Origem: Revista O Cristão – A Família da Fé
A Família como um Círculo de Graça
“Depois, disse o SENHOR a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca, porque te hei visto justo diante de Mim nesta geração” (Gn 7:1 – ARC). “Envia homens a Jope, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:13-14). “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31).
Sempre existe uma tendência em nosso coração de limitar a graça de Deus. Portanto, há uma necessidade contínua de examinar os ensinamentos da Escritura, com o simples desejo de ser encontrado em completa sujeição à Palavra de Deus. Por exemplo, existem muitos santos amados que negligenciaram o significado e a força das palavras que o apóstolo usou em resposta ao carcereiro: “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31). A necessidade de fé individual é vista e a promessa conectada de salvação individual, mas para todos os propósitos práticos a promessa adicional é muitas vezes esquecida. Da mesma maneira, quando a pergunta é feita: “O que devo fazer para ser salvo?” a resposta é quase universalmente dada como: “Crê no Senhor Jesus Cristo, e serás salvo”, omitindo as palavras “e tua casa”. É assim tanto na pregação quanto na escrita; consequentemente, há um estreitamento não intencional do círculo da graça de Deus.
Propomos, então, traçar o ensino bíblico sobre esse assunto – em conexão da família com o crente – e acho que veremos que o princípio se aplica tanto às dispensações passadas quanto à presente.
Noé
Vamos nos voltar, antes de tudo, para Gênesis 7:1: “Depois disse o Senhor a Noé: Entra tu e toda a tua casa na arca”. Esta passagem é extremamente importante, porque está redigida de tal modo que nenhuma dúvida pode ser levantada quanto ao seu significado expresso. A base sobre a qual o Senhor ordena que Noé entre na arca com os de sua casa é “porque te hei visto justo diante de Mim nesta geração” (ARC). E se alguém levantasse objeção afirmando que provavelmente todos os membros da família também eram “justos” diante de Deus, a história posterior de um deles – Cam (Gn 9:22‑25) – não permite tal pensamento. A força da afirmação, portanto, não pode de forma alguma ser diminuída, de que a família de Noé foi livrada do juízo do dilúvio por causa da fé de seu chefe. Assim, toda a família foi trazida, na graça de Deus, para fora do juízo e colocada na nova Terra por causa da fé de Noé. Não apenas isso, mas o círculo da graça de Deus ainda foi ampliado, pois descobrimos que as esposas dos filhos também foram incluídas nos propósitos misericordiosos de Deus, constituindo assim as oito pessoas das quais o apóstolo Pedro fala como tendo sido “salvas por intermédio da água” (1 Pe 3:20 – JND).
Abraão
Passamos agora para outro exemplo registrado em Gênesis 12: “Assim, partiu Abrão, como o SENHOR lhe tinha dito… e tomou Abrão a Sarai, sua mulher, e a Ló, filho de seu irmão, e todos os bens que haviam adquirido, e as almas que lhe acresceram em Harã; e saíram para irem à terra de Canaã; e chegaram à terra de Canaã” (Gn 12:4-5). Desejamos ressaltar o fato de que a casa de Abrão foi trazida consigo da Caldéia e de Harã para Canaã, e isso foi feito com o mesmo princípio que no caso de Noé, sendo a casa ligada a Deus por meio de seu cabeça.
Ló
Tomamos, em seguida, o caso notável de Ló, e é o mais impressionante porque ele se recusou a seguir o caminho da fé, abandonou o caráter de um peregrino e se tornou um cidadão de Sodoma. A longanimidade de Deus estava agora para transformar-se em justo juízo, porque o pecado das “cidades da campina” era muito grave. Novamente, descobrimos que o mesmo princípio se aplica: não foi apenas Ló, mas também sua família que foi poupada, ou teve a oportunidade de ser poupada, naquele dia de juízo de destruição. “Então disseram aqueles homens a Ló: Tens alguém mais aqui? Teu genro, e teus filhos, e tuas filhas, e todos quantos tens nesta cidade, tira-os fora deste lugar; Porque nós vamos destruir este lugar, porque o seu clamor tem aumentado diante da face do Senhor, e o Senhor nos enviou a destruí-lo” (Gn 19:12‑13). Deve-se sempre lembrar que Ló, apesar de sua posição de aflição, era um “homem justo” (2 Pe 2:8), e, portanto, vemos, como nos outros casos, que Deus vinculou a família de Seu servo a ele mesmo, de modo que Sua misericórdia e graça se estenderam e abraçaram todos os que estavam conectados com o “homem justo”, oferecendo a eles salvação do juízo que estava prestes a cair naquela cena condenada, embora seus genros na incredulidade optassem por permanecer na cidade sob julgamento, em vez de escapar para salvar a própria vida.
Cornélio
Todos esses exemplos foram retirados do Velho Testamento. Voltemos agora à dispensação da graça. Vamos olhar primeiro para Atos 11. O apóstolo Pedro esteve com Cornélio, viu o Espírito Santo ser derramado sobre os gentios e, em virtude da comissão que lhe fora confiada, os admitiu na Igreja de Deus na Terra. Mas quando ele voltou a Jerusalém, “disputavam com ele os que eram da circuncisão, dizendo: Entraste em casa de homens incircuncisos, e comeste com eles” (At 11:2‑3). Em resposta a esta queixa, Pedro relatou todas as circunstâncias que o haviam levado àquela visita. Além disso, ele lhes disse como Cornélio havia sido instruído por um anjo a enviá-lo com estas palavras: “Envia homens a Jope, e manda chamar a Simão, que tem por sobrenome Pedro, o qual te dirá palavras com que te salves, tu e toda a tua casa” (At 11:4-14; compare 2:38-39).
O carcereiro
Aqui, então, logo no início do Cristianismo, reaparece a conexão da casa com seu cabeça e, passando para o capítulo 16, encontramos exatamente a mesma coisa declarada pelo apóstolo Paulo em resposta ao carcereiro. “Crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16:31). Assim, temos o princípio que, como vimos, se aplica a todas as dispensações passadas, declaradas na presente pelos dois principais representantes do Cristianismo. Devemos ter muito cuidado, no entanto, para não ir além da intenção divina e, portanto, devemos agora procurar verificar o significado da conexão.
Fé individual
Em primeiro lugar, portanto, observe com muita clareza que não significa que a fé do chefe de família assegura a salvação de seus membros. Nenhuma verdade é mais evidente nas Escrituras do que não pode haver salvação à parte da fé individual. Os exemplos de Cam, Esaú, dos filhos de Eli e de Samuel e Absalão são avisos solenes de que a fé dos pais não pode salvar seu filho. Que não haja equívocos ou erros nesse ponto, pois o erro aqui seria do tipo mais fatal.
Lugar dos privilégios e responsabilidade
Mas, em segundo lugar, embora não se trate de salvação individual, a casa do crente tem, aos olhos de Deus, um lugar especial de privilégio sobre a Terra. Os filhos estão ligados aos pais que creem e, portanto, são vistos como em conexão exterior com o povo de Deus – como separados para Ele na Terra e na esfera da ação imediata do Espírito Santo. Essa é, como julgamos, a força da Escritura em 1 Coríntios 7:14: “mas, agora, (os filhos de pais crentes) são santos”. Santidade significa separação para Deus e, como neste caso não pode ser a santidade intrínseca (nem a santidade que o crente tem em Cristo), ela só pode significar separação exterior; isto é, eles são, por assim dizer, desligados do mundo e ligados àquilo que leva o nome de Cristo sobre a Terra e que é a morada de Deus em Espírito.
Portanto, em Efésios e Colossenses, a casa dos crentes – esposas, maridos, filhos, pais, servos e mestres – são incluídas nas exortações dadas, sendo cada classe abordada separadamente. E nesse fato reside o fundamento da responsabilidade do crente de governar sua casa para o Senhor. Se, portanto, admiramos, por um lado, a abundante graça de nosso Deus ao estender-se e abraçar nossa casa, não devemos esquecer, por outro lado, as responsabilidades que daí decorrem, pois privilégio e responsabilidade estão sempre juntos. Que o Senhor capacite a cada um de nós a aprender suas respectivas responsabilidades em Sua própria presença e nos conceda graça para cumpri-las de tal modo que o Seu nome seja glorificado em nós e em cada membro de nossa casa!
