Origem: Revista O Cristão – Moisés
Falai à Rocha
A rebelião de Corá trouxe o sacerdócio de Arão mais evidente do que nunca. O ministério não é sacerdócio, embora tenha seu próprio e importante lugar. Mas somente o sacerdócio pode e levará o povo fracassado de Deus pelo deserto até Canaã. “Porque se nós, sendo inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de Seu Filho, muito mais, tendo sido já reconciliados, seremos salvos pela Sua vida” (Rm 5:10) “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por Ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (Hb 7:25). Em Cristo, primeiro como Sacrifício e depois como Sacerdote, repousa tudo quanto diz respeito à salvação, pois ainda estamos passando pelo deserto, e com dificuldade os justos são salvos.
A necessidade da intercessão de Arão ficou patente quando a praga se instalou entre os israelitas que murmuravam, e Arão teve que correr para o meio deles, trazendo incenso e fazendo expiação pelo povo. Assim ele se colocou em pé entre os mortos e os vivos, e a praga cessou.
O sacerdote da escolha de Deus
Mas Deus fez mais. Ele decidiu para sempre entre os príncipes do povo e o sacerdote de Sua escolha, pois cada uma das doze cabeças de Israel pôs suas varas diante do Senhor para que Ele pudesse escolher de modo incontestável quem deveria interceder para com Ele. “Eis que a vara de Arão, pela casa de Levi, florescia; porque produzira flores e brotara renovos e dera amêndoas” (Nm 17:8). Todas as outras varas estavam secas e infrutíferas. A questão foi decidida de uma vez por todas: Apenas Arão foi escolhido para se aproximar. Israel, em si mesmo, era tão sem seiva e seco quanto suas varas mortas; o homem precisa de um sacerdote vivo. A vara de Arão (e, ainda mais, Melquisedeque, neste aspecto), apenas tipifica Aquele em Quem está o poder de uma vida sem fim. Daí em diante, esta é a vara, o testemunho vivo e imutável do poder divino e da apropriada bênção diante de Deus para o povo. O sacerdote carrega a iniquidade do santuário. O ministério está subordinado ao sacerdócio, assim como a tribo de Levi estava ligada ao sacerdote (Nm 18). E a graça proveu para todos as cinzas da bezerra ruiva, para que os contaminados entre os filhos de Israel em nenhum momento carecessem de purificação do pecado. Eles sempre foram expostos à imundícia pelo caminho, e então precisavam ser aspergidos pela água da separação, a fim de serem purificados. Deus não diminuiria Sua santidade pela permissão de contaminação em Seu povo, mas Ele provê a água da separação para os contaminados, para que os imundos sejam purificados diariamente. “A graça reinasse pela justiça para a vida eterna”.
A provação
Aqui se vê a nova geração sendo provada antes do encerramento do Êxodo, como a antiga havia sido provada no princípio. Agora, como no passado, não havia água para a congregação; pelo que se ajuntaram contra Moisés e Arão. “E o povo contendeu com Moisés, dizendo: Quem dera tivéssemos perecido quando pereceram nossos irmãos perante o SENHOR! E por que trouxestes a congregação do SENHOR a este deserto, para que morramos aqui, nós e os nossos animais? E por que nos fizestes subir do Egito, para nos trazer a este lugar mau? Lugar onde não há semente, nem de figos, nem de vides, nem de romãs, nem tem água para beber” (Nm 20:3‑5). Não é à toa que Moisés e Arão caíram com rosto em terra diante de uma incredulidade tão vil. Mas a glória de Jeová apareceu e, sem censura, Jeová disse a Moisés: “Toma a vara, e ajunta a congregação, tu e Arão, teu irmão, e falai à rocha, perante os seus olhos, e dará a sua água; assim lhes tirarás água da rocha, e darás a beber à congregação e aos seus animais” (Nm 20:8).
As duas varas
Não houve mal-entendido, pois “Moisés tomou a vara de diante do SENHOR, como lhe tinha ordenado. E Moisés e Arão reuniram a congregação diante da rocha” (Nm 20:9-10). A partir deste ponto, porém, tudo estava errado, pois Moisés, provocado pela excessiva ingratidão e revolta do povo, “falou imprudentemente com seus lábios” (Sl 106:33). “Ouvi agora, rebeldes, porventura tiraremos água desta rocha para vós?” (v. 10) Quem pediu isso de suas mãos? Moisés foi vencido pelo mal, em vez de vencer o mal pelo bem. Aquele que havia vivido por tanto tempo o mais humilde dos homens fracassou no final nesse aspecto. Quando Deus estava magnificando Sua misericórdia e chamando atenção expressamente para a verdade de que nada senão a graça sacerdotal poderia conduzir um povo errante até o fim, Moisés cedeu ao ressentimento natural e afirmou sua própria autoridade, “de sorte que sucedeu mal a Moisés, por causa deles”. Ele havia descido tão baixo até ao nível deles, em vez de se esconder a si mesmo, como a fé teria feito, por trás da graça de Deus. E sua ação não era melhor que sua palavra neste momento crítico. “Então Moisés levantou a sua mão, e feriu a rocha duas vezes com a sua vara” (v. 11). Foi um afastamento total do mandamento do Senhor, que lhe dissera que tomasse “a vara”, não a vara dele, mas a de Arão, e falasse “à rocha”, e ela daria a sua água. Com sua vara, Moisés feriu a rocha duas vezes. A testemunha, até agora fiel, não representou fielmente a Deus e deve morrer por seu erro. A vara do juízo mal utilizada trouxe a morte para si mesmo; a vara da graça prevaleceu para o povo, pois ele havia trazido a vara que havia brotado, cuja virtude por si só era adequada para um povo tão falho.
Em Êxodo 17, foi de acordo com Deus que Moisés ferisse a rocha com sua vara. Ali Moisés aparece sozinho; da rocha ferida deveria sair água. Jesus veio por água e por sangue. A humilhação até a morte devia ser a porção de Cristo, se o povo de Deus havia de receber o Espírito. Era necessário que houvesse um fundamento de justiça, e há; o Filho do Homem devia ser levantado.
Somente a graça é eficaz
Para a jornada do povo pelo deserto, para a passagem para Canaã, somente a graça traz resultado, a graça de um sacerdote que vive sempre. “Ouvi agora, rebeldes”, poderia ser verdadeiro e justo, se a questão fosse o homem, mas era essa a Palavra de Deus para aquele momento? Ele estava agindo em graça ou em juízo? E quando foi acrescentado “tiraremos água desta rocha para vós”, estava Deus diante de seus olhos? Não era o “eu” ferido pela ingratidão do homem? Maravilhoso registrar, o erro do servo não impediu essa graça de Deus. “e saiu muita água; e bebeu a congregação e os seus animais” (v. 11).
“E o SENHOR disse a Moisés e a Arão: Porquanto não crestes em Mim, para Me santificardes diante dos filhos de Israel, por isso não introduzireis esta congregação na terra que lhes tenho dado. Estas são as águas de Meribá, porque os filhos de Israel contenderam com o SENHOR; e Se santificou neles” (vs. 12-13). Moisés e Arão não O santificaram, mas renunciaram a graça em favor da reivindicação de sua autoridade ferida. Se esse fosse o sentimento de Deus, nenhuma água teria sido tirada da rocha. Jeová foi santificado, porém o foi em manter Sua própria palavra, Sua própria graça, apesar da falha de Moisés e Arão – uma falha que trouxe imediata reprovação a si mesmos e o severo castigo de morrer fora da terra, a terra de Canaã, para onde a graça estava conduzindo o povo.
