Origem: Revista O Cristão – Ezequias

Ezequias: O Perigo da Prosperidade

Frequentemente a prosperidade de Deus é acompanhada de um perigo maior para nossas almas do que o assédio do diabo. Temos uma ilustração disso em Isaías 36-39. Nos capítulos 36-37, os assírios bradam às portas de Jerusalém, mas Ezequias não desanima. A carta do invasor com toda a sua arrogância é calmamente apresentada diante do Senhor, e o Senhor declara a respeito de seu escritor “Por causa da tua raiva contra Mim […] subiu até aos Meus ouvidos […] te farei voltar pelo caminho por onde vieste” (Is 37:29).

Como Davi, um “cão morto” aos seus próprios olhos, e como Paulo, naquele tempo de angústia que se abateu sobre ele na Ásia, tendo a sentença de morte sobre si, Ezequias toma posse da força do poderoso Deus de Jacó, credo que Ele existe (Hb 11:6), e assim sua fé é sustentada pela mão direita da Sua justiça.

“E fez o que era reto” 

Brilhante seria o retrato deste santo, se tivesse seu registro fechado aqui. “E fez o que era reto aos olhos do SENHOR” e “confiou, de maneira que, depois dele, não houve seu semelhante entre todos os reis de Judá, nem entre os que foram antes dele” (2 Rs 18:3, 5). Mas o Espírito de Deus é um Biógrafo fiel. Ezequias havia provado o Senhor em Seu poder e fidelidade. Temos que olhar agora para ele em outras circunstâncias, provando o que ele mesmo é.

Prosperidade 

É a hora da prosperidade. O Senhor, por Seu favor, operou livramento; riquezas fluem de todos os lados e a fama de seu nome se espalhou. “Muitos traziam presentes a Jerusalém, ao SENHOR, e coisas preciosíssimas a Ezequias, rei de Judá, de modo que, depois disso, foi exaltado perante os olhos de todas as nações” (2 Cr 32:23). Quantos santos foram elevados a um lugar de destaque diante de seus irmãos e diante do mundo, por meio de uma conduta de simplicidade não afetada, de dependência e de propósito de coração para com Deus! Ezequias “foi exaltado perante os olhos de todas as nações”, mas ele foi engrandecido também aos seus próprios olhos.

Doença 

Quando Ezequias adoeceu até a morte, Isaías, o profeta, foi enviado a ele para dizer: “Assim diz o SENHOR: Põe em ordem a tua casa, porque morrerás e não viverás” (Is 38:1). Como Ezequias recebe a mensagem? “Então, virou Ezequias o rosto para a parede e orou ao SENHOR” (v. 2). Até agora tudo está certo. Mas qual é o seu choro? “Ah! SENHOR, lembra-Te, peço-Te, de que andei diante de Ti em verdade e com coração perfeito e fiz o que era reto aos Teus olhos. E chorou Ezequias muitíssimo” (v. 3). No templo ele havia apresentado diante do Senhor a carta com suas blasfêmias; agora ele apresenta suas graças diante do Senhor e apela à Ele com o crédito delas.

O Senhor não nega a verdade do que Ezequias diz. Ele leva em conta e diz que ainda acrescentará quinze anos à sua vida. Para um observador casual, pode não haver nada de maravilhoso na recuperação de alguém que estava doente de morte. Mas uma maravilha foi operada na terra. O Senhor o recuperou e o fez viver, e ele celebra isso no escrito que escreveu quando esteve doente e foi curado de sua doença. A massa de figos colocada como gesso no tumor, não passa de uma massa de figos. Se a cura e a saúde fluíram em suas veias imediatamente, ele reconhece que era Deus quem estava agindo.

A maravilha do Sol 

Há um milagre que o acompanha, cujas notícias chegam até a Babilônia: “eis que farei que a sombra dos graus, que passou com o Sol pelos graus do relógio de Acaz, volte dez graus atrás. Assim, recuou o Sol dez graus pelos graus que já tinha andado” (v. 8). Os príncipes da Babilônia mandam perguntar sobre esse milagre e parabenizam o rei em favor de quem foi realizado, pois o mesmo Deus que pode reverter as leis da natureza na cura pode reverter as ações dos corpos celestes.

Com o sentimento deste livramento fresco em sua alma, o propósito do coração de Ezequias não é meramente o de pagar o que ele prometeu na presença do povo do Senhor, de sacrificar a Ele com ação de graças; seu pensamento é que ele levará consigo a lembrança destes dias durante toda a sua vida. O que o homem é e o que a morte é, como ele os viu e sentiu, nunca será esquecido. Mas uma coisa é reconhecer a verdade dessas coisas com o rosto na parede; e é completamente outra coisa, portanto, viver com o sentimento contínuo da presença de Deus, a ponto de desaprovar toda pretensão da carne.

Resoluções 

Que resoluções, não insinceras, mas formadas na ignorância de si mesmo, são gravadas neste memorando de um Ezequias convalescente! Aquele que esperava a morte está prestes a entrar de novo para um período adicional definido nas cenas e atividades da vida. Como ele vai se portar nelas? Levando consigo em toda a sua amargura benéfica, a lição da morte; seu propósito é viver no princípio da gratidão contínua como o adorador do Senhor. Ai de mim! Seu propósito é construído sobre o “Eu devo” e “nós vamos” de um coração sincero, mas que não se conhece.

O próximo capítulo apresenta um estado diferente de coisas. É novamente uma época de prosperidade; o pano de saco é tirado, e quem o veste é cingido de alegria. Os embaixadores do rei da Babilônia vieram, e o coração de Ezequias se “exaltou”, o homem que deveria agir suavemente se ensoberbece. “Contudo, no negócio dos embaixadores dos príncipes da Babilônia que foram enviados a ele a perguntarem acerca do prodígio que se fez naquela terra, Deus o desamparou, para tentá-lo, para saber tudo o que havia no seu coração” (2 Cr 32:31).

Os tesouros 

Ele tentou lembrar a Deus da perfeição de seu coração, e Deus o deixa para que ele possa saber como era o seu coração. Os embaixadores vêm; uma oportunidade é apresentada para engrandecer ao Senhor, para tornar conhecida a verdade. O que é que ele faz? Então, “Ezequias se alegrou com eles e lhes mostrou a casa do seu tesouro, e a prata, e o ouro, e as especiarias, e os melhores unguentos, e toda a sua casa de armas, e tudo quanto se achava nos seus tesouros; coisa nenhuma houve, nem em sua casa, nem em todo o seu domínio, que Ezequias lhes não mostrasse” (Is 39:2). Ele estava contente com eles e isso explica tudo. Ele os chama para examinar seus tesouros, mas Deus o está chamando para examinar seu próprio coração. Não há nada do homem morto em tudo isso, nada que aja mansamente. É necessário apenas que nós sejamos deixados por pouco de tempo para que sejamos tentados, para que possamos saber tudo o que está em nosso coração, e aquilo que está no coração sai.

Lemos em 2 Crônicas 32:25-26 que “não correspondeu Ezequias ao benefício que se lhe fez, porque o seu coração se exaltou; pelo que veio grande indignação sobre ele e sobre Judá e Jerusalém. Ezequias, porém, se humilhou pela soberba do seu coração, ele e os habitantes de Jerusalém; e a grande indignação do SENHOR não veio sobre eles, nos dias de Ezequias”. Ele se humilha sob a mão e a palavra do Senhor. “Então, o profeta Isaías veio ao rei Ezequias e lhe disse: Que foi que aqueles homens disseram e donde vieram a ti? E disse Ezequias: De uma terra remota vieram a mim, da Babilônia. E disse ele: Que foi que viram em tua casa? E disse Ezequias: Viram tudo quanto há em minha casa; coisa nenhuma há nos meus tesouros que eu deixasse de lhes mostrar. Então, disse Isaías a Ezequias: Ouve a palavra do SENHOR dos Exércitos: Eis que virão dias em que tudo quanto houver em tua casa, com o que entesouraram teus pais até ao dia de hoje, será levado para a Babilônia; não ficará coisa alguma, disse o SENHOR. E dos teus filhos, que procederem de ti e tu gerares, tomarão, para que sejam eunucos no palácio do rei da Babilônia” (Is 39:3-7).

A graça de Deus 

“Então, disse Ezequias a Isaías: Boa é a palavra do SENHOR que disseste. Pois pensava: Porque haverá paz e verdade em meus dias” (Is 39:8). Que justificação de Deus em Seus caminhos temos aqui! Por mais humilhante que seja o necessário processo no qual Seus santos são colocados, a graça que o faz é pura. Nosso lucro é alcançado quando, exercidos pela disciplina, nos voltamos de nós mesmos e de nossas graças para encontrar em Deus nossa ajuda. A expressão “Boa é a palavra do SENHOR que disseste”, em vez de ser um reflexo do interesse próprio, em que o julgamento não cairia nos dias de Ezequias, é antes uma expressão de gratidão pela graça de Deus estendida para Ele. Sua mente está mais uma vez na graça de Deus, e não em sua própria glória.

Christian Friend (adaptado)

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