Origem: Revista O Cristão – Intercessão

Intercedendo por um Próximo

“Ah! se alguém pudesse contender com Deus pelo homem, como o homem pelo seu próximo!” (Jó 16:21).

Quando surgem tensões interpessoais e problemas na assembleia que estão fora do nosso controle imediato, o sábio conselho que costumamos ouvir é: “Deixe isso nas mãos do Senhor”. De fato, a Escritura nos adverte para não nos intrometermos em contendas que não nos dizem respeito, e quem o faz é comparado a um homem que agarra um cão pelas orelhas (Provérbios 26:17). Ele será mordido.

Embora reconheçamos a importância de não nos envolvermos em assuntos que não nos dizem respeito, devemos ter em mente que há momentos em que devemos interceder ou intervir em favor de outros, independentemente de os conhecermos ou não. Nesses casos, não podemos nos eximir da responsabilidade perante Deus, escondendo-nos atrás de chavões convenientes ou fingindo desconhecer uma injustiça. “Se tu deixares de livrar os que estão sendo levados para a morte, e aos que estão sendo levados para a matança; Se disseres: Eis que não o sabemos; porventura não o considerará Aquele que pondera os corações? Não o saberá Aquele que atenta para a tua alma? Não dará Ele ao homem conforme a sua obra?” (Pv 24:11-12).

Um doutor da lei certa vez tentou se esquivar da mensagem direta do Senhor dirigida a ele: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, questionando o Senhor: “E quem é o meu próximo?”. Depois de contar a conhecida história do “um samaritano”, o Senhor mostrou que aquele que era próximo do homem ferido era aquele que lhe mostrou misericórdia.

Pensamos na intercessão principalmente em termos da intercessão do homem junto a Deus, por meio da oração, em favor de outro (1 Timóteo 2:1). Jó, em suas severas provações, sentiu profundamente a falta dessa intercessão por parte de seus três amigos. Eles começaram bem, sentando-se com ele em silenciosa compaixão por sete dias, assim como Ezequiel, que, mais tarde, sentou-se entre os cativos junto ao rio Quebar (Ezequiel 3:15). Mas então, em resposta à queixa de Jó, eles se voltaram contra ele e, em vez de se tornarem seus intercessores, tornaram-se seus acusadores, supondo erroneamente que Deus estava tratando Jó de maneira tão severa porque ele levava uma vida dupla. Na intensidade do sofrimento, ele exclamou: “Falaria eu também como vós falais, se a vossa alma estivesse em lugar da minha alma, ou amontoaria palavras contra vós, e menearia contra vós a minha cabeça?” (Jó 16:4). Não é de admirar que ele os tenha chamado de “consoladores molestos”.

Mas a Escritura também mostra exemplos de pessoas que intercederam junto ao seu próximo em favor de outro. Nesses exemplos, testemunhamos verdadeira amizade e coragem moral.

Nicodemos 

No evangelho de João, o Senhor Jesus é visto como rejeitado desde o princípio (João 1:11). Conhecendo o opróbrio de ser identificado com Ele, Nicodemos foi primeiro ter com Jesus de noite. Posteriormente, quando os oficiais não prenderam nem trouxeram o Senhor Jesus aos líderes religiosos, estes, com desprezo, questionaram se os oficiais também haviam sido enganados, como, segundo a opinião deles, o fora o povo comum e ignorante. Diante dessa hostilidade e arrogância condescendente, Nicodemos levantou a questão: “Porventura condena a nossa lei um homem sem primeiro o ouvir e ter conhecimento do que faz?” A resposta zombeteira dos fariseus – “És tu também da Galileia? Examina, e verás que da Galileia nenhum profeta surgiu” – manifestou a própria falta de conhecimento que eles tinham das Escrituras, pois Jonas, o profeta cuja mensagem de juízo resultou em livramento para uma cidade gentílica, era da Galileia (compare 2 Reis 14:25; Josué 19:10, 13; Mateus 4:15). De todo modo, suas palavras foram calculadas para humilhar Nicodemos, e ele, sem dúvida, sentiu o seu golpe.

Nicodemos não intercedeu exatamente pelo Senhor Jesus; ele simplesmente fez uma pergunta honesta. Mas isso foi o suficiente para rotulá-lo como “um deles”. Talvez essa experiência, nos desígnios providenciais de Deus, tenha sido usada para levar Nicodemos à luz, quando ele finalmente, corajosamente, identificou-se com Cristo (João 19:39). Podemos não ter a ousadia de um leão, mas que ao menos estejamos dispostos a fazer a pergunta incômoda, se necessário, por alguém, seja amigo ou inimigo, que esteja sendo injustamente difamado.

Jônatas 

O laço de amizade entre Davi e Jônatas é notável. Após a vitória de Davi sobre Golias, a alma de Jônatas se uniu à de Davi. Anos mais tarde, ao contemplar a devastação da vitória filisteia sobre Israel e as mortes de Saul e Jônatas, Davi instruiu as mulheres de Israel a chorarem por Saul, seu rei, mas a demonstração de afeto no próprio coração de Davi ecoa em suas dolorosas palavras de tristeza: “Angustiado estou por ti, meu irmão Jônatas” (2 Sm 1:24-26).

Embora seja verdade que Jônatas não tenha abandonado a casa de Saul para se associar a Davi em sua rejeição, não há registro de que Davi alguma vez o tenha censurado por isso. A amizade de Davi com Jônatas era profunda, e ele sabia que Jônatas havia enfrentado o seu pai em seu favor. O relato mais comovente da lealdade de Jônatas para com Davi ocorreu quando Saul perseguia ativamente Davi.

Saul estava furioso com Jônatas por causa de sua amizade com Davi e ordenou que ele buscasse Davi, pois este deveria morrer. Jônatas desafiou seu pai: “Por que há de morrer? Que tem feito?” A inimizade e a amargura de Saul para com Davi eram tão grandes que ele perdeu a razão e atirou uma lança em Jônatas, seu próprio filho, numa aparente tentativa de matá-lo. Mas Jônatas não fugiu com medo. Pelo contrário, “Jônatas, todo encolerizado, se levantou da mesa; e no segundo dia da lua nova não comeu pão; porque se magoava por causa de Davi, porque seu pai o tinha humilhado” (1 Sm 20:30-34).

A Escritura nos exorta: “irai-vos, e não pequeis” (Ef 4:26). Lamentavelmente, às vezes esse versículo é usado erroneamente para defender a ira carnal, mas, em certas ocasiões, a ira justa é apropriada, como quando o Senhor Jesus olhou com ira para os fariseus por estarem prontos para condená-lo por curar um homem com a mão atrofiada no sábado (Marcos 3:5). É revigorante ler sobre a defesa leal e o apoio de Jônatas a seu amigo Davi, e o incidente nos serve bem como exemplo de um homem intercedendo por seu amigo.

Ester 

O conselho de Mardoqueu a Ester demonstrou um claro reconhecimento da Providência em uma época em que não havia reconhecimento de Deus por parte do Seu povo, nem intervenção direta de Deus em favor do Seu povo.

“Então Mardoqueu mandou que respondessem a Ester: Não imagines no teu íntimo que por estares na casa do rei, escaparás só tu entre todos os judeus. Porque, se de todo te calares neste tempo, socorro e livramento de outra parte sairá para os judeus, mas tu e a casa de teu pai perecereis; e quem sabe se para tal tempo como este chegaste a este reino?” (Et 4:13-14). De fato, era um tempo, “para tal tempo como este”, de crise para os Judeus, pois a sua própria existência estava ameaçada.

Independentemente de qualquer sentimento familiar ou vago senso de destino, a realidade para Ester de perder a vida numa tentativa de interceder em favor de seu povo era assustadora. Contudo, o seu reconhecimento de estar em posição de preservar seu povo da aniquilação a impulsionou à ação. Vai, ajunta a todos os judeus que se acharem em Susã, e jejuai por mim, e não comais nem bebais por três dias, nem de dia nem de noite, e eu e as minhas servas também assim jejuaremos. E assim irei ter com o rei, ainda que não seja segundo a lei; e se perecer, pereci” (Et 4:16).

As ações de Ester refletem as palavras do apóstolo Paulo em sua determinação de ir a Jerusalém: “em nada tenho a minha vida por preciosa” (At 20:24). Seu compromisso de arriscar a própria vida para interceder por seu “próximo” terminou de forma muito mais favorável do que ela poderia ter esperado, e seu povo foi preservado.

O clamor de Jó para que alguém intercedesse pelo seu próximo encontra resposta, em diferentes graus, em Nicodemos, Jônatas e Ester. Eles não estavam pensando em si mesmos. E embora nossa prioridade seja interceder junto a Deus em favor de outros, que o exemplo deles também nos encoraje a estarmos dispostos a interceder por outros, quando a justiça o exigir, mesmo que isso nos traga consequências adversas e reprovação.

W. J. Brockmeier

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