Origem: Revista Palavras de Edificação 43

Mefibosete – A Bondade de Deus

Certa manhã, há muitos anos atrás, estava lendo Segunda Samuel, capítulo 9. Após lê-lo uma vez, pensei, “Que capítulo estranho, acerca de um jovem aleijado de ambos os pés”. Eu li novamente, e ainda não conseguia ver nada nele. Após lê-lo pela terceira vez, meus olhos pararam nestas palavras: “Decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jônatas, teu pai” (2 Sm 9:7). De repente, um pensamento brilhou em minha mente: “Ah! esta é uma figura da bondade de Deus, por meio de Jesus Cristo”. Que figura estava então perante mim – como uma bela paisagem ao romper da manhã. À medida que os anos passaram, a beleza dessa figura tem aumentado cada vez mais em minha mente. Por muitas vezes fui guiado a pregar a Cristo a partir desta figura, e raramente sem que almas fossem convertidas a Deus. Isso me encoraja a discorrer, em fé, sobre esta interessante porção da Palavra de Deus juntamente com meus leitores, confiando que Deus irá usá-la para bênção de muitas almas.

Nesta figura da bondade de Deus, há dois personagens – Mefibosete, no caráter de filho da graça; e Ziba, como o homem de justiça-própria. A condição de Mefibosete ilustra de forma notável o estado em que se encontra o pecador quando é colocado diante de Deus.

O homem conclui que Deus é seu inimigo 

Se você abrir no quarto versículo do quarto capítulo do mesmo livro (2 Sm 4:4), encontrará que ele era o filho de Jônatas, o filho de Saul, ambos já mortos nessa ocasião. Você verá que Mefibosete “caiu e ficou coxo”, e que desde sua queda esteve escondido, “aleijado de ambos os pés” (2 Sm 4:4), “em Lo-Debar” (2 Sm 9:4); em hebraico, significa um lugar “sem pasto”. Sendo da casa de Saul, que era inimigo de Davi, Mefibosete concluiu que Davi, sem dúvida, seria seu inimigo escondendo-se, por isso, de sua presença.

Com que perfeição isto ilustra a condição do homem caído. Tão logo o pecado cegou a mente de Adão, nós já o encontramos escondendo-se “da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3:8). E, porventura, não é exatamente esta a condição do homem, até hoje? Porque o homem atual está correndo para as coisas do mundo, ou para aquilo que agradável aos seus olhos? Ah! ele não conhece a Deus. Estando em inimizade com Deus, o homem conclui que Deus é seu inimigo, e teme Sua presença. O pensamento de estar hoje na presença de Deus seria por demais aterrorizante. Acaso este pensamento o amedronta, meu leitor? Ah! é porque você não conhece a Deus. Talvez você possa dizer: “Eu pequei, e isto me faz ter medo de Deus”. É verdade, você pecou; e eu também pequei; e todos pecaram. Mas se você soubesse o preço que Ele já pagou – se soubesse que Ele não poupou nem mesmo a Seu Filho querido – então você entenderia que Deus é o único a Quem você pode ir como um pecador – e ter a certeza de que “o sangue de Jesus Cristo, Seu Filho, nos purifica de todo o pecado” (1 Jo 1:7).

Não há nada neste mundo que possa fazer você feliz 

Mas vamos seguir com nosso capítulo. “E disse Davi: Há ainda alguém que ficasse da casa de Saul, para que lhe faça bem por amor de Jônatas?” (2 Sm 9:1). Não é esta, também, a presente obra do Espírito de Deus? Não há, ainda, nenhum dos filhos e filhas caídos de Adão, a quem possa ser mostrada a bondade de Deus? Não importa quão profundamente tenham caído; completamente coxo, coxo de ambos os pés, e verdadeiramente num lugar sem pasto? Ah! pobre pecador caído, onde quer que você esteja tentando se esconder de Deus, não há nada neste mundo de miséria e pecado, que possa fazer você feliz. Ou você pensa que há? Por acaso você já não tomou posse das ilusões de Satanás, ou depositou sua confiança nas vãs promessas deste mundo, até que seu pobre coração ficasse despedaçado em amargo desapontamento, e tudo tenha se transformado em triste vaidade? Escute, então, pois vou falar-lhe d’Aquele que não irá desapontá-lo.

Ziba, o homem de justiça-própria, “disse Ziba ao rei: ainda há um filho de Jônatas, aleijado de ambos os pés.Eis que está em casa de Maquir, filho de Amiel, em Lo-Debar. Então mandou o rei Davi, e o tomou” (2 Sm 9:3-5). Este “tomou” é algo maravilhoso. Isso nos fala da graça que é inteiramente de Deus. O homem mostra bondade àqueles que, conforme pensa, merecem. Ou então espera receber, algo em troca, digno de sua bondade. Não é assim com Deus. Mefibosete não fez coisa alguma para merecer bondade. Ele não teve que fazer sua parte primeiro, como dizem alguns. Não! A graça foi tomá-lo de Lo-Debar – [N.do R.: “e o tomou da casa de Maquir, filho de Amiel, de Lo-Debar” (2 Sm 9:5)], no próprio lugar onde estava. E, por acaso, não veio o Filho de Deus encontrar os pecadores, bem onde estes estavam? Ele veio para buscá-los, e os encontrou “mortos em nossos (seus) delitos” e pecados (Ef 2:5). E porventura Ele não ocupou o próprio lugar de juízo, e “morreu, uma única vez, pelos pecados, o Justo pelos injustos, para conduzir-vos a Deus” (1 Pe 3:18 – ARA)? Que caia vergonha eterna sobre cada fariseu orgulhoso que, depois de tudo isso, ainda venha a dizer: “O homem precisa fazer sua parte primeiro”.

Uma figura do trêmulo pecador 

Mefibosete era aleijado demais para fazer sua parte primeiro. Ele tinha que ser tomado (de Lo-Debar). E Aquele que conhece a total fraqueza do homem, tanto quanto esta atraente graça, disse: “Ninguém pode vir a Mim, se o Pai que Me enviou o não trouxer: e Eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6:44). E novamente: “Tudo o que o Pai Me dá virá a Mim; e o que vem a Mim de maneira nenhuma o lançarei fora” (Jo 6:37). Ah! Se não fosse por esta atraente graça, todos nós teríamos perecido, em nossos miseráveis esforços para nos esconder de Deus. E então, “vindo Mefibosetea Davi, se prostrou com o rosto por terra” (2 Sm 9:6). Que figura de temor e assombro. Sendo descendente de Saul, que caçava a vida de Davi, o que poderia Mefibosete esperar? No momento seguinte, a voz de austera justiça exigisse sua vida. Ali ele se prostra – uma figura do trêmulo pecador, colocado na presença de Deus, com o terrível fardo de culpa e pecado; ele não conhece a Deus – ele não sabe o que esperar.

Antes de ouvirmos as palavras de Davi, vamos voltar à aliança de amor, conforme revelada em 1 Samuel 20; Jônatas, o pai daquele jovem, caído aos pés de Davi, fala assim no versículo quatorze: “E, se eu então ainda viver, porventura não usarás comigo da beneficência do Senhor, para que não morra? Nem tão pouco cortarás da minha casa a tua beneficência eternamente E Jônatas fez jurar a Davi de novo, porquanto o amava; porque o amava com todo o amor da sua alma” (1 Sm 20:14-17).

Você já voltou a visitar o lugar onde passou sua infância, e aí viu pela primeira vez o filho de algum amigo já falecido? Então você poderá ter uma vaga idéia do que Davi sentiu quando olhou para Mefibosete, filho de Jônatas, caído aos seus pés. Quem poderá descrever a terna doçura daquela voz que falou do mais profundo do seu coração: “Mefibosete! Eis aqui teu servo” (2 Sm 9:6), é a trêmula resposta. Quão pouco ele esperava a graça incondicional que estava a ponto de ser mostrada a ele. “Eis aqui teu servo”, é o pensamento mais elevado que pode ter o homem caído. Ele atreve-se a se oferecer como um servo de Deus, e espera ser salvo ao menos por seu serviço. Esta é a religião de cada coração humano que não conhece a Deus.

Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência 

Mas agora ouça as palavras de Davi. Como o pai, na parábola do filho pródigo, ele interrompe Mefibosete. “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jônatas, teu pai, e te restituirei todas as terras de Saul, teu pai, e tu de contínuo comerás pão à minha mesa” (2 Sm 9:7). Ah! Deus é assim – sem condições, sem barganha. Não há condição, do tipo “se você fizer isto”, ou “se você não fizer aquilo”. Oh, não; é tudo pura graça! A bondade de Deus! “Usarei de bondade para contigo” (2 Sm 9:7 – ARA), e isso inteiramente para o bem de outra pessoa (Mefibosete). “E tu de contínuo comerás pão à minha mesa”. Acaso não foi assim na parábola em que Jesus revelou a desconhecida e ilimitada graça do coração do Pai? Houve alguma repreensão? Houve alguma condição? Não, “lançou-se-lhe ao pescoço (do filho) e o beijou” (Lc 15:20). Não é assim também a bondade de Deus? Estou deturpando a verdade ou, como Cristo fez, estarei revelando o verdadeiro caráter de Deus? É assim que Ele recebe o pecador perdido? Pergunto: serão também estas as Palavras que Ele tem para o trêmulo e miserável pecador, que só merece a perdição do inferno? Poderá Deus, apontando para a cruz de Cristo, dizer: “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência por amor de Jesus? Tudo isso, também, sem uma única condição. É tudo pura graça, fluindo de Seu próprio coração transbordante de amor.

Os homens teriam enviado um livro de instruções 

Oh, meu leitor, você conhece a Deus assim? “Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para conosco em Cristo Jesus” (Ef 2:4-7). Você pode dizer que esta é a sua porção? O homen teria enviado um livro de instruções ao jovem aleijado, para dizer-lhe como se arrepender, e como curar seus pés, e como se apresentar melhor e como fazer nem sei mais o quê. Mas não há nem uma só palavra assim aqui. Não, Mefibosete vem como está; nada mais foi exigido. Como poderia, se Davi estava tratando em conformidade com aquilo que havia em seu coração? Seu coração estava cheio de amor por Mefibosete. Acima de todas as coisas, Satanás irá empenhar-se em esconder do pobre pecador esta bondade de Deus. É quando Deus é verdadeiramente conhecido, que se entende que não há necessidade de homem algum sobre a terra, ou santo no céu, para abrandar Seu coração para comigo. Ele já está cheio de indizível amor.

Estará você, querido leitor, sentindo o fardo do pecado? E você tem se encontrado perplexo com os longos livros de instruções escritos pelos homens dizendo como você deve se arrepender, e como você deve se sentir, e como você deve agradar a Deus e fazer com que Ele o salve? Talvez alguém lhe diga para ser o oposto de Colossenses 2:20[3], tanto quanto possível; e que, guardando as ordenanças e os sacramentos dos homens, você poderá ter a esperança de ser salvo. Outro, com um efeito igualmente mortífero, é provável que diga que você deve passar por esta ou aquela experiência antes que Deus o receba. Isto é, eles de bom grado irão querer persuadi-lo de que você não está tão completamente caído; que você é apenas aleijado um pouco de um pé, e que você tem que tão somente fazer de Cristo uma muleta e, com Sua ajuda, você vai poder seguir em frente até que razoavelmente bem. Na verdade, o ponto onde querem chegar é que você pode, de alguma forma, merecer o céu.
[3] N. do R.: “Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo” (Cl 2:20)

Ponha sua confiança em Deus 

Portanto se você estiver de certo modo desnorteado e perplexo, deixe-me rogar-lhe que se cale e dê ouvidos a Deus, e abandone todos os meios de salvação indicados por homens. Deposite sua confiança em Deus; conforme revelado na cruz de Cristo. – Talvez você esteja prestes a dizer com espanto: Você, então, pretende negar o arrependimento completamente? Longe, muito longe disso está o meu desejo. E talvez poucas passagens da Palavra de Deus mostrem mais claramente do que isso, o que é o arrependimento e o verdadeiro lugar do arrependimento, ou que mostrem de maneira mais impressionante o que o produz.

Tão logo aquela torrente de graça incondicional foi derramada dentro do temeroso coração de Mefibosete, ele “se inclinou, e disse: Quem é teu servo, para tu teres olhado para um cão morto tal como eu?” (2 Sm 9:8). É assim que a bondade de Deus conduz ao arrependimento. O pecador é introduzido na presença de infinita graça, e também de infinita santidade. O verdadeiro caráter de Deus é revelado ao pecador em Cristo Jesus. Então ele escuta as mais doces palavras de divino amor: “Não temas, porque decerto usarei contigo de beneficência” (2 Sm 9:7). E o efeito disso é inclinar-se ao pó, sensibilizado por essa irresistível graça. É este o “arrependimento para a vida” (At 11:18). Mas devo lhe dizer, meu leitor, que você deve se arrepender antes de vir a Cristo? Não, eu deveria pensar em pedir-lhe para se aquecer primeiro, antes de vir para próximo do fogo, se eu te visse morrendo no frio e na tempestade.

Mas, se não estou enganado, há muitos que entendem como arrependimento um tipo de reerguimento de si mesmo; uma melhoria de si mesmo por meio da qual você consegue fazer com que Deus mude de idéia a seu respeito, como se Ele fosse nosso inimigo, um Ser irado e necessitasse de nossas boas obras para voltar Seu coração para nós. Acaso houve necessidade de alguma mudança no pensamento de Davi? Não; seu coração estava cheio de amor. E para que haveria necessidade de alguma mudança no pensamento de Deus? O que é a cruz de Cristo, além da expressão do amor de Deus para com os pecadores perdidos? Agora, meu leitor, se você conhecesse a bondade de Deus para com você, como foi demonstrada em Seu Filho Jesus Cristo e em Sua morte expiatória, isto produziria instantaneamente uma completa mudança de pensamento em você. E quanto mais você conhecesse a gratuidade desse precioso amor, mais você se humilharia, se inclinaria ao pó, diante d’Ele. Aquilo que você talvez esteja tentando em vão produzir em si próprio, como algo preliminar à salvação, ou como algo para merecê-la, seria produzido no momento em que cresse no maravilhoso amor de Deus.

A religião do servo 

Agora, note, o contraste entre estes dois homens – Ziba, o servo, e Mefibosete, o filho – Davi chama a Ziba, e lhe dá mandamentos, os quais ele concorda guardar. “Conforme a tudo quanto meu senhor, o rei, manda a seu servo, assim fará teu servo” (2 Sm 9:11). A mesma coisa que Israel tolamente se comprometeu a fazer no Sinai – e a mesma coisa que milhares estão se comprometendo a fazer em nossos dias, os quais abandonaram o Cristianismo, voltando a uma forma de judaísmo – sim, e temo que nove em cada dez que lêem esta página, pertençam à religião do servo, e não do filho.

Que contraste pode ser visto nas palavras de Davi dirigidas ao filho em pura graça. “Tudotenho dado” (2 Sm 9:9). “Mefibosetede contínuo comerá pão à minha mesa” (2 Sm 9:10). “Mefibosete comerá à minha mesa como um dos filhos do rei” (2 Sm 9:11); “Morava pois Mefibosete em Jerusalém, porquanto de contínuo comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés” (2 Sm 9:13).

Nenhuma palavra de graça dirigida ao servo, e nenhum mandamento dirigido ao filho. Um mostra o serviço de uma servidão pela lei; o outro, a adoração da mais profunda afeição do coração.

Feliz é a sua porção, filho da graça! Deus deu a você vida eterna. Não mais um servo, mas um filho nobre, real, à mesa de seu Senhor. Nem sequer um sacramento para ajudar a salvá-lo, mas o sentar-se de contínuo à mesa de seu Senhor, partindo e comendo daquele pão, e bebendo daquele cálice, que o faz recordar do corpo ferido e do sangue derramado de Cristo, pelo que você é salvo. Sim, Deus lhe deu o Pão da Vida, do qual você deverá sempre se nutrir.Porque você se alimenta continuamente de Jesus? Deus quis assim. Ele disse isso, e será feito. Se você é um crente, você é um filho, sua condição e posição não pode ser de um servo. “Mas, a todos quantos O receberam [receberam a Cristo], deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus; aos que crêem no Seu nome” (Jo 1:12). “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo” (Rm 8:17).

O filho será sempre filho 

Quão imensamente importante, é ter entendimento deste maravilhoso relacionamento. Certamente você deve ver que há uma grande diferença entre o relacionamento de um servo e o de um filho. O servo não permanece para sempre, mas o filho será para sempre filho. Dessa forma, a graça trouxe Mefibosete de seu lugar de temor e inimizade, dando-lhe, de uma só vez, todos os privilégios de filiação, sem uma única condição. Vimos o efeito disso nele, demonstrado numa total reverência de si mesmo; sim, descobriremos seu coração apegando-se a Davi para sempre.

A fria incredulidade diria: “Sim, é verdade, ele era um pobre e coitado aleijado antes de ser levado a Davi, e tornado filho de um Rei. Mas certamente ele nunca poderia desfrutar do privilégio de sentar-se à mesa real, e continuar a ser um pobre e coitado aleijado”. Este argumento existe, porque não são poucos os que admitem que, é tão somente a graça que traz um pobre pecador, perdido e aleijado, a Cristo, mas que no entanto imaginam que, depois de trazidos a Cristo, a continuidade desta condição e a salvação final dependem, de alguma forma, de seu próprio andar e de sua obediência. Este é um engano muito desconcertante e torturante. Se fosse verdade, ai de nós! Quem poderia ser salvo? Todo crente que conhece seu próprio coração responderá: “Eu não!” Se minha salvação final dependesse de mim por apenas uma hora, eu não ousaria ter sequer esperança de ser salvo. Você ousaria? Porém, o que vemos nesta figura divinamente inspirada da bondade de Deus? “De contínuo comia à mesa do rei, e era coxo de ambos os pés” (2 Sm 9:13). Preciosa graça!

“A graça que me buscou e me encontrou,
Sozinha pode me manter lá”.

O crente, com frequência, fica extremamente espantado, quando descobre que, apesar de toda a força própria que pensa possuir para manter-se firme na hora da tribulação, é tão fraco agora quanto antes. E se ele, por um momento, esquecendo sua posição que em graça tem como filho, e comece a tentar andar como servo, ele acabaria ocupado com seus pobres pés aleijados. Ao descobrir que, como um servo sob a lei, não pode agradar a Deus, ele estaria pronto a desistir de tudo em desespero. Querido leitor, talvez você tenha sido golpeado dessa maneira. Você pode ter olhado para o seu pobre andar coxo, até ter dito em seu coração: “Certamente eu não posso mesmo ser um filho de Deus!” Ah! você nunca poderá ter paz olhando para seus pés aleijados. Coloque-os debaixo da mesa, e olhe para aquilo com que Deus, em Sua infinita graça, tem colocado sobre a mesa. Ele coloca diante de nós a lembrança (memória) de Cristo. Tudo o que somos em nosso pobre, desventurado e aleijado ser, foi julgado e posto de lado pela cruz. E Deus considera nosso velho ser morto e sepultado fora de Sua vista. Ele nos vê agora ressuscitados com Cristo; sim, n’Ele próprio, sentados nos lugares celestiais.

Oh! sim, é bem verdade, o crente é, em si mesmo, tão aleijado depois de sua conversão quanto ele era antes. No entanto, ele tem uma nova vida – tem agora uma nova natureza, a qual não tinha antes; e tem o Espírito Santo habitando nele. Mas ainda sua velha natureza, chamada carne, continua sendo o que sempre foi. O que deve fazer então? Não ter absolutamente nenhuma confiança na carne; mas reconhecer a graça que o fez ser de Cristo, e que o manterá sendo d’Ele para sempre. Coloquemos, portanto, nossos pés debaixo da mesa, e alegremo-nos com as riquezas da divina graça que estão dispostas diante de nós. É quando chegamos ao final de toda a esperança em nós mesmos, o fim de todos votos feitos, de todas nossas resoluções – quando realmente reconhecemos a completa ruína do velho homem – quando a seguir desfrutamos aquela calma e tranquila dependência em Cristo, na qual começamos a perceber o poder de Sua ressurreição em uma vida santa. [tradução da versão atual: em comunhão de Quem encontramos o poder para uma vida santa.] Porém a carne, em sua justiça-própria, vai dar um bocado de trabalho antes de se deixar considerar morta (Rm 7).

A bondade de Deus para com um mundo culpado 

O assunto do capítulo seguinte (2 Sm 10), é a bondade sendo demonstrada e rejeitada; com o consequente juízo que se segue. Trata-se do grande pecado que é digno de condenação. A bondade de Deus para com um mundo culpado tem sido demonstrada. “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho Unigênito, para que todo aquele que n’Ele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3:16). Que bondade! Mas ouça estas solenes palavras: “Quem não crê já está condenado”. (Jo 3:18). Se você que lê estas linhas for alguém que rejeita a bondade de Deus demonstrada na dádiva de Seu filho, pense bem; oh! pense bem em sua condenação eterna!

Gostaria de prosseguir, rapidamente, com a história desses dois homens – tipos, como foram, de todos neste dia que encontraram a graça e a salvação em Deus, ou que estão tentando ser salvos pela guarda de Seus mandamentos.

Em 2 Samuel 15, temos registrada a rebelião de Absalão. Davi, o verdadeiro rei, é rejeitado; e quando abandona Jerusalém, é notável observarmos que ele atravessa o mesmo riacho que o Jesus rejeitado cruzou anos depois. “E toda a terra chorava a grandes vozes, passando todo o povo: também o rei passou o ribeiro de Cedrom” (2 Sm 15:23). Quando Jesus atravessou, por aquele ribeiro, na noite de Sua rejeição, os poucos que passaram com Ele não puderam vigiar nem uma hora. E, “subiu Davi pela subida das Oliveiras, subindo e chorando” (2 Sm 15:30). Foi a esse monte que Jesus levou Seus discípulos, quando, havendo sido rejeitado por aqueles por quem viera e tendo morrido, havendo Deus O ressuscitado dentre os mortos, subiu ao céu – rejeitado pelo mundo, mas recebido em glória nas alturas.

Que pretendes com isso? 

É aqui, quando Davi é assim rejeitado, e após haver passado pelo Monte das Oliveiras, que encontramos exposto o caráter de Ziba, o servo (Leia 2 Sm 16:1-4). A primeira coisa que vemos é uma grande exibição de serviço ao seu rei – jumentos carregados de pão, frutas e vinho. “Que pretendes com isto?” (2 Sm 16:2), pergunta o rei. “Onde está, pois, o filho do teu senhor (Mefibosete)?” (2 Sm 16:3). Ziba diz ao rei que Mefibosete “ficou em Jerusalém” para tentar tomar posse do reino. Realmente, aquilo tudo dava uma aparência de que Ziba, o homem de justiça-própria, tinha a melhor religião. Sim, e à vista, é isto o que sempre tem parecido ser. Mas Deus conhece os segredos de todo coração. Para toda aparência exterior, parecia existir um grande zelo e devoção em Ziba; e ele tinha uma boa oratória. Mas, por dentro, tudo não passava de hipocrisia.

Por fim chega o dia da volta de Davi, o rejeitado (2 Sm 19:24-30), e Mefibosete sai para encontrá-lo. Sim, e o dia da volta do Senhor Jesus[4], o rejeitado logo chegará; e todo aquele que é filho da graça, esteja ele dormindo no pó, ou vivo quando Ele vier, sairá para encontrá-Lo nos ares – [Os que morreram em Cristo ressuscitarão primeiro. Depois nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor”] (1 Ts 4:15-18).
[4] N. do T.: Mefibosete falando da volta de Davi à Jerusalem, uma figura da volta do Senhor Jesus para os Seus. “Já veio o Rei meu Senhor em Paz à Sua casa” (2 Sm 19:30)

Mas a vossa tristeza se converterá em alegria 

E agora, o verdadeiro caráter de ambos é revelado. Mefibosete, “não tinha lavado os pés, nem tinha feito a barba, nem tinha lavado os seus vestidos desde o dia em que o rei tinha saído até ao dia em que voltou em paz” (2 Sm 19:24). A bondade de Davi havia conquistado seu coração. Aquele coração pulsava de afeição para o rei rejeitado; e sua afeição era muito profunda para permitir que ele ocupasse na terra, qualquer outro lugar que não fosse o de um triste enlutado, esperando pela volta daquele a quem amava. E, porventura, não foi com isto que Jesus contava na noite de Sua rejeição? “Um pouco, e não Me vereis, e outra vez um pouco, e ver-Me-eis? Na verdade, na verdade vos digo que vós chorareis e vos lamentareis, e o mundo se alegrará, e vós estareis tristes; mas a vossa tristeza se converterá em alegria” (Jo 16:19-20). Oh! quão pouco temos correspondido ao coração de nosso rejeitado Senhor! Nada posso fazer, senão culpar meu próprio esquecimento de Cristo, se me coloco em qualquer outro lugar que não seja aquele em que Mefibosete se colocou – o lugar de um triste enlutado, esperando pela volta d’Aquele a Quem amo.

Quão doce é a confiança que a graça dá 

Mas e as frutas, o pão e o vinho? “Por que não foste comigo, Mefibosete?” (2 Sm 19:25) E agora a verdade é tornada manifesta. Foi ele quem havia providenciado os jumentos carregados de frutas. Porém, por Mefibosete ser aleijado, Ziba adiantou-se a montar o jumento, tomando, assim, com hipocrisia, o lugar de Mefibosete. E note agora o profundo efeito da graça. Mefibosete diz: “Faze pois o que parecer bem aos teus olhos. Porque toda a casa de meu pai não era senão de homens dignos de morte diante do rei meu senhor; e contudo puseste a teu servo entre os que comem à tua mesa” (2 Sm 19:27-28). Quão doce é a confiança que a graça dá! Acaso você, leitor, tem a firme confiança de que Deus lhe deu, em pura graça, um lugar em Sua própria mesa? Se assim for, como você poderia deixar de almejar, com puro gozo, pela vinda do Senhor Jesus?

“E disse-lhe o rei: Por que ainda falas mais de teus negócios? já disse eu: Tu e Ziba reparti as terras” (2 Sm 19:29). É maravilhosa a resposta de Mefibosete: “Tome ele também tudo: pois já veio o rei meu senhor em paz à sua casa” (2 Sm 19:30). Não era a terra que ele queria; não, seu maior desejo havia sido realizado. Era a pessoa daquele que lhe havia demonstrado tamanha bondade.

Eles esperavam por Jesus vindo do céu 

E não é assim, onde a graça conquistou o coração para Cristo? Não são as coisas da Terra. “E, na verdade”, diz o apóstolo, “tenho também por perda todas as coisas, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor” (Fp 3:8). Oh, que possamos ser mais como Mefibosete – mais como os santos em Tessalônica – esperando pelo Filho de Deus vindo do céu – “E esperar dos céus a Seu Filho, a Quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura” (1 Ts 1:10). – Mefibosete havia recebido a bondade de Davi com a mais completa confiança; a despeito de sua condição de aleijado, ele nunca duvidara da realidade do amor de Davi, mas havia aguardado pacientemente pelo retorno de Davi, suportando toda afronta, até que chegasse o tempo. Os tessalonicenses também receberam as boas novas da graça de Deus em poder e no Espírito Santo, e em muita confiança – e por isso suportavam com paciência, e mesmo com gozo, todo insulto e aflição proveniente das mãos de seus inimigos. E qual era o poder secreto disso? Eles esperavam por Jesus vindo do céu. Os verdadeiros filhos de Deus sempre foram odiados e caluniados. – Sim, muitas vezes queimados na fogueira. – Por esses orgulhosos guardadores da lei para a salvação.

Mas que dia está para chegar! Quem pode dizer quão cedo chegará Aquele a Quem esperamos? Suas derradeiras palavras foram: “Certamente cedo venho. Amém. Ora vem, Senhor Jesus” (Ap 22:20). Davi voltou; e o Senhor de Davi não voltará? Sim, nossos olhos logo irão vê-Lo. Oh, bendita e brilhante esperança! Não esperamos pelo Milênio. Não esperamos pelo cumprimento das profecias. Todas estas coisas são benditas em seu próprio lugar – mas é o próprio Jesus que o crente, que foi lavado em Seu salgue, anseia ver.

Dia do Julgamento 

Esta belíssima ilustração se estende ainda mais adiante, – o dia do julgamento da casa de Saul. “Porém o rei poupou a Mefibosete, filho de Jônatas, filho de Saul, por causa do juramento do Senhor, que entre eles houvera, entre Davi e Jônatas, filho de Saul” (2 Sm 21:7). Isso encerra a história deste filho da graça. E muito depois de Jesus ter retornado, e Seu reino tiver sido estabelecido; quando a Igreja de Deus já estiver há muito desfrutando da glória celestial de Cristo, e Israel estiver desfrutado da glória do Reino sobre a Terra; sim, mesmo depois que o grande trono branco tiver sido estabelecido, e quando os filhos caídos de Adão estiverem diante do trono; então, nenhum que foi contado na família da graça, nos conselhos da eternidade, nenhum, nem mesmo um único, será perdido.

Mas onde estarão os pecadores negligentes, e aqueles que tentam fazer algo pela sua própria salvação, aparecerão naquele dia? Ache-me um homem que professe ser um guardador da lei, e que não seja um transgressor da lei. Prezado leitor, poderia algum de nós permanecer diante daquele trono apoiado em nossas próprias obras? Impossível. Com certeza, o homem que pretende parecer melhor que seu vizinho, deve ser um hipócrita, pois Deus diz: “Não há diferença. … todos pecaram” (Rm 3:22-23). Não, não! não é pelas obras que qualquer pecador pode ser salvo. Se você puder encontrar um homem que não seja pecador, bem, deixe que ele tente. Mas um pecador necessita de perdão. “E sem derramamento de sangue não há remissão” (Hb 9:22).

Bendito Jesus, Tu suportaste a ira, a maldição, o juízo, pelos pecados do Teu povo; e agora Sua bondade desimpedida, e a paz eterna, formam a feliz porção de cada alma que repousa em Ti. Olhe para a cruz, querido leitor, e ouça. Deus não está lhe dizendo algo ali? “Decerto usarei contigo de beneficência” (2 Sm 9:7).

O fruto de uma fé salvadora 

Mas será que não haverá obras, em troca disso? Oh, sim, haverá um serviço verdadeiro, profundo, de coração – que é o fruto da fé salvadora. Quantas são as obras que parecem boas diante dos homens e são, na realidade, nada aos olhos de Deus! Os homens se sobrecarregam com pesados fardos de obras de justiça-própria; e, no entanto, o que são todas essas obras, além da mera rejeição da imerecida bondade de Deus?

Quanto mais profunda for sua certeza da imutável bondade de Deus demonstrada a você, um indigno pecador, mais profunda será sua aversão ao pecado, e mais completo o seu gozo em um serviço devotado de todo o coração a Cristo; e mais seriamente, embora pacientemente, você irá aguardar por Sua volta vindo do céu.

C. Stanley

Compartilhar
Rolar para cima