Origem: Revista O Cristão – Intercessão
A Intercessão de Moisés
Somos propensos a supor que a posição de um governante é fácil e invejável, e sem dúvida o seria, se alguém pudesse aceitar os seus privilégios sem sentir as suas responsabilidades. Geralmente, aqueles que cobiçam tais posições sentiriam pouco as obrigações e, portanto, seriam inadequados, e o inverso também é verdadeiro. Não sabemos nada sobre Moisés que indique que ele jamais tenha tido a menor ambição pessoal de governar Israel, mas quando foi obrigado a assumir o cargo, há muitos indícios de que ele sentiu as responsabilidades de um governante como somente uma natureza tão grandiosa e nobre poderia sentir. A ingratidão insensível e a maldade do povo, contudo, foram quase insuportáveis para ele, e parece que ele renunciaria de bom grado ao seu posto até ouvir Deus ameaçando destruí-los. Então, quando ele vê o povo em pecado e perigo, ele se entrega completamente, mesmo até a aniquilação eterna de sua existência, antes de abandoná-los. Esta é uma das facetas do mediador. Ele é o amigo na hora da necessidade, que ama em todos os momentos, que é mais chegado do que um irmão, aquele que diz: invoque-me quando estiver em apuros.
Denunciando o mal e rogando por misericórdia
Aqueles que viram Moisés no meio do povo, denunciando sua idolatria com palavras inflamadas de ira consumidora, não poderiam ter noção da compaixão com que ele acabara de interceder por eles, chegando ao ponto de se oferecer em propiciação por eles. “Fira-me o justo, será isso uma benignidade” (Sl 141:5)! O homem tolera nossas faltas diante de nós e as condena pelas nossas costas. Mas o verdadeiro Advogado inverte isso; diante dos homens, Ele disse: “Raça de víboras”, mas a Deus, Ele suspira: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”!
Alguns perguntam: Qual a utilidade da intercessão junto a Deus? Se a disposição de Deus é misericordiosa, qual a necessidade de que alguém interceda por outros? Acaso é provável que Ele se deixe influenciar por quaisquer petições nossas, desviando-Se de Seus decretos irrevogáveis e propósitos imutáveis? Este tipo de raciocínio é respondido mais prontamente na seguinte ilustração. Aqui, em Êxodo 32, a grande indignação de Deus contra Israel por sua grosseira afronta e traição nacional é perfeitamente razoável. Mas igualmente razoável é a súplica de Moisés por misericórdia para com seus irmãos pecadores. E também à misericórdia que, por fim, é concedida em resposta àquela fervorosa intercessão. É bastante razoável, portanto, que um governante deseje conceder misericórdia a um povo pecador, e ainda assim considere isso incompatível com a dignidade de seu trono e suas leis, a menos que alguém interceda por eles. Poupar o povo antes que alguém interceda pode ser percebido como fraqueza; depois, é prontamente visto como graça.
O efeito reflexivo
Além de tudo isso, há o seu efeito reflexivo. Ninguém pode orar ou interceder por outro sem receber a resposta em seu próprio íntimo, sem se tornar alargado e mais forte de alma (falando agora de nós mesmos). Permitam-me fazer esta pergunta ao leitor: Seu hábito mental é o da intercessão? Você tem a tendência de tolerar as ofensas alheias, com aquele amor que cobre uma multidão de pecados, até onde a justiça o permite, e de apelar a Deus e aos homens por seu favor? Se for sim, isso é semelhante a Cristo. Ou é o contrário?
O Árbitro, por Quem Jó suspirou na antiga escuridão, tem três funções principais: Ele é o Intérprete, daí o nome “Verbo”, porque expressa os pensamentos de Deus e também o Intérprete do homem. Em segundo lugar, Ele é o Mediador entre Deus e o homem, sendo isso amplo e universal. Terceiro, na família de Deus Ele é o Advogado junto ao Pai (1 João 2:1) daqueles a quem Ele não Se envergonha de lhes chamar de irmãos.
Há muito mais honra em realizar grandes obras com meios pequenos e aparentemente inadequados do que com instrumentos fortes e apropriados; portanto, não nos impressiona tanto o fato de Sangar e Sansão terem libertado Israel, mas sim que um o fez com uma simples aguilhada de boi e o outro com uma queixada de jumento. Deus revela a glória do Seu poder e sabedoria principalmente ao realizar obras vastas e estupendas por meio de instrumentos frágeis e desprezados.
Assim foi na história de Israel. Aqueles que Deus escolheu para propagar e preservar o conhecimento da verdadeira Deidade na Terra não era um grupo de seres angelicais, mas uma nação de homens tão pecadores quanto qualquer outra que já existiu. Eram semelhantes aos seus semelhantes, nem muito melhores, nem muito piores. A natureza humana é muito parecida onde quer que se apresente. Pouco tempo depois de Israel ser libertado do Egito, eles caíram nas mais vis orgias de idolatria. Foi com esse tipo de povo que Deus transformou a face da Terra, instrumentos que continuamente se quebravam em Suas mãos. Entender isso deveria ser um encorajamento para buscarmos perseverar fielmente por Ele, apesar de nossas fraquezas.
Na ocasião em que os filhos de Israel se prostraram diante do bezerro de ouro, Deus primeiro disse que os rejeitaria, mas ouviu a intercessão de Moisés e os conservou. Nesse ponto, a advocacia de Moisés assume um caráter diferente. Ele usa a própria maldade deles como motivo para suplicar a Jeová que os acompanhe. Ele ora para que Jeová o acompanhe entre Israel, “porque este é povo de dura cerviz; porém perdoa a nossa iniquidade e o nosso pecado, e toma-nos por Tua herança” (Êx 34:9). Não é que sejamos tão bons que Ele não possa viver sem nós, mas somos tão maus que não podemos viver sem Ele. Se alguém considera isso presunção, é a presunção da fé, e eu gostaria que tivéssemos mais fé.
Na verdade, este é um dos mais belos exemplos de intercessão nos registros de Deus. Primeiro, ele apoia o seu ponto com base na bondade do Juiz, quando, na realidade, era a maldade do povo que estava em questão, e então ele se volta e faz da própria maldade do povo, uma nova base para sua súplica, desta vez em busca de uma nova clemência. Moisés havia dito que não era eloquente e, de fato, cria nisso, mas isso se devia apenas à modéstia e à reserva inerentes à sua grande natureza. Ele possuía, de fato, um caráter grandioso e magnífico. Ele foi grande na intercessão.
Types and Symbols of Scripture
