Origem: Revista Palavras de Edificação 6

Sobre O Evangelho De Mateus

(Continuação do Número Anterior)

Capítulos 5:1 A 16

“E Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-Se, aproximaram-se d’Ele os Seus discípulos; e, abrindo a Sua boca, os ensinava (vs.1-2). Na passagem anterior (Mt 4:23-25) lemos sobre o benigno ministério do Senhor Jesus, o Messias de Israel, dos Seus atos maravilhosos como divino Médico. A Sua fama correu por todas as partes.

“E seguia-O uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia, e dalém do Jordão” (Mt 4:25). Convinha, então, que o Senhor anunciasse quais eram os princípios do Seu reino, para que não só os Seus discípulos, como muitas pessoas que O seguiam, se dessem conta deles. Foi assim que, Jesus Se sentou para os ensinar, dizendo: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus” (v.3). Desde o começo do ensino do Senhor, vemos que Ele é completamente contrário aos princípios que regem os reinos dos homens. A soberba caracteriza-os, mas a humildade, que é aqui recomendada, caracteriza o reino de que aqui se fala. Cristo personifica essa humildade (Mt 11:29).

“Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados” (v.4). Os que sofrem são frequentemente desprezados. Ninguém os quer nem se preocupa pelo seu bem estar. Choram pela falta de justiça, mas eles terão consolação! “E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima” (Ap 21:4). Jesus mesmo foi, naquele tempo, “homem de dores” (Is 53:3), mas virá a ser homem de alegria quando tiver a Sua amada Esposa (que é a Igreja) a Seu lado: quer dizer, quando estiver reunida com Ele a grande multidão dos redimidos, na casa do Pai. “O trabalho de Sua alma Ele verá, e ficará satisfeito” (Is 53:11).

“Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra” (v.5). Os mansos não são exigentes, nem tão pouco insistem nos seus próprios direitos. A mansidão nos é recomendada em Efésios 4:2, juntamente com a humildade. É um fruto do Espírito (Gl 5:23). Jesus mostrou-a perfeitamente (Mt 11:29). Os salvos receberão o céu como herança. Mas um futuro há de vir em que os judeus, que se arrependerem, hão de herdar a terra: a Palestina.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos” (v.6). Aquele que respeita Deus porque o ama, anseia por ver a justiça. Mas o fato é que hoje em dia não há justiça na Terra: “Se vires em alguma província opressão de pobres, e a violência em lugar do juízo e da justiça, não te maravilhes de semelhante caso; porque o que é mais alto do que os altos para isso atenta; e há (Um) mais alto do que eles! (Ec 5:8). Mas aproxima-se o dia glorioso em que “reinará um Rei com justiça! (Is 32:1). Esse Rei será Cristo!

“Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia” (v.7). Aquele que recebeu misericórdia, deve também demonstrar misericórdia, uma atitude misericordiosa para com todos, até para com o seu inimigo. Assim fez Cristo.

“Bem-aventurados os limpos de coração; porque eles verão a Deus” (v.8). No seu sermão chamado “da montanha”, o Senhor não falou da redenção, mas do caráter do reino e de quem lá poderá entrar. Mas é evidente que não haverá ninguém “limpo de coração” senão pela virtude do precioso sangue de Cristo e pelo meio mencionado em Atos 15:9: “purificando os seus corações pela fé [purificando-lhes pela fé o coração – ARA].

“Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus” (v.9). “Mas Deus chamou-nos para a paz” (1 Co 7:15). E Ele é o “Deus de paz” (Rm 16:20). Convém pois que o crente seja um pacificador, um imitador de Deus: “Sede pois imitadores de Deus, como filhos amados” (Ef 5:1).

Cristo deixou-nos um exemplo sublime: “Havendo por Ele feito a paz pelo sangue da Sua cruz” (Cl 1:20).

“Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus” (v.10). O fato de que há perseguição por causa da justiça demonstra que desde o principio o Senhor viu que “o mundo está no maligno” (1 Jo 5:19). Uma pessoa não pode viver neste mundo, santa e justamente, sem ser perseguido. Pedro diz-nos: “Ora, pois, já que Cristo padeceu por nós na carne, armai-vos também vós com este pensamento, que aquele que padeceu na carne já cessou do pecado” (1 Pe 4:1). Não se pode esperar outra coisa de alguém que é de Cristo e que deixa que a luz de Cristo brilhe por ele.

“Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e mentindo, disserem todo o mal contra vós por Minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque é grande o vosso galardão nos céus; porque assim perseguiram os profetas que foram antes de vós” (vs.11-12).

“Vós sois o sal da Terra; e se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo: não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte; nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. Assim resplandeça a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai, que está nos céus” (v.13-16). O sal dá sabor. Se o cristão é fiel, o mundo saberá reconhecer isso; se o cristão é infiel, o mundo irá assinalá-lo e desprezá-lo e, o que é pior, recusará o seu testemunho. A luz tem que iluminar. Não há outra luz no mundo senão a dos crentes em Cristo. Não convém esconder essa luz “debaixo do alqueire” (uma espécie de medida de cereais), ou, segundo Marcos 4:21, “debaixo da cama” (da indolência). E, a luz do crente deve brilhar, de maneira que os homens atribuam as suas boas obras, não aos cristãos, mas ao seu Pai celestial, glorificando-O.

É aqui que pela primeira vez o Senhor menciona o nome de “Pai”. Ele põe os Seus discípulos em ligação com Deus o Pai, ao qual devem imitar, sendo que Deus é também Quem cuida e protege os cristãos num mundo manifestamente hostil.

(continua, querendo Deus)

Pensamento: 

Não é justo notar as faltas dos outros, a fim de fazer esquecer as nossas…

Pensamento: 

Cristo dava testemunho enquanto Pedro O negava. E também orava enquanto Pedro dormia…

Pergunta: 

Alguém nos pede um esclarecimento do significado de três diferentes “Evangelhos” mencionados no Novo Testamento: o do reino, o da graça de Deus, e o evangelho eterno.

O Evangelho do reino. Este tem dois aspectos.

1. O do reinado de Cristo sobre toda a Terra, adiado quando os judeus recusaram Cristo, mas, que será realizado com poder, quando Ele tornar a vir segunda vez. João Batista anunciou o reino: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 3:2). Quando o Senhor Jesus anunciou o Seu ministério, pregou também esse reino: “Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus” (Mt 4:17)[1]. Mas os judeus não quiseram arrepender-se e crucificaram o seu Rei. E não só isso mas quando Estevão testemunhou: “Eis que vejo os céus abertos, e o Filho do Homem, que está em pé à mão direita de Deus” (At 7:56). Os judeus resistiram ao Espírito Santo pela última vez. Cristo estava em pé, pronto a tornar a vir e a estabelecer o reino se eles se arrependessem. Mas não quiseram. Com isso se cumpriu a parábola que o Senhor Jesus havia dito (Lc 19:11-14). O martírio de Estevão pelos judeus representou simbolicamente aquela “embaixada” que foi enviada, dizendo: “Não queremos que este reine sobre nós” (Lc 19:14). O estabelecimento do reino foi, então, adiado.
[1] N.R.: Ver também (Mt 10:7) – O evangelho do reino também foi pregado pelos apóstolos.

2. O outro aspecto do reino intitula-se “o reino de Deus” (Lc 9:2). Este refere-se ao seu caráter moral, inteiramente à parte das questões das dispensações. Basta citar alguns versículos para demonstrar o significado da expressão “o reino de Deus”. “Ninguém, que lança mão do arado e olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9:62); “aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (Jo 3:3,5). “Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo” (Rm 14:17). “Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? (1 Co 6:9).

Uma prova muito clara de que a expressão “o reino de Deus” tem a ver com o seu caráter moral é esta passagem: contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. E agora, na verdade, sei que todos vós, por quem passei pregando o reino de Deus, não vereis mais o meu rosto” (At 20:24-25).

O “evangelho da graça de Deus”, ainda que seja dispensacional, é diferente do “reino dos céus”; contudo no seu caráter moral, é “reino de Deus”.

Depois do martírio de Estevão, o Senhor chamou a Saulo de Tarso, e lhe mandou que pregasse, não o evangelho do reino, mas sim que pregasse a todo o pecador tanto gentios como judeus, “o evangelho da graça de Deus“. Este evangelho, ou seja, as boas novas, torna justo aquele que crê no Senhor Jesus Cristo, e confirma-o com o selo do Espírito Santo, e une-o com os outros crentes pelo poder do Espírito Santo num só corpo espiritual, do qual Cristo é a Cabeça, e dá-lhe a esperança celestial: estar com Cristo na glória para todo o sempre (At 16:31; Rm 3:21,26; 4:23-25; 5:1-2; Ef 1:13-14; 1 Co 6:17; 12:13,27; Ef 1:22-23; Cl 1:18,27; 1 Ts 4:16,18).

A época da pregação do evangelho da graça de Deus terminará com a saída do mundo de todos os que foram salvos – os cristãos – quando vier o Senhor (1 Ts 4:16). Então, terá lugar a pregação do evangelho do reino do Deus. Uma vez que os redimidos tiverem sido arrebatados ao céu com Cristo, Ele despertará os judeus que não ouviram, e portanto não rejeitaram o evangelho da graça de Deus (visto que não haverá segunda oportunidade de salvação, para os que o recusaram – 2 Ts 2:10-12), e eles se darão conta de que Jesus Cristo era o seu Messias, a Quem crucificaram, e se arrependerão e irão imediatamente após isso, com uma energia imensa, por toda a parte pregando “este evangelho do reinoem todo o mundo, em testemunho a todas as gentes, e então virá o fim” (Mt 24:14).

“O fim” quer dizer a série de juízos com que Deus vai castigar o mundo incrédulo. Os detalhes desse juízos que hão de vir, estão descritos em Apocalipse. Serão terríveis! O Senhor profetizou deles nestas palavras: “Haverá então grande aflição, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem tão pouco há de haver” (Mt 24:21).

O “evangelho eterno” (Ap 14:6). Para entender qual seja o caráter desse evangelho consideremos o contexto da passagem referida. No capítulo Ap 9:20-21 o resto dos homens que “não foram mortos” com as pragas descritas nos capítulos anteriores, “não se arrependeram” da sua maldade. O fim está próximo: no capítulo 10, (Cristo) o anjo forte” (Ap 10:1) anuncia que “se cumprirá o segredo de Deus” (Ap 10:7). No capítulo 11 descreve como as “duas testemunhas” (Ap 11:3) profetizarão no Nome do Senhor e como serão martirizadas ao final desse testemunho.

O capítulo 13 descreve a atitude de blasfêmia da parte das duas bestas; o imperador romano e o anticristo e a sua perseguição contra “os santos” (Ap 13:7) daquele tempo, quer dizer, daqueles que creram no “evangelho do reino” de Cristo. Isso será o cúmulo; o juízo severo de Deus irá cair sobre os iníquos. Mas Deus, que é longânimo, muito bondoso, dá ainda a última oportunidade dos homens se arrependerem, e manda, não a um homem, mas a um anjo que voe “pelo meio do céu” (onde todos o possam ver), segurando o “evangelho eterno, para o proclamar aos que habitam sobre a Terra, e a toda a nação, e tribo, e língua, e povo” (Ap 14:6). O que ele vai pregar? Será: “crê no Senhor Jesus Cristo e serás salvo? Não. Será: “Crê no Filho do homem que agora vai estabelecer o Seu reino na Terra? Não. O que então? “Temei a Deus, e dai-Lhe glória; porque vinda é a hora do Seu juízo. E adorai Aquele que fez o céu, e a Terra, e o mar, e as fontes das águas” (Ap 14:7).

É um aviso solene para quem reconhece Deus como o Criador. Por que se chama o “evangelho eterno” visto que a sua proclamação não é eterna, mas dura muito pouco tempo?

Desde o princípio da criação, os céus a Terra têm sido um testemunho permanente e inequívoco para o ser humano de que há um Criador: “Os céus manifestam a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das Suas mãos. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. Sem linguagem, sem fala, ouvem-se as suas vozes, em toda a extensão da Terra, e as suas palavras até ao fim do mundo” (Sl 19:1-4). E o Senhor pergunta: “A quem pois Me fareis semelhante, para que lhe seja semelhante? Diz o Santo. Levantai ao alto os vossos olhos, e vede Quem criou estas coisas, Quem produz por conta o seu exército, Quem a todas chama pelo seu nome; por causa da grandeza das Suas forças, e pela fortaleza do Seu poder, nenhuma faltará” (Is 40:25-26). E em Romanos, temos a base eterna da responsabilidade do homem para reconhecer e reverenciar o Deus eterno: “Porquanto o que de Deus se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou, porque as Suas coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o Seu eterno poder, como a Sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão criadas, para que eles fiquem inescusáveis” (Rm 1:19-20).

É um testemunho permanente, o primeiro que foi dado ao homem; e o último para o qual chama a sua atenção. Será dado no fim, frente ao ateísmo dominante nos dias da besta e do anticristo e dos seus numerosíssimos seguidores sem arrependimento.

J. H. Smith

E agora ainda mais um pensamento acerca da expressão, “o reino dos céus”.

O Deus de Israel, que introduziu o Seu povo na terra prometida, fez isso na Sua qualidade de “Senhor de toda a Terra” (Js 3:13). Nos tempos antigos do reino de Israel está escrito o seguinte: “Salomão se assentou no trono do Senhor” (1 Cr 29:23). O reino pertencia ao Senhor. Mas quando Judá pecou, séculos depois, o Senhor entregou o Seu povo nas mãos de Nabucodonosor, da Babilônia, e já não tomou o título de “Senhor de toda a Terra” (ainda que o fosse e há de ser sempre) mas antes de “O Senhor Deus dos céus” (Ed 1:2; Ne 1:5), o “Deus do céu” e o “Rei do céu” (Dn 2:44; 4:37). E desde o tempo do regresso dos cativos a Jerusalém até ao dia de hoje, nunca mais tiveram um rei próprio por terem recusado o seu Messias, quando este veio para eles.

Assim, no evangelho de Mateus, que é dispensacional na sua ordem e trata de Cristo principalmente como Messias apresentado a Israel, encontramos (com poucas exceções) a expressão “o reino dos céus”. Por que? Porque o rei está nos céus e governa a Terra pela Sua providência sem ter nela um trono visível.

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