Origem: Revista Palavras de Edificação 20
O Que é Uma Seita?
A palavra “seita”, originária do grego “hairesis” (de onde vem a palavra “heresia” em português), aparece seis vezes em Atos dos Apóstolos (At 5:17; 15:5; 24:5; 24:14; 26:5; 28:22), além de 1 Coríntios 11:19, Gálatas 5:20 e 2 Pedro 2:1; e, significa uma determinada doutrina ou sistema (filosófico ou religioso) sobre cuja base se reúnem os seus simpatizantes. Porém, em nossos dias, o sentido da palavra “seita” recebeu uma conotação um pouco diferente, em razão de uma grande parte da cristandade, usar o título de igreja “católica”, ou seja, “universal”. A partir disto, qualquer denominação religiosa, qualquer congregação Cristã que não pertence à citada comunhão “católica” é vista por esta como um seita ou heresia. Desde então, a palavra tem recebido um sentido de reprovação ou vergonha.
Normalmente, se chama de “seita” (no sentido de partido, cisma ou divisão), qualquer congregação ou denominação Cristã, que esteja separada do conjunto dos demais Cristãos ou, pelo menos, daqueles que se identificam por este nome. Portanto, o vocábulo “seita” (ou “heresia”) leva mais ou menos em si a idéia de reprovação ou menosprezo, devido ao fato de que aqueles que integram a seita se reúnem sobre a base de uma determinada doutrina, ou sob a direção de um determinado homem. Não se pode dizer que esta interpretação do termo seja de todo errada. Sua aplicação talvez seja errada, mas a idéia não é. Assim é, absolutamente, necessário conhecermos os verdadeiros fundamentos, sobre cuja base nos congregamos. Porque tudo aquilo que não está fundamentado sobre estes princípios trata-se, de fato, de uma seita.
A verdade acerca da unidade da Igreja, seja a unidade de todos os crentes manifestada pessoalmente por eles no mundo (Jo 17), seja a unidade do corpo de Cristo formada pelo Espírito Santo (At 2; 1 Co 12:13), se reveste da maior importância para os Cristãos, apesar de que os chamados “católicos” tenham feito um mal uso destas verdades.
Assim, rogou o Senhor ao Pai, a respeito daqueles que haviam de crer n’Ele pela palavra dos apóstolos: “Para que todos sejam um, como Tu, ó Pai, o és em Mim, e Eu em Ti; que também eles sejam um em Nós, para que o mundo creia que Tu Me enviaste” (Jo 17:21). Esta é a unidade prática dos crentes em comunhão com o Pai e com o Filho. Os apóstolos, por obra de um só Espírito, haviam de ser unânimes em pensamentos, palavras e atos, como o são o Pai e o Filho na natureza divina (v.11). Assim também, os que haviam de crer n’Ele pela palavra dos apóstolos, são um em comunhão com o Pai e com o Filho (v.21). Seremos perfeitamente unidos lá em cima, na glória (v.22), mas temos que manifestar aqui e agora esta unidade, “para que o mundo creia…“ (Jo 17:21,23).
Mais tarde, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo veio do céu e batizou todos os crentes de então, em um só corpo espiritual, unindo-os a Cristo como um corpo está unido à cabeça, e manifestando essa unidade a este mundo (1 Co 12:13). É fácil entendermos que se trata sempre da unidade neste mundo – e não somente quando da glória vindoura – pois em 1 Coríntios 12:26 lemos: “De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele”. É evidente que ninguém padecerá no céu. E o Espírito Santo continua, acrescentando: “Ora vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular” (1 Co 12:27).
Todo este capítulo faz ressaltar a mesma verdade. As citações são suficientes para provar que se trata da Igreja de Deus. Vemos, desta forma, em que consiste a verdadeira unidade formada pelo Espírito Santo: em primeiro lugar, a união de todos os irmãos entre si, e vinculado a isto, a unidade do corpo.
O espírito sectário, é manifestado quando se busca reunir alguns crentes, sobre outra base de unidade, diferente da que acabamos de mencionar. Adotar como centro de união de vários Cristãos determinada doutrina, ou confissão de fé, para, deste modo, unir em um corpo aqueles que aderem à mesma confissão, é manifestar também um espírito sectário. Porque semelhante unidade, não se encontra enraizada na base bíblica da unidade do corpo de Cristo, nem tampouco na unidade dos irmãos. Se alguns – não importa se sejam duzentos ou trezentos milhões – se uniram desta maneira, com o objetivo de estabelecer uma congregação eclesiástica ou denominação qualquer, e se reconhecem entre si como membros de tal denominação, então eles formam de fato uma seita. Isto, porque o fundamento de semelhante agrupamento, não é o da unidade do corpo de Cristo, e seus seguidores não se reúnem como membros deste corpo (mesmo que o sejam individualmente), mas sim como membros de uma determinada denominação (seja ela chamada evangélica, romana ou ortodoxa) que não inclui todos os crentes.
Todos os crentes são membros do corpo de Cristo: um olho, uma mão, uma boca, um pé, etc. (1 Co 12:13-25). Ser membro de uma igreja, (em oposição às outras ou se fazendo distinto delas) é um conceito completamente estranho às Sagradas Escrituras. A Bíblia mostra a Igreja sobre a Terra como um corpo, do qual Cristo é a Cabeça (Ef 1:22-23; Cl 1:18).
Cada Cristão é um membro deste corpo, um membro de Cristo. Ser membro de uma determinada denominação é, como temos visto, um conceito completamente diferente. Uma vez que, a celebração da ceia do Senhor é a própria expressão da referida unidade (vemos isto claramente em 1 Co 10:17), se uma congregação de Cristãos, não admite à sua mesa ninguém além de seus partidários, forma-se uma unidade completamente oposta à unidade do corpo de Cristo, a qual Deus quer que seja manifestada sobre a Terra. Na verdade trata-se de uma seita, que nega assim a referida unidade do corpo. Por haverem muitos que são membros do corpo de Cristo e que, no entanto, não são membros daquela denominação, quando os membros dessa seita estão celebrando a ceia, não estão expressando a unidade do corpo de Cristo, mesmo que participem dela com um espírito piedoso.
Mas agora nos deparamos com uma dificuldade, pois alguém poderá dizer: “os filhos de Deus estão espalhados, muitos irmãos piedosos são membros desta ou daquela denominação e professam tal e tal doutrina em particular; ou estão, talvez, misturados com o mundo, mesmo que de uma forma religiosa”. Infelizmente isto é verdade; há muitos que não têm a menor idéia do que seja a unidade do corpo de Cristo; ou, o que é mais grave, negam a necessidade de manifestar tal unidade neste mundo. Mas tudo isso não invalida, nem por um momento sequer, a verdade de Deus! Aqueles que se reúnem das diferentes maneiras que temos descrito, na realidade não formam nada mais do que uma seita. Porém, se reconheço a todos os Cristãos como membros do único corpo de Cristo, se lhes manifesto amor, se os recebo – desde que andem em verdade e santidade – e invoquem o Senhor com um coração puro (2 Tm 2:19-22) com os braços abertos, inclusive à Mesa do Senhor, então (apesar de não poder me reunir com todos os filhos de Deus) não estou andando com um espírito sectário, pois meu caminhar espiritual está sobre o fundamento da unidade do corpo de Cristo, e procuro, na prática, a união de todos os verdadeiros crentes. Se estou reunido com outros crentes para celebrar a ceia do Senhor, unicamente como membros do corpo de Cristo; e, não como sócios de alguma sociedade ou denominação Cristã, seja ela qual for; se atuo verdadeiramente desta maneira, reconhecendo a unidade do corpo, e, estando disposto a receber a todos os Cristãos que andam em piedade e na verdade, então não sou membro de nenhuma seita, mas apenas do corpo de Cristo.
Sendo assim, qualquer reunião efetuada sobre outro fundamento (pouco importa como tenha se originado), com o objetivo de formar uma denominação ou sociedade eclesiástica é, portanto, sectária, pois “secciona” a unidade do corpo. O princípio fundamental é muito simples, mas as dificuldades para pô-lo em prática não são poucas, devido ao estado em que se encontra a Igreja de Deus. Mas Cristo há de ser suficiente para tudo, e se aceitarmos com um coração alegre o fato de sermos poucos ou desprezíveis aos olhos dos homens, então o assunto não parecerá tão complicado.
Portanto, uma seita, é qualquer corporação Cristã que esteja formada sobre qualquer outra base que não seja aquela da unidade do corpo de Cristo. Semelhante agrupamento, será formalmente uma seita, quando os seus integrantes se considerarem membros dela. Além disso, existe espírito sectário quando não se recebe, e nem se reconhece como crentes, outros Cristãos que não pertençam a um determinado grupo, mesmo que não levem o nome de alguma denominação. Deve ficar claro que, não estamos tratando aqui do assunto da disciplina que é exercida dentro da unidade do corpo de Cristo, mas sim do princípio sobre o qual se congregam. A Palavra de Deus, não reconhece, o fato de, alguém ser membro de alguma denominação eclesiástica, mas fala sempre e exclusivamente em relação a todos membros do corpo de Cristo. E todos esses membros são chamados a manifestarem sua unidade andando juntos no Caminho. Podemos considerar Mateus 18:20 como um poderoso encorajamento para estes dias de desunião e discórdia, nestes perigosos “últimos dias” (2 Tm 3:1). Ali, o Senhor nos prometeu estar em todos os lugares no meio de dois ou três que foram reunidos ao Seu Nome.
Em meio à confusão que nos rodeia, temos, em 2 Timóteo 2:20-22, uma bússola fiel a nos guiar pelo caminho: “Ora numa grande casa não somente há vasos de ouro e de prata, mas também de pau e de barro; uns para honra, outros, porém, para desonra. De sorte que, se alguém se purificar destas coisas, será vaso para honra, santificado e idôneo para uso do Senhor, e preparado para toda a boa obra. Foge também dos desejos da mocidade; e segue a justiça, a fé, a caridade, e a paz com os que, com um coração puro, invocam o Senhor”.
