Origem: Livro: Força que Vem de Deus
O Efeito da Obediência – Neemias 11-13
Estes capítulos testemunham o povo ainda fervoroso e obediente. O dia do reavivamento continua. O frescor da sua aurora não se dissipou em nada, embora aqui cheguemos a uma hora mais avançada do dia.
O capítulo 11 começa com uma dolorosa marca da degradação de Jerusalém. Ela é uma testemunha contra si mesma, mostrando que não está como o Senhor a quer nos dias da glória vindoura. Ela não é “desejada”, mas sim “abandonada”. As pessoas não se arrebanham a ela. Ela não pode olhar ao redor, como fará nos dias do reino, e se maravilhar com a multidão de seus filhos. Não é, ainda, motivo de orgulho para outros terem nascido nela; nem reconhecem que todas as suas fontes de vida estão nela. Ela ainda não disse que o lugar é estreito demais para ela, para a multidão daqueles que a preenchem. Certamente, essa não é a sua condição aqui neste capítulo. Ela está em dívida com qualquer um que consinta ou condescenda em habitar nela. Que testemunho de degradação! Que sinal, de fato, de que a restauração não era glória! Jerusalém ainda está pisoteada; os tempos dos gentios ainda não se cumpriram. Certamente a filha de Sião não se levantou, sacudiu-se do pó e revestiu-se da sua força e das suas belas vestes. (E que testemunho dá a Cristandade, de que a reforma não é glória!)
Dedicação
Contudo, ela precisa ser habitada; precisa ter seus cidadãos dentro de si. A terra precisa ter seu povo, pois o Messias em breve caminhará entre eles; a cidade precisa ter seus habitantes, pois seu Rei em breve lhe será oferecido. Portanto, este é o retorno da Babilônia, e por esta causa está o povoamento de Jerusalém.
Novamente, como vemos em Neemias 12, ela tem o seu muro. É justo que o muro seja dedicado. Festividades públicas haviam sido frequentemente celebradas em ocasiões semelhantes: no transporte da arca nos dias de Davi; na dedicação do templo nos dias de Salomão; na fundação da segunda casa no tempo de Zorobabel; e novamente, quando essa segunda casa foi concluída, assim aconteceu. E agora, neste dia, neste dia de Neemias, o povo se alegra novamente com a consagração do muro que agora estava concluído e circundava a cidade.
O que é o muro?
Mas, embora isso seja verdade, e tudo esteja correto até aqui e desta maneira, ainda assim pergunto eu: o que é este muro? Pergunto ainda: o que é senão mais uma testemunha da degradação de Jerusalém? Em seus dias vindouros de força e beleza, quando ela for a cidade do Reino, a metrópole do mundo, o santuário e o palácio do grande e divino Rei de Israel e da Terra, “salvação” será o seu muro. Deus então designará a salvação para muros e baluartes. O próprio Senhor, como seus montes, estará ao seu redor. Seus muros serão chamados Salvação, e suas portas, Louvor. A voz do Espírito em Zacarias, cujo eco dificilmente poderia ter se dissipado naquele momento, proferiu este belo oráculo: “Jerusalém será habitada como as aldeias sem muros, por causa da multidão de homens e animais que haverá nela. Pois Eu lhe serei, diz o SENHOR, um muro de fogo em redor, e Eu mesmo serei, no meio dela, a sua glória” (Zc 2:4-5 – ARA).
Quão infinita é a diferença! Jerusalém, sob o olhar de Neemias, carregando as marcas de sua vergonha; Jerusalém, como lemos dela nos profetas, testemunha do mais elevado destino em honra e excelência na Terra! Como um homem assim deve ter sentido tudo isso! E, no entanto, ele serve com zelo, destemor e paciência. Grande dignidade moral transparece nisso – um nobre espírito de devoção se manifesta. Ele trabalha, e trabalha nobremente, embora cercado por inimizades estrangeiras e pela degradação interna. Paulo, em 2 Timóteo, parece ser tal servo de Cristo; e tal é Neemias neste seu livro. Deveríamos ter a mesma dignidade moral. A Cristandade que vemos ao nosso redor está tão distante da Igreja da qual lemos nas epístolas quanto a Jerusalém que Neemias contemplou era diferente da Jerusalém que lemos nos profetas. Mas ele serviu em meio a ela; e assim devemos servir nós, diante e no coração da Cristandade. Pois o espírito de serviço não mede o cenário do serviço, mas a vontade do Mestre. Tudo isso, porém, revela a natureza do momento. Israel foi restaurado, sua terra repovoada, sua cidade habitada novamente; mas este não é o reino. Os filhos de Israel ainda serão colocados à prova e ainda se purificarão a si mesmos; e o dia da graça, da salvação e da glória, o dia prometido do reino, ainda está distante. Mas a fé precisa ser exercitada, e a obediência precisa aprender e praticar sua lição.
Exercício doloroso
Assim, ao entrarmos em Neemias 13, encontramos o Livro de Deus ainda aberto entre o povo. Pois certamente um dia de avivamento é o dia de uma “Bíblia aberta”, como costumamos dizer. Mas agora eles têm uma nova lição para aprender.
Eles estão crescendo em conhecimento e familiaridade com os princípios divinos. É uma página completamente diferente do Livro que eles acabaram de virar. A Escritura, até então, lhes havia oferecido consolo; agora, lhes ofereceria paciência. Até então, havia tocado suas flautas, agora, estava prestes a lhes causar luto. A alegria da festa das trombetas, e a alegria ainda maior da festa dos tabernáculos, lhes haviam sido reveladas, e eles haviam respondido obedientemente. Eles haviam dançado ao som daquela flauta. Mas agora seriam dolorosamente exercitados pelo Livro. Eles leram que o moabita e o amonita nunca deveriam entrar na congregação do Senhor.
Isto foi terrível. Tudo, até então, havia sido eminentemente coletivo. Não apenas na alegria, como nos dias de festa, mas também no ato de confissão, pois haviam estado juntos. Os “estrangeiros” haviam sido removidos, mas a “multidão mista” (TB) parecia não ter sido observada nem identificada. Mas agora, por ordem da palavra encontrada em Deuteronômio 23, esse severo corte deveria ser realizado; assim como, por ordem de Levítico 23, a alegria dos tabernáculos já havia sido celebrada.
Poder e obediência renovados
Isso foi ainda mais apropriado para testar o espírito de obediência neste bom dia de reavivamento. E a congregação respondeu à exigência da Palavra de Deus de forma muito abençoada. Pois lemos: “Sucedeu, pois, que, ouvindo eles esta lei, apartaram de Israel todo o elemento misto [toda a multidão mista – TB]”. Fazer o que a Escritura prescreveu – praticar os ensinamentos da Palavra, ensinar o serviço ou dever que lhes fosse designado, ou convocar para os sacrifícios que fossem necessários – era foi obediência de fato.
A iniquidade, porém, agora se encontra em lugares elevados, aparentemente mais elevados do que o povo poderia alcançar. Mas ela precisa ser alcançada até mesmo lá; pois um dia de despertar e de renovado poder vindo de Deus deve ser um dia de obediência. Durante todo esse tempo, um amonita havia estado na casa do Senhor. Isso foi além. Ele não estava apenas na congregação, como a multidão mista, mas na própria casa; e isso, ainda por meio das práticas do próprio sumo sacerdote. Neemias não estava em Jerusalém naquele momento. Mas, ao retornar, ele age contra essa abominação encontrada nos lugares elevados, assim como o próprio povo já havia agido, à sua maneira, contra a multidão mista. Pois Deuteronômio 23 será ouvido, mesmo que o mais alto servidor da Igreja tenha que ser repreendido. Eliasibe não era ninguém para Neemias, quando Moisés falou; pois um tem a autoridade de Deus sobre si, o outro deve tê-la sobre ele. Esta é uma palavra de admoestação para a Cristandade, se a Cristandade tivesse ouvidos para ouvir – aquela Cristandade que colocou seu próprio Eliasibe acima de Moisés, seus próprios oficiais acima da Escritura. Mas tal pessoa não era este homem fiel. “A cadeira de Moisés” era suprema para ele. A Escritura julga a todos, enquanto ela não deve ser julgada por ninguém. Nem o sumo sacerdote em Israel, nem a presunção de antiguidade e sucessão, nem qualquer outra coisa na Cristandade, por mais atraente que seja, deve invalidar um jota ou til sequer da Escritura. O Livro, falando da parte de Deus, como sempre faz, e dirigindo-se a todas as circunstâncias, deve ser supremo. “A Escritura não pode ser anulada”; portanto, não é para ser contestada. Deus a cumprirá – nós devemos observá-la.
Tudo isso que encontramos em Neemias e na congregação neste último dia do Velho Testamento pode muito bem cativar os pensamentos dos santos em nossos dias.
Degradação moral
Em Neemias 11 e 12, vimos sinais de degradação em Jerusalém – e os vemos ainda em Neemias 13. O sábado foi profanado ali, e alianças com as filhas dos incircuncisos ainda eram encontradas. Isso é mais do que degradação nas circunstâncias – é degradação moral, senão abominação. A restauração do cativeiro e o repovoamento da cidade não lhe conferiram o direito de ser saudada, como será nos vindouros dias do reino com aquela voz que o Espírito preparou nos lábios de um mundo admirado e contemplativo: “O SENHOR te abençoe, ó morada de justiça, ó monte de santidade!” (Jr 31:23).
Mas, apesar de tudo isso, repito, vemos Neemias servindo. E isso é uma visão muito nobre. Não preciso dizer como o divino Mestre de todos os servos foi um exemplo perfeito disso, em Seu dia de serviço. Mas há uma grande dignidade moral nisso; busquemos exemplos dela em todos aqueles em quem pudermos encontrá-la.
A congregação, mantendo o Livro aberto, também é uma visão edificante: uma visão especialmente importante para nós contemplarmos. Eles não fizeram “acepção de pessoas na aplicação da lei” (Ml 2:9 – JND). Eles representam um povo que não desejava ter “textos negligenciados” nem “páginas não viradas” no Livro de Deus. Nenhum som dele deveria se perder aos ouvidos, como se fosse ouvido à distância. Mas quem de nós, eu pergunto, está à altura deles nisso? Como somos propensos a escolher nossas lições em vez de viver de acordo com cada palavra que procede da boca de Deus! Não é assim? Posso amar a página que me fala da festa dos tabernáculos em sua alegria, e me deleitar com o som das trombetas no dia da Lua nova do sétimo mês, mas a palavra que me purificaria e me separaria de alianças injustificadas tem outra relação comigo e se dirige a mim com outro tom. Não escolho essa lição. É uma página do Livro que não estou disposto a olhar. Sinto-me tentado a dizer com o governador romano: “Por agora vai-te, e em tendo oportunidade te chamarei”. A casa pode estar social demais, o coração pode estar à vontade demais para se disciplinar por meio de ordenanças como Deuteronômio 23:3.
Verdadeiramente, verdadeiramente podemos afirmar que toda esta Escritura, estes livros sobre os cativos que retornaram, este Esdras e este Neemias, são dignos da mais profunda atenção e plena admiração de nossa alma. Como o Espírito de Deus atuou nos eleitos naqueles dias? Como Ele, por meio do que registrou sobre eles, nos instrui nestes dias?
Além disso, como vimos, os tempos de Zorobabel, Esdras e Neemias foram tempos de reavivamento. Tais tempos já haviam ocorrido antes em Israel, como com Samuel, Davi, Josafá, Ezequias e Isaías. E tal tem ocorrido repetidamente ao longo da história do Cristianismo. E um período de reavivamento pode assumir uma forma que nós não esperamos, e talvez sem um precedente perfeito. É próprio da vida, por vezes, apresentar características exuberantes, operar fora e além de suas regras e medidas comuns. Ela se mostra mais autêntica quando age assim. Pois a vida é algo livre e possui uma força própria. Mas, ao mesmo tempo, devemos julgar cada expressão dela pela Palavra de Deus. “À lei e ao testemunho”: se algo não resiste a esse teste, não é o transbordamento de vida, por mais exaltado ou exuberante que seja; deve ser rejeitado com todos os seus encantos.
“A quem tem, mais lhe será dado” A obediência a uma lição é o caminho seguro para a descoberta de outra lição. “Se alguém quiser fazer a vontade d’Ele, conhecerá a respeito da doutrina” (Jo 7:17 – ARA). Há uma tentação de recuar, com medo de que as lições que ainda temos a aprender se mostrem desagradáveis. “O que aumenta em conhecimento, aumenta em dor”. Existe, portanto, em alguns de nós, uma grande inclinação ou tentação de parar abruptamente. Mas isso é desobediência, assim como quebrar uma palavra lida e entendida. Fechar o Livro, por medo do que ele possa nos ensinar, é clara e inegável desobediência.
