Origem: Revista O Cristão – Judeu, Gentio e a Igreja de Deus

Israel e a Igreja

O conhecimento da “verdade dispensacional”, como é frequentemente chamada, é indispensável para a leitura inteligente da Bíblia. No entanto, muitos Cristãos parecem mal ter pensado nisso. Deus tem Se agradado em tratar com os homens em diferentes épocas e de várias maneiras. Novas revelações de Si mesmo e de Sua vontade deram início a novas maneiras de tratar com os homens, novas dispensações.

A “verdade dispensacional” nos ensina a distinguir corretamente essas mudanças e a discernir sua natureza, para que as características importantes de cada uma não sejam obscurecidas. A importância disso para nós, Cristãos, é que assim aprendemos o verdadeiro caráter tanto da vocação com a qual somos chamados do alto como o da era em que vivemos.

Até o tempo de Cristo, uma dispensação seguiu seu curso na qual a característica proeminente era Israel, a nação escolhida da descendência de Abraão. O período em que vivemos, desde o Pentecostes até à vinda do Senhor, é marcado por características totalmente diferentes. Não é Israel, mas a Igreja é hoje proeminente nos pensamentos de Deus. Antes de nos aprofundarmos nas importantes distinções entre os dois, tenhamos certeza de que entendemos exatamente do que estamos falando.

Por ISRAEL não nos referimos aos Judeus, a nação dispersa como é hoje, nem como era no tempo de nosso Senhor, um remanescente ainda apegado à sua antiga capital, Jerusalém. Não nos referimos a eles como realmente existiram em qualquer época, mas sim ao que essa nação era de acordo com o plano original de Deus para eles.

A Igreja 

Quando falamos da IGREJA, não nos referimos a nenhum edifício eclesiástico, nem a qualquer denominação, nem a qualquer número de Cristãos professos reunidos no que hoje é chamado de “Igreja”. Usamos o termo em seu sentido bíblico. A palavra grega traduzida “Igreja” significa simplesmente “chamados para fora”. Aqueles que são chamados para fora do mundo por Deus durante este período de rejeição de Cristo são, por esse meio e pela habitação do Espírito Santo, reunidos na assembleia de Deus, a Igreja.

Pode ser útil notar que na Escritura o termo “Igreja” é usado de três maneiras:

  1. Indicando o número total de Cristãos em um determinado lugar (1 Co 1:2; Cl 4:15, etc.).
  2. Como o número total de todos os Cristãos na Terra em um determinado momento (1 Co 10:32; 12:28; Ef 1:22, etc.). Nesse aspecto, a Igreja é como um regimento que permanece o mesmo, embora as unidades que a compõem estejam em constante mudança.
  3. Como o número agregado de todos os Cristãos, chamados e selados com o Espírito entre o Pentecostes e a vinda do Senhor (Ef 3:21; 5:25, etc.).

Desses, o último é o sentido em que usamos a palavra neste artigo, embora se falarmos da Igreja como ela existe na Terra hoje, obviamente nos referimos a ela em seu segundo aspecto. Deve ser lembrado, no entanto, que nos referimos, como no caso de Israel, não ao que a Igreja realmente é ou foi em qualquer época, mas ao que ela é de acordo com o desígnio original e o pensamento de Deus.

Algumas distinções necessárias 

Tendo definido nossos termos, observemos algumas distinções necessárias.

  1. Com João, o precursor do Senhor, as declarações de Deus sob a antiga aliança atingiram seu ponto final. Com Cristo, as novas declarações começaram. Sua aparição na Terra anunciou o amanhecer de um novo dia. Quando o Filho de Deus morreu e ressuscitou, quando Ele ascendeu ao céu e enviou o Espírito Santo, então foi inaugurada uma dispensação que era totalmente diferente de tudo o que havia acontecido antes.
  2. A principal característica da antiga dispensação era a lei; a da nova é a graça. Em Cristo, está presente um poder mais forte do que a lei. Agora Deus dá e o homem recebe. A nova dispensação é marcada pela graça que reina pela justiça, para a vida eterna, por Jesus Cristo, nosso Senhor (Rm 5:21).
  3. A antiga dispensação centrava-se em torno de Israel como nação; a nova está ligada à Igreja. Na Igreja, não há nada exclusivo a alguma nação. Deus está agora fazendo uma eleição dentre todas as nações, e aqueles assim reunidos para o Seu nome compõem “a Igreja”.

Além disso, em conexão com a Igreja, Deus começa com o indivíduo. Ela é composta por aqueles que foram pessoalmente colocados em um correto relacionamento com Deus. Somente como perdoados e como tendo recebido o Espírito para habitar neles, é que eles se tornam membros do um só corpo e “pedras vivas” na casa espiritual.

  1. Ligado a Israel havia um culto ritualístico, cujo valor residia em seu significado simbólico. A adoração da Igreja não consiste em ofertas de sacrifício, cerimônias simbólicas e coisas semelhantes, mas é “adoração em espírito e em verdade”.
  2. As bênçãos e privilégios de Israel eram em grande parte de ordem terrenal e material; os da Igreja são celestiais e espirituais. Quando Paulo escreveu aos efésios sobre a herança celestial dos Cristãos, longe de falar de coisas materiais, ele disse: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Ef 1:3). Quão completo é o contraste!
  3. Embora o destino de Israel seja o canal de bênçãos para todas as nações, durante os anos dourados da era milenar, o destino da Igreja é a associação com Cristo no céu.

Houve um tempo definido em que os caminhos de Deus para com Israel terminaram e quando o período da Igreja começou? 

A morte de Cristo marcou o fim dos tratamentos de Deus com Israel como nação, e Sua ressurreição e a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes inauguraram a presente dispensação. Compare Atos 2:41-47 com 1 Coríntios 12:13.

No entanto, duas ressalvas precisam ser feitas.

Primeiro, embora os caminhos de Deus para com Israel tenham atingido seu ponto culminante na cruz, Ele, no entanto, continuou certos tratamentos suplementares com a nação até a morte de Estêvão, e talvez até a destruição de Jerusalém. Nem os desígnios completos de Deus quanto à Igreja foram revelados em sua totalidade logo no início da era atual. Eles foram gradualmente revelados por meio dos apóstolos, particularmente por meio de Paulo, embora a própria Igreja tenha iniciado sua existência como um corpo no dia de Pentecostes.

Em segundo lugar, os caminhos de Deus para com Israel terminaram apenas por um tempo. Israel foi desviado, por assim dizer, enquanto a Igreja ocupa os trilhos. Quando a Igreja for transferida para o céu, Israel será novamente trazido para a linha principal dos tratamentos de Deus.

Qual foi o objetivo de Deus ao chamar Israel para o lugar especial que ocupavam?

Eles foram chamados para tomar por Deus a posse da terra prometida, como uma espécie de penhor de que toda a Terra pertencia a Ele. Quando entraram em Canaã, cruzaram o Jordão como o povo do “Senhor de toda a Terra” (Js 3:11-13). Além disso, eles deveriam preservar no mundo a linhagem da qual “descende o Cristo segundo a carne” (Rm 9:5 – TB). Aliás, também, foi naquela nação, escolhida como exemplo e privilegiada acima de todas as outras, que Deus fez a última prova sobre a raça humana. Se, como Romanos 3:19 afirma, a lei condena totalmente a nação modelo dos Judeus, que estavam sob tal lei, então toda boca é fechada e todo o mundo é “condenável diante de Deus”.

Qual é o objetivo e propósito de Deus em relação à Igreja? 

A Igreja é o corpo de Cristo (Ef 1:23). Portanto, nela Ele deve ser expresso, assim como nosso corpo é aquilo em que vivemos e nos expressamos.

Ela O representa aqui, durante o tempo de Sua rejeição e ausência. Satanás se livrou de Cristo pessoalmente na Terra, mas Ele está aqui representado em Seu povo. Tocar a Igreja, ou qualquer um que pertença a ela, é tocar n’Ele mesmo. Suas próprias palavras a Saulo implicam isso: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” (At 9:4).

A Igreja é a casa de Deus, a única casa que Ele tem na Terra no tempo presente. Deus não será expulso de Seu próprio mundo! Ele habita hoje em uma casa que ninguém foi capaz de destruir. O propósito final de Deus é ter uma noiva para Cristo (Ef 5:25-27), um povo que, compartilhando agora de Sua rejeição, como estrangeiros celestiais, encontra sua porção eterna como coparticipantes de Sua glória celestial.

Não devemos agradecer a Deus por nossa sorte estar lançada deste lado da cruz de Cristo?

F. B. Hole (adaptado)

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