Origem: Revista O Cristão – Água

Lavar dos Pés

A ação do Senhor em João 13 é muito preciosa e significativa, pois coloca Jesus diante do coração nas atividades atuais de Seu amor pelos Seus. O que Pedro no momento não entendeu, nós entendemos pelo poder do Espírito Santo. Que sigamos esta ação do Senhor da maneira simples e tocante em que ela se revela.

Era “chegada a Sua hora de passar deste mundo para o Pai”. Aqueles que Ele tanto amava, Ele teria que deixar para trás no mundo, mas eles ainda seriam os objetos de Seu amor. Ele “amou-os até ao fim”. Ele também sabia que todas as suas bênçãos dependiam de Si mesmo. Ele sabia que o Pai “tinha depositado nas Suas mãos todas as coisas”.

Comunhão com Ele 

Seu trabalho de amor por eles na redenção estava prestes a ser concluído. A ceia foi a testemunha disso. Mas isso foi apenas parte do que foi dado em Suas mãos; outra parte permaneceu. Ele “havia saído de Deus, e que ia para Deus”. Ele deve trazê-los a Deus também – trazê-los para aquela comunhão e glória na qual Ele estava prestes a entrar.

Ele havia acabado de colocar diante deles o memorial permanente do Seu amor. Sempre que vissem o pão partido e o vinho derramado, pensariam nesse amor. Mas como Ele deve fazer com que eles percebessem sua associação Consigo mesmo no lugar que Ele estava prestes a tomar para eles? “Levantou-se da ceia, tirou as vestes e, tomando uma toalha, cingiu-Se. Depois, pôs água numa bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido” (vs. 4-5).

Que visão para seus olhos admirados. Eles viram o Senhor, cujo poder eles haviam testemunhado tantas vezes, e Aquele que eles conheciam como “o Cristo, o Filho do Deus vivo”, curvar-Se para lavar os seus pés. Bem pôde Pedro exclamar: “Senhor, Tu lavas-me os pés a mim?” Pedro amava seu Senhor, mas, naquele momento, pouco sabia do mistério daquele amor que havia descido para servi-lo. Mal sabia ele quão baixo esse amor teria de se curvar e quão constante o serviço daquele amor teria que ser.

Entendimento 

O Senhor lhe diz isto: “O que Eu faço, não o sabes tu, agora, mas tu o saberás depois”. Mas isso não foi suficiente para esse coração ardente; por isso ele exclama: “Nunca me lavarás os pés”. Aqui Pedro, por meio do zelo equivocado quanto à honra do Senhor, teria ficado entre o Senhor e sua própria bênção, de modo que o Senhor simplesmente lhe disse: “Se Eu te não lavar, não tens parte Comigo”, isto é, ele não desfrutaria da comunhão com Cristo na bem-aventurança celestial em que Ele estava prestes a entrar.

Somente lavando seus pés Jesus poderia fazer com que os Seus, enquanto estivessem no mundo, desfrutassem da comunhão com Ele no céu. Da glória, Jesus os serviria incessantemente dessa maneira, e assim, em companhia da ceia, Ele dá a Seus discípulos esta preciosa apresentação de Si mesmo como o Servo cingido lavando seus pés com água. Ao perceberem Seu incessante serviço por eles, eles desfrutariam de Sua presença e participariam de Suas próprias alegrias.

Estado e Posição 

Pedro, na ânsia de possuir plenamente a bênção proposta nas palavras do Senhor, responde: “Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça”. Seu desejo era que não apenas seus pés estivessem limpos, mas toda a sua pessoa estivesse apta a ser associada com seu Salvador. Ele tinha a consciência não apenas de que seus pés precisavam de lavagem, mas de que toda a sua natureza e seu ser necessitavam de limpeza. Ocupado com seus próprios sentimentos, ele ignorava a obra da graça que já fora realizada pelo Senhor. Ele estava confundindo posição com estado.

A resposta de Pedro torna a ocasião o momento certo para o Senhor declarar claramente essa diferença: “Aquele que está lavado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais todo está limpo. Ora, vós estais limpos”. Aquele cujo corpo está todo lavado (ou banhado) precisa apenas limpar os pés durante o dia, pois onde apenas sandálias são usadas, os pés ficam sujos ao andar. O significado espiritual da resposta do Senhor a Pedro é muito claro. Quanto à lavagem da pessoa, os discípulos estavam limpos. Eles já possuíam uma nova vida e posição diante de Deus. “Nascidos da água e do Espírito”, eles possuíam uma natureza “divina” que os capacitou de uma vez por todas, quanto a suas pessoas, para a presença de Deus. Mas para desfrutar dessa comunhão de maneira prática, eles precisavam lavar os pés das impurezas contraídas em sua caminhada por um mundo maligno. Isto não seria feito pela aplicação da Palavra à pessoa de cada um deles, mas pela aplicação da Palavra pelo Espírito ao coração e consciência deles, para que eles pudessem julgar de maneira prática e separarem-se, em sua consciência, pensamentos e modo de andar, daquilo que era inconsistente com a natureza e caráter de Deus. Assim, eles seriam habilitados a ter parte com Jesus na bênção celestial na qual, como homem, Ele havia entrado por eles.

Lavagem por água 

Notamos aqui que não é com sangue que a pessoa ou os pés são lavados. Em ambos os casos, é “a lavagem da água, pela Palavra” (Ef 5:26). No primeiro caso é para a posição – um ato uma vez completo que não pode ser repetido. No outro, é para o estado, que, sendo uma questão de comunhão ou gozo, precisaria ser repetido com a mesma frequência que qualquer contaminação na caminhada fosse contraída.

Uma referência à figura da consagração do sacerdócio em conexão com a pia, da qual este é claramente a abençoada figura, deixará isso claro. Lemos em Êxodo 29:4: “Então, farás chegar Arão e seus filhos à porta da tenda da congregação e os lavarás com água”.

Preparação para o ministério 

Sua posição como sacerdotes estava completa, mas sua capacidade prática de entrar no lugar santo e ministrar no altar diante do Senhor dependia do uso diário da pia, como descrito em Êxodo 30:19-21: “E Arão e seus filhos nela lavarão as suas mãos e os seus pés. Quando entrarem na tenda da congregação, lavar-se-ão com água, para que não morram, ou quando se chegarem ao altar para ministrar, para acender a oferta queimada ao SENHOR. Lavarão, pois, as mãos e os pés, para que não morram”. Quando assumiam o ofício de sacerdotes, havia a lavagem de seu corpo no momento da consagração; quando exercitavam seu ofício prático, havia a lavagem de suas mãos e pés na pia em todas as ocasiões de serviço.

O serviço de Cristo hoje 

O serviço vivo de Jesus hoje desde a glória separa os “Seus que estavam no mundo”, pela ação da Palavra na consciência deles, da contaminação que eles contraíram em sua caminhada. Assim, eles podem ter parte com Ele no serviço e adoração a Deus, como sacerdotes Consigo mesmo dentro do Santo dos Santos.

Cristo é Aquele que aplica a água; os crentes não lavam seus próprios pés. Ele faz isso por eles. É de acordo com Seu conhecimento do que é adequado à presença de Deus que Ele lava seus pés. Cristo, no entanto, nos dá o privilégio de lavar os pés uns dos outros, pois Ele diz: “Ora, se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros” (Jo 13:14). Esta ação, em amor e inteligência, é tudo de Si mesmo. Quando somos restaurados à comunhão e ao poder para o serviço, quando isso foi perdido por descuido, sabemos Quem nos restaurou. Infelizes quando estamos fora da comunhão, sentimos que nossos pés precisam ser lavados; olhamos para Jesus e O encontramos aos nossos pés, nos lavando; nós percebemos Sua graça nesta ação, e novamente nossos corações estão felizes; nós temos “parte” com Ele.

Christian Truth (adaptado)

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