados conosco – sobre nossa família e nosso lar. É uma questão de crescente importância saber se a doutrina do senhorio universal de Cristo não tem sido excessivamente negligenciada. O estado das famílias de muitos crentes exige que tal doutrina seja considerada de modo imperativo. É um erro fatal, no qual muitos caem, supor que os membros não convertidos de nossa família não tenham relacionamento algum com Cristo. Ele é o Senhor de tudo, e eles estão sob a responsabilidade de confessar, como os crentes estão sob a obrigação de sustentar esse senhorio. O governo de Cristo deve ser mantido por todo o círculo de responsabilidade dos santos. É nisso que as famílias dos santos devem apresentar um contraste completo com as famílias do mundo e, assim, ser um testemunho vivo da autoridade de um Cristo rejeitado e ausente – Cristo nosso Senhor.
Suas reivindicações sobre os perdidos
Novamente, se lembrássemos que Aquele que é nosso Senhor também é o Senhor universal, isso nos daria muito mais poder para lidar com os homens. Ao acusá-los do pecado de rejeitar a Cristo, com que frequência eles fogem do assunto dizendo que não tiveram nada a ver com o ato de Judeus e romanos quase 2.000 anos atrás. Nesses casos, o fato do atual senhorio de Cristo deve ser pressionado sobre eles. Acaso eles reconhecem o lugar que foi dado a Ele por Deus? Acaso eles confessam e se submetem à Sua autoridade? Então, eles ficam convictos de estarem recusando e rejeitando agora Aquele que foi feito tanto Senhor como Cristo. Essa arma, se usada com habilidade no poder do Espírito, pode alcançar muitas consciências e levar pessoas ao arrependimento diante de Deus. Junto com essa verdade, eles devem ser informados de que, se persistirem em se recusar a confessar Cristo agora, no dia da graça, devem confessá-Lo diante do grande trono branco, para sua destruição eterna. A responsabilidade do homem nunca deve ser negligenciada, pois sua consciência precisa ser alcançada. Também não devemos esquecer de apresentar a graça, a misericórdia e o amor de Deus, pois certamente toda apresentação do evangelho deve ser a expressão de Seu próprio coração. Embora reconheçamos e insistamos nessas coisas, ainda pode ser perguntado se pressionamos suficientemente as reivindicações de Cristo como Senhor. O homem é reconhecido em toda parte, e Cristo repudiado. Mas se o homem permanece indiferente e rejeita Suas reivindicações, ele deve finalmente dobrar os joelhos diante d’Ele, quando Cristo estiver assentado como Juiz no grande trono branco. Quão melhor é se reconciliar com Ele agora e confessar e adorá-Lo como Senhor.
