Origem: Revista O Cristão – Justiça
Justiça Prática
Se olharmos para Romanos 3, descobrimos que a justiça de Deus é o tema constante, mas se olharmos para Romanos 6, apesar de encontrarmos justiça sobre a qual se fala continuamente, nunca é a justiça de Deus. A razão disso é que existem duas justiças, que são perfeitamente distintas. Uma é a de Deus e a outra é a do crente. No capítulo 3, a primeira é o tema (ligada à nossa posição); no capítulo 6 é a segunda (ligada ao nosso estado).
Para termos um exemplo dessas duas, vamos olhar por um momento a primeira pessoa de quem se diz claramente ter as duas. Repetidamente nos é dito que Noé era um homem justo e reto e também que ele foi um pregador da justiça. Sabemos que ele não era um pregador do que chamamos de “evangelho”, mas que sua pregação e prática eram caracterizadas pela justiça em sua conduta e caminhos. Isso é análogo à justiça de Romanos 6. Se agora nos voltarmos para Hebreus 11, descobrimos que Noé “foi feito herdeiro da justiça que é segundo a fé”. Observe cuidadosamente a linguagem. Em primeiro lugar, ele é um herdeiro dela, o que implica duas coisas: uma, que ele ainda não a possui e a outra, que ele não trabalhou por ela, pois ninguém pode trabalhar pelo que herdou. Segundo, essa justiça é pela fé. Voltando a Romanos 3:22, vemos claramente que a justiça que é pela fé é a justiça de Deus. Vemos, assim, que Noé viveu em uma justiça e foi feito herdeiro de outra justiça. A razão pela qual ele era apenas herdeiro da justiça de Deus é explicada em Romanos 3:25, onde é mostrado que Deus não podia declarar Sua justiça, ao não levar em conta os pecados de Noé, até que uma propiciação adequada fosse feita pela morte de Cristo. Ao considerar este caso, vemos que a justiça em que Noé se coloca (ou permanecerá) diante do trono é a justiça de Deus, como pode ser visto na obra perfeita de Cristo, enquanto que a que ele viveu e glorificou a Deus na Terra foi sua própria justiça prática. Em Efésios 4:24, lemos que o novo homem é criado “em verdadeira justiça e santidade”, ou em justiça e santificação práticas. Andar em novidade de vida (Rm 6:4) inclui essas duas coisas (veja Lucas 1:75), como é visto no final de Romanos 6, quando ambas estão ligadas como resultado de um caminhar piedoso (vs. 19, 22).
Justiça prática
Tomando primeiro a justiça prática, iremos considerar brevemente o que a Escritura diz sobre o assunto. Em 2 Coríntios 6:14, notamos esse fato notável de que ela é a primeira coisa mencionada na separação do mal. É também a primeira coisa que somos chamados a seguir (1 Tm 6:11; 2 Tm 2:22). Assim, em três ocasiões distintas, ela ocupa o primeiro lugar. Além disso, é a primeira das três coisas das quais se diz que o reino de Deus consiste praticamente (Rm 14:17). Em 2 Coríntios 6:7, é descrita de modo geral como a armadura do Cristão, enquanto em Efésios 6 é a couraça, ou aquilo que protege as partes vitais. Na prática, diz-se que ela produz uma boa consciência (1 Pedro 3:16), o que também é de suma importância. Os olhos de Deus estão sobre o homem justo na prática (1 Pedro 3:12), e que Seus ouvidos estão abertos ao seu clamor são vistos não apenas aqui, mas também em Tiago 5:16, onde a oração de um homem justo pode muito em seus efeitos. Em nenhuma dessas passagens a palavra “justo” se refere à nossa posição diante de Deus, mas aos atos e caráter individuais da vida do crente.
Justiça na vida cotidiana
Essa é uma breve revisão da maneira pela qual a Escritura fala dessa qualidade da nova natureza. Em que ela consiste então? Em perfeita retidão de comportamento e caminhos. Como é obtido? Vivendo diariamente à luz da presença de Deus. É o fruto da luz (veja Ef 5:8‑9 – ARA).
Você supõe, por um momento sequer, que o homem que vai para o seu trabalho diário e o realiza diante de Deus pode rebaixar-se a algum dos milhares de truques comerciais que permeiam todas as profissões – práticas que são comumente toleradas como conveniências ou abertamente permitidas, mas que não estão de acordo com o padrão de Deus do que é correto? Impossível. Ele deve fazer uma de duas coisas: Ou ele deve renunciar a todos esses métodos de comprar, vender e conduzir seus negócios de acordo com a luz perfeita em que ele permanece como Cristão, ou, virando as costas para a luz e fechando os olhos para ela, ele descerá ao nível da moralidade deste mundo e permitirá que muitas coisas passem em sua vida profissional que ele evitaria permitir em sua vida particular. Infelizmente, quão poucos são encontrados, em todas as coisas, realizando a primeira alternativa! Quantos debilitam sua alma, restringem sua vida espiritual e entristecem seu Senhor ao escorregarem para a segunda. Vamos considerar como tudo isso parecerá diante do tribunal de Cristo. Pode ser que não estejam ativamente empregados nos negócios, mas todos têm suas tentações à injustiça e, muitas vezes, das formas mais desleais. Viva como Paulo viveu, à luz da presença de Deus e da eternidade que se aproxima, e não permita que você se incline a nenhuma ação que não suporte essa luz, por mais vantajosa que seja para você, por mais elogiada e aconselhada por falsos amigos.
Seja justo em todas as coisas
É temível pensar quantos de nós vivemos diariamente em injustiça naquilo que chamamos de pequenas coisas e depois nos ousamos nos aproximar de Deus em oração e na mesa do Senhor sem confissão. Seus ouvidos estão abertos ao clamor do justo. Nada mais prende a atenção do mundo e o faz crer na realidade do Cristianismo como os atos justos que são uma desvantagem para a própria pessoa, pois não há como disfarçar a verdade de que: “não podeis servir a Deus e a mamom” (Lc 16:13). Você não pode temer a Deus e acumular riquezas para si mesmo. Você pode perder dinheiro e muitas oportunidades aparentemente boas se andar estritamente na justiça prática, mas quanto à eternidade, eu não preciso dizer quem será o ganhador. Se você desfruta e confia na “graça de Deus” que trouxe salvação a você e se lembra e pratica suas lições, viverá de maneira sobria, correta e piedosa neste mundo atual. Feliz, de fato, é o homem que, permanecendo diante de Deus na justiça que Ele proporcionou, caminha diante de seu companheiro naquela retidão prática que somente ela pode adornar a graça que o Acolheu.
