Origem: Revista O Cristão – Moisés

O Véu no Rosto de Moisés

O povo de Israel havia, de modo irrefletido, entrado em uma aliança com Deus quando disse: “tudo o que o SENHOR tem falado faremos” (Êx 19:8). “E todo o povo viu os trovões e os relâmpagos, e o sonido da buzina, e o monte fumegando; e o povo, vendo isso retirou-se e pôs-se de longe. E disseram a Moisés: Fala tu conosco, e ouviremos: e não fale Deus conosco, para que não morramos” (Êx 20:18-19). Havia terror aqui, mas nenhuma escuridão; Moisés não tinha cobertura sobre o rosto quando desceu do monte após sua primeira permanência de quarenta dias (Êx 32). Os pecados do povo fizeram com que ele descesse. “E virou-se Moisés e desceu do monte com as duas tábuas do testemunho na mão, tábuas escritas de ambos os lados; de um e de outro lado estavam escritas. E aquelas tábuas eram obra de Deus; também a escritura era a mesma escritura de Deus, esculpida nas tábuas” (Êx 32:15-16). Aqui estava a aliança nas mãos do mediador; tudo era claro e conciso. “E aconteceu que, chegando Moisés ao arraial, e vendo o bezerro e as danças, acendeu-se-lhe o furor, e arremessou as tábuas das suas mãos, e quebrou-as ao pé do monte” (Êx 32:19). Esta ação foi cheia de significado. O povo havia quebrado a aliança; o mediador da aliança prestou testemunho e o julgamento seguiu. Nenhum véu foi necessário naquela ocasião; o mediador havia testemunhado que a aliança estava quebrada.

Intercessão 

Depois disso, ele intercede pelo povo, e Jeová propõe enviar um anjo para levá-los à terra de Canaã que Ele lhes havia prometido (Êx 32:30, 34; também 33:1‑3). Mas isso não poderia satisfazer o coração de Moisés; ele está perturbado e pede a Jeová que lhe mostre o Seu caminho e que Ele vá com eles. “Se Tu mesmo não fores conosco, não nos faças subir daqui. Como, pois, se saberá agora que tenho achado graça aos Teus olhos, eu e o Teu povo? Acaso não é por andares Tu conosco, de modo a sermos separados, eu e o Teu povo, de todos os povos que há sobre a face da Terra? Então disse o SENHOR a Moisés: Farei também isto, que tens dito; porquanto achaste graça aos Meus olhos, e te conheço por nome” (Êx 33:15-17). Moisés é encorajado, e continua sua intercessão e diz: “Então ele disse: Rogo-Te que me mostres a Tua glória” (Êx 33:18). Moisés tinha visto a glória de Deus de uma maneira maravilhosa quando a lei foi dada, mas na tenda da congregação erguida fora do arraial, Jeová havia falado com Moisés face a face, “como qualquer fala com o seu amigo” (Êx 33:11), e agora ele busca uma glória mais excelente do que a da lei, pois por trás da lei, permaneciam um caminho de Deus e uma glória de Deus, e a glória da lei serviu apenas para preparar e introduzir esse caminho e essa glória. E era esta glória que Moisés teve que ocultar, porque o tempo de sua manifestação segundo os conselhos de Deus ainda não havia chegado.

Essa glória revelada a Moisés é, na realidade, a glória de Deus na face (na Pessoa) de Jesus Cristo (2 Co 4:6). Foi assim proclamado: “Eu farei passar toda a Minha bondade por diante de ti, e proclamarei o nome do SENHOR diante de ti; e terei misericórdia de quem Eu tiver misericórdia, e Me compadecerei de quem Eu Me compadecer” (Êx 33:19). A soberania de Deus em graça é uma parte essencial de Sua glória. Israel arruinou a base de suas bênçãos, e seu único recurso permaneceu no próprio Jeová – veja Oséias 13:9. Quando tudo está perdido, então é a hora da graça se mostrar, mas a glória dessa graça deve ser contemplada do ponto de vista adequado.

Moisés seria colocado na fenda da rocha para que ele pudesse ver a glória. Para esse fim, Moisés, depois de ter lavrado duas tábuas de pedra como as duas primeiras que foram quebradas, sobe o monte Sinai pela segunda vez. “E o SENHOR desceu numa nuvem e Se pôs ali junto a ele; e ele proclamou o nome do SENHOR” (Êx 34:5). Depois de passar quarenta dias e quarenta noites no monte (Dt 10:10), Moisés desceu do Monte Sinai com as duas tábuas de testemunho na mão e “não sabia que a pele do seu rosto resplandecia, depois que falara com ele” (Êx 34:29).

Graça 

Existe um poder transformador inerente à graça. Quarenta dias de íntima comunhão com Deus haviam exercido uma influência maravilhosa sobre Moisés. Por um lado, ele havia aprendido, pela experiência de seu próprio coração, a bênção da graça com a qual ele tinha tido comunhão; por outro, ele permaneceu perfeitamente inconsciente do resultado visível que era o fruto dessa comunhão. Bem-aventurados somos se conhecermos o segredo da comunhão com a graça divina! O coração é revigorado, enquanto o crente é mantido num caminho humilde, admirando-se de que alguém olhasse para ele. De fato, podemos ter certeza de que nunca seremos usados no serviço de Deus até que passemos a considerar-nos como nada. Quando Deus faz resplandecer nosso rosto diante dos outros, devemos ser o último a saber disso.

O povo teme a glória na face de Moisés mais do que as duas tábuas em suas mãos. Tal é o homem! Ele está pronto para prometer obediência à lei por toda a vida, mas quanto mais Deus procura Se aproximar do homem em graça, mais ele se afasta.

Distância de Deus 

A distância de Deus é o elemento natural do homem, e de bom grado ele permanece a essa distância, mesmo quando se proclama que a cruz removeu todos os impedimentos, para que um pecador possa se aproximar de Deus. Jeová suportou um povo que estava sob a maldição de uma lei violada, e Moisés havia aprendido o caminho de Jeová. Mas foi justamente essa glória que ele foi obrigado a ocultar, para que “os filhos de Israel não olhassem firmemente para o fim daquilo que era transitório” (2 Co 3:13). Para Moisés, a questão da justiça humana sobre o princípio da lei foi resolvida. Ele poderia olhar para o fim: “Porque o fim da lei é Cristo para justiça de todo aquele que crê” (Rm 10:4). Mas a maioria em Israel não podia olhar além da lei, mas buscava a justiça por meio dela, enquanto estava o tempo todo sob a maldição. Deus, por Sua própria causa, não por causa da justiça deles, trouxe Israel temporariamente para a terra, mas no que diz respeito aos tratamentos individuais, Ele agiu como disse a Moisés: “terei misericórdia de quem Eu tiver misericórdia”. Todos, portanto, que foram vivificados por Sua graça, de acordo com esse princípio, podiam olhar além da lei e ver a glória na face de Moisés.

Enquanto o véu permanecesse na face de Moisés, a graça estava necessariamente oculta. Mas agora, diz o apóstolo, não há trevas. O ministério é o ministério das boas novas da graça de Deus (Ef 3:2; At 20:24), as boas novas da glória de Cristo, “o Qual é a imagem de Deus” (2 Co 4:4 – ARA), as boas novas do Deus bem-aventurado (1 Tm 1:11). Isso revela completamente a glória desta graça, cujos raios iluminavam o rosto de Moisés, e as tábuas da lei em sua mão não podiam ofuscá-lo. “A graça e a verdade vieram por Jesus Cristo” (Jo 1:17).

J. N. Darby (adaptado)

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