Origem: Revista O Cristão – Justiça

Amor e Justiça

Há variedade no amor divino, conforme expresso nas Escrituras. Em João 3, temos o amor de Deus para com o mundo, mostrado na dádiva de Seu único Filho; em Efésios 5, o amor de Cristo à Igreja, pela qual Ele Se entregou a Si mesmo; em 1 João 3, o amor do Pai para com Seus filhos, gerados por Ele. Nas Escrituras também há variedade na verdade a respeito de nós mesmos: Nas epístolas de Paulo somos membros do corpo de Cristo, ligados a Ele que está no trono, nas epístolas de Pedro somos estrangeiros e peregrinos passando por este mundo em direção à nossa herança, incorruptível, imaculada e infindável, enquanto nos escritos inspirados de João somos filhos de Deus, trazidos ao relacionamento com Ele. Isto é o que é tão docemente expresso aqui: “Vede quão grande amor nos tem concedido o Pai, que fôssemos chamados filhos de Deus” (1 Jo 3:1). Ainda não somos manifestados como tal ao mundo; por isso esperamos. Ainda não é manifesto o que havemos de ser. Mas sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é O veremos.

Filiação 

Enquanto isso, somos desconhecidos pelo mundo, assim como Ele era desconhecido. Esperamos a manifestação de nossa filiação, mas não a consciência dela. “Agora somos filhos de Deus”; disso temos a certeza. A fé sempre pode dizer: “Nós sabemos”; a fé trata com certezas divinas. A conformidade ao vê-Lo nos lembra 2 Coríntios 3:18: “E todos nós, contemplando a glória do Senhor, com o rosto desvendado, somos transformados de acordo com a Sua imagem de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito” (JND).

Isso, no entanto, é moral, e agora encontramos Sua imagem estampada em nós na medida em que O contemplamos lá em glória. Primeira João 3:2 é futuro, vai além do aspecto moral e inclui o corpo, pois ele será mudado e modelado como Seu próprio corpo de glória. E isso vai acontecer quando O virmos.

Agora, João começa a ser prático. “E qualquer que n’Ele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (1 Jo 3:3). A Palavra nos diz que a vida eterna que estava com o Pai se manifestou para nós. Somos chamados à comunhão com o Pai e com Seu Filho Jesus Cristo, e isso na luz, assim como Deus está na luz. Então, depois que a palavra adicionada sobre a provisão que a graça fez em caso de pecado, o Espírito começa a ser prático e diz: “E nisto sabemos que O conhecemos: se guardarmos os Seus mandamentos”. Então, aqui, nos é dito de nossa esperança, e depois somos lembrados da pureza que nos convêm em vista dela. Como posso manter a esperança sem me purificar? É possível valorizar o pensamento de que em breve serei como Ele, sem ter o desejo de ser como Ele moralmente em alguma medida agora? Observe que Cristo é o padrão de pureza, assim como Ele é puro. Cristo é sempre o padrão de Deus; Deus não põe outro diante de Seus santos. No capítulo 2, devemos andar como Ele andou. No capítulo 3:16, Ele é o padrão de amor, e aqui Ele é o padrão de pureza. De fato, se eu quiser saber como manifestar a natureza divina da qual sou participante, devo olhar para Ele em Quem ela é perfeitamente vista.

Prova de pureza pela prática 

Se eu me purificar como Ele é puro, não devo praticar o pecado, e o pecado é aqui apresentado sob uma luz solene; é iniquidade. Que consideração séria para o Cristão! Somos santificados para a obediência e chamados a fazer a vontade de Deus, mas quando pecamos, cometemos iniquidade, ou seja, exercitamos nossa própria vontade. Além disso, duas razões importantes são dadas por que não devemos pecar. “E bem sabeis que Ele Se manifestou para tirar os nossos pecados; e n’Ele não há pecado”. Se eu realmente creio que meus pecados causaram Sua manifestação e morte, eu deveria odiar o pecado e, por outro lado, sabendo que o pecado é contrário à Sua natureza (e somos participantes dessa natureza), vejo a inconsistência de tal curso. Não é aquele que professa, mas é aquele que realmente nasceu de Deus. “Filhinhos, ninguém vos engane. Quem pratica justiça é justo, assim como Ele é Justo” (1 Jo 3:7). Justiça prática é o que Deus espera que seja manifestado naqueles que professam ser nascidos d’Ele. É apenas por ações que demonstramos a qual família pertencemos – “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo”. O Senhor determinou em João 8 que somos filhos daquele cujas obras realizamos. Os Judeus naquele capítulo se vangloriavam de ter Abraão como pai, mas o Senhor, embora admitisse que eles eram descendência de Abraão, os repudiou como filhos do homem que se alegrava em ver Seu dia e que o via e se alegrava. “Se fósseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão”, e subsequentemente, Ele disse claramente: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (Jo 8:39, 44).

Amor fraterno 

Mas um segundo teste é adicionado em nosso capítulo: “Qualquer que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus” (1 Jo 3:10). Aqui temos uma rápida transição da justiça para o amor. É possível que estejamos enganados quanto ao primeiro teste? Podemos, por causa de nosso discernimento imperfeito, confundir, às vezes, retidão moral com a justiça que é o resultado de nascer de Deus, mas dificilmente podemos errar quanto ao amor. Podemos encontrar um homem meramente correto no aspecto moral, mas ele ama os irmãos? O homem nascido de Deus ama: “todo aquele que ama ao que o gerou também ama ao que d’Ele é nascido” (1 Jo 5:1). Até que ponto devemos amar? “Devemos dar a vida pelos irmãos”, e isso porque eles são irmãos. No entanto, para que não sejamos apenas sentimentais em nossas expressões, o apóstolo acrescenta: “Quem, pois, tiver bens do mundo, e, vendo o seu irmão necessitando, lhe fechar o seu coração, como permanece nele o amor de Deus?” (1 Jo 3:17 – AIBB). Podemos nunca ter oportunidade de demonstrar nosso amor dando vida, mas, por outro lado, a oportunidade ocorre todos os dias.

É impressionante observar como o amor pelos irmãos e o ódio do mundo estão conectados aqui. “Meus irmãos, não vos maravilheis, se o mundo vos odeia”. O mesmo se observa no ensino do próprio Senhor em João 15. No versículo 17, Ele ordena aos Seus que se amem uns aos outros, e prossegue no versículo 18 para falar de ódio do mundo exterior. Todo o amor que encontramos no mundo atual é o que mostramos uns aos outros. Do mundo que deu ao Senhor apenas uma cruz, não esperamos nada além de ódio, rejeição e desprezo; no círculo santo da família de Deus, esperamos encontrar amor, e isso segundo um padrão divino. A ordem, no entanto, é divina: primeiro a justiça e depois o amor.

W. W. Fereday

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