Origem: Revista O Cristão – Esperança
O Prisioneiro da Esperança
Existem dois princípios principais na alma do Cristão, que fazem de Deus o Objeto especial. Estes são “fé e esperança”. Há uma marcante distinção, e ainda uma conexão íntima, entre esses dois princípios. A fé toma aquilo que Deus deu; a esperança espera aquilo que Ele prometeu. A fé repousa em santa tranquilidade nas declarações de Deus acerca do passado; a esperança avança em ativos anseios quanto ao futuro. A fé é uma receptora; a esperança é uma expectante. Agora, descobriremos que, proporcionalmente ao vigor da fé, será o vigor da esperança. Se não estiver “certíssimo de que o que Ele tinha prometido também era poderoso para o fazer”, pouco saberemos sobre o poder ou energia da esperança. Se a fé estiver vacilando, a esperança estará instável. Se a fé é forte, a esperança também será forte, pois a fé confere força e intensidade à expectativa. O patriarca Abraão foi um feliz exemplo disso tudo; sua “fé e esperança” estavam verdadeiramente “em Deus”. As circunstâncias não acrescentaram nada a ele. Foi-lhe prometida toda a terra de Canaã, onde não tinha nem ainda o espaço de um pé: Foi-lhe prometida uma semente como as estrelas do céu ou como a areia à beira-mar, quando ainda não tinha filhos. Tudo dentro do alcance da visão mortal argumentava contra ele, mas a promessa do “Deus Todo-Poderoso” era suficiente para o homem de fé. “O Deus da glória” o chamou da cidade sem fundamentos do homem para a cidade bem fundada de Deus.
A fortaleza
Mas Zacarias 9:12 nos diz: “Voltai à fortaleza, ó presos de esperança; também hoje vos anuncio que vos restaurarei em dobro”. Este versículo apresenta o crente como o receptor da graça e o expectante da glória; como alguém alojado em segurança em uma “fortaleza”, mas ainda como “preso de esperança”; como alguém que desfruta de perfeita paz, mas também vive na esperança de coisas melhores. Vamos olhar mais de perto para esses dois pontos.
Há apenas uma coisa que pode tornar a alma feliz em olhar para o futuro, e é o conhecimento do amor redentor de Deus em dar o Seu Filho para ser o sacrifício perfeito pelo pecado. O pecador deve chegar ao outro lado da cruz antes que ele possa olhar feliz ou pacificamente para frente; só podemos estudar profecia com uma consciência purificada. É quando conhecemos, por meio do Espírito, o valor dos sofrimentos de Cristo que podemos contemplar com alegria a glória que virá a seguir. Aquela graça que traz a salvação deve primeiro ser recebida antes que “a bendita esperança” possa ser desfrutada.
O evangelista e o mestre
Tudo isso nos leva a ver a distinção entre a obra do evangelista e a do mestre. O evangelista deve transmitir uma mensagem simples a respeito de uma obra consumada, a qual obra precisa ser a base da paz do pecador culpado. Ele tem o privilégio de permanecer no meio de um mundo em ruínas e oferecer salvação a todos que crerem na Palavra acerca da cruz. É importante que os evangelistas entendam claramente a natureza e os limites de sua obra e os termos de sua comissão. Às vezes acontece que os pregadores do evangelho estragam sua obra, ao invadir a província do mestre. Eles acham que devem pressionar a atenção das pessoas nos frutos que resultam da recepção do evangelho, mas isso é, falando propriamente, a obra do mestre, que tem a ver apenas com os que já passaram pelas mãos do evangelista. O mestre não tem mais a ver com os pecadores do que o evangelista tem a ver com os santos. Certamente, às vezes podemos ver o dom de um evangelista e um mestre desenvolvido na mesma pessoa. Onde eles são assim combinados, é necessário muito cuidado para não confundi-los em seus exercícios.
O mestre não deve apenas insistir com o crente sobre suas responsabilidades; ele também deveria instruí-lo quanto à natureza de sua esperança e expor-lhe o livro da profecia, segundo a sabedoria do Espírito Santo. O evangelista tem que falar do que Deus fez; o mestre, daquilo que Ele fará. O primeiro apela para a ação da fé; o último, para a ação da esperança. O primeiro aponta para a fortaleza; o último fala ao preso da esperança. Se essas coisas forem confundidas, o efeito será muito prejudicial. O inimigo das almas pode muitas vezes causar muito dano, levando os não regenerados a exercitar seu intelecto sobre o assunto da profecia. O diabo tentará suprimir ou corromper a verdade de Deus. Por séculos, ele conseguiu manter a Igreja de Deus afastada da preciosa doutrina da vinda do Senhor. Agora que a atenção foi despertada para o assunto, ele está maliciosamente tentando anulá-la, fazendo com que lábios profanos a proclamem e a ensinem, ou fazendo com que os Cristãos discordem acerca dela.
O lugar do Cristão
O remédio para esses males perigosos é o simples entendimento do lugar do Cristão, como um preso da esperança. O Espírito de Deus tem falado do destino da Igreja com o objetivo de confortar o preso, dando-lhe uma esperança bem fundamentada. O crente, descansando no sangue de Cristo, tem o privilégio de aguardar a “manhã sem nuvens”, enquanto já sabe que ele é aceito no Amado. Assim, o crente é um preso da esperança. Sua fé repousa na cruz; sua esperança se alimenta das ricas pastagens do registro profético de Deus. Seu espírito viaja por um curso em que a cruz é o ponto de partida e a glória é o objetivo.
Os dois pontos são inseparáveis. Somente quando achamos doce olhar para trás é que também achamos doce olhar para frente. Devemos ver nossos nomes no livro da vida antes que possamos entender nosso título de alegrias eternas. Para a alma não regenerada, o futuro é indescritivelmente terrível, pois a profecia transmite uma mensagem dupla. Fala de juízo para o homem que ainda está em seus pecados, e fala de vida eterna para o homem que creu no Filho de Deus. Portanto, para o primeiro, fala de naufrágio completo; para o último, a gloriosa consumação de todas as suas esperanças.
À espera da adoção
Todo prisioneiro anseia pelo dia da libertação. As paredes de sua prisão não atraem sua atenção; ao contrário, ele geme e suspira por libertação. Assim deve sempre ser conosco. “Gememos em nós mesmos, esperando a adoção, a saber, a redenção do nosso corpo”. “Porque, na verdade, nós” diz o apóstolo, “os que estamos neste tabernáculo, gememos oprimidos, porque não queremos ser despidos, mas sim revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida”. Aqui está a linguagem apropriada de um preso da esperança. Sem dúvida, sentimos a aflição e a provação de nossa posição atual; sim, “gememos oprimidos”. No entanto, o despojamento do tabernáculo terrenal não remediaria perfeitamente o caso. Estar despido quanto ao nosso espírito não nos faria perfeitamente felizes. Alguns Cristãos erram em seus pensamentos sobre esse assunto, pensando que, no momento em que o espírito escapa de sua prisão, ele entra em perfeita bem-aventurança. Mas nada além de estar revestido com sua habitação que é do céu, pode preencher a medida da alegria do crente. Até então, que ele esteja aprisionado na sepultura ou em um corpo de pecado e de morte, a morte e a mortalidade ainda prevalecem, no que diz respeito ao corpo. Quando ele aparece em suas vestes de ressurreição, de glória e formosura, então a morte terá sido tragada na vitória e a mortalidade terá sido absorvida pela vida. Falar de perfeita bem-aventurança enquanto o espírito está despido e o corpo misturado ao pó, é uma contradição.
Com Cristo, que é muito melhor
Creio que existem apenas quatro lugares no Novo Testamento onde se fala do estado do espírito não revestido, e nenhum deles fornece uma descrição completa desse estado. Ao contrastá-lo com nossa atual condição dolorosa e penosa, o apóstolo diz: “É muito melhor”. Sim, na verdade, “é muito melhor” ficar longe de uma cena de conflitos e turbulências, mas isso não constitui o ápice da bem-aventurança. Quão diferente o Espírito Santo fala do estado de ressurreição! As glórias relacionadas a ele constituirão a própria consumação da alegria e bem-aventurança do crente; até então, ele é apenas um preso de esperança. Os patriarcas, os profetas, os apóstolos, o nobre exército de mártires – todos os nossos amados irmãos que vieram antes de nós – sim, e o próprio Mestre – todos aguardam a manhã da ressurreição. Todo membro disperso do rebanho de Cristo deve ser reunido no rebanho celestial antes que as festividades do reino possam começar.
Assim, vemos a grande importância de sermos corretamente instruídos quanto à natureza de nossa esperança. Quando sabemos o que estamos esperando, somos capazes de dar uma resposta, pois a vida de um homem é sempre influenciada por suas verdadeiras esperanças. Se um homem é herdeiro de uma propriedade, sua vida é influenciada pela esperança de herdá-la. Se conhecêssemos mais do poder do Espírito como “o penhor da nossa herança”, em vez de discutirmos acerca do momento ou da maneira da chegada do nosso Mestre, nós, como “presos da esperança”, estaríamos ansiosamente olhando para fora da janela de nossa prisão e dizendo: “Ora vem, Senhor Jesus!”
