Origem: Revista O Cristão – A Família da Fé

Caráter da Família

Aprendemos na Escritura que a família de Sem se tornou muito corrupta nos dias de Terá, a sexta ou sétima geração de Sem; eles estavam servindo deuses falsos. Mas o poder do Espírito e o chamado do Deus da glória foram ouvidos pelo coração de Abrão, filho de Terá, e o separaram dessa corrupção.

Também sabemos que uma influência piedosa se estendeu disso para outros membros da família. Terá, o pai, Sara, a esposa, e Ló, o sobrinho, se juntam a Abrão nisso, e todos eles deixam a terra da Mesopotâmia juntos. O irmão de Abrão, Naor, não entrou nessa influência. Ele e sua esposa continuam na Mesopotâmia e prosperam lá. Os filhos nascem para eles; seus bens e propriedades aumentam. Eles buscam uma vida fácil e respeitável, mas não crescem no conhecimento de Deus e não dão testemunho, ou apenas um testemunho indistinto.

O caráter da família de Naor foi assim formado. Eles não estavam em trevas e corrupção grosseiras, como os descendentes de Cam em Canaã, entre os quais Abrão agora tinha ido peregrinar. Eles tinham uma medida de luz derivada de sua conexão com Terá e Abrão, e como descendentes de Sem. No entanto, tudo isso foi tristemente obscurecido pelos princípios do mundo que haviam cultivado dos quais eles se recusaram a se separar, e um caráter de família foi formado.

A energia revigorante do Espírito 

Betuel foi um dos filhos de Naor, e o mais destacado. Ele floresceu no mundo e teve um filho chamado Labão, que evidentemente sabia como administrar bem seus negócios. Ele parece ter conhecido o valor do dinheiro, pois a visão de ouro podia abrir sua boca com uma recepção muito calorosa e religiosa, até mesmo a um estranho (Gênesis 24). Aqui chegamos a um período significativo na história dessa família.

Uma nova energia do Espírito está prestes a visitar esta família. Eles foram trazidos a uma certa medida de luz. Agora, nos convém seriamente notar a natureza dessa visitação do Espírito, pois será encontrado um poder ou uma visitação que separa. Assim como o chamado do Deus de glória havia perturbado o estado das coisas na casa de Terá, então agora a missão de Eliezer perturbava o estado das coisas na casa de Betuel. Abrão havia sido separado de casa e parentes, e assim Rebeca também deve ser agora. Isso deixa a séria impressão de que uma família respeitável e professante talvez precise ser visitada pela mesma energia do Espírito como uma família mais mundana ou idólatra precise. O ministério de Eliezer, servo de Deus, assim como o de Abrão, veio à casa de Betuel para tirar Rebeca dela e conduzi-la naquela mesma jornada que, duas gerações antes, o chamado do Deus de glória levara Abrão. Uma família professante e decente pode ter que ser despertada e um novo ato de separação produzido no meio dela.

Caráter e mentalidade 

Mas há outra lição nesta história à qual eu chamaria sua atenção. Rebeca aparece à chamada do servo de Abrão, mas um caráter já havia sido formado previamente, como acontece com todos nós, mais ou menos, antes de sermos convertidos. Podemos ouvir o chamado e o poder de separação do Senhor, mas o caráter e a mente derivados da natureza, da educação ou dos hábitos familiares que levamos conosco depois que nascemos do Espírito, e eles podem nos seguir da Mesopotâmia até a casa de Abrão.

Eu preciso apenas falar brevemente do que aconteceu; A história de Rebeca revela, de maneira triste, o que podemos chamar de caráter familiar. Labão, seu irmão com quem ela havia crescido, era um homem astuto, sagaz e mundano, e a única grande ação na qual Rebeca foi chamada a participar, dá ocasião a ela exercitar os mesmos princípios. Na obtenção da bênção para seu filho Jacó, vemos esse fermento de Labão trabalhando poderosamente. Sua mente estava muito pouco acostumada a repousar na suficiência de Deus e muito viciada em calcular e depositar suas esperanças em suas próprias invenções.

Nós também devemos vigiar contra a tendência peculiar de nossa própria mente e repreender severamente a natureza, para que sejamos sãos ou moralmente sadios na fé (Tt 1:13). Não devemos desculpar essa tendência de nossa natureza, mas, sim, mortificá-la por causa d’Ele, que nos deu outra natureza.

Essas lições aprendemos da história dessa distinta mulher. Além disso, seu caminho não é muito rastreado pelo Espírito. Ela colhe nada além de decepção com a semente que plantou. Ela perde seu filho favorito, Jacó, e nunca mais o vê depois que seus próprios planos e artifícios terminaram em seu longo exílio.

O caráter de Jacó 

Mas tem mais; Jacó teve sua mente formada pela mesma influência antiga. Ele foi todos os dias um homem de coração lento e calculista. Seu plano em obter a primogenitura primeiro e depois a bênção, sua confiança em seus próprios arranjos, e não na promessa do Senhor, quando conheceu seu irmão Esaú, e sua permanência em Siquém e seu estabelecimento ali em vez de seguir a vida de um peregrino na terra como a seus pais – tudo isso revela a natureza e a operação do velho caráter da família. Quão importante é observar as primeiras sementes semeadas no coração!

O nascimento de Esaú e Jacó nos é dado no final de Gênesis 25 e, à medida que crescem, surge uma ocasião para observarmos a cena da família, que é realmente humilhante. Essa era uma das famílias de Deus na Terra naquela época – a mais distinta, na qual estavam as esperanças de todas as bênçãos para toda a Terra e onde o Senhor havia registrado Seu nome. Mas o que vemos? Isaque, o pai, havia afundado na corrente de desejos humanos; ele amava seu filho Esaú, porque comia sua carne de caça! Esaú, como filho da família, tinha o direito ao cuidado e provisão da casa, mas que Isaque o fizesse seu favorito porque ele comia sua carne de caça era, de fato, algo triste. Acaso não vemos aqui mais uma ilustração do nosso assunto? Isaque foi criado com ternura. Ele nunca esteve longe de sua mãe; ele era filho de sua velhice. Sua educação talvez o tenha feito brando demais, e ele aparece diante de nós como um homem brando e dado à complacência própria.

Que triste mal se abre diante de nossos olhos nesta cena familiar! Estaremos dizendo demais ao afirmar que um dos pais estava alimentando a natureza em um dos filhos, e o outro dos pais no outro filho? O amor de Isaque pela carne da caça pode ter encorajado Esaú na perseguição, pois a esperteza de Rebeca, trazida da casa de seu irmão em Padã-Arã, parece ter formado a mente e o caráter de seu filho favorito, Jacó. Que tristeza e causa de humilhação vemos aqui! Esta é uma família de fé? Esta é uma família temente a Deus? Sim, Isaque, Rebeca e Jacó são filhos da promessa e herdeiros do Seu reino, mas deram precedência a seus próprios desejos ao invés de agir com fé e obediência às promessas de Deus.

As consequências 

Em outro momento e em outras ações, essa família nos deleita e nos edifica. Veja Isaque na maior parte do capítulo 26; sua conduta é totalmente digna de um estrangeiro celestial na Terra. Ele sofre e suporta pacientemente, e seu altar e sua tenda testemunham seu caráter santo e não terrenal. O mesmo acontece com Rebeca no capítulo 24; em fé, ela consente em atravessar o deserto sozinha com um estranho, porque seu coração estava colocado no herdeiro das promessas. Mas aqui no capítulo 27, que vergonha enche a cena, e ficamos corados e confusos ao ver que herdeiros da promessa e filhos de Deus pudessem se comportar assim!

Mas resta-nos ver a graça assumindo o seu elevado e triunfante lugar e posição. Isaque perde o seu intento quanto a Esaú, Rebeca tem que se separar de Jacó, e o próprio Jacó, em vez de obter o direito de primogenitura e a bênção à sua maneira, tem que sair como um exilado, sem um centavo, do lugar de sua herança. O único salário do pecado é a morte, mas a graça toma seu lugar elevado e resplandece através da ardente santidade de Jeová.

Jacó, filho e herdeiro, tem que se deitar sozinho, sem cuidados algum, sem abrigos, tendo as pedras do lugar como seu único travesseiro. Mas a graça está preparando um descanso glorioso para ele; ele ouve a voz do maravilhoso amor e lhes são mostrados mundos de luz neste lugar de solidão e trevas. Ele se vê a si mesmo, apesar de tão errante, tão pobre e tão vil, assim associado a uma glória que tudo premeia, cheia de misericórdias e consolações presentes. A santidade da graça ainda o deixa errante, mas as riquezas da graça lhe dirão o consolo presente e as futuras glórias seguras.

Existe então algo como o caráter familiar, e a lembrança disso, quando estamos tratando com nós mesmos, deve nos deixar vigilantes e zelosos de todos os nossos hábitos e tendências peculiares. Quando estamos tratando com outras pessoas, isso deve nos tornar atenciosos e com um espírito intercedente, lembrando que existe uma força de hábitos e educação antigos operando mais ou menos em todos nós. Mas não devemos esquecer que, se um certo caráter familiar se apega a nós ou hábitos com os quais o nascimento nos conectou, também devemos desenvolver o caráter com o qual nosso nascimento e educação na família celestial nos conectaram desde então.

J. G. Bellett (adaptado)

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