Origem: Revista O Cristão – Propiciação e Reconciliação

Sobre Reconciliação

A reconciliação é, para usar linguagem corriqueira, tornar tudo correto, e até, principalmente, creio eu, usado na troca de dinheiro como aquela que faz a soma correta, para que haja satisfação de ambas as partes na questão e daí passar para o sentido mais comum de tornar todas as partes em desavença e reconciliar aquele que está afastado ou em inimizade. Mas não é simplesmente a mudança de mentalidade da inimizade, embora isso esteja incluído. Nem é justificação; mas é o retorno à unidade, paz e comunhão daquilo que estava dividido e afastado. O mesmo acontece entre nós e Deus, mas o afastamento era da nossa parte. Não era afastamento da parte de Deus, mas julgamento justo contra o pecado em Sua criatura, e essa justiça deve ser satisfeita a fim de trazer de volta a criatura que se afastou ao relacionamento com Deus. Só que agora é muito mais do que trazer de volta, por causa dos propósitos de Deus em Cristo e do valor infinito da obra pela qual somos trazidos de volta a Deus. Ainda assim, é o estabelecimento de um relacionamento bendito e pacífico com Deus e de nós n’Ele.

Não é Deus que é reconciliado conosco 

Reconciliar Deus conosco é uma expressão e pensamento bastante contrário à Escritura. Nenhum ato ou negociação poderia mudar a mente de Deus, seja na natureza ou no propósito, mas Ele age livremente no que está diante d’Ele de acordo com essa natureza e na realização desse propósito, e embora Sua mente não seja mudada, ainda assim, confrontar, satisfazer e glorificar Sua justiça, de acordo com essa mente e a reivindicação imperiosa de Sua natureza e autoridade, é necessário no sentido mais elevado, isto é, de acordo com essa natureza. Sua santidade também está envolvida na reconciliação.

A reconciliação é o pleno estabelecimento do relacionamento com Deus, de acordo com Sua natureza e de acordo com a natureza daquilo que é reconciliado. Ela agora atua na redenção e em uma nova natureza e, no que diz respeito a tudo à nossa volta, num novo estado de coisas, de modo que é mais do que um simples restabelecimento. Ele é restabelecido na medida em que o antigo relacionamento foi rompido e perdido, mas não é o retorno àquele relacionamento. Pelo contrário, é o estabelecimento de um novo relacionamento que possui a estabilidade da redenção e é o cumprimento do propósito de Deus. Ainda assim, é o trazer de volta ao gozo do favor divino aquilo que o havia perdido. Essa reconciliação é dupla na Escritura – do estado das coisas e dos pecadores.

Assim em Colossenses 1 toda a plenitude da Divindade Se agradou em habitar n’Ele “havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz, por meio dele reconciliasse Consigo mesma (a Divindade – JND) todas as coisas, tanto as que estão na Terra, como as que estão nos céus. A vós também, que noutro tempo éreis estranhos, e inimigos no entendimento pelas vossas obras más, agora contudo [Ela – JND] vos reconciliou no corpo da Sua carne, pela morte, para perante Ele [Ela – JND] vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis”. A força da palavra é evidente desde a primeira ocorrência. Não se trata de mudar a disposição das coisas reconciliadas, porque a reconciliação proposta mencionada no versículo 20 refere-se a todas as coisas criadas e à grande maioria das quais nenhuma mudança pode ocorrer. Trata-se de trazer toda a cena criada do céu e da Terra à sua verdadeira ordem e ao correto relacionamento com Deus, e à sua correta posição e condição nesse relacionamento.

Deus reconciliando o mundo Consigo mesmo 

A primeira passagem que se sugere, quando começamos a investigar o uso da palavra na Escritura, é 2 Coríntios 5:18-20, particularmente o versículo 19: “Deus estava em Cristo reconciliando Consigo o mundo”. Não é “Deus está em Cristo reconciliando”. A passagem afirma que o ministério apostólico tomou o lugar do ministério pessoal de Cristo, fundado no fato de o bendito Senhor ter sido feito pecado por nós, para que nós fossemos feitos a justiça de Deus n’Ele. É o aspecto do ministério de Cristo aqui embaixo. Deus estava em Cristo reconciliando o mundo. O homem não O queria, mas esse era o serviço e o aspecto de Seu ministério. Ele estava propondo ao mundo um retorno a Deus em ordem e bênção, sem lhes imputar seus pecados. Se o homem O tivesse recebido, teria provado que o homem em carne era recuperável, apesar de ter pecado; embora esse não fosse o pensamento de Deus, o resultado provou que ele não era, e o Senhor teve que ser feito pecado por nós. O homem teve que ser redimido do estado em que se encontrava e justificado em um novo patamar, não recuperado de sua ruína como homem ainda em carne e osso.

A iniquidade e a indiferença haviam provado que os homens eram realmente pecadores. Deus estava em Cristo dizendo: Eu não vim para julgar; voltem, e Eu perdoarei; retorne à ordem e a Deus e nada será imputado. Mas a inclinação da carne era inimizade contra Deus, e o verdadeiro estado do homem foi revelado. O pecado do mundo foi demonstrado por eles não crerem em Cristo; a justiça, ao não vê-Lo mais e Sua ida para o Pai. Sem dúvida, é necessária uma mudança em nós para estarmos em ordem e em paz diante de Deus, mas a reconciliação é mais do que um estado de sentimento; é um ser trazido de volta à condição de correto relacionamento com Deus. Em Colossenses 1, já citado, vemos que o propósito de Deus é trazer todas as coisas do céu e da Terra para essa ordem e condição. Todas as coisas foram criadas pelo Filho e para Ele, e toda a plenitude da Divindade que habitava n’Ele trará todas as coisas criadas por e para Ele em sua devida condição e ordem, em um estado normal de relacionamento Consigo mesma.

Nós somos reconciliados 

Mas nós, acrescenta o apóstolo, somos reconciliados, sendo Cristo a nossa justiça e nós a justiça de Deus n’Ele. Estamos, quanto à própria natureza de Deus, em nosso lugar normal com Deus, segundo a eficácia da obra de Cristo. Sendo seres morais, uma nova mente era necessária para isso, e Cristo é a nossa vida, perfeita segundo o que Ele foi para Deus, para que possamos tê-la. O crente é reconciliado no corpo da carne de Cristo por meio da morte. Estamos diante de Deus com nossa antiga natureza rebelde em um completo afastamento de Sua vista, por uma obra e obediência que glorificou perfeitamente o próprio Deus, para que sejamos a justiça de Deus n’Ele. Nada está faltando em nosso lugar e posição em Cristo, nosso antigo estado se foi, e sendo já vivificados juntamente com Ele; mortos, e despidos do velho; ressuscitados, e revestidos do novo homem, estamos em Cristo diante de Deus, segundo o valor de Sua propiciação e obra. Nós estamos assim conscientemente pela fé e pela presença do Espírito Santo pelo Qual somos selados, para sermos apresentados “santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis” aos Seus olhos.

A morte de Cristo 

Portanto, em Romanos 5:10, a reconciliação é atribuída à morte de Cristo, não a uma mudança de mente em nós. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com [ou, a] Deus pela morte de Seu Filho”. E, “por intermédio de Quem recebemos, agora, a reconciliação” (v. 11 – ARA). Note aqui que o Cristão é chamado de reconciliado. Agora é bem verdade que isso não ocorre e não pode ocorrer sem uma obra no homem pela qual a paz que Cristo fez é apropriada; não pode acontecer sem fé. O Espírito de Cristo opera em poder vivificador em nós, nos faz conhecer nosso estado, dá novos desejos, nos faz julgar nosso velho estado e, finalmente, nos mostra o valor da morte de Cristo e nossa posição n’Ele, mas a paz foi feita, Deus foi glorificado perfeitamente quando Cristo foi feito pecado, para que Seu amor possa nos buscar e a graça reinar por meio da justiça. Não que Deus seja mudado, mas Ele pode trabalhar livremente no amor, de acordo com a justiça, para Sua própria glória, em virtude daquilo que Lhe foi apresentado. A propiciação foi feita e, portanto, de acordo com a justiça e abundando em amor, Ele pode trazer de volta o pecador para Si mesmo, de acordo com estes, e, estando lá a fé trouxe de volta – reconciliou. Aquilo que é o fundamento da reconciliação foi oferecido a Deus, mas não é Deus Quem é reconciliado ou trazido de volta a um lugar normal com o homem, mas é Ele Quem reconcilia em virtude daquilo que foi feito por Cristo e apresentado a Ele.

A propiciação é o fundamento da reconciliação, a reconciliação do pecador e, no devido tempo, a do universo. Nesse momento, o evangelho suplica aos homens (as palavras “vos”, e novamente “vos” devem ser excluídas em 2 Coríntios 5:20: “Sejam reconciliados a Deus” – JND) para serem reconciliados a Deus, para retornar a Ele no verdadeiro relacionamento em Cristo, que foi feito pecado por nós. Não é então propiciação, não é de todo reconciliar Deus, nem é meramente uma mudança no homem ou em seus sentimentos, mas é a posição do homem (quando aplicado a ele) em paz com Deus de acordo com a verdade do caráter de Deus em virtude da redenção, o homem é trazido moralmente de volta a uma nova natureza que, pelo Espírito Santo, aprecia essa redenção e desfruta da paz – regozijo em Deus, assim como tem paz com Ele. É importante notar que o Cristão é sempre tratado como estando reconciliado. É mais do que estar justificado – isso é, com autoridade, ser declarado justo por Deus, seja quanto aos pecados ou agora, de fato, em Cristo. É mais do que a restauração do coração a Deus, embora ambos tenham lugar para a reconciliação, pois estar com Deus totalmente revelado em um relacionamento alegre e estabelecido Consigo mesmo, tudo em ordem entre nós, precisa ser como justificado segundo a Sua justiça e como o objeto de Seu amor como aqueles que o provaram. Fomos introduzidos em ambos pela obra de Cristo, mas com o coração vividamente renovado e provando esse amor, ou não deveríamos como seres morais estar nele. É, portanto, uma palavra de grande poder e bênção. Também não há uma expressão mais completa relacionada à nossa restauração do que a de nossa reconciliação a Deus. Ela supõe que Deus revelou, em tudo o que Ele é, e o homem em um lugar perfeito e posição com Ele segundo essa revelação – reconciliado a Deus.

J. N. Darby

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