Origem: Revista O Cristão – Andando Dignamente

Reconciliação

Somos libertos do poder das trevas e passamos para o lugar onde Cristo está – de onde Ele é mencionado apenas como estando naquele lugar. Não apenas somos transportados das trevas para a luz, mas somos associados, no reino, com o único objeto gerado por Seu especial amor – o reino do amado Filho de Deus. Nós temos este lugar no qual a graça nos trouxe. Ele nos “fez idôneos para participar da herança dos santos na luz” (Cl 1:12).

Mas então temos tudo isso nestes pobres vasos de barro, embora “ressuscitados juntamente com Cristo” e, portanto, devemos buscar “as coisas que são de cima”. É-nos dito: “Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra; porque já estais mortos” (Cl 3:2-3) – mortos para a lei, mortos para o pecado, vivificados juntamente com Cristo. “Quando Cristo, que é a nossa vida, Se manifestar, então, também vós vos manifestareis com Ele em glória” (Cl 3:4). O Cristo ressuscitado que está à destra de Deus é a nossa vida, e ainda assim não somos tirados deste mundo.

Três dignidades 

Também nos é dito que devemos andar “de modo digno do Senhor, para o Seu inteiro agrado” (Cl 1:10 – ARA). Eu encontro três “dignos” nas epístolas: esse acima citado; “para viverdes por modo digno de Deus, que vos chama para o seu reino e glória” (1 Ts 2:12 – AIBB) e “que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados” (Ef 4:1). Meu caminho por este mundo deve ser digno d’Ele. Minha vida deveria ser a expressão de Cristo; minha vida, caminhos, tudo deve ser a expressão de tudo que Cristo expressou.

“frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus” (Cl 1:10). Aqui eu tenho crescimento. Eu não tenho crescimento na reconciliação, não há crescimento no valor do sangue de Cristo, mas no momento em que eu chego aqui, há crescimento. Eu conheço a Deus e digo: “Isso não serve para Deus”. Eu me purifico. Ele não diz que eu sou tão puro quanto Cristo, mas que eu devo me purificar “como também Ele é puro” (1 Jo 3:3). À medida que purifico meu olhar, vejo melhor e tenho meus “sentidos exercitados para discernir tanto o bem como o mal”, e quanto mais avanço, mais eu vejo aonde estou chegando.

Perfeição 

Aqui eu quero dizer algo, pois eu encontro frequentemente em certos círculos o ensino de que a perfeição pode ser alcançada aqui. Porém, não há perfeição para o Cristão exceto Cristo em glória. Se sou um homem ressuscitado, tomo-O na Terra como um padrão para os meus passos, mas não para o que devo alcançar. Cristo aqui embaixo é inatingível, porque Cristo não teve pecado e eu tenho. Não há perfeição aqui embaixo, você nunca encontra alguém que sustente que exista, e que não reduza a perfeição à condição de Adão. Eu procuro andar como Cristo andou, não segundo a carne, mas o ponto que estou mirando e olhando é o próprio Cristo em glória. “Quando Ele Se manifestar” eu serei como Ele, e até então eu procuro ser como Ele aqui, como sempre é possível ser. “Mas uma coisa faço, e é que, esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de mim, prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação [ou, chamado do alto] de Deus em Cristo Jesus” (Fp 3:13-14). Eu não tenho chamado aqui, pois o “chamado do alto” é tudo que Deus colocou diante de nós.

As pessoas dizem que Deus não pode te dar uma regra que você não possa alcançar. Mas eu digo: Deus nunca lhe dá uma regra à qual você possa alcançar – nunca! Primeiro houve a Lei. Poderia o homem atingir aquele padrão estando na carne? Ela não estava sujeita à lei de Deus, nem pode estar. E agora temos Cristo em glória. Posso alcançar isso? Nunca aqui! Mas eu prossigo para isso, pois está diante de mim e eu nunca a alcançarei até chegar a Ele. Este objetivo que tenho em vista me governa onde estou, e então “Vivo por fé no Filho de Deus” (JND), e se você não está vivendo por Ele, glorificado, você não O tem de forma alguma. Se você procura a perfeição aqui embaixo, você perdeu seu Objeto; é um completo erro na natureza do assunto. Cristo em glória é o Objeto para o qual nossa mente deve estar sempre olhando. Nós somos predestinados para sermos “conformes à imagem de Seu Filho”, e se você está olhando para qualquer outra coisa, você não está olhando para Ele.

Paciência e longanimidade 

E agora, no que diz respeito ao caminho até aqui, somos fortalecidos “em toda a fortaleza, segundo a força da Sua glória” (Cl 1:11). E qual é o fruto disso? Parece uma coisa simples demais – “paciência”! Mas há uma operação da nossa vontade própria que não gosta de ser frustrada, e isto não é paciência! “Tenha, porém, a paciência a sua obra perfeita, para que sejais perfeitos e completos, sem faltar em coisa alguma” (Tg 1:4). Precisamos de poder divino para termos paciência, esta é a primeira coisa. O que vem depois? “Longanimidade”. Quando chegamos em Efésios, lemos: “Rogo-vos, pois, eu, o preso do Senhor, que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade” (Ef 4:1-2). E então eu tenho “gozo”. No momento em que eu tenho a minha vontade quebrantada – minha vontade se curvando à vontade de Deus e suportando com paciência tudo o que surgir em meu caminho – então o gozo é desimpedido.

Assim, temos ao lugar em que fomos estabelecidos e, depois, o comportamento com o qual devemos andar. O que o apóstolo procura é que “sejais cheios do conhecimento da Sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual” (Cl 1:9). Mas muitas vezes somos ignorantes quanto a Sua vontade, não é verdade? Quando somos ignorantes, sempre há nossa própria vontade trabalhando. Ele procura uma conformidade espiritual com a mente de Cristo, de modo a marcar nossa mente, caminhada e maneiras de tal forma que nossa vida deveria vestir-se da expressão da vida de Cristo. Não é apenas evitar cometer pecados, é muito mais do que isso. A pergunta é: O que vai agradar a Cristo? A questão realmente é: Será que Cristo está em nosso coração o suficiente para nos fazer buscar apenas uma coisa nesta Terra até chegarmos a Ele onde Ele está? Se nosso coração está posto em Cristo, nosso único desejo será “andar de modo digno do Senhor”, e então o mundo não nos conhecerá.

Assim, vemos que não apenas nossos pecados se foram, mas somos trazidos a este novo lugar em Cristo: libertos “da potestade das trevas” e transportados “para o Reino do Filho do Seu amor”, e que, sendo assim trazidos, nós devemos agora andar nele como alguém “digno do Senhor”.

Ele quer que sejamos “santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis”. É isso que Ele quer que tenhamos – o que é agradável a Si mesmo. Somos perdoados, justificados, reconciliados a Deus, aptos para a herança dos santos na luz, aptos para o reino do querido Filho de Deus, e enviados agora para andarmos aqui na consciência do nosso lugar lá em cima.

Que o Senhor apenas dê aos Seus santos uma percepção mais profunda e verdadeira do lugar para onde Ele os trouxe no Senhor Jesus Cristo, para que possam saber o que é ser trazido a Deus de acordo com a aceitação que está em Cristo Jesus.

J. N. Darby (adaptado)

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