Origem: Livro: A Segunda Epístola de Paulo aos CORÍNTIOS

Os Motivos do Ministro Cristão se Devotar ao Serviço do Senhor (cap. 5:1-21)

No capítulo 5, Paulo continua explicando seus princípios de ação no serviço ao Senhor, que estavam sendo questionados por seus difamadores. Ele agora revela os motivos internos de seu coração no serviço. Ele fala de três grandes coisas que o motivaram. Isso é trazido aqui porque seus difamadores interpretaram sua grande devoção ao Senhor como sendo a evidência de um homem que era mentalmente instável. Eles estavam espalhando histórias de que era um louco fanático que não deveria ser levado a sério. Ele faz alusão a essa acusação no versículo 13 (“fora de nós mesmos” [JND]).

Ao responder isso, Paulo mostra que não era loucura, mas profunda devoção a Cristo que o motivou. Ao fazê-lo, ele aproveita a oportunidade para falar das forças motivadoras por trás de sua vida de devoção à causa de Cristo. Esses mesmos três motivos deveriam energizar todos os Cristãos a viver e servir ao Senhor.

1) A Certeza da Sublime Condição de Glória Guardada no Céu para Nós, Nos Compele a Viver Agora por Essas Coisas Eternas 

Vs. 1-9 – No capítulo 4, Paulo estava falando de coisas eternas e da possibilidade de perder sua vida como mártir de Cristo. Neste capítulo prossegue, dizendo que, se tal coisa tivesse de acontecer, ele tinha a garantia de que um dia seria glorificado em um corpo completamente transformado, que não seria afetado por doença, decadência e morte. Ele tinha certeza disso porque recebera uma revelação da verdade sobre essas coisas. Portanto, poderia dizer com segurança: “Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus”. Paulo sabia que se morresse em batalha (martírio), haveria uma magnífica condição de glória esperando por ele. Isso o encorajou a lançar sua energia no ministério.

Há duas pequenas expressões que Paulo usa no versículo 1 que aparecem muitas vezes em suas epístolas. São elas: “nós sabemos” e “nós temos”. Estas expressões denotam conhecimento Cristão e possessão Cristã, os quais caracterizam Cristianismo. “Nós sabemos” não é o conhecimento da experiência, ou o conhecimento da instrução, mas o conhecimento adquirido por revelação divina. Os apóstolos receberam revelações pelas quais o conjunto do conhecimento Cristão foi dado à Igreja (1 Co 2:10-16). “Nós temos” refere-se à porção especial (bênçãos) que pertence a todos os Cristãos por meio da obra consumada de Cristo e da presença interior do Espírito de Deus. Quão gratos devemos ser em saber o que sabemos e ter o que temos!

Paulo falou anteriormente da transformação moral que Deus atualmente está operando em nós (cap. 3:18), mas aqui ele fala de uma transformação física que ocorrerá quando o Senhor vier para nós (cap. 5:1). Usando a figura de uma “casa”, Paulo contrasta a condição de nossos corpos agora com o que eles serão num dia vindouro. Ele chama nossos corpos em sua condição atual de um “tabernáculo”, que é uma tenda (uma habitação portátil), porque eles são um alojamento temporário da alma e do espírito. Então, ele fala de nossos corpos quando eles serão glorificados como “um edifício de Deus, uma casa não feita por mãos, eterna nos céus”. Isso significa seu caráter permanente no estado glorificado. O contraste é óbvio; uma tenda deve ser removida em algum momento, mas uma casa é permanente.

Paulo havia dito aos coríntios em sua primeira epístola que essa mudança surpreendente para o estado glorificado ocorreria “num piscar de um olho” (JND) na vinda do Senhor – o Arrebatamento (1 Co 15:23, 51-57). “Não feita por mãos” significa simplesmente “não desta criação” (Hb 9:11). “Nos céus” não significa que Deus já fez nossos corpos glorificados e que eles estão sentados lá no céu desocupados, nos esperando chegar lá, mas sim que o céu é nosso destino, e o estado glorificado é de uma ordem e caráter celestial.

É interessante que a Escritura não diz que recebemos “novos” corpos, embora os Cristãos frequentemente falem isso. Mas os nossos corpos mortais é que são “transformados” para um estado glorificado (1 Co 15:51-52; Fp 3:21; Jó 14:14). Este estado glorificado é uma condição completamente nova, mas não é o recebimento de outro (ou novo) corpo. Dizer que um crente que morre (cujo corpo é enterrado) recebe um novo ou outro corpo quando o Senhor vier, nega a ressurreição. A Escritura indica que os próprios corpos em que vivemos, nos movemos e tivemos nosso ser, serão ressuscitados – embora que em uma condição inteiramente nova de glória. Por isso, temos a certeza da glorificação de nossos corpos, mas não necessariamente a dissolução de nossos corpos, porque “nem todos dormiremos” (1 Co 15:51). Alguns crentes estarão “vivos” na vinda do Senhor e serão “arrebatados” junto com aqueles que serão ressuscitados dentre os mortos naquele momento (1 Ts 4:16-17).

A compreensão da sublime condição de glória, guardada no céu para nós, motivou Paulo a viver para o Senhor e O servir com fervor. Ele disse: “E por isso também gememos, desejando ser revestidos da nossa habitação, que é do céu”. Nós “gememos” nesses corpos mortais porque eles estão sofrendo dos efeitos do pecado na criação. As dores e mágoas que experimentamos em nossos corpos nos lembram constantemente de que ainda não estamos em casa. O Senhor deseja que tais experiências tenham o efeito de diminuir nosso apego às coisas daqui e de voltar nossos espíritos em direção a nosso lar. Por isso, nesses capítulos, Paulo toca em duas coisas que produzem o correto desejo de ser “revestido” com nossos corpos glorificados: as coisas que são “eternas” que contemplamos pela fé (cap. 4:18), e os gemidos que experimentamos em nossos corpos mortais (cap. 5:2, 4).

O gemido aqui não é porque os desejos da carne não podem ser satisfeitos, nem porque temos algum medo ou incerteza de sermos aceitos diante de Deus em Cristo, mas porque a nova vida anseia pelo estado final (glorificado). O corpo em seu estado presente tende a entristecer a nova vida, e isso pode de algum modo impedir a alma de desfrutar da glória que a nova vida vê e deseja. Embora não seja errado gemer nesses corpos, é errado murmurar. Não há lugar para reclamação no Cristianismo (Fp 2:14; Jd 16).

Vs. 3-4 – Já que seremos “vestidos” com corpos glorificados, temos a bendita certeza de que não seremos encontrados “nus”. Nus é um termo que Paulo usa para denotar o estado de uma pessoa que está eternamente perdida sem uma cobertura para seu pecado.

Paulo acrescenta que não procuramos estar “despidos”, mas sim “revestidos”. Despido é outro termo que usa para descrever a alma e o espírito do crente no estado de morte desencarnado (intermediário). Não ansiamos por isso porque a morte não é nossa esperança. A postura Cristã apropriada é esperar o Senhor vir e nos transformar em seres glorificados. Estamos esperando Cristo para “vivificar” nossos “corpos mortais”, não para ressuscitar nossos corpos mortos (Rm 8:11). Daí vem o gracejo frequentemente usado: “Estamos esperando pelo Agente celestial, não por um agente funerário”.

Vs. 4-5 – Neste ínterim, enquanto esperamos que o “mortal” seja “absorvido pela vida”, Deus nos deu “o penhor do Espírito”. Isso se refere ao Espírito de Deus habitando em nossos corpos como uma promessa de que Deus vai completar o que Ele já começou. O processo de transformação começou em nossas almas e espíritos (cap. 3:18), mas naquele dia nossos corpos também serão transformados. O Espírito de Deus habita em nós, não apenas para nos dar a garantia de alcançarmos o estado glorificado, mas também para nos dar um gozo presente das coisas futuras. Assim, Ele nos dá uma amostra das coisas celestiais em que iremos viver por toda a eternidade, enquanto ainda estamos aqui na Terra.

Vs. 6-8 – Esse entendimento proporcionou a Paulo estar “sempre de bom ânimo” em servir ao Senhor. A KJV diz: “Em casa no corpo, mas deveria ser traduzido como “presente no corpo”. Viver em nossos corpos mortais em seu estado atual não é lar para o crente; como já mencionado, é um estado temporário. Somos estrangeiros e peregrinos neste mundo, e nossos corpos são apenas um tabernáculo (tenda); ainda não estamos em casa. Nem a Escritura chama de lar o estado intermediário de almas e espíritos desencarnados com Cristo. Costumamos dizer: “Fulano de tal foi para casa para estar com o Senhor”. Entendemos o que quer dizer, mas a Escritura não chama este estado de casa bem aventurada. Lar, para o crente, é o estado final quando ele estiver glorificado. Aqueles no estado desencarnado estão esperando por aquele dia, como nós estamos – mas eles estão em uma “sala de espera” mais brilhante, por assim dizer. Quando o Senhor vier, todos nós iremos juntos para a casa do Pai (Jo 14:2-3).

Em um pequeno parêntese (v. 7), Paulo diz: “Porque andamos por fé, e não por vista”. Isso significa simplesmente que ele estava vivendo para as coisas eternas agora. É necessário primeiro ver as coisas eternas pela fé (cap. 4:18) antes que se possa andar nelas pela fé.

Embora “partir e estar com Cristo” (Fp 1:23) por meio da morte não seja a esperança do Cristão, é uma opção. Se Deus escolhe isso para nós, deveríamos “desejar antes deixar este corpo”, pois então iríamos “habitar com o Senhor” no estado desencarnado. E sabemos que isso é “muito melhor” do que estar agora em nossos corpos mortais (Fp 1:23).

V. 9 – O efeito prático de tudo isso é que Paulo trabalhou (esforçou-se) para ser aceitável ou agradável para Ele que o chamou para o serviço. Novamente, a KJV traduz “aceitos por Ele”. Isto não é muito correto, porque as Escrituras dizem que somos “aceitos no Amado” (Ef 1:6 – KJV). Não labutamos para ser aceitos porque já fomos aceitos. A interpretação correta deveria ser “agradável [ou aceitável] a Ele”. Seu ponto é que ele trabalhou para ser agradável ou prazeroso ao Senhor, e a condição vindoura de glória o motivou para esse fim. Isso age como uma transição adequada para o próximo ponto de Paulo sobre o tribunal de Cristo.

Nesta passagem, Paulo falou de três condições do crente e uma condição dos incrédulos. A primeira é nossa vida atual na Terra em nossos corpos mortais – “presentes no corpo”. O segundo é o estado desencarnado, quando a alma e o espírito partem para estar com Cristo – “despidos”. A terceira é a consumação de nossa salvação quando nossos corpos serão glorificados na vinda do Senhor (o Arrebatamento) – “vestidos”. O primeiro estado é bom (se for vivido em comunhão com Deus), o segundo é melhor, mas o terceiro é o melhor. A quarta condição que ele menciona (“nu”) pertence puramente ao incrédulo.

Um resumo desses termos é o seguinte:

  • “Presente no corpo” – vida vivida na Terra em nossa condição atual.
  • “Despido” – a alma e o espírito do crente desencarnado no estado intermediário de felicidade.
  • “Vestido” – o crente glorificado em um estado inteiramente novo.
  • “Nu” – uma pessoa perdida eternamente sem cobertura para o pecado.

Assim, a antecipação da condição vindoura de glória guardada no céu para todos os redimidos compeliu Paulo a viver para as coisas eternas enquanto esteve aqui neste mundo. Isso fará o mesmo em todo Cristão de mente sensata. O fato de não estarmos neste mundo para ficar e de não podermos guardar as coisas temporais que vemos ao nosso redor, deveria nos motivar a viver para as coisas eternas. O processo de decadência nesses corpos mortais já começou, e deveria nos lembrar de que não vamos ficar aqui para sempre – especialmente quando as dores e mágoas aumentam com a idade. Nós não temos muito tempo para viver neste mundo e deveríamos orar, como Moisés fez: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Sl 90:12). Sabedoria deveria nos dirigir a vivermos para as coisas eternas agora.

2) O Tribunal de Cristo nos Comanda a Usar Nossas Vidas para as Coisas Eternas 

Vs. 10-13 – Isso leva Paulo a falar do “tribunal de Cristo”, que foi outra grande coisa que o motivou a servir ao Senhor. Ele disse: Todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo”. Essa é uma referência à sua mais ampla aplicação. “Todos” neste versículo refere-se à toda a humanidade – que inclui incrédulos. Ele diz: “Ou bem, ou mal”. Os crentes receberão o “bem” em forma de recompensas e os incrédulos receberão o “mal”, sendo banidos da presença de Deus para o lago de fogo. Os crentes virão perante o tribunal imediatamente após serem arrebatados para o céu, mas os incrédulos que morrerem em seus pecados serão julgados mais de 1.000 anos após, depois do Milênio (Ap 20:11-15).

Para o crente, é a hora em que o Senhor vai rever nossas vidas e nos recompensar pelo que fizemos por Ele. O lado solene desta sessão é a possibilidade de sofrermos a perda da nossa recompensa, se tivermos vivido nossas vidas apenas para as coisas temporais (1 Co 3:15). Essa ideia impeliu Paulo ao serviço zeloso para o Senhor. Deveria ter o mesmo efeito em nós.

Assim como existem dois tipos de juízes na sociedade, o Senhor julgará toda a humanidade em um ou outro desses dois modos. Primeiramente, há um magistrado legal que é investido de autoridade nos tribunais da Terra. Ele tem poder para julgar um criminoso e condená-lo à prisão. O Senhor tratará com os incrédulos desta forma triste e solene (Ap 20:11-15). O crente nunca enfrentará esse tipo de julgamento porque seu caso foi resolvido quando ele recebeu o Senhor Jesus como seu Salvador e descansou na fé em Sua obra consumada na cruz. O Senhor disse: “quem ouve a Minha palavra, e crê naquele que Me enviou, tem a vida eterna, e não entrará em condenação [julgamento – JND] (Jo 5:24). Por isso, o crente tem confiança “no dia do juízo [julgamento – JND] (1 Jo 4:17).

Em segundo lugar, há um juiz (um árbitro) em uma exposição – ou seja, uma mostra de arte. Esse tipo de juiz tem conhecimento em um determinado campo de especialidade para decidir os méritos dos objetos diante dele. Ele está na exposição para avaliar a qualidade e mão de obra das peças em exibição. Da mesma forma, o Senhor irá rever a vida do crente no caráter deste juiz, avaliando as coisas em nossas vidas que foram feitas para Ele e nos recompensando de acordo. O caráter de toda a sessão para os crentes será: revisão, recompensa e consequente regozijo.

É significativo que cada vez que o tribunal de Cristo é mencionado no Novo Testamento, ele é visto de um ponto de vista diferente. Quando os colocamos todos juntos, aprendemos que o Senhor examinará todos os aspectos de nossas vidas. As várias áreas de revisão são:

  • Nossos caminhos em geral (2 Co 5:9-10).
  • Nossas palavras (Mt 12:36).
  • Nossas obras de serviço (1 Co 3:12-15).
  • Nossos pensamentos e motivos (1 Co 4:3-5).
  • Nossos exercícios pessoais quanto às questões de consciência (Rm 14:10-12).

Uma pergunta que muitos Cristãos têm em relação ao tribunal de Cristo é: “Por que temos de passar por isso? É realmente necessário que o crente seja julgado dessa maneira?” A resposta é: “sim”, pois o Senhor não fará algo que não seja necessário. Há duas razões principais para esta sessão: uma tem relação futura e a outra tem relação presente.

a) Aumentará o Louvor Eterno a Deus 

Primeiro, quanto à influência futura do tribunal, é que resultará em um aumento do louvor a Deus no céu. Todos os crentes concordam que o Senhor merece o mais completo louvor de toda pessoa redimida; o resultado imediato do tribunal de revisão fará exatamente isso. Existem três maneiras pelas quais isso será realizado:

I) O Senhor magnificará a graça de Deus perante os nossos olhos, pelo que o nosso apreço por ela será significativamente aprofundado e, assim, produzirá um maior volume de louvor de nossos corações. O Senhor reverá nossas vidas e veremos nossos pecados à luz da infinita santidade de Deus. Coisas que podemos pensar que não são tão seriamente graves agora, veremos então como pecado de fato. Conhecemos nossos pecados agora como sendo uma pilha repugnante – e certamente não estamos orgulhosos dela – mas naquele dia Ele nos mostrará que eles eram uma montanha! Tudo então será visto em sua verdadeira luz, e aprenderemos sobre a verdadeira maldade de nossas naturezas pecaminosas caídas.

Uma vez que diz: “que tiver feito por meio do corpo” – e estávamos todos em nossos corpos antes de sermos salvos – essa manifestação será de toda a nossa vida, não apenas de depois que fomos salvos. Se Ele não revisse certos episódios de fracasso e vergonha em nossas vidas, haveria alguma reserva de nossa parte, e Deus não quer isso – e nós também não iríamos querer. A brilhante eternidade diante de nós seria obscurecida em parte pela sensação de que um dia eles poderiam ser trazidos à luz. Portanto, o caminho de Deus é que tudo seja tomado e colocado fora do caminho para sempre. (Temos cinco ou seis expositores respeitados que afirmam que esta manifestação não será um assunto público perante todos os santos no céu, mas algo privado com o Senhor.)

Então, depois de nos mostrar os nossos pecados à luz da Sua santidade, nós vamos ver a graça de Deus elevar-se acima de todos eles, colocando-os todos na justa base da obra consumada de Cristo. Vamos entender a verdade de Romanos 5:20 de um modo mais profundo: “onde o pecado abundou, superabundou a graça”. O resultado será um romper alto e eterno de louvor da companhia redimida. O volume de louvor será muitas vezes maior do que se não tivéssemos passado por esse processo de revisão.

II) O Senhor revelará a sabedoria de Seus caminhos conosco na Terra. Isso também aumentará o volume do louvor. Todos nós tivemos algumas coisas difíceis e desconcertantes acontecendo em nossas vidas, e muitas vezes nos perguntamos por que o Senhor permitiu isso. A revisão no tribunal justificará Deus em Seus caminhos conosco. O Senhor nos levará por meio de nossas vidas, passo a passo, e nos mostrará que Ele não cometeu nenhum erro no que Ele nos permitiu passar. Naquele dia, Ele responderá a todas as perguntas difíceis que temos sobre nossas vidas, e Ele nos mostrará que havia um propósito divino de amor por trás de tudo e um “sendo necessário” para tudo (1 Pedro 1:6). No tribunal, o Senhor nos mostrará que não derramamos uma lágrima despercebida. Aprenderemos que cada grama de sofrimento e tristeza pela qual passamos foi pesada em Suas divinas balanças no mais terno amor, antes de ser colocado sobre nós. Ele nos mostrará que isso foi usado para nos conformar à Sua própria imagem (Rm 8:28-29). E diremos: “O caminho de Deus é perfeito” (Sl 18:30). Como resultado, nós O louvaremos de uma maneira muito maior e mais significativa do que jamais faríamos, se não tivéssemos tido a experiência do tribunal.

III) O Senhor nos concederá recompensas por aquilo que fizemos por causa do Seu nome. Ele usará a ocasião do tribunal para determinar nossas recompensas no reino. Quando recebermos uma recompensa pela menor coisa que fizemos por Ele – até mesmo algo tão insignificante como dar água em Seu nome (Mt 10:42) – seremos surpreendidos por isso e O louvaremos muito mais. Naquele dia, Ele encontrará algo para recompensar todo crente. “então cada um receberá de Deus o louvor” (1 Co 4:5). Ele encontrará coisas feitas para Si que há muito esquecemos, e ficaremos maravilhados que Ele nos dará uma recompensa por isso.

Feitos grandiosos que nos tornou convencidos,
Ele mostrará que eram apenas pecado.
Atos de bondade, há muito esquecidos,
Eram para Ele, é o que será mostrado.

É ainda mais difícil acreditar que, quando chegarmos lá, Ele nos louvará! “então cada um receberá de Deus o louvor”. Podemos ter pensado que iríamos ao céu para louvá-Lo – o que certamente é verdade – mas quando chegarmos lá Ele também nos louvará! Isso é surpreendente. Não será no senso comum de adoração, é claro, mas Ele dirá a cada um de nós: “Bem está, servo bom e fiel” (Mt 25:21). Nós seremos maravilhosamente humilhados pela Sua graça e bondade, e o grande resultado será que nós encheremos os céus com o Seu louvor porque Ele é digno.

b) Nos Motiva a Viver para Cristo 

O outro propósito para o tribunal de Cristo é nos motivar a viver para Cristo agora. Este é o contexto no qual Paulo estava escrevendo neste quinto capítulo. Deus pretende que esse evento futuro tenha um efeito presente em nós. Quando percebemos que tudo o que fazemos para o Senhor vai ter uma recompensa no dia futuro, e que podemos perder nossa recompensa se vivermos para nós mesmos agora, isso deve nos motivar a começar a ajuntar tesouros no céu para aquele dia (Mt 6:20-21).

Já foi dito que não devemos fazer as coisas apenas para obter uma recompensa; tudo deve ser feito com o desejo de agradar ao Senhor. Isso é verdade; nosso maior motivo para as coisas que fazemos deve ser puramente porque amamos o Senhor e queremos agradá-Lo. No entanto, o Sr. Kohler costumava dizer: “Quero pegar todas as coroas que conseguir, porque naquele dia terei mais para lançar a Seus pés!” (Ap 4:10).

V. 11 – A realidade da revisão diante do tribunal de Cristo num futuro próximo produziu um duplo efeito que estava presente em Paulo e seus cooperadores. Deveria fazer o mesmo efeito em nós. Em primeiro lugar, eles foram motivados pelo “temor que se deve ao Senhor”. O pensamento do “temor” de Deus contra o pecado fez com que pensassem nos incrédulos e em sua sorte ante o tribunal. Isso os levou a usar toda a sua energia para “persuadir os homens” a fugir da ira vindoura. Assim, Paulo se lançou na obra do Senhor. Nota: ele era fervoroso em seu serviço, não para obter uma recompensa, mas sim por preocupação com aqueles que viviam sem referência à eternidade. Em segundo lugar, o pensamento do tribunal o levou a viver agora como “manifesto a Deus” e nas “consciências” dos santos. Em outras palavras, ele queria ser transparente diante de Deus e dos homens em relação a seus motivos no serviço. Ele desejou que todos vissem que seus motivos eram puros.

  • Quanto ao mundo – Paulo procurou “persuadir os homens”.
  • Quanto a ele – Paulo andava conscientemente sob os olhos do Senhor que tudo vê, como “manifesto a Deus”.
  • Quanto aos santos – Paulo procurou andar de um modo que “recomendasse” a si mesmo às suas consciências.

Sabendo que logo seremos “manifestos” diante do tribunal de Cristo, devemos estimular um exercício presente em nós para usar nossa energia no serviço do Senhor, e para viver aberta e honestamente diante de Deus e dos homens.

Vs. 12-13 – Percebendo que o que ele acabara de dizer poderia ser mal entendido como sendo um autoelogio, Paulo esclarece suas declarações dizendo que não estava tentando “recomendar-se” a si mesmo. Ele estava, antes, deixando os santos conhecerem a sinceridade piedosa de sua vida e ministério, de modo que eles teriam “algo para responder” (KJV) àqueles que o atacavam com seus relatos caluniosos.

O zelo que impulsionou Paulo a servir ao Senhor com toda a sua energia levou seus críticos a rotulá-lo como um fanático que estava “fora” (JND) de si mesmo. Sua pregação e ensino apaixonados foram interpretados como sendo de um homem que era mentalmente instável e, portanto, não confiável.

Paulo responde a essa insinuação dizendo que se sua devoção ao Senhor se parecia assim, em ambos os casos (quer estivesse em êxtase ou sóbrio) era porque seus motivos eram totalmente não egoístas. Ele amava a Deus e se importava profundamente com os santos de Deus.

3) O Amor de Cristo nos Constrange a Vivermos para Ele que Morreu por Nós e Novamente Ressuscitou 

Vs. 14-21 – Isso leva Paulo a falar de uma terceira grande força motivadora em sua vida e ministério. Ele foi movido pelo “amor de Cristo”. Que grandioso poder é esse! Sua vida de devoção a um serviço incansável pode ter parecido insanidade para seus críticos, mas foi realmente resultado do poder constrangedor do amor de Cristo.

Paulo não estava falando de seu amor por Cristo, mas sim do amor de Cristo por ele. O poder desse amor o havia capturado de tal maneira que alterou completamente o curso de sua vida. Não é a glória de Cristo à destra de Deus que está diante de nós aqui (como no capítulo 3:18), mas “o amor de Cristo” que O levou a morrer. Ele morreu não apenas para tirar nossos pecados, mas também para transformar todo o propósito de nossa existência neste mundo. Ao dizer: “julgando nós assim: que, se Um morreu por todos, logo todos morreram”, Paulo estava afirmando que, uma vez que Cristo teve de morrer por toda a humanidade, é uma prova de que toda a raça estava em uma condição de morte espiritual – todos eram apenas homens mortos diante de Deus (Ef 2:1, 5). Não obstante Ele “morreu por todos”; o efeito de Sua morte foi alterar o curso da vida daqueles que creem.

V. 15 – Aqueles que foram vivificados do estado da morte espiritual (mencionados no versículo 14) devem encontrar no Cristo ressuscitado o Objetivo e o Fim da nova vida que eles agora vivem. Antes da conversão, tudo na vida de um homem gira em torno de seus próprios interesses, mas quando Cristo é seu Salvador e Senhor, há um motivo inteiramente novo para viver em sua vida. O objetivo e propósito de sua vida são os interesses de Cristo. Este foi o caso de Paulo e daqueles que trabalharam com ele, e este deveria ser o caso de todo Cristão de coração sincero. O poderoso amor de Cristo o constrangeu a não viver para si mesmo, mas para aqu’Ele que morreu e ressuscitou. Vemos a partir disso que realmente existem apenas duas maneiras nas quais os Cristãos podem viver: “para si mesmos” ou “para Ele”. Não podemos fazer nada sobre o modo como vivemos nossas vidas Cristãs no passado. Se foi para nós mesmos, o que foi feito não pode ser mudado, mas todos nós temos um “daqui por diante”. Há o “tempo que vos resta” (1 Pe 4:2); a grande questão para nós é o que faremos com esse tempo. As escolhas que fazemos em nossas vidas daqui em diante refletirão onde estão nossas afeições.

Por isso, nesses capítulos, tivemos:

  • A transformação do nosso caráter moral (cap. 3:18).
  • A transformação de nossos corpos (cap. 5:1-4).
  • A transformação do nosso propósito em viver (cap. 5:14-15).

Vs. 16-17 – Paulo mostra que a vida que ele agora vivia estava em uma esfera inteiramente nova. Quando o Senhor ressuscitou dos mortos, Ele deixou para trás a esfera que pertencia à existência natural da carne e Se tornou a Cabeça de uma raça de uma “nova criação” de homens (Cl 1:18; Ap 3:14). Como crentes, somos parte dessa nova raça, e nossos vínculos uns com os outros nessa nova esfera não estão mais nas linhas das relações e interesses naturais. Paulo diz: “daqui por diante a ninguém conhecemos segundo a carne”. Isso não significa que não tenhamos mais relacionamentos e interesses naturais, mas que, nas coisas espirituais (comunhão e ministério Cristãos), nossas ligações uns com os outros são em linhas espirituais. Assim, nossa comunhão na nova criação não é baseada em nós tendo interesses similares naturais em recreação, artes e música, relações familiares, diferenças nacionais, etc.

Além disso, como Cristãos, nosso relacionamento com o Senhor não está nas linhas terrenas – como Ele foi para Israel como seu Messias. Paulo diz: “e, ainda que também tenhamos conhecido Cristo segundo a carne, contudo agora já O não conhecemos deste modo”. Como Cabeça de uma raça de nova criação, conhecemos o Senhor de uma maneira nova e diferente. O Senhor indicou isso a Maria quando Ele ressuscitou dos mortos, dizendo: “Não Me detenhas, porque ainda não subi para Meu Pai” (Jo 20:17). A relação que Maria e os outros discípulos tinham com o Senhor antes de Sua morte (como o Messias de Israel) agora já não era mais. Havia uma nova relação de criação prestes a ser estabelecida para os crentes com Ele em conexão com Sua ressurreição e ascensão. Paulo traz este fato aqui porque os falsos apóstolos que estavam circulando entre os coríntios estavam ministrando em linhas judaicas com uma esperança judaica segundo a velha ordem das coisas.

Problemas surgiram no testemunho Cristão porque os Cristãos não entenderam que eles são uma nova criação em Cristo. Eles criaram igrejas onde as relações entre eles são baseadas em “coisas velhas” e interesses naturais. O resultado tem sido a formação de partidos e facções dentro da Igreja de Deus que são puramente alinhadas com nossos gostos e desgostos naturais.

Em Efésios 2, Paulo afirma que fomos “criados em Cristo Jesus” (Ef 2:10). Paulo aqui o amplia dizendo, “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é [criação] – tudo da velha ordem “passou” e “eis que tudo se fez novo”. Isso não significa que quando uma pessoa é salva, ela não tenha mais uma natureza caída pecaminosa, as luxúrias e velhos hábitos que a acompanham. Muitos novos convertidos erroneamente pensaram que isso aconteceria quando eles fossem salvos, e se desiludiram quando descobriram que ainda têm aqueles desejos pecaminosos. Mas isso não é o que Paulo está descrevendo aqui. Ele está falando da nova posição e esfera na qual o crente está agora; o estado moral e a prática do crente são outra coisa completamente diferente. O equívoco vem do confundir posição Cristã e prática Cristã.

Vs. 18-21 – Por isso, Paulo diz: “E tudo isto provém de Deus” – isto é, todas as coisas na nova criação têm sua origem no próprio Deus. Os crentes hoje estão esperando pela plenitude da nova criação. Nossas almas e espíritos estão na nova criação, mas nossos corpos esperam ser trazidos a ela na vinda do Senhor (o Arrebatamento). Paulo falou dessa notável mudança em nossos corpos no início deste capítulo, e faz novamente em 1 Coríntios 15:51-57 e Filipenses 3:20-21.

O Cristianismo deve ser conhecido por todos os homens pelas vidas transformadas dos crentes (cap. 3:18), e pela proclamação das grandes verdades do evangelho (cap. 5:18-21). Por isso, ao reconciliar os homens a Ele mesmo, Deus nos deu “o ministério da reconciliação”. Quando Cristo esteve aqui na Terra, Deus operou por meio d’Ele com o objetivo de “reconciliar Consigo o mundo” (João 5:17). Naquele momento, Ele não estava “lhes imputando os seus pecados [ofensas]porque Cristo não veio “para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele” (Jo 3:17). Mas desde que Cristo voltou para o céu, Deus “confiou a palavra da reconciliação” (ARA) aos crentes. As pessoas redimidas são as únicas que podem levar corretamente a mensagem da reconciliação ao mundo porque experimentaram pessoalmente a graça de Deus. Esse privilégio não foi confiado aos anjos eleitos porque eles nunca conheceram a graça de Deus dessa maneira. Essas coisas eram tão prementes a Paulo que ele tinha pressa em sua pregação aos outros.

Como “embaixadores da parte de Cristo”, Deus usou Paulo e os que estavam com ele para pregar a mensagem: “que vos reconcilieis a Deus” (KJV). O versículo 20 nos dá:

  • Os mensageiros – “Somos embaixadores”.
  • Os meios“como se Deus por nós rogasse”.
  • A mensagem“sejamos reconciliados a Deus” – (JND)

Na tradução Almeida o pronome “vos” (mencionado duas vezes) foi colocado no texto erroneamente, como se Paulo estivesse rogando aos coríntios que se reconciliassem a Deus, o que é sem sentido, porque eles, como crentes, já estavam reconciliados a Deus. O versículo deveria simplesmente dizer: “Deus rogou por nós, rogamos-vos por Cristo, sejamos reconciliados a Deus” – (JND). Paulo e seus cooperadores eram apenas instrumentos (canais) que Deus usou no chamado aos pecadores para Si mesmo.

V. 21 – O apóstolo explica então a base sobre a qual Deus reconcilia pecadores Consigo mesmo; é um resultado de Seu próprio ato realizado na morte de Cristo. Deus tinha o Senhor Jesus para ficar no lugar do crente por meio do qual foi “feito pecado por nós”. Ele foi tratado como o próprio pecado sob o julgamento de Deus. Como isto poderia ser possível, desafia toda explicação lógica, e assim é melhor deixar como a Escritura o coloca. O que sabemos é que na cruz Ele Se tornou a grande oferta pelo pecado [Is 53:10 – “uma oferta pelo pecado” (ATB); Rm. 8:3] que satisfez as exigências da justiça divina e, portanto, é o meio pelo qual Deus poderia revelar-Se em bênção para o homem. O resultado para o crente é “que n’Ele fôssemos feitos justiça de Deus”. Esse versículo tem uma dupla antítese: o inocente sendo feito pecado, e os injustos sendo feitos justos em Cristo.

Olhando para este terceiro fator motivador na vida e ministério de Paulo, podemos ver que o “amor de Cristo” o havia capturado de tal forma que alterou o curso de sua vida de maneira plena. Isso o constrangeu a viver pela causa de Cristo – e pode fazer o mesmo conosco. Podemos não ver a evidência do poder constrangedor do amor de Cristo na vida de todos os crentes, como vemos em Paulo, mas isto não é porque o Seu amor carece de poder para movê-los; é porque não vivem perto d’Ele o suficiente para sentir Seu efeito constrangedor. Um enorme imã com bastante poder de atração não irá pegar o menor objeto de ferro se o objeto estiver muito longe do imã. Se andarmos perto do Senhor, sentiremos o poder impressionante de Seu grandioso amor e isso nos constrangerá como aconteceu com o apóstolo Paulo. Isso nos levará a desistir de nossas próprias ambições e a tomar um curso de abnegação, que resultará no compromisso com a causa de Cristo neste mundo.

Um Resumo das Três Grandes Coisas que Motivaram Paulo no Serviço 

  • A certeza da maravilhosa condição de glória que está guardada no céu compeliu Paulo a servir ao Senhor em vista daquelas coisas eternas (cap. 5:1-9).
  • A realidade do tribunal de Cristo o comandou a usar seu tempo com sabedoria no serviço do Senhor (cap. 5:10-13).
  • O poder do amor de Cristo o constrangeu a não viver para si mesmo, mas para aqu’Ele que morreu por ele e ressuscitou, e assim rogar aos homens que se reconciliem a Deus (cap. 5:14-21).
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