Origem: Revista O Cristão – Indo ao Lar

Os Anos Dourados

O exemplo de Barzilai, de oitenta anos, nos dá indicações de como ter anos dourados felizes e frutíferos. A maneira como ele cuidou do rei Davi quando este fugiu de Jerusalém é um belo exemplo de alguém que se aproxima da hora de partir deste mundo e, ainda assim, permanece fielmente atento aos cuidados terrenais de outros. Aqueles que conhecem o Senhor Jesus como Salvador podem aguardar Seu retorno iminente para levar todos os crentes vivos para casa sem passar pela morte, enquanto enfrentam o desafio de como terminar bem a corrida, à medida que nossa mente, corpo e alma se desgastam. “Porque também nós, os que estamos neste tabernáculo, gememos carregados; não porque queremos ser despidos, mas revestidos, para que o mortal seja absorvido pela vida. Ora, Quem para isto mesmo nos preparou foi Deus, o Qual nos deu também o penhor do Espírito. Por isso estamos sempre de bom ânimo, sabendo que, enquanto estamos no corpo, vivemos ausentes do Senhor (porque andamos por fé, e não por vista). Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor. Pois que muito desejamos também ser-Lhe agradáveis, quer presentes, quer ausentes” (2 Co 5:4-9).

Bondade para com Davi 

Três pessoas especiais trouxeram provisões e mostraram bondade a Davi quando ele fugiu de Jerusalém na revolta de Absalão (2 Sm 17:27-29), mas dos três, somente Barzilai é mencionado como seguindo com os cuidados de Davi e sua família até que voltassem ao Jordão, a caminho de Jerusalém. “E era Barzilai muito velho, da idade de oitenta anos; e ele tinha sustentado o rei, quando tinha a sua morada em Maanaim, porque era grande homem” (2 Sm 19:32). Que comovente é vê-lo seguindo até o fim, embora ele fosse um homem muito idoso. Sendo velho, ele sabia muito bem o quanto era difícil para Davi ser privado de suas necessidades diárias; assim, percorreu todo o caminho de Rogelim até o Jordão, juntamente com o rei. Em resposta a essa gentileza, Davi desejou que Barzilai fosse a Jerusalém para estar com ele e que ele pudesse alimentá-lo lá. Sem dúvida, uma afinidade se formou entre eles durante esse período, mas Barzilai percebeu que estava velho demais para aceitar a oferta.

A bondade de Davi 

Como Barzilai pôde recusar graciosamente o convite de Davi para estar com ele? Barzilai propõe enviar Quimã, que provavelmente era seu filho; ele seria enviado para ocupar seu lugar como servo para estar com Davi. Juntamente com essa sugestão, Barzilai acrescenta estas palavras: “faze-lhe o que bem parecer aos teus olhos”. A isto, Davi respondeu dizendo: “Quimã passará comigo, e eu lhe farei como bem parecer aos teus olhos”. Eles confiavam completamente um no outro e, no que diz respeito a fazer o bem um ao outro, cada um considerava o outro melhor que si mesmo. É um exemplo notável de servir um ao outro em amor. No decurso desta conversa, Davi fala por último; suas palavras foram: “tudo quanto me pedires te farei”. Parece refletir o pensamento de que, nesta vida, ele sempre estaria em dívida com Barzilai. Gostaria de pensar que o Filho de Davi, o Senhor Jesus, compensará isso e dará a Barzilai um lugar perto de Si no reino vindouro.

Três desvantagens da velhice 

Notemos pela conversa deles os motivos que Barzilai dá por não poder ir com o rei, pois isso mostra como ele lidou com as limitações que ele tinha devido à sua idade. “Porém Barzilai disse ao rei: Quantos serão os dias dos anos da minha vida, para que suba com o rei a Jerusalém? Da idade de oitenta anos sou eu hoje; poderia eu discernir entre o bom e o mau? Poderia o teu servo ter gosto no que comer e beber? Poderia eu mais ouvir a voz dos cantores e cantoras? E por que será o teu servo ainda pesado ao rei meu senhor?” (2 Sm 19:34‑35) Como a mulher importante de Suném, ele estava contente com a provisão do Senhor e não desejava melhores condições vindas do rei. Sim, “é grande ganho a piedade com contentamento” (1 Tm 6:6). Admiramo-nos de quão prestativo ele era em ajudar a casa do rei com provisões, enquanto ao mesmo tempo pronto, por sua parte, para deixar essas misericórdias para trás. Ao dizer: “Quantos serão os dias dos anos da minha vida”, ele não demonstrou desejo de prolongar sua vida; ele parecia pronto para deixar essas coisas para trás. Ele é muito parecido com Paulo, que sabia muito mais sobre como era a vida futura e que, diante da questão de ficar ou partir, disse: “mas, se viver na carne é a minha porção, isto é para mim digno de ser buscado; e o que hei de escolher, não posso dizer. Mas estou pressionado por ambos, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, pois é muito melhor, mas permanecer na carne é mais necessário por causa de vós” (Fp 1:22-24 JND).

A perda de discernimento 

As razões que Barzilai deu por se recusar a ir com David têm a ver com as limitações de sua mente, corpo e alma. Ele disse a Davi: “poderia eu discernir entre bom e mau?” Isso tem a ver com a mente; ele já não tinha bom discernimento. Se ele fosse com Davi, ele teria que fazer novas escolhas que seriam difíceis para ele. Salomão escreveu sobre esta dificuldade relativa à velhice em Eclesiastes 12:5: “quando… o gafanhoto for um peso, e perecer o apetite; porque o homem se vai à sua casa eterna”. À medida que envelhecemos, pequenas coisas se tornam um desafio e é difícil discernir o que é bom e o que não é; quando a mente falha, nos tornamos dependentes dos outros. Não seria bom para Barzilai ir com Davi.

Como crentes no Senhor Jesus, também podemos enfrentar um estado de alerta mental em declínio, mas temos razões para não desanimar, pois “ainda que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória mui excelente; não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (2 Co 4:16-18).

Alimento para o corpo 

Barzilai continua com um segundo motivo: “Poderia o teu servo ter gosto no que comer e beber?” Seu corpo não era mais capaz de apreciar boa comida e bebida, e, no entanto, ele havia sido tão diligente em fornecer essas coisas para Davi e sua família em suas necessidades. Sua própria incapacidade de desfrutar de tais coisas não o impediu de fornecer o mesmo para aqueles que eram capazes de desfrutá-lo. Um servo idoso do Senhor escreveu o seguinte a respeito do serviço enquanto esperava que o Senhor o levasse para casa:

“Quando temos assentado em nosso coração que estamos indo para casa, temos que esperar aqui até que Ele chame. Ele pode nos manter em serviço e não nos levar a descansar. (…) Nós somos d’Ele e não de nós mesmos, e é um privilégio servir, embora seja melhor partir. Acho uma coisa boa pensar em partir, e sentir que minha vida depende d’Ele – não simplesmente da idade.”

Canção para a alma 

A terceira incapacidade de que Barzilai falou envolveu sua alma – o prazer de cantar. “Poderia eu mais ouvir a voz dos cantores e cantoras? E por que será o teu servo ainda pesado ao rei meu senhor?” Provavelmente, isso se refere não apenas à sua incapacidade de gostar de cantar para o bem de sua própria alma, mas também à sua capacidade reduzida de expressar sua alegria de maneira adequada diante do rei, pois acrescentou que não queria ser um fardo ao rei, seu senhor. Que exemplo comovente de alguém sacrificando sua alma pelo bem de seu senhor!

Vemos essa mesma atitude abnegada em Paulo quando ele disse: “Retendo a palavra da vida, para que no dia de Cristo possa gloriar-me de não ter corrido nem trabalhado em vão. E, ainda que seja oferecido por libação sobre o sacrifício e serviço da vossa fé, folgo e me regozijo com todos vós. E vós também regozijai-vos e alegrai-vos comigo por isto mesmo” (Fp 2:16-18). E mais adiante, no mesmo livro, Paulo nos lembra que nosso corpo será transformado, para que nossa mente e alma possam desfrutar a vida com Ele no céu. “Esperamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo. Que transformará o nosso corpo abatido, para ser conforme o Seu corpo glorioso, segundo o Seu eficaz poder de sujeitar também a Si todas as coisas” (Fp 3:20‑21).

Os “anos da velhice” 

Vivemos perto do tempo em que o Senhor recolherá sua colheita de trigo para o céu (Mt 13:30). O cumprimento de Sua promessa está próximo: “Virei outra vez, e vos levarei para Mim mesmo, para que onde Eu estiver estejais vós também” (Jo 14:3). A colheita do trigo é diferente da colheita da videira e dos figos, na medida em que o trigo amadurece, fica dourado e a planta morre. As figueiras e as vinhas não morrem quando dão frutos, e assim será no tempo das bênçãos milenares na Terra; os homens viverão muito tempo dando frutos. Deus nos escolheu para a bênção celestial, e como o trigo morre quando dá frutos, então Cristo morreu, o grão de trigo ressuscitou e subiu ao céu, abrindo-o para nós como nosso lar. Que olhemos para cima “Porque o mesmo Senhor descerá do céu com alarido, e com voz de arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Ts 4:16-17). O tempo da colheita está próximo; que haja muito fruto para o Senhor. “Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2 Pe 1:11).

Barzilai enfrentou os problemas na velhice da maneira correta, de modo a transformar seus “anos da velhice” em “anos dourados”. Façamos o mesmo (pois enfrentamos experiências semelhantes), para que, quando as coisas temporais faltarem, “possamos ser recebidos nos tabernáculos eternos” (Lc 16:9 – JND). “Como o foram todos os nossos pais; como a sombra são os nossos dias sobre a terra, e não há permanência” (1 Cr 29:15 – AIBB). “A duração da nossa vida é de setenta anos; e se alguns, pela sua robustez, chegam a oitenta anos, a medida deles é canseira e enfado; pois passa rapidamente, e nós voamos Ensina-nos a contar os nossos dias de tal maneira que alcancemos corações sábios” (Sl 90:10, 12).

D. C. Buchanan

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