Origem: Livro: Força que Vem de Deus
Os Dispersos Entre os Gentios – Ester 1-2
Nos livros de Esdras e Neemias, sobre os quais já meditei, vimos os cativos sendo trazidos de volta a Jerusalém, para lá aguardarem a vinda do Messias, a fim de se saber se Israel aceitaria o Mensageiro e Salvador que Deus lhes enviaria. Neste livro de Ester, encontramos um cenário bem diferente. Os Judeus ainda estão entre os gentios.
Analisaremos o texto em sua sequência de dez capítulos; e na ação registrada encontraremos:
- O Senhor Deus agindo maravilhosamente, mas secretamente.
- Os próprios Judeus.
- O gentio, ou o poder.
- O grande adversário.
Poder arrogante
O livro começa apresentando-nos uma visão do gentio agora no poder. Trata-se, porém, do persa e não do caldeu – “o peito… de prata”, não “a cabeça… de ouro”, na grande estátua que Nabucodonosor viu. Aqui, lemos o segundo capítulo, e não o primeiro, da história da supremacia do gentio na Terra. Vemos o gentio no progresso de sua carreira e não no início dela; mas, moralmente, ele é o mesmo. Semelhante a Moabe, seu caráter permanece o mesmo, seu cheiro não se alterou. Toda a arrogância que se manifestou em Nabucodonosor reaparece em Assuero. Nenhum espírito ou fruto de arrependimento – nenhum aprendizado sobre si mesmo – ou sobre o que lhe convém como criatura é visto neste homem da Terra. A mentira da serpente, que moldou o homem no princípio, está operando com a mesma intensidade de sempre. O antigo desejo de ser como Deus se manifesta agora no persa, assim como antes se manifestou no caldeu. Um deles construiu sua cidade real e a contemplou com orgulho, dizendo: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a morada real, pela força do meu poder, e para a glória da minha majestade?” O outro agora oferece um banquete e, por cento e oitenta dias, mostra aos príncipes e nobres todo o poder do seu reino: “as riquezas do seu reino glorioso e a grandeza da sua excelente majestade”.
Aliás, mais ainda; pois o persa vai além. Há uma ousada pretensão de ser como Deus na Pérsia, o que não vimos na Babilônia. Notamos isso em três ordenanças persas distintas:
- Ninguém deveria comparecer perante o rei sem ser convidado. Caso essa ordenança do reino fosse violada, a vida e a morte dependeriam da vontade do rei.
- Ninguém deveria estar triste diante do rei; seu rosto ou presença deveriam ser recebidos por todo o seu povo como a fonte e o poder da alegria e da felicidade.
- Nenhum decreto de seu reino podia ser cancelado; ele permanecia válido para sempre.
Essas são, de fato, grandes suposições. Isso excede o limite, na maneira como o homem se apresenta como Deus; e não sabemos que esse espírito atuará até que o gentio complete a sua iniquidade? Mas a mão de Deus começa a operar Suas maravilhas agora, em meio a toda a festividade e orgulho que abrem o livro. A alegria do banquete real foi interrompida: uma mancha desfigura a bela forma de toda essa magnificência. A rainha gentia se recusa a servir à ocasião, ou a ser tributária deste dia de regozijo público; e isso leva à manifestação do Judeu e, em última análise, a tornar esse povo principal na ação e eminente na Terra, além de qualquer pensamento ou cálculo.
Deus usa pequenas coisas
Foi um começo pequeno, pobre e insignificante em seu caráter e material. O temperamento de Vasti, que a incitou a uma conduta que pôs fim à sua vida, foi o “pequeno fogo” que incendiou esse “grande bosque”. É uma circunstância miserável e desprezível. O que pode ser mais vil? O temperamento, podemos dizer, de uma mulher imperiosa! E, no entanto, Deus, por meio disso, opera resultados então conhecidos apenas em Seu conselho, mas cujo cumprimento será visto no vindouro dia da glória Judaica.
Vasti é deposta. Ela é destituída como esposa do persa, e outra mais digna deveria ser procurada para ocupar seu lugar.
Agora, surge a questão: até que ponto um Judeu pode se aproveitar de tal ocasião? A santidade se vale da corrupção? Pode o povo de Deus esquecer seu nazireado, sua separação para com Ele? E, no entanto, Ester consente em comparecer perante o rei naquele momento, acompanhada por todas as filhas de seus súditos incircuncisos!
Isso pode nos surpreender se julgarmos as coisas por uma luz menos pura e intensa do que aquela em que o próprio Deus habita. O senso moral do mero homem – o veredicto das ordenanças legais – a própria voz do Monte Sinai não bastará em certos momentos. Devemos andar na luz, assim como Deus está na luz. Devemos conhecer “os tempos”, como Issacar na antiguidade, antes de podermos dizer com razão: “o que Israel devia fazer” (1 Cr 12:32).
Porventura alguns habitantes de Belém de Judá não se casaram com filhas de Moabe, sem serem repreendidos? Não se desviou José, em seu casamento, da santidade de Abraão, e Moisés dos preceitos da lei? Não foi Raabe, embora filha de incircuncisos, adotada por Judá, e tão notável na linhagem, segundo a carne, do Senhor de Davi? E não tomou Sansão por esposa uma mulher de Timna, que pertencia aos filisteus?
O povo de Deus não estava em adequada ordem nas ocasiões daqueles estranhos eventos; e esta é a justificação moral. A luz da sabedoria divina na dispensação divina torna-se o juiz, em vez das ordenanças. Os Judeus estavam agora dispersos. José, se assim o desejarmos expressar, está novamente no Egito, Moisés em Midiã e os filhos de Belém de Judá em Moabe; e Ester é tão pouco repreendida por ter entrado diante do rei da Pérsia, assim como José por se casar com Asenate, Moisés por se casar com Zípora ou Malom por se casar com Rute; e todos eles permanecem sem reprovação ou julgamento diante de Deus nessas coisas, assim como Davi quando comeu os pães da proposição. Aliás, essas coisas vieram de Deus, assim como o casamento de Sansão com uma filisteia parece claramente ser assim reconhecido (Juízes 14:4).
Os desígnios divinos serão cumpridos; os frutos da graça serão colhidos; e as ordenanças da justiça e os arranjos que nos convêm, se estivermos em integridade e em boa ordem, não interferirão.
