Origem: Revista O Cristão – Intercessão

A Perda de Privacidade

Todos sabemos que, graças às viagens aéreas, o mundo se tornou muito mais familiar para muitos de nós, e regiões que antes eram visitadas apenas por alguns privilegiados agora são destinos comuns, ao alcance de uma porcentagem significativa da população mundial. Esse movimento massivo de pessoas, no entanto, teve um lado negativo, pois doenças e problemas que antes se restringiam a uma área agora são facilmente exportados para o resto do mundo. Da mesma forma, o desenvolvimento do computador e da internet nos últimos anos possibilitou a comunicação em larga escala, mas, novamente, também apresentou desvantagens. Outros desenvolvimentos desde então foram ainda mais longe. Parece que o celular se tornou uma parte indispensável da vida; não conseguimos viver sem ele e, com a queda dos preços, pessoas do mundo todo se comunicam constantemente. Alguns acham quase impossível desligar o celular, com medo de perder uma ligação. Mais recentemente, o envio de mensagens de texto se tornou muito popular entre os jovens, chegando a substituir as ligações telefônicas. Muitos adolescentes admitem ­enviar mais de 100 mensagens de texto por dia, e para alguns esse número se aproxima de 1.000. O iPod mudou a forma como os jovens ouvem música. Antes, havia música ambiente em lojas e outros locais públicos. Agora, é possível carregar centenas de músicas em um dispositivo muito pequeno e ouvi-las à vontade. O poder viciante dessa música faz com que algumas pessoas mal consigam ficar um momento sem ouvi-la.

O resultado disso tudo, nas palavras de outra pessoa, foi “desparafusar as fechaduras das portas” e corroer a privacidade a tal ponto que houve uma perda quase total da solitude. Todos os detalhes de nossa vida são repentinamente disponibilizados para os outros. Para citar uma conhecida revista americana: “O computador que nos permitiu olhar com admiração para o mundo permitiu que o mundo olhasse impiedosamente de volta para nós”. O Facebook intensificou tudo isso, e as possibilidades são ilimitadas. Fotos e outras informações publicadas na plataforma podem ser vistas em minutos por centenas, senão milhares de pessoas. Informações que antes eram consideradas privadas agora são publicadas para todos verem.

A importância disso para nós 

O que tudo isso significa para o crente? Em primeiro lugar, precisamos reconhecer que não é a tecnologia em si que é ruim; o problema reside na forma como o homem a utiliza. A internet tornou possível a comunicação com outros crentes em partes do mundo onde o envio por correio postal seria difícil, ou talvez impossível. Ela nos permitiu acessar bons ensinamentos de forma rápida e fácil, sejam eles escritos ou gravados. Contudo, devemos estar atentos ao lado negativo disso tudo e reagir da maneira correta.

Precisamos encarar o fato de que, embora muita informação boa esteja disponível hoje em dia, a mesma tecnologia tornou uma quantidade enorme de informação ruim facilmente acessível. Há tentações que não existiam antes. Mesmo que não tenhamos acesso ao que é claramente errado, é evidente que os esforços de Satanás nestes últimos dias visam ocupar a mente dos homens de tal forma que eles não tenham um momento sequer para pensar em assuntos eternos. A constante enxurrada de música, mensagens de texto ou conversas tenderá a preencher nosso tempo a tal ponto que os assuntos eternos serão deixados de lado. Sejam os “cuidados da vida” ou a “sedução das riquezas”, todas são coisas que “sufocam a Palavra, e fica infrutífera”. Os eventos solenes que Deus permite, como furacões, terremotos, inundações, secas e incêndios, certamente têm o propósito de alertar os homens sobre o julgamento vindouro; contudo, Satanás usará esse bombardeio mental para embotar sua percepção e manter seu foco nesta vida.

Felizmente, alguns estão percebendo o fim de tudo isso. Steve Jobs, que foi em grande parte responsável pelo sucesso da empresa de computadores Apple, disse o seguinte pouco antes de sua morte no ano passado: “Lembrar que vou morrer em breve é a ferramenta mais importante que já encontrei para me ajudar a tomar as grandes decisões da vida, porque quase tudo, todas as expectativas exteriores, todo o orgulho, todo o medo de constrangimento ou fracasso, essas coisas simplesmente desaparecem diante da morte, deixando apenas o que é verdadeiramente importante”.

Espera-se que aquilo que era verdadeiramente importante para ele incluísse algum sério pensar acerca de seu destino eterno. Quando alguém lhe perguntou a respeito de suas realizações, e particularmente sobre a riqueza que havia acumulado, relata-se que ele comentou: “Não há vantagem alguma em ser o homem mais rico do cemitério.” Contudo, o crente não está imune a todos esses atrativos, embora tenha uma esperança celestial. O espírito do mundo ao redor tem forte tendência de nos influenciar, e é fácil sermos absorvidos pelas coisas “que se veem”, em vez de mantermos o foco nas coisas “que se não veem”.

Dependência de Deus 

François Fénelon, um Cristão piedoso que viveu na França há mais de 300 anos, expressou muito bem o pensamento de comunhão com o Senhor quando disse: “Uma regra geral para o bom uso do tempo é acostumar-se a viver em contínua dependência de Deus, recebendo do Espírito de Deus a cada instante tudo aquilo que Ele Se agrada em nos dar, recorrendo a Ele imediatamente nas dúvidas que inevitavelmente surgem, voltando-nos para Ele na fraqueza em que a bondade se esvai por exaustão, invocando-O e elevando-nos a Ele quando o coração, levado pelas coisas materiais, se vê imperceptivelmente desviado do caminho e se encontra esquecendo-se e se afastando de Deus.”

Podemos admirar sua devoção, especialmente ao considerarmos que ele foi criado e permaneceu católico romano por toda a vida. Os diversos avanços tecnológicos de que temos falado, se usados como o mundo os usa, certamente prejudicariam essa comunhão com o Senhor e nos ocupariam primeiro com nós mesmos e depois com um mundo que em breve passará. Não há necessidade de compartilhar com um número cada vez maior de pessoas todos os detalhes de nossa vida ou de falar continuamente sobre coisas que, na melhor das hipóteses, dizem respeito à vida aqui abaixo. Somente as coisas de Cristo perdurarão pela eternidade, e nosso exercício deve ser o de usar nosso tempo da melhor maneira possível nessas coisas, a fim de sermos como aqueles que estão “lançando para si mesmos um bom fundamento para o futuro, para que possam tomar posse daquilo que é realmente vida” (1 Timóteo 6:19 – JND).

W. J. Prost

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