Origem: Revista O Cristão – Soberania e Responsabilidade

Calvinismo e Arminianismo

Com a ajuda do Senhor, gostaríamos de considerar os assuntos da soberania de Deus e da responsabilidade do homem. Os dois assuntos são frequentemente colocados em oposição um ao outro, como se fossem mutuamente contraditórios, e não complementares. Ambos são verdadeiros e são encontrados lado a lado na Palavra de Deus. Partidos e seitas foram formados em torno de cada tema, enquanto muito calor e pouca luz têm sido gerados em ambos os lados.

Uma controvérsia tempestuosa surgiu na última parte do século XVI entre os seguidores de João Calvino (1509-1564) e Jacobus Arminius, cujo nome real era Jacob Harmensen ou Herrnansz (1560-1609). A batalha entre calvinistas e arminianos ainda está em andamento.

Calvinismo 

Calvino viu e ensinou a ruína total do homem, e que desde que Adão caiu, toda a sua posteridade nasceu em pecado e possuía uma vontade oposta a Deus. Assim, o Calvinismo ensinou que a humanidade estava irremediavelmente perdida, a menos que Deus interviesse e salvasse alguns, mas que Ele fez isso, primeiro por Sua própria escolha soberana em uma eternidade passada e depois dando-lhes fé em Cristo quando estavam vivendo na Terra. Calvim então afirmou falsamente que aqueles que não foram eleitos para a salvação foram eleitos para o inferno – um exemplo de onde a razão humana leva ao erro ao tentar reconciliar, pela mente humana, o que está além da mente humana para compreender.

Arminianismo 

Armínio negou que o homem estivesse além do poder de ajudar a si mesmo, afirmando que ele poderia, exercendo seu próprio livre-arbítrio, melhorar a si mesmo, e que pelo menos ele tinha o poder de aceitar o bem e recusar o mal – exercer fé em Cristo ou rejeitá-Lo. Isso geralmente é chamado de doutrina do “livre-arbítrio”.

Livre-arbítrio 

Será que o homem hoje possui algo como livre-arbítrio no sentido moral? Não! Adão foi colocado no Jardim do Éden por seu Criador. Ele era perfeito na inocência, pois Deus, depois de criá-lo, olhou para Sua criação e disse que era tudo “muito bom”. Adão estava feliz no relacionamento com o seu Criador, mas, para permanecer assim, ele precisava andar em obediência, pois essa era a única coisa correta para uma criatura. Ele não foi forçado externamente a permanecer naquele estado; havia apenas um teste aplicado a ele em matéria de obediência. Ele deveria se abster do fruto de apenas uma árvore, e Deus o advertiu das consequências da desobediência. Assim que ele exerceu sua própria vontade, ele pecou. Isso não foi tudo; ele se tornou um pecador com uma vontade oposta a Deus. A partir desse momento, toda a humanidade (com a única exceção do “Senhor do céu”, “o segundo Homem”, “o último Adão”) foi disposta ao mal da vontade própria. Uma vez que a vontade do homem está agora inclinada para o mal, como ele pode, pelo exercício dela, voltar-se a Deus? Vamos citar o que alguém disse sobre o livre-arbítrio:

“A afirmação de ‘um homem estar realmente pronto para escolher entre o mal e o bem’… é algo igualmente horrível e absurdo, porque supõe que o bem e o mal estão do lado de fora dele e que ele próprio não está em nenhum dos dois. Se ele, em sua disposição, é um ou outro, a escolha já está aí. Para ter uma escolha justa, ele deve ser pessoalmente indiferente, mas estar em um estado de indiferença ao bem e ao mal é algo totalmente horrível. Se um homem tem uma inclinação, sua escolha não é livre; um livre-arbítrio é um absurdo do ponto de vista moral, porque, se ele tem uma vontade, ele deseja alguma coisa. Deus pode desejar criar. Mas vontade nas coisas morais (no homem) significa ou a vontade própria, que é pecado (pois devemos obedecer), ou uma inclinação para algo, que é realmente uma escolha feita no que diz respeito à vontade.”

“Dizer que ele (o homem) não está inclinado ao mal é negar toda a Escritura e todo fato; para torná-lo livre para escolher, ele teria que ser ainda indiferente – indiferente e não ter preferência – quanto ao bem e ao mal, o que não é verdade, pois as concupiscências malignas e a vontade própria estão aí, os dois grandes elementos do pecado, e se isso fosse verdade seria completamente horrível.”

“A doutrina do livre-arbítrio favorece a doutrina da pretensão do homem natural de não estar completamente perdido, pois é realmente nisso que ela resulta. Todos os homens que nunca foram profundamente convencidos do pecado, todas as pessoas com quem essa convicção se baseia em pecados grosseiros e exteriores, acreditam mais ou menos no livre-arbítrio. Você sabe que é o dogma… de todos os raciocinadores, de todos os filósofos. Mas essa ideia muda completamente toda a ideia do Cristianismo e a perverte completamente.”

A necessidade de um novo nascimento 

Se o homem natural pudesse, pelo exercício de sua própria vontade, colocar-se sob favor diante de Deus, então não seria verdade que “os que estão na carne não podem agradar a Deus”, mas a Palavra de Deus é verdadeira. Igualmente negaria a declaração positiva: “Necessário vos é nascer de novo”. Por que o Senhor disse: “Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou não o trouxer”? Porque o coração do homem está tão distante de Deus que, se o homem fosse deixado a si mesmo, ele nunca viria. É verdade, como na parábola, que quando o convite chega aos pecadores necessitados, “todos à uma começaram a escusar-se” (Lc 14:18). Eles não apenas têm uma natureza disposta ao mal, mas não estão dispostos a aceitar o convite gracioso de Deus, não, nem mesmo com Deus suplicando que eles venham. Se não fosse pela graça soberana que atraiu qualquer um de nós a Cristo, ninguém teria participado do dom gratuito de Deus.

A Escritura deixa completamente de lado qualquer bem no homem, como nosso Senhor disse: “não quereis vir a Mim”, nem mesmo quando Ele os procurava graciosamente. A vontade estava em falta. Novamente, lemos sobre os Seus: “Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus” (Jo 1:13). E em Tiago 1:18: “Segundo a Sua vontade, Ele nos gerou pela Palavra da verdade, para que fôssemos como primícias das Suas criaturas”. Mesmo a fé em crer n’Ele não vem de nós mesmos, mas “é dom de Deus” (veja Ef 2:8). Quando os redimidos em glória prestam louvor e adoração ao Cordeiro que os salvou (Ap 5), não haverá ninguém presente que tenha sido salvo exercendo sua própria vontade ou à parte da graça divina que nos constrangeu. Ninguém dos que estiverem lá manchará esse novo cântico por assumir qualquer crédito para si próprio, nem mesmo por sua fé. Todos lá estarão como o evidente troféu da graça de Deus, assim como Mefibosete na casa de Davi era uma evidência visível da bondade de Davi (2 Sm 9).

Christian Truth, Vol. 12 (adaptado)

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