Origem: Livro: Força que Vem de Deus

Conclusão – Ester 10:3

Tendo lido os livros de Esdras e Neemias separadamente, como a história dos cativos que retornaram, e o livro de Ester separadamente, como a história dos cativos dispersos, gostaríamos agora de meditar sobre eles juntos por alguns instantes. Eles nos apresentam, como podemos ver, dois grupos distintos de cativos, ou duas seções do povo Judeu. Ilustram diferentes aspectos do conselho e da sabedoria divina referentes a esse povo e ensinam lições muito importantes para nossa alma assimilar completamente.

Em cada uma dessas cenas, no meio de cada uma dessas seções do povo de Deus, temos, por assim dizer, uma plataforma separada erguida para a manifestação de várias ou distintas porções dos caminhos e da maneira como Deus trata com eles.

Os cativos que retornaram 

Os cativos que retornaram são trazidos de volta para casa e deixados na terra para que possam ser testados novamente, pois testar o Seu povo, embora de maneiras diferentes, sempre foi o propósito de Deus desde o princípio. Israel já havia sido testado pelo dom do poder. Receberam uma terra fértil e boa, e foram conduzidos de força em força, até florescerem em um reino: um reino que atraiu os olhos dos reis da Terra e foi a admiração do mundo.

Mas eles haviam sido infiéis à sua mordomia. Haviam abusado do poder que lhes fora confiado e rebelaram-se contra os direitos supremos d’Aquele que assim os havia estabelecido e ordenado como principais e centro governante na Terra. E, consequentemente, o poder, a supremacia na Terra ou a principal autoridade entre as nações, foi-lhes tirado e dado aos gentios.

Agora, porém, eles estão de volta ao lar. O cativeiro a que sua infidelidade os levou está terminado, e há uma parte do povo de volta à terra de seus pais novamente. Pois é propósito divino prová-los com outra prova. Deus está prestes a enviar o Messias a eles. Sua missão e ministério serão a misericórdia curadora, uma proposta da graça que traz salvação, para que se saiba se eles têm resposta aos apelos do amor, visto que já provaram que não foram fiéis Àquele que lhes confiou o poder.

É isso que lemos no relato do retorno de Israel (ou Judá) da Babilônia. Eles são Judeus novamente em sua própria terra. Consequentemente, assim que retornam para casa, comportam-se como Judeus. Guardam os preceitos – erguem o altar nacional – reconstroem o templo – mantêm-se separados dos gentios – leem as Escrituras – observam o caminho do Deus de Israel, na medida em que a submissão ao poder nas mãos dos gentios o permite. O Deus de Israel os reconhece, os abençoa e os protege. Ele pode exercitá-los na fé e na paciência, mas ainda assim Ele está com eles. Como antigamente, Ele lhes dá líderes, libertadores e mestres; envia-lhes Seus profetas, concede-lhes dias de reavivamento – os dias da lua nova no sétimo mês.

De fato, sabemos tudo isso. Isso foi uma espécie de reforma em sua história religiosa. Depois disso, eles não praticaram idolatria. Mas outras corrupções rapidamente se instalaram e se intensificaram, como mostram não apenas os livros de Esdras e Neemias, mas, principalmente, a profecia de Malaquias. E a abertura das Escrituras do Novo Testamento confirma isso, pois o Evangelho de Mateus nos permite ver clara e plenamente que os cativos que retornaram eram profundamente incrédulos: tão infiéis às doutrinas e propostas de bondade quanto seus pais haviam sido à administração do poder. “Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam”. (Aqui, permitam-me sugerir o que acredito ser verdade, mas não o ensinaria com autoridade: que, entre as testemunhas da bondade que Deus deixou entre os cativos que retornaram, e que foram tantos prenúncios ou penhores de um Messias vindo em graça, está o tanque de Betesda. Foi, de fato, um testemunho extraordinário de “Deus, o Curador”.)

Graça para todo o mundo 

De fato, assim é. Quando Israel foi infiel ao poder que Deus lhe deu, o poder foi entregue aos gentios. Assim também agora, visto que eles são infiéis à graça, a graça é dada a todo o mundo. Pois o evangelho é pregado e a salvação de Deus é apresentada aos olhos dos confins da Terra. E surpreendentemente consistente e belo é esse progresso nos caminhos da sabedoria divina, ou das dispensações de Deus. Toda provação termina em fracasso, e Deus deve agir por nós e não conosco. Esta nova provação, pelo ministério do Messias, apenas prova, como pela boca de outra testemunha, que o homem é incorrigível e incurável. Todo esforço para fazer algo dele, ou para fazer algo com ele, leva-o apenas a mais uma exposição de si mesmo, até que fique nu para sua vergonha. O reino não é alcançado por uma criatura provada, mesmo que a graça a tenha provado. O julgamento, como de “prata rejeitada”, é o resultado do processo. “Já o fole se queimou, o chumbo se consumiu com o fogo; em vão fundiu o fundidor tão diligentemente”.

Sim, de fato, o homem precisa ser salvo pela graça, e não meramente provado por ela. O primeiro advento do Messias, ou a proposta de salvação, não conduziu Israel ao reino: isso os deixou sendo um povo julgado, disperso e despojado, não salvo e sem a bênção – condenado com uma convicção mais plena do que nunca.

O povo disperso 

Mas agora, vamos nos voltar para outro cenário. Devemos considerar outra parte do povo: os dispersos, e não os que retornaram. Pois neles se ergue outra plataforma, como ainda posso dizer, para ilustrar o caminho de Deus. Veremos neles os penhores e as testemunhas, não de um povo provado, mas de um povo salvo – salvo pela graça soberana e conduzido ao reino.

Este povo não aproveitou a oportunidade que teve de voltar para casa. Isso é um testemunho permanente contra eles. Permaneceram entre os incircuncisos. Representaram o papel do corvo na arca de Noé. Pareciam ter se envolvido com o mundo impuro. São como gentios, podemos dizer; não vemos festas, ordenanças ou a Palavra de Deus entre eles. Mas reconheço que ainda são Judeus. E a graça transborda para com eles. No meio dos gentios, eles ainda são mantidos vivos – outra sarça ardente que não se consome. Jeová não é visto como reconhecendo-os, como reconheceu seus irmãos que retornaram a Jerusalém. Mesmo assim, Ele tem os Seus olhos sobre eles, e eles são mantidos vivos; e isso, também, até que chegue o tempo devido para que Ele Se levante e os trate da maneira que todos os Seus profetas anunciaram.

Tudo isso vemos em Ester, aquele livro maravilhoso que encerra o volume histórico do Velho Testamento.

Um remanescente é visto ali. Deus trata com eles maravilhosamente, tanto por Sua mão quanto pelo Seu Espírito; mas Ele permanece não manifesto. Vimos isso ao meditar sobre Ester. E traçamos ainda mais o caminho de Deus com Israel em todas as eras de sua história em que eles se encontravam em um estado informal e anômalo: como exemplificado no casamento de José com uma egípcia, de Moisés com uma filha de Midiã, e outros semelhantes, e o casamento de Ester com Assuero, o persa. Pois esse era o caminho do próprio Deus com eles quando Lhe eram infiéis; Ele Se voltava para outros. Primeiro o poder, como vimos, e agora a graça e a salvação foram transferidas para outros, visto que Israel era desobediente e relutante. Quão consistente tudo isso é! Que constância, perfeição e unidade há nos caminhos de Sua santa sabedoria! Os irmãos de José lhe foram infiéis e o expulsaram. Ele se casou e tornou-se importante no Egito. Os irmãos de Moisés lhe foram infiéis e o forçaram a partir; ele se casou e foi feliz em Midiã. O povo de Jeová foi infiel a Ele, e Ele deu poder aos gentios. Os Seus foram infiéis ao Messias, rejeitando-O e não O recebendo; e agora Ele concede graça e salvação para o mundo todo.

Certamente o Senhor conhece o fim desde o princípio. Certamente o Seu caminho está diante d’Ele.

“Sua sabedoria sempre desperta,
Sua visão jamais se turva,
Ele conhece o caminho que trilha
E eu caminharei com Ele.”

Oh, que eu tenha a graça de dizer e fazer isso! E de caminhar com Ele também, pelo caminho da Sua sabedoria e pelos desígnios das Suas dispensações. De glória em glória, para “andarmos na luz, como Ele na luz está”.

E novas maravilhas ainda se revelam para nós nessas duas plataformas: na história dos que retornaram e na história dos que se dispersaram.

Como já observei, Malaquias começa a anunciar qual será o fim dos cativos que retornaram ou que foram postos à prova. Todos falharão, como todos têm falhado. As Escrituras do Novo Testamento confirmam aquilo que Malaquias anunciava. Os evangelistas confirmam as indicações e avisos dos profetas. Mas Ester nos revela o que acontecerá com a dispersão, ou com a porção que permaneceu entre os gentios. Eles serão finalmente acolhidos pela graça soberana, conduzidos através da “grande tribulação” e, por esse caminho, serão introduzidos no reino. Nessa história, ou nessa plataforma, vemos a nação Judaica levada à beira da destruição total, resgatada pela mão milagrosa de Deus e, então, assentada nos elevados lugares de honra, influência e autoridade pelo Poder que governa a Terra – todos os seus inimigos julgados e eliminados, ou buscando o seu favor e bênção. (A grande tribulação, “o tempo da angústia de Jacó”, da qual falam os profetas, encontrará os Judeus em casa, em sua própria terra, embora agora estejam dispersos como nos dias de Ester. Mas isso não importa. Como nação, eles passarão para o reino através da tribulação.)

O homem exposto e Deus manifestado 

Nesses livros, ou nessas duas cenas de ação variada, estão os segredos que nos ensinam. O homem é testado e falha; o pecador é acolhido pela graça e salvo.

E estes são os segredos que nos foram destinados a aprender desde o princípio; e estamos destinados, abençoadamente destinados, a celebrá-los para sempre. O homem é exposto – Deus é manifestado. O homem é deixado completamente nu para sua vergonha – Deus é exaltado na mais elevada ordem de exaltação e manifestado na mais resplandecente luz de glória. Assim foi na história de Adão, logo no princípio. Ele foi provado e, sob a prova, falhou e arruinou a si mesmo. Então, foi acolhido pela graça e salvo pela morte e ressurreição de Cristo – pela fé na semente da mulher, ferida e que fere.

Assim foi novamente em Israel. Israel foi submetido à lei, mas a sombra dos bens futuros acompanhava a lei. Sob sua própria aliança, sob a lei, Israel, como Adão, foi arruinado. Mas Deus age em meio ao povo autodestruído, à ruína que ele mesmo causou; e por meio de ordenanças, profecias e promessas de muitos tipos, Ele sempre tem falado a eles da graça final e da salvação.

E agora, da mesma forma, o evangelho nos expõe completamente, mas nos salva plena, presente, perfeita e eternamente. E por todas as eras de glória, será proclamado que somos um povo lavado, um povo redimido, que deve tudo à graça e à redenção, embora glorificado para sempre.

Essas duas plataformas – a cena no meio dos cativos que retornaram e a cena no meio dos cativos dispersos – estão em companhia com todo o caminho divino desde o princípio, e com aquilo que deve ser lembrado e celebrado para sempre. Apenas nos maravilhamos, mais uma vez, com este novo testemunho do caminho de Deus, Seu caminho necessário e perfeito num mundo como este.

O caminho do Senhor 

Quão completo tudo isso torna o volume divino e histórico do Velho Testamento! Esse volume termina aqui; e estamos muito satisfeitos de tê-lo assim.

O modo como o próprio Senhor age neste livro é especialmente maravilhoso. Aparentemente, Ele é negligente com o Seu povo. Ele permanece em silêncio para com eles. Ele não Se revela, e não há milagres. O Seu povo, mesmo em todos os exercícios do seu coração sob as circunstâncias mais difíceis, jamais O menciona.

Certamente, isto é maravilhoso. Mas é também admirável tanto como é maravilhoso. É perfeito em seu lugar e tempo. Pois, durante esta era gentia atual, Deus está separado de Israel, assim como José no Egito e Moisés em Midiã estavam separados de seus irmãos, como já mencionei – como muitas vozes dos profetas anteciparam. (veja Salmo 74; Isaías 8:17; 18:4; 45:15; Oséias 5:15; e assim por diante.) E o Senhor Jesus, falando como o Deus de Israel no final de Seu ministério, diz a eles: “Eis que a vossa casa vos é deixada deserta; Porque Eu vos digo que desde agora Me não vereis mais, até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor” (Mt 23:38-39)!

Mas Ele Se importa com eles. Seus nomes estão na palma de Suas mãos. Ele não revoga o julgamento; mas, no tempo devido, despertará para livrá-los. É Jesus dormindo no barco, sacudido pelos ventos e ondas. Mas, no momento preciso, Ele despertou e Se levantou para aquietar tudo aquilo que, crescendo em angústia, se enfurecia contra eles.

“Salve o Ungido do Senhor,
O Grande “maior Filho de Davi”!
Quando chegar o tempo determinado,
Os anos acabarem seu curso,
Ele virá para quebrar a opressão,
Libertar o cativo,
Eliminar a transgressão
E governar com justiça.”

J. G. Bellett

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