Origem: Revista O Cristão – Judeu, Gentio e a Igreja de Deus
Manejando Corretamente a Palavra da Verdade
O título deste artigo foi tirado de 2 Timóteo 2:15, onde o apóstolo Paulo exorta Timóteo sobre a importância de ser “aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar”. Uma parte importante para alcançar esse objetivo era que tal obreiro estivesse “manejando bem a palavra da verdade”. Ou como outra excelente tradução coloca, “cortando em linha reta a palavra da verdade” (JND). Um irmão idoso, sob cujo ministério eu estava na minha juventude, costumava enfatizar constantemente essa exortação com a seguinte declaração: “Mantenha a Escritura em seu devido lugar; elas são muito úteis!” Ao observarmos a confusão e o erro que permeiam grande parte da Cristandade hoje, podemos facilmente reconhecer que grande parte disso decorre da falha em interpretar a Palavra de Deus corretamente. Às vezes, isso é feito por ignorância, enquanto outras vezes é “aquele ensino que está no artifício dos homens, na astúcia sem princípios, com vistas ao erro sistematizado” (Ef 4:14 – JND). Um triste resultado disso é que aqueles que são jovens na fé são frequentemente como “meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina” (Ef 4:14).
Alguns anos atrás, eu estava conversando com uma jovem que cria no Senhor Jesus, mas que discordava fortemente de mim em certos aspectos da verdade divina. Quando me referi à Palavra de Deus para fundamentar o que eu estava dizendo, a resposta dela foi: “Mas essa é apenas a sua interpretação da Bíblia”. Isso me levou a perguntar: “Então Deus escreveu Sua Palavra de uma forma tão confusa que os Cristãos honestos não pudessem lê-la e ter uma só mente?” Ela relutantemente admitiu que não, que o problema não estava na Palavra de Deus, mas sim em nós. Eu indiquei a ela que, neste tempo da graça de Deus, os verdadeiros crentes são habitados pelo Espírito de Deus, e as Escrituras falam da “unidade do Espírito” (Ef 4:3). Há, portanto, uma unidade para a qual o Espírito de Deus procura conduzir cada Cristão, de acordo com a verdade de Deus. Mais do que isso, Deus está disposto a tornar Sua mente conhecida, a fim de que “todos cheguemos à unidade da fé” (Ef 4:13) e para não nos deixar levar por todo vento de doutrina.
Dispensação
Uma das razões pelas quais os crentes não entendem a Palavra de Deus claramente é que eles rejeitam ou não entendem a verdade dispensacional. A palavra “dispensação” significa literalmente “lei doméstica” ou a administração de uma casa. Na Escritura, isso se refere à maneira como Deus tratou com este mundo de várias maneiras em diferentes momentos da história mundial. O título desta edição de “O Cristão” nos mostra as três divisões básicas da humanidade hoje que nos são dadas na Bíblia, e sob a estrutura dessas três divisões, podemos explorar as diferentes maneiras pelas quais Deus tratou com cada uma delas.
O Velho Testamento é amplamente dedicado a Israel e como Deus os testou sob a lei que Ele lhes deu. Eles eram, e ainda são, o povo escolhido de Deus, a quem Ele deu tudo o que poderia ter resultado em uma resposta adequada deles para com Deus. Como sabemos, eles falharam miseravelmente em sua resposta à bondade de Deus e, finalmente, foi permitido, no governo de Deus, a que fossem levados para o cativeiro. Mas Deus não os esqueceu, e os profetas hebreus do Velho Testamento nos mostram que Deus trará Israel de volta às bênçãos terrenais em um dia vindouro.
O Velho Testamento também nos fala sobre os gentios, que representavam todos aqueles que não faziam parte de Israel. Eles estavam fora da aliança de Deus com Israel, e qualquer bênção que pudessem desfrutar tinha que fluir para eles por meio de Israel, que tinha o conhecimento do Deus verdadeiro. Mas então, depois de Israel ter falhado, Deus iniciou o que é chamado de “os tempos dos gentios”, em 606 a.C., que continuam até hoje. Naquela época, Deus levantou o rei babilônico Nabucodonosor, que levou Judá para o cativeiro. Deus deixou de usar Israel para reivindicar este mundo e o entregou ao domínio dos gentios. Desde o início dos tempos dos gentios, os Judeus têm sido, em grande parte, fugitivos neste mundo e não existiram como nação soberana por mais de 2.500 anos. É impressionante que, depois de um intervalo de tempo tão imenso, Israel, em 1948, tenha se tornado novamente uma nação.
A Igreja de Deus
Então temos a Igreja de Deus, que nunca é mencionada no Velho Testamento, mas é trazida à tona no Novo Testamento depois que Israel rejeitou seu Messias – o Senhor Jesus. Tudo isso vem à tona de forma bastante clara no evangelho de Mateus, e admitimos que diferenciar as Escrituras que se referem a “Judeus” e “gentios” e “Igreja de Deus” às vezes pode ser confuso. O evangelho de Mateus requer um estudo cuidadoso, mas alguns dos capítulos mais difíceis servem apenas para nos mostrar que a transição da dispensação da lei para a dispensação da graça foi progressiva, como o amanhecer de um dia, e não um evento repentino que aconteceu rapidamente.
Mateus é o evangelho do reino e, portanto, começa com nosso Senhor Jesus apresentando-Se a Israel como seu legítimo Rei. Ele apresentou todas as credenciais necessárias para identificar claramente Quem Ele era, mas a nação O rejeitou, exceto por um pequeno grupo de Seus seguidores. Como resultado, nosso Senhor rejeita formalmente Israel no capítulo 12, referindo-Se a eles como uma “geração perversa” que acabaria caindo em idolatria pior do que a que eram culpados antes de o Senhor permitir que fossem levados cativos.
Então, em Mateus 13, o Senhor Jesus começa um novo foco, trazendo à tona por meio de várias parábolas (dez no total) a condição das coisas que aconteceriam como resultado de Sua rejeição. Então, no capítulo 16, Ele fala de algo inteiramente novo – a Igreja. Isso seria futuro, pois Ele diz: “Edificarei a Minha Igreja” (Mt 16:18). O panorama geral nos é dado, mas não os detalhes; eles foram deixados para o apóstolo Paulo apresentar, pois ele recebeu essa verdade de um Cristo ressuscitado em glória.
A Igreja é única com um chamado celestial nos propósitos de Deus, e, portanto, não é mencionada ou levada em conta na profecia. A profecia diz respeito à Terra, enquanto a Igreja é uma companhia celestial. Por essa razão, a Igreja será tirada deste mundo antes que o Senhor comece Sua obra com Israel, para restaurá-los às bênçãos terrenais. Como Mateus é o evangelho do reino, a verdade do reino dos céus é revelada, o que traz diante de nós a esfera da profissão Cristã na Terra. O batismo é revelado como o meio de entrar no reino.
Israel não é esquecido
No entanto, Israel não é esquecido, e no capítulo 24 nosso Senhor, respondendo a uma pergunta de alguns de Seus discípulos, nos dá uma profecia do que aconteceria a Israel antes que eles fossem totalmente restaurados como nação. Tudo isso não pode ser entendido devidamente sem antes entender as profecias de Daniel e também o livro do Apocalipse. O que é instrutivo notar é que nosso Senhor deixa de fora qualquer discussão sobre o período da Igreja, tendo já detalhado muito sobre esse período nas dez parábolas do reino dos céus.
Novamente, o período da Igreja é encaixado nisso, sem referência específica a ele, nas três parábolas apresentadas no final do capítulo 24 e no capítulo 25. São elas as parábolas do servo fiel (Mt 24:45-51), a parábola das dez virgens (Mt 25:1-13) e a parábola dos talentos (Mt 25:14-30).
Isso é confuso? Sim, admitimos que pode ser e, novamente, requer leitura cuidadosa e comparação com outras passagens, a fim de chegarmos a uma interpretação correta. Vale a pena? De fato, vale. Deus nem sempre colocou toda a Sua verdade na superfície, sabendo que valorizamos algo mais se tivermos que nos esforçar para buscá-lo.
Em resumo, é possível estar “cortando em linha reta a palavra da verdade” (2 Tm 2:15 – JND) e tendo a certeza de que temos uma interpretação correta da Palavra de Deus. Deus está disposto a tornar Sua mente conhecida e a revelará a nós pelo Seu Espírito.
