Origem: Revista O Cristão – Esperança

Esperança Adiada

O assunto da esperança ocupa um grande lugar no Novo Testamento, e especialmente no Livro de Romanos, onde ocorre treze vezes na versão Almeida Corrigida e doze vezes na versão Almeida Atualizada. Nesta epístola, somos vistos como redimidos e tornados aptos à presença do Senhor, mas ainda como homens na Terra, operando o nosso caminho em meio a dificuldades, mas com a esperança da bênção eterna no final do caminho. É importante ver que a palavra “esperança” na Escritura não carrega nenhum grau de incerteza quanto ao cumprimento daquilo que se espera; a única incerteza é quanto ao momento de realização da esperança. Isso é diferente do significado geral da palavra na linguagem cotidiana, onde a esperança geralmente indica incerteza em todos os aspectos sobre um evento futuro.

A questão de nossa salvação eterna é abordada nos primeiros capítulos de Romanos, e o assunto é resumido no capítulo 5, onde lemos: “Tendo sido, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo; Pelo Qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes, e nos gloriamos” (Rm 5:1‑2).

Nesta verdade, o crente pode descansar, pois ele foi justificado pela fé, tem paz com Deus sobre a questão de seus pecados e pode se alegrar “na esperança da glória de Deus”. Quase nenhum crente devidamente instruído duvidaria da força dessas palavras e da certeza delas. A obra de Cristo está completa; estamos diante de Deus em graça e não tememos juízo por nossos pecados. Como alguém observou: “É relativamente fácil para o crente deixar com Deus a questão de sua eterna salvação e destino, pois percebemos que isso está inteiramente em Suas mãos”. De fato, nos alegramos na esperança diante de nós.

No entanto, ainda não estamos em casa, mas temos uma esperança diante de nós e, como lemos em Romanos 8:25, “Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o esperamos”. A espera em paciência está ligada à nossa fé, pois é na proporção da força de nossa fé que a nossa esperança é sustentada. (Vale ressaltar que a palavra “fé” também é proeminente no Livro de Romanos, ocorrendo não menos de quarenta vezes na versão Almeida Corrigida). Se nossa fé é forte e estamos totalmente convencidos da verdade do que Deus disse, então nossa esperança também será forte e, de fato, esperaremos com paciência a realização dela. No entanto, ainda somos homens e mulheres na Terra, e as provações e tristezas do caminho podem ocasionalmente ameaçar sobrecarregar nossa fé e esperança.

Esperanças conectadas a esta vida 

Para todo crente, pode haver certas esperanças que estão relacionadas a esta vida – certos sonhos e ambições que gostaríamos de realizar aqui. Essas esperanças podem assumir muitas formas e, é claro, são mais fortemente sentidas quando somos jovens. Pode ser uma esperança que até uma pessoa terrenal possa ter, como sucesso financeiro, posses, fama ou poder. Tais expectativas ainda podem estar presentes no coração do crente. No entanto, pode ser uma esperança relacionada às coisas da vida cotidiana – coisas que não estão erradas em si mesmas. Talvez exista uma carreira em particular que gostaríamos de seguir, ou pode ser uma esperança por um parceiro de casamento e talvez uma família que possa, com o tempo, nos cercar. Pode ser uma esperança relacionada a coisas espirituais, talvez por uma casa, que gostaríamos de usar para o Senhor. Em outros casos, pode haver um desejo de servir ao Senhor de uma maneira específica ou de ver um grupo de crentes indo bem em um determinado lugar. Todas essas coisas podem, em vários momentos, tomar conta de nosso coração e gerar um desejo ardente por sua realização.

Quando o tempo passa e nossa esperança não é cumprida, nossa fé é provada. Embora não possamos ceder ao desespero que muitas vezes domina o homem do mundo, é fácil entrar em desânimo. Lemos em Provérbios 13:12: “A esperança adiada desfalece o coração” e vemos muitas pessoas no mundo hoje que estão abatidas dessa maneira. É triste dizer que não são poucos os crentes, cujas esperanças nesta vida não amadureceram e cujas ambições parecem ter sido arremessadas ao chão. Não apenas desânimo, mas também amargura pode surgir, e talvez até um sentimento (embora talvez não dito) de que “o caminho do Senhor não é igual” (Ez 18:25 – TB).

Qual é a resposta? 

Antes de tudo, devemos perceber que, como crentes nesta dispensação da graça de Deus, não nos é prometido nada neste mundo. As bênçãos de Israel eram terrenais, mas todas as nossas bênçãos são celestiais e, embora Deus, em Sua bondade para conosco, possa nos dar misericórdia pelo caminho, devemos entender que essas são de fato misericórdias, não bênçãos. Nos últimos 150 anos, o Senhor tem dado muito em termos de misericórdia temporal a algumas partes do mundo, particularmente à Europa Ocidental e à América do Norte. O resultado foi que muitos crentes que vivem nessas áreas hoje em dia tendem a considerar essas coisas normais e adequadas para elas, considerando-as parte das bênçãos de Deus. O Senhor Jesus poderia dizer aos discípulos: “No mundo tereis aflições” (Jo 16:33), e em Sua oração a Seu Pai, Ele poderia dizer: (Eles) não são do mundo, assim como Eu não sou do mundo” (Jo 17:14). O crente pode olhar para traz, para a cruz do Calvário, e descansar Sua fé na obra de Cristo; ele também pode olhar para frente, para a glória, e descansar sua esperança no que Deus prometeu. Mas a ele não foi prometido nada entre a cruz e a glória, exceto o privilégio de seguir um Cristo rejeitado e ter Seu gozo cumprido neles.

Quando essa verdade agarra firmemente a alma, somos libertados das ansiedades e frustrações que muitas vezes tendem a nos dominar. Não devemos desejar coisas como poder, dinheiro e fama, pois “as nações do mundo buscam todas essas coisas” (Lc 12:30). No entanto, não é errado ter certas esperanças ligadas à vida aqui embaixo. O crente está morto para o mundo e morto para o pecado, mas nunca se diz que ele está morto para a natureza. Tais esperanças como uma carreira, um parceiro de casamento adequado, uma família ou um lar não estão fora do caráter do Cristianismo. Da mesma forma, na esfera espiritual, é bastante necessário ter uma esperança de servir ao Senhor de uma maneira específica, ser usado como um instrumento de bênção para o povo de Deus e ver os santos de Deus indo bem e em harmonia juntos. No entanto, em todas essas coisas, devemos permitir que o Senhor molde nossas circunstâncias, primeiro para Sua glória e depois para nossa bênção final. Qualquer objeto, qualquer esperança, que esteja aquém do próprio Cristo, mesmo algo de bom em si mesmo, não é digno do crente.

Deus Se deleita em nossa felicidade 

Ao dizer tudo isso, não queremos dar a impressão de que o Senhor pretende que levemos vidas solitárias e de sacrifícios físicos. Não, Ele Se deleita em nossa felicidade e nos disse no Salmo 37:4: “Deleita-te também no Senhor, e te concederá os desejos do teu coração”. Esses desejos certamente incluem as alegrias naturais que Ele graciosamente nos proporcionou. Mas devemos permitir que Ele faça essa escolha por nós e não insistir em nossa própria programação.

Nossas próprias esperanças e ambições podem ser muito boas em si mesmas, mas os propósitos do Senhor para nós nos levam a um plano superior, onde vivemos e nos movemos à luz da eternidade, não apenas para a vida aqui em baixo. Enquanto Deus deseja nossa felicidade, devemos lembrar que a felicidade é um estado de alma, não uma questão de circunstâncias. É no caminho de Sua vontade que não apenas O honraremos, mas também seremos extremamente felizes. Mais do que isso, estaremos construindo para a eternidade, não para o tempo.

Isso é verdade mesmo em coisas espirituais, onde as esperanças não realizadas podem ser particularmente difíceis de serem realizadas. Sem dúvida, Paulo sentiu isso profundamente quando teve que dizer, no final de uma vida extenuante e fiel: “Os que estão na Ásia todos se apartaram de mim” (2 Tm 1:15). No entanto, não há um indício de desânimo em toda a epístola, apesar do declínio geral que estava tomando toda a profissão do Cristianismo. A fé de Paulo permaneceu forte, e ele poderia dizer: “eu sei em Quem tenho crido” (2 Tm 1:12). Nos anos mais recentes, quando um irmão mais novo foi ocupado com problemas entre os santos e se perguntou em voz alta: “O que será de nós?” um irmão mais velho respondeu sabiamente: “A Escritura não conhece futuro algum para o crente senão a glória.”

Ter acalentado esperanças de que podemos alegremente nos submeter à vontade do Senhor para conosco é o caminho da alegria e da bênção, pois nossa vontade não está ativa, mas antes dizemos, como o Senhor Jesus disse: “Não se faça a Minha vontade, mas a Tua” (Lc 22:42).

W. J. Prost

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