Origem: Revista O Cristão – Indo ao Lar

Calebe

O que impediu Calebe e Josué de serem desgastados pela provação do deserto, que havia desgastado toda a sua geração? Deixe o próprio Calebe responder: “meus irmãos, que subiram comigo, fizeram derreter o coração do povo; eu porém perseverei em seguir ao SENHOR meu Deus e agora eis que hoje tenho já oitenta e cinco anos; E ainda hoje estou tão forte como no dia em que Moisés me enviou; qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar Porventura o SENHOR será comigo, para os expulsar, como o SENHOR disse” (Js 14:8, 10-12).

Calebe reconheceu que aquela terra que o Senhor deu aos filhos de Israel era aprazível, e que seu coração estava colocado nela. Ele podia discernir a diferença entre aquela terra e o Egito; seu tesouro estava na terra, e ali estava seu coração. Por causa das dificuldades do caminho, outros consideravam o Egito preferível ao deserto, mas Calebe considerava Canaã, com toda a dificuldade de entrar nela, como muito mais preciosa que o Egito com a facilidade presente, mas também com a escravidão presente. Ele provou o fruto de Canaã; foi isso que o fez pisar no deserto com passos tão elásticos. Além disso, ele tinha a segura palavra da promessa do Senhor de apoiá-lo. Ele sabia o assegurado final que suas peregrinações, em companhia de outros, deveriam conduzir.

O objeto do desejo 

Para nós, Deus deu o penhor do Espírito em nosso coração. Este foi o conforto, força e estabelecimento dos apóstolos, bem como dos Cristãos comuns. O próprio Cristo, a Quem o Espírito sempre presta testemunho, é, portanto, não apenas o Objeto da fé, mas também o Objeto do desejo. É como Objeto de desejo que Ele é conhecido agora, pelo penhor do Espírito. Se o Espírito de Deus nos mostra as coisas que nos são dadas gratuitamente por Deus, Ele não as mostra como no futuro distante, mas sendo Ele mesmo o penhor da herança. Ele agora glorifica Jesus, tomando Suas coisas e mostrando-as para nós e mostrando-as como nossas agora n’Ele, para que possamos provar e lidar com nossas próprias bênçãos.

Graça e poder 

“Mas meus irmãos, que subiram comigo, fizeram derreter o coração do povo; eu porém perseverei em seguir ao SENHOR meu Deus”. Não é presunção responder ao testemunho de Deus para nossa própria alma. A alma de Calebe descansou inteiramente na graça e no poder de Deus que os havia feito triunfar no Mar Vermelho; somente a mesma graça e poder poderiam levá-los à posse da terra. Mas o mesmo princípio de seguir plenamente o Senhor, o qual o levou a encorajar o povo a subir e possuir a terra, o impediria de subir sem o Senhor, depois que Ele dissera: “tornai-vos amanhã e caminhai para o deserto pelo caminho do Mar Vermelho”. Onde o Senhor estava, havia tanto graça como poder; e Calebe teve que aprender essa graça e poder por quarenta anos no deserto, antes de ser colocado de fato na própria parte da terra em que pisara.

O Espírito de Deus 

O Espírito de Deus é apresentado a nós em contraste direto com o espírito do mundo. O espírito do mundo é de inquietação e atividade, mas o Espírito que é de Deus é exatamente o oposto. O Espírito Santo produz no santo o espírito de uma mente sã. Ele conduz a alma ao passado e ao futuro. Ele firma a alma, levando-a a repousar sobre a obra já realizada de Cristo na cruz e, a partir daí, anima a alma, conduzindo-a à perspectiva gloriosa que lhe foi apresentada. Se Calebe precisou ter seu coração ocupado com Canaã para animar seu espírito no deserto, precisamos não apenas do penhor do Espírito para o mesmo propósito, mas também para nos manter longe do poder sedutor do espírito do mundo. Como o penhor, Ele leva a alma a desejar ver Cristo como Ele é e a ser como Ele, e assim também lidera o caminho de seguir plenamente o Senhor. Estar sempre com o Senhor é a bênção em perspectiva, mas tê-Lo sempre conosco agora é o consequente penhor.

“Qual era a minha força então, tal é agora a minha força, tanto para a guerra como para sair e entrar”. Ele havia agido com essa força quando espiou a terra e estava pronto, no auge da sua maturidade, a subir e possuí-la; agora, aos oitenta e cinco anos, ele encontra a mesma força. Se enfrentarmos a menor dificuldade sem considerar esse poder, seremos frustrados, mas se o maior obstáculo se apresentar, prevaleceremos por meio da fé no Senhor. A forma característica de poder agora é a perseverança. O espírito do mundo é o da impaciência e o desejo de agarrar alguma suposta bênção presente, mas o Espírito de Deus, sendo Ele mesmo o penhor da herança segura, torna-Se especialmente o Espírito de poder em nos capacitar a esperar pacientemente pelo que já é nosso. É assim que, embora “que o nosso homem exterior se corrompa, o interior, contudo, se renova de dia em dia” (2 Co 4:16). O Espírito Santo mantém os olhos olhando para realidades invisíveis, tornando-as, por assim dizer, mais palpáveis dia a dia.

“De força em força” 

É realmente abençoado ver um discípulo idoso em quem os anseios da mente por novidade já passaram. Talvez ele tenha passado pela provação do fascínio mundano, tenha achado seu progresso bastante irregular de fato, decepção sucedendo decepção, desejo após desejo desaparecendo, tudo, porém, levando a uma única coisa: fazê-lo conhecer o valor de um único e bendito Objeto, o próprio Jesus. João diz: “eu vos escrevi, pais, porque já conhecestes Aquele que é desde o princípio” (1 Jo 2:14). Que força consciente há em ter um único Objeto assim, embora isso dificilmente seja alguma vez alcançado na prática, exceto por um processo de desaprendizagem. Mas esse único Objeto é o único Objeto que o Espírito de verdade tem testemunhado continuamente em nossa alma como o grande fim e centro dos conselhos eternos de Deus. Esta é a força da velhice. No conflito incessante, quando a vivacidade das forças naturais cessa, a guerra é levada adiante numa percepção mais profunda do poder que opera em nós. A fé vive quando as faculdades naturais estão debilitadas. A alma do discípulo idoso é fiel a Jesus, onde os poderes da memória e do reconhecimento falham. Aquele que tem “carregado desde o ventre” (AIBB) e “levado desde a madre” diz: “até à velhice Eu serei o mesmo, e ainda até às cãs Eu vos carregarei; Eu vos fiz, e Eu vos levarei, e Eu vos trarei, e vos livrarei” (Is 46:3-4). Pela presença do Espírito Santo, o Pai e o Filho habitam agora na alma do crente; pela presença do Espírito Santo, os crentes podem dizer: “A nossa cidade está nos céus”. E assim “Os que estão plantados na casa do SENHOR florescerão nos átrios do nosso Deus. Na velhice ainda darão frutos; serão viçosos e vigorosos, para anunciar que o SENHOR é reto” (Sl 92:13-15). É quando a carne é completamente esmagada que temos força com Deus e prevalecemos. E assim, como Calebe, o crente vai de força em força, mortificando as obras do corpo pelo Espírito, ao mesmo tempo em que a presença permanente do Espírito é o firme testemunho do justo juízo de Deus passado sobre a carne, na cruz de Cristo e no Espírito de revelação das realidades celestiais e eternas e de comunhão presente com Ele.

Christian Friend, 2:298 (adaptado)

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