Origem: Revista O Cristão – Santificação
O Caráter da Santificação
Tenho em meu coração falar algumas palavras sobre João 17 em referência ao caráter da santificação.
Neste momento, como todos sabemos, o Senhor havia sido rejeitado. Por todo o evangelho de João, do capítulo 1, Ele é desconhecido para o mundo e rejeitado pelos Judeus. Mas, do capítulo 13, Ele fala que irá sair do mundo e ascender ao alto.
Neste capítulo, porém, o que é revelado é que Ele veio do Pai, não somente de Deus, e isso envolve a “vida eterna”. É aí que entra a vida eterna. Seu caráter é que ela é o conhecimento do Pai, pois o Pai enviou Seu Filho unigênito para que pudéssemos viver através d’Ele. É no conhecimento do Pai, e de Jesus enviado por Ele, que há vida eterna. E então o caráter em que O conhecemos é o do “santo Pai”, e isso é santificação. Quando se trata de uma questão do mundo, ele diz “Pai justo”. Não é que a graça não vá de encontro aos pobres pecadores no mundo para livrá-los dele, mas que os santos não são dele e não tem mais relação nenhuma com ele.
Alguns pensam que Cristo veio ao mundo para Se conectar com a humanidade – que Ele Se uniu ao homem na encarnação – o que é uma mentira absoluta. Ele era um Homem verdadeiro, mas o pensamento da união de Deus com o homem – com a humanidade como era – é totalmente antibíblico; não há união antes da redenção. A doutrina da Escritura é que estamos unidos a Cristo depois que a redenção é realizada – unidos a um Cristo glorificado .
O Pai e o mundo
Quanto ao mundo, temos aqui um ponto muito importante na prática, porque a “amizade do mundo é inimizade contra Deus” (Tg 4:4). Onde quer que eu deixe o espírito e as associações do mundo entrar, estou me associando àquilo que rejeitou a Cristo. O mundo é um sistema julgado. “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo” (Jo 12:31). “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele” (1 Jo 2:15) O Pai tem um mundo próprio, que Ele nos deu, ao qual Ele levou Cristo para ser o centro – a nova criação. O mundo, como é, rejeitou a Cristo quando veio a ele, e agora tudo terminou. A tudo aquilo a que pertencemos é uma nova criação. Isso é o que um Cristão é, e nós temos que manter isso em nossa caminhada e em nosso testemunho. É verdade que temos o tesouro em vasos de barro, mas pertencemos inteiramente à nova criação. O tesouro não está em suas associações naturais quanto ao que está no seu entorno aqui.
Também lemos: “Na qual vontade temos sido santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez” (Hb 10:10). Em Hebreus, é sempre a santificação pelo sangue – na cruz. Havia uma brecha completa entre Deus e o mundo, e o crente foi separado para Deus. Aqui há um duplo fundamento de santificação, a vontade de Deus e a oferta de Cristo. E terceiro, que é a parte prática disto, nós temos o Espírito Santo como Aquele que realmente trabalha isto, o agente imediato da obra em nós: “Eleito… em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1:2). Existe a comunicação de uma nova vida em Cristo. Mas é uma coisa totalmente nova – Cristo, nossa vida, assim como até mesmo Adão, inocente, não a teve. E este é realmente o princípio da santidade. Aquilo que é nascido de Deus é uma coisa santa; nós somos “novamente gerados… pela Palavra de Deus, viva e que permanece para sempre” (1 Pe 1:23), pois a Palavra de Deus permanece para sempre.
Cristo é aquela vida eterna que estava com o Pai e Se torna espiritualmente nossa vida; não é nada que esteja no homem ou venha do homem. Isso dá o seu verdadeiro caráter. “O que era desde o princípio, o que vimos com os nossos olhos, o que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida (porque a vida foi manifestada, e nós a vimos, e testificamos dela, e vos anunciamos a vida eterna, que estava com o Pai e nos foi manifestada)” (1 Jo 1:1-2). Tudo o que foi simples fracasso no início veio como inimizade contra o próprio Filho de Deus quando Cristo estava no mundo. Ele demonstrou bondade divina e poder, tudo o que a graça divina poderia ser, mas isso manifestou Deus, e este homem não teria a qualquer custo. O mundo foi testado dessa maneira, e o resultado é que, tendo o homem caído sido expulso do paraíso, Deus foi expulso do mundo no qual Ele veio em graça. E assim o mundo não suportará agora um homem que é como Cristo. “Porquanto a mente da carne é inimizade contra Deus” (Rm 8:7 – TB), mas “O qual Se deu a Si mesmo… para nos livrar do presente século mau” (Gl 1: 4). Eu O recebo, o Homem que o mundo rejeitou e no Qual Deus Se deleitou, e Deus diz de Si mesmo: Eu devo cumprir os Meus propósitos de graça, e a Cristo Ele diz: Vem e assenta-Te à Minha direita até que Eu os cumpra. Então é aonde Ele Se foi e o mundo não O vê mais.
Cristo em glória
Em Israel, Deus estava entre eles como um povo liberto, mas o véu estava presente. Mas agora não é assim. Quando Cristo morreu, o véu foi rasgado e agora temos “ousadia para entrar no Santo dos Santos”. O véu é rasgado de cima a baixo, e o único lugar em que tenho que entrar é na luz, pois Deus está na luz. Se não posso andar na luz, não posso andar com Deus de forma alguma
Nós então chegamos ao que esta santificação é positivamente. Deus aceitou pessoalmente o homem em Cristo; o Filho de Deus está na glória. Nossa condição atual nunca é mencionada, exceto como estando em conexão com o Segundo Homem em glória; nossa única conexão com Deus está em Cristo; somos predestinados “para sermos conformes à imagem de Seu Filho, a fim de que Ele seja o Primogênito entre muitos irmãos”. Esta não é uma questão de nossa responsabilidade; tudo depende da obra consumada do Segundo Homem; ela repousa sobre o que é feito. Cristo obedeceu até a morte e é glorificado. Como resultado de Sua obra, fomos novamente gerados com a Palavra da verdade, fomos feitos filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus e, assim, temos uma nova natureza. Somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.
Agora esta nova natureza deve ter um Objeto, e Deus deu a ela um que não está neste mundo de forma alguma. Não há uma única coisa neste mundo que não tirará nossa santificação se formos atrás dela. A santificação está toda conectada com Cristo em glória. Tudo isso é novo. A natureza, o caráter e o objeto pelo qual somos santificados por meio do Espírito Santo estão fora do mundo inteiramente. O objeto diante de nós é um Cristo glorificado; Ele é a nossa vida: Somos “criados em Cristo Jesus”. O crente tem deveres aqui e não é retirado do mundo, mas sua vida está totalmente conectada com Cristo à destra de Deus, e tudo o que diminui nossa percepção d’Ele diminui nossa santificação prática aqui.
Nosso testemunho é que o Homem a quem o mundo rejeitou está à direita de Deus. O evangelho começa, não com Cristo vindo ao mundo, mas com Cristo saindo dele. O mundo O rejeitou e Deus o levou para o céu. “Eu subo para Meu Pai e vosso Pai, Meu Deus e vosso Deus” (Jo 20:17). Isso nunca foi dito antes da redenção.
E apenas note como o apóstolo nos identifica com Cristo: “Por isso, o mundo não nos conhece, porque não conhece a Ele” (1 Jo 3:1). Ele nos associa completamente com um Cristo rejeitado aqui embaixo. “Agora somos filhos de Deus, e ainda não é manifesto o que havemos de ser” – agora temos o tesouro em pobres vasos de barro, “mas sabemos” – estamos tão identificados com Cristo – “quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque assim como é O veremos” – lá em cima em glória. Nós nunca O veremos como Ele esteve aqui em humilhação, mas em glória nós O veremos como Ele é.
Santificação Cristã
E agora qual é o efeito disso? “E qualquer que n’Ele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também Ele é puro” (1 Jo 3:3). Eu nunca posso ser como Ele era, pois Ele nunca teve pecado algum em Sua natureza, mas eu serei perfeitamente semelhante a Ele. E por que me purificar? Porque eu não sou puro e, portanto, devo me purificar. O apóstolo não diz puro como Ele é puro. Mas Ele é o padrão pelo qual eu me purifico – Cristo, como Ele está acima. Eu devo ser como Ele, e a vida que tenho d’Ele nunca pode ser satisfeita até então. Eu já me purifiquei.
Você pode encontrar outras passagens sobre o assunto, mas não há outra maneira de ver a santificação na Escritura. Não há lugar separado para Deus, exceto no Segundo Homem. Onde devo olhar a santidade de Deus em um homem? Eu respondo: Em Cristo em glória. Ele era o Santo e andou de acordo com o Espírito de santidade aqui embaixo, e eu devo andar como Ele andou, mas aquilo pelo qual o Espírito Santo opera isto em nós é olhando para o Cristo glorificado lá em cima, tendo um Objeto e um motivo lá em cima que tira o meu coração de tudo que está aqui, como foi o Seu que andou pelo mundo, como eu tenho que fazer. Eu vou estar com Ele e serei como Ele. Um homem que, no coração, não apenas está com Deus e por Deus, mas mesmo agora um imitador de Deus como um filho amado – isso é a santificação Cristã.
Que bendita vocação é a nossa! Tudo está conectado com um Cristo glorificado – um Cristo que o mundo rejeitou. Ele nos deu uma natureza santa, nascida de Deus e, como um Objeto, Ele deu a você o Cristo glorificado, o Filho de Deus.
Como então devo ser separado no mundo? Se eu não tenho nada totalmente fora dele, deixar meus males particulares é desistir de uma coisa e tomar outra, mas obter algo que está fora do mundo me liberta inteiramente de seu poder. O Senhor Jesus diz: “Santifica-os na verdade; a Tua Palavra é a verdade” (Jo 17:17). Isto é exatamente o que Cristo, o bendito Filho de Deus, era; Ele era a verdade em Si e a verdade perfeitamente adequada ao coração e à consciência do homem. Isto é o que a Palavra de Deus faz, vista como um meio. A Palavra do Pai traz a verdade ao meu coração e o sonda e detecta tudo o que está lá; vem como uma luz e mostra tudo o que não é da nova criação. E faz isso revelando o que está lá em cima. Os discípulos eram crentes, e agora Ele está procurando por eles para serem santificados, e isto é feito lhes mostrando o que é celestial, os associando com o que está n’Ele acima pela Palavra do Pai.
“E por eles Me santifico a Mim mesmo, para que também eles sejam santificados na verdade” (Jo 17:19). Ele é separado como o Homem dos conselhos e do coração de Deus, como Homem em glória. Não, Ele diz: “Eu Me santifico”, e o Espírito Santo traz o conhecimento disso para baixo, e, pela comunicação de Cristo em glória, me faz mais parecido com Ele todos os dias. Ele diz: Você não deve ter um motivo que não seja tirado de Mim no céu. Toda a santificação é referida como sendo como Ele lá, mantida pelo Pai Santo para andar como Ele andou aqui diante de Seu Pai.
Enquanto é, “Pai santo, guarda em Teu nome aqueles que Me deste”, isto é, “Pai justo, o mundo não Te conheceu”. Isto é muito solene. Ele apela ao Pai contra o mundo que está mergulhado em impiedade. Enquanto isso, Cristo Jesus é “feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção” (1 Co 1:30). “Imputado” não pode ser aplicado a todas essas palavras. Se a alguma, não é o assunto deste texto. As pessoas falam de “santificação imputada”. Que tal falar de redenção imputada? O que isso significa? Espero que recebamos mais do que redenção imputada ao entrarmos na glória! É o tipo, a medida e o padrão dessas coisas, e isso é Cristo, e Ele os fez de Deus para nós. É uma questão de participar da santidade de Deus. Sendo nascido de novo, estou associado com Cristo. Eu vou estar na mesma glória em que Ele está, e eu vou continuar até chegar lá, me purificando como Ele é puro. Então eu vou vê-Lo como Ele é e serei como Ele. O mundo do qual somos naturalmente, rejeitou o Filho de Deus e as associações do crente estão com um Cristo glorificado, esperando até que Ele venha para levá-los para casa.
