Origem: Revista O Cristão – Arrependimento e Restauração
O Arrependimento de Jó e a Bênção
O arrependimento é uma palavra familiar. Será que a sua verdadeira importância é igualmente conhecida? No entanto, é certo que, a não ser que o pecador se arrependa, ele inevitavelmente perecerá eternamente. Isto é tão verdadeiro quanto as palavras de Cristo podem assim declará-las: “se vos não arrependerdes, todos de igual modo perecereis” (Lc 13:3). Fato tremendo! Nosso coração se solidariza profundamente com muitas almas honestas em suas dificuldades sobre o arrependimento e gostaria de ajudá-las um pouco com essa palavra que, se recebida pela simples fé, elimina uma série de dificuldades.
A necessidade do arrependimento de Jó
Ao procurar fazê-lo, eu tomaria o caso de uma alma que experimentou arrependimento genuíno. Vamos encontrá-la em Jó 40 e 42. Servirá para mostrar muito claramente o que é o arrependimento – sua natureza – e o que o faz acontecer. Jó estava procurando se justificar – se exaltar e reter sua própria justiça. Tomemos uma ou duas passagens. Jó 27:6: “À minha justiça me apegarei e não a largarei; não me remorderá o meu coração em toda a minha vida”. Mais uma vez, “pese-me em balanças fiéis, e saberá Deus a minha sinceridade [integridade – ARA]” (cap. 31:6). Aqui, indubitavelmente, Jó ainda não havia aprendido a grande lição; seu coração ainda não estava abatido nem quebrantado. Com ele ainda havia “minha justiça” e “minha integridade”. Ele mesmo era seu grande tema. Isso nunca permanecerá diante de Deus. A luz de Sua presença deve destruir todas as nossas pretensões de bondade e justiça – nosso lugar diante d’Ele é prostração, humildade em Sua presença. Oh, quão importante é para o pecador saber disso! A luz imaculada dessa presença revela à consciência a verdadeira condição das coisas, como veremos no caso de Jó.
“E acendeu-se a ira de Eliú, filho de Baraquel, o buzita, da família de Rão; contra Jó se acendeu a sua ira, porque se justificava a si mesmo, mais do que a Deus” (cap. 32:2). O quão solene é essa verdade a respeito do homem em geral! Uma falta de sujeição a Deus e uma exaltação e justificação do “eu” é o que caracteriza o homem em geral. Jó se justificou a si mesmo em vez de justificar a Deus. Nos capítulos 38-40 o próprio Senhor respondeu a Jó, e isso se mostrou eficaz em abrir seus os olhos para ver sua verdadeira condição, a qual o colocava humilhado no pó diante d’Ele.
O que produziu a mudança
Aqui eu notaria o que produziu esta mudança maravilhosa em Jó. De alguém que poderia falar de sua própria justiça, ele veio a se prostrar na presença de Deus, clamando por causa de sua própria vileza pessoal. Foi a recepção em sua alma daquela Palavra que deu a conhecer a luz da natureza d’Aquele que a proferiu – que deu a conhecer a Jó, em verdadeiro e solene caráter, a depravação de sua própria natureza e a rebelião de seu coração contra Deus. Não foi um trabalho preparatório da parte de Jó, mas o resultado da entrada daquela Palavra que dá luz – a natureza de Deus – e exibe as trevas da natureza do homem.
Deus tomou Jó em mãos e dirigiu-Se a ele pessoalmente e, consequentemente, toda a sua justiça própria caiu por terra. A fortaleza de seu coração legalista foi quebrada e demolida. A Palavra, rápida e poderosa, contra a qual nenhuma fortaleza legalista pode permanecer, penetrou no coração de Jó, desnudando suas fontes secretas, abrindo para ele as fontes corruptas de sua natureza, espalhando sua depravação diante dele.
Isto foi, sem dúvida, o que produziu seu arrependimento. A Palavra de Deus, recebida na alma, ministra luz e descobre todas as trevas e pecado que reina ali, em vista do que Deus é, como Aquele que é essencialmente luz. Por isso, há uma obra de julgamento próprio efetuada, que prostra a alma diante de Deus e a leva a lançar-se sobre Sua misericórdia.
É muito abençoado notar isso em Jó: “Então, Jó respondeu ao SENHOR e disse: Eis que sou vil; que Te responderia eu? A minha mão ponho na minha boca. Uma vez tenho falado e não replicarei; ou ainda duas vezes, porém não prosseguirei” (Jó 40:3-5). E novamente: “Com o ouvir dos meus ouvidos ouvi, mas agora Te veem os meus olhos. Por isso, me abomino e me arrependo no pó e na cinza” (caps. 42:5-6). Aqui o propósito de Deus foi atingido. Jó tinha aprendido sobre si mesmo – ele foi humilhado – o bendito fruto da obra de Deus nele. Ele foi levado ao arrependimento, isto é, para formar um julgamento correto de si mesmo à luz da presença de Deus e de Sua Palavra que sonda o coração e subjuga a alma. A verdade de Deus havia feito seu trabalho em Jó. Ele reconhece a si mesmo como sendo vil. Ele se abomina e se arrepende em pó e cinzas. Que grande momento para Jó! Sua justiça própria se foi, e o espírito de defesa própria, abrindo caminho para aquele saudável e divinamente forjado exercício da alma, na luz, sob uma percepção de pecado, chamado arrependimento. Bendita obra de Deus! Quanto mais profundo, melhor, com certeza.
A bendita consequência
Agora Jó se torna um assunto abençoado da plenitude da generosidade e graça de Deus. Deus, com mão inesgotável, amontoa ricas bênçãos sobre ele, e ele é abençoado. É assim com toda alma que se arrependeu – aquela obra divina na alma, que nunca é conhecida à parte das operações vivificadoras do Bendito Espírito de Deus. A plenitude do Cristo de Deus é a porção abençoada de tal. Todas as coisas são deles em Cristo.
O arrependimento, portanto, não é primeiramente humano; não é um trabalho preparatório da parte do pecador para a conversão, mas sim o resultado da recepção do testemunho de Deus – que é a fé – e a vivificação da alma pelo poder do Espírito Santo, que sempre acompanha a verdadeira fé.
É a ordem natural da obra mais abençoada de Deus com e na alma do pecador. A Palavra é aplicada e recebida. Se esta recepção é real, é vida para a alma, e como consequência, o arrependimento é realizado – aquele santo reconhecimento do justo juízo de Deus sobre tudo aquilo que pertence ao velho homem em nós, que termina na alma renovada e liberta se levantando e respirando a atmosfera da nova criação, onde todas as coisas são de Deus. Em todos os casos em que a obra é real, a recepção de coração da Palavra deve vir primeiro (não digo o testemunho completo de Deus quanto à redenção realizada). O testemunho solene de Deus a respeito do estado do homem, como no caso de Jó, deve ser recebido e, quando plena e simplesmente recebido, é vida para a alma, o que resulta em uma perfeita repugnância de si mesmo e na renúncia de toda justiça própria e a confissão de vileza pessoal. “Eis que sou vil” é a consciência solene da alma.
Paz com Deus
Então a paz com Deus é o resultado de saber que Jesus “o Qual por nossos pecados foi entregue e ressuscitou para nossa justificação” – que a obra está terminada e que a redenção é um fato consumado, e que o Consumador está assentado com a mais brilhante majestade à destra do trono de Deus. Daí a necessidade de pregar um evangelho completo; isto é, o testemunho que Deus deu a respeito do homem e aquele que Ele deu a respeito de Seu Filho – uma vez na morte, mas agora ressuscitado e glorificado – que, quando simplesmente crido, é vida e paz.
Christian Truth, vol. 17: 227-230
